por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

De ladeira abaixo



Rezam os anais da nossa cidade que o primeiro automóvel chegou em Crato, em 1919, por iniciativa do comerciante Manuel Siqueira Campos que terminou imortalizado,  nomeando uma das mais importantes praças de Crato. Nas décadas que se seguiram , com a pujança do nosso setor mercantil, o carro foi se tornando uma presença cada vez mais constante nas nossas ruas. Os antigos Fords Bigodes foram sendo substituídos , pouco a pouco, por modelos mais modernos : Buicks, Cadillacs, Mercedes, Mercurys, Simcas.  Após a II Grande Guerra,  começaram a chegar os caminhões que transportavam cargas , mas, também, travestiam-se de transporte coletivo interurbano. Vezes feitos pau-de-araras , tantas outras transformados em Mistos, levavam passageiros ,mundo a fora, por estradas terríveis e quase intransitáveis, num incômodo inimaginável nos dias de hoje.  Comparadas, no entanto, com as viagens longas, em lombo de animais, os caminhões traziam consigo o cheiro inevitável do novo :  maiores velocidade e conforto.
                        A tecnologia ainda primária dos primeiros veículos pesados, somada à tortuosidade natural de algumas estradas , como as que beiram a nossa Chapada do Araripe, elevavam, consideravelmente, o risco de acidentes. Ficaram famosas, na nossa região , a Ladeira das Guaribas aqui em Crato e a do Quincuncá em Farias Brito. Rodagens íngremes e extensas se associavam a fitas de freios aquecidas e terminavam desembestando caminhões, ladeira abaixo, com incontáveis vítimas. Até uns poucos anos atrás, a nossa Batateira via-se , diariamente, aterrorizada, temendo a chegada descontrolada de caminhões sem freio invadindo suas ruas e casas.
                        Pois o que vou contar vem desta época de heróicos desbravadores. Contava-se por aqui, com o exagero natural dos descendentes da Vila de Frei Carlos, esta historinha que buscava exemplificar o risco que era descer de caminhão a Ladeira das Guaribas.
                        Chagas vinha ,do Pernambuco, com um caminhão carregado de romeiros . Iam tomar a bênção ao  padrinho, pagar promessas e alimentar a indústria azeitada dos santeiros e fabricantes de rosários. Na famosa descida da serra, na altura da Barraca Verifique, o freio quebrou. O veículo começou a embalar, ladeira abaixo ,e o destino era mais que previsível: ou caía no abismo à direita ou, na melhor da hipóteses, desceria todo o percurso, equilibrado na munheca atilada do chofer e , ganhando velocidade e mais velocidade , terminaria por esborrachar-se nas casas da Batateira.  Os passageiros perceberam rápido o perigo e sojigados  entre ficar o serem comidos pelo bicho ou correr e ser pego por ele, arriscaram na segunda possibilidade. Começaram a saltar do caminhão em disparada: o desmantelo estava feito. Pernas quebradas, pescoços torcidos, pé-de-ouvidos ralados. Em pouco, tinham já pulado todos os romeiros da carroceria e da boléia. Chagas, por incrível que possa parecer, manteve-se firme na direção, aprumando ladeira abaixo. Para sua felicidade, já na proximidade das Guaribas, as rodas caíram na valeta à esquerda junto às  escarpas do Araripe. Adiante , perdendo carreira, as rodas travaram num grotão e o carro, por incrível que pareça, parou, ao arrastar o diferencial  pelo chão.
                                   Atrás , tinha restado um rastro de destruição. Romeiros feridos, ex-votos espalhados, alguns corpos sem vida. Aos poucos, os acidentados foram levados ao hospital, por carros que iam passando. Chagas permaneceu, ainda, por muito tempo, na boléia, sem entender o que tinha acontecido e deixado de acontecer. Uma viagem tão tranqüila! Como, de repente, se estabelece tamanho caos ?
                                   Uma hora depois chegou ao local um radialista. Resolvera entrevistar o  chofer, quando soube  da tragédia, através das vítimas que atulhavam a emergência do hospital. Aproximou-se o repórter do motorista e interrogou-o sobre o inusitado da cena:
                                   --- Amigo ! Parabéns, quanta perícia ! Você é um herói, meu chapa !Mas me diga uma coisa, por que você não fez como os passageiros e pulou do carro ?
                                   Chagas, ainda capiongo e confuso, explicou:
                                   --- É que eu carrego pregada aqui no tabeliê do carro, próximo ao volante, uma imagem do meu santo de devoção : São Cristovão ! Com ele, meu amigo, pra mim não tem tempo ruim !
                                   O radialista subiu na boléia , curioso em conhecer o santo milagreiro:
                                   --- Cadê o santo ? Me mostre !
                                   Chagas  escascaviou todo o quadro do caminhão e não encontrou o santo. Procurou embaixo --- poderia ter caído nos solavancos--- e nada ! Olhou, então, convicto  para o repórter e concluiu:
                                   --- O negócio foi mais feio que briga de foice no escuro. Pois na hora do pega-pra-capar, meu senhor, não é que até São Cristovão pinotou fora também,  pra num ver o destroço !



J. Flávio Vieira



A Ilusão da Vida Vulgar.


René Guénon 
Cap XV de "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos"
Ed. Irget, S. Paulo, 2009
A atitude materialista, quer se trate de materialismo explícito e formal, quer de simples materialismo «prático», traz necessariamente, em toda a constituição «psico-fisiológica» do ser humano, uma modificação  real e bastante importante; isto é fácil de compreender, e, de facto, basta olhar à nossa volta para constatar que o homem moderno se tornou verdadeiramente impermeável à qualquer influência que não seja a que está ao alcance dos seus sentidos; não só as suas faculdades de compreensão se tomaram mais limitadas, mas o próprio campo da sua percepção, da mesma forma, se restringiu. 

                      Resulta deste fato uma espécie de reforço do ponto de vista profano, já que, se este ponto de vista nasceu inicialmente de um defeito de compreensão, logo, de uma limitação das faculdades humanas, esta mesma limitação, ao acentuar-se e ao estender-se a todos os domínios, parece logo em seguida justificá-la, pelo menos aos olhos daqueles que são afectados por ela; - que razão poderiam eles ter ainda, com efeito, em admitir a existência do que não podem realmente conceber nem perceber, isto é, de tudo o que lhes poderia mostrar a insuficiência e a falsidade do ponto de vista profano em si ?

                      Daí provem a idéia daquilo que se designa comummente como a “vida vulgar”, ou a «vida corrente»; o que se entende por esta expressão, com efeito, é bem, e antes de mais, alguma coisa onde, por exclusão do carácter sagrado, ritual ou simbólico (quer se tome no sentido especialmente religioso ou segundo qualquer outra modalidade tradicional, pouco importa, já que se trata igualmente de uma acção efectiva das «influências espirituais» em todos os casos), nada que não seja puramente humano intervêm nela de qualquer modo; e mesmo estas designações implicam, além disso, que tudo o que ultrapassa uma tal concepção, mesmo quando não é expressamente negado, está pelo menos relegado a um domínio do «extraordinário», considerado como excepcional e inabitual; há, pois, propriamente falando, uma inversão da ordem normal, tal como é representada pelas civilizações integralmente tradicionais, em que o ponto de vista profano não existe de modo nenhum, e esta inversão só pode conduzir logicamente à ignorância ou à negação completa do «supra-humano». 

                    Fora isso, alguns chegam mesmo a utilizar, com o mesmo sentido, a expressão «vida real», o que, no fundo, é uma singular ironia, porque a verdade é que aquilo que eles chamam desse modo é, pelo contrario, a pior das ilusões; não queremos dizer com isto que o que se inclui nessa expressão seja, em si mesmo, desprovido de qualquer realidade, mesmo que essa realidade, que é afinal a da ordem sensível, esteja no grau mais baixo de todos, e que acima dela não haja mais do que aquilo que está propriamente abaixo de toda a existência manifestada; mas é a maneira como todas as coisas são encaradas que é inteiramente falsa, e que, separando-as de qualquer princípio superior, lhes nega precisamente aquilo que faz toda a sua realidade; é por isso que não existe efectivamente um domínio profano, mas tão somente um ponto de vista profano, que se faz cada vez mais invasor, até englobar finalmente toda a existência humana.

                      Vê-se assim facilmente nesta concepção da «vida vulgar», como se passa quase insensivelmente de um estágio a outro, e como a degenerescência se vai acentuando progressivamente: começa-se por admitir que certas coisas sejam subtraídas a qualquer influência tradicional, depois estas mesmas coisas são consideradas como normais; daqui facilmente se chega a considerá-las como as únicas «reais», o que acaba por afastar como «irreal» todo o «supra-humano», e, como o domínio do humano vai sendo concebido de forma cada vez mais limitada, vai-se reduzindo-o a uma única modalidade corporal, e afastando tudo aquilo que é simplesmente de ordem supra-sensível; basta reparar como os nossos contemporâneos empregam constantemente, e mesmo sem pensar, a palavra «real» como sinônimo de «sensível», para nos darmos conta que é neste último ponto que eles se encontram efectivamente, e que esta maneira de ver se incorporou de tal modo na sua própria natureza que se 
tornou para eles quase instintiva. 

                   A filosofia moderna, que afinal não é, em princípio, mais do que uma expressão «sistematizada» da mentalidade geral, antes de reagir por seu lado numa certa medida, seguiu uma marcha paralela a esta: começou com o elogio cartesiano do «bom senso», de que já falamos atrás, e que é bem característico a este propósito, porque a "vida vulgar» é seguramente, por excelência, o domínio deste «bom senso», também conhecido por «senso comum», tão limitado como ela e feito do mesmo modo. A seguir do «racionalismo», que, no fundo, não é mais do que um aspecto especificamente filosófico do «humanismo», isto é, da redução de todas as coisas a um ponto de vista exclusivamente humano, chega-se pouco a pouco ao materialismo ou ao positivismo: quer negue expressamente, como faz o primeiro, tudo o que está para além do mundo sensível, quer se contente, como o segundo (que por isso mesmo gosta de se chamar «agnosticismo», gritando um título de glória que não é mais do que a confissão de uma incurável ignorância, em recusar ocupar-se dele declarando-o «inacessível» ou «inconhecível», o resultado é, de facto, exactamente o mesmo nos dois casos, e é bem aquele que acabamos de descrever.

                      Voltaremos a dizer que, para a maior parte das pessoas, se trata naturalmente daquilo a que podemos chamar um materialismo ou um positivismo «prático» independente de qualquer teoria filosófica, que é e será sempre coisa bastante estranha para a maioria; mas isso é mais grave ainda, não só porque um tal estado de espírito adquire por isso mesmo uma difusão incomparavelmente maior, mas também porque é tanto mais irremediável, quanto mais irreflectido e menos claramente consciente, porque isso prova que penetrou verdadeiramente e impregnou toda a natureza do indivíduo. 

                     O que já dissemos do materialismo de facto e da maneira como se acomodam a ele as pessoas que se crêem «religiosas» mostra-o bem; e, ao mesmo tempo, vê-se por este exemplo que, no fundo, a filosofia propriamente dita não tem toda a importância que alguns lhe querem atribuir, ou que, pelo menos, só tem enquanto pode ser considerada como «representativa» de uma certa mentalidade, mais do que agindo efectiva e directamente sobre esta; de resto, poderia uma concepção filosófica qualquer ter o mais pequeno sucesso se não respondesse a algumas das tendências predominantes da época em que é formulada? Não queremos dizer com isto que os filósofos não têm, tal como os outros, o seu papel no desvio moderno, o que seria exagerado, só que esse papel é mais restrito do que se poderia supor à primeira vista, e bastante diferente do que pode parecer exteriormente; aliás, de um modo muito geral, o que é aparente é sempre, segundo as próprias leis que regem a manifestação, mais uma conseqüência do que uma causa, um ponto de chegada mais do que um ponto de partida (1) , e em todo o caso, não é nunca aí que é preciso ir buscar aquilo que age de maneira verdadeiramente eficaz numa ordem mais profunda, quer se trate nela de uma acção que se exerce num sentido normal e legítimo, quer o contrário, como no caso que referimos presentemente.

                   O próprio mecanicismo e o materialismo só puderam adquirir uma influência generalizada ao passar do domínio filosófico ao científico; o que diz respeito a este último, ou aquilo que se apresenta com ou sem razão como revestido deste carácter «científico», tem seguramente, por razões diversas, muito mais acção do que as teorias filosóficas sobre a mentalidade vulgar, na qual há sempre uma crença pelo menos implícita na verdade de uma «ciência», cujo carácter hipotético lhe escapa inevitavelmente, enquanto que tudo o que se qualifica de «filosofia» deixa essa mentalidade vulgar mais ou menos indiferente; a existência de aplicações práticas e utilitárias num caso, e a sua ausência, no outro, não é totalmente alheia a isso. Este facto leva-nos mais uma vez à idéia da «vida vulgar», na qual entra efectivamente uma boa dose de «pragmatismo»; e o que dizemos é ainda, claro, totalmente independente do facto de alguns dos nossos contemporâneos quererem erigir o «pragmatismo» a sistema filosófico, o que só foi possível devido exactamente ao cariz utilitário que é inerente à mentalidade moderna e profana em geral, e também porque, no estado actual de decadência intelectual, se chegou a perder completamente de vista a própria noção de verdade, de tal modo que a de utilidade ou de comodidade acabou por substitui-la totalmente. 

                   Seja como for, logo que se convencionou que a «realidade» consiste exclusivamente naquilo que cai no domínio dos sentidos, é natural que o valor que se atribua a uma coisa qualquer tenha, como medida, de certo modo, a sua capacidade de produzir efeitos de ordem sensível; ora, é evidente que a «ciência» considerada à maneira moderna, como essencialmente solidária da indústria, se não mesmo confundida mais ou menos completamente com esta, deve ocupar o primeiro lugar, e por isso mesmo encontra-se o mais possível misturada a essa «vida vulgar», da qual se torna mesmo um dos principais factores; em contrapartida, as hipóteses sobre as quais ela pretende fundar-se, por mais gratuitas e mais injustificadas que possam ser, beneficiarão também dessa situação privilegiada aos olhos do vulgo.

                    É claro que, na realidade, as aplicações práticas não dependem em nada da verdade destas hipóteses, e podemos, aliás, perguntar-nos o que seria uma tal ciência, tão nula enquanto conhecimento propriamente dito, separada das aplicações a que dá lugar; mas, tal como está, é um facto que esta ciência tem «sucesso» e, para o espírito instintivamente utilitário do «público» moderno, esse «sucesso» torna-se uma espécie de «critério de verdade», se é que se pode falar aqui de verdade seja em que aspecto for.

                    Quer se trate de qualquer ponto de vista, filosófico, científico, ou simplesmente «prático», é evidente que tudo isto, no fundo, representa outros tantos aspectos diversos de uma só e mesma tendência, e também que essa tendência, como todas as que igualmente são constitutivas do espírito moderno, não pode certamente desenvolver-se espontaneamente; já tivemos bastantes vezes oportunidade de nos explicar sobre este último ponto, mas isto são coisas sobre as quais não é demais insistir; e teremos ainda que voltar a este assunto, quando falarmos do lugar que ocupa o materialismo no conjunto do «plano» segundo o qual se efectua o desvio  moderno. 

                   Claro que os próprios materialistas são, mais do que ninguém, incapazes de se darem conta destas coisas e até de conceberem a possibilidade da sua existência, de tal modo estão cegos pelas suas idéias pré-concebidas, que lhes fecham todas as saídas fora do domínio estreito em que estão habituados a mover-se; e sem dúvida que ficariam espantados se soubessem que existiram e que existem homens para quem aquilo que eles chamam «vida vulgar» é a coisa mais extraordinária que se possa imaginar, já que ela não corresponde a nada daquilo que se produz realmente na sua existência.  
   
                    É, no entanto, assim, e o que é mais, são estes homens que devem ser olhados como verdadeiramente «normais», enquanto que os materialistas com todo o seu «bom senso» tão gabado e todo o «progresso» do qual se consideram orgulhosamente os produtos mais acabados e os representantes mais «avançados», não são, no fundo, mais do que seres nos quais certas faculdades estão atrofiadas, ao ponto de terem sido completamente abolidas. 

                  É, aliás, só sob esta condição que o mundo sensível pode aparecer-lhes como um sistema «fechado», no interior do qual se sentem em perfeita segurança; resta-nos ver como esta ilusão pode, em certo sentido e em certa medida, ser «realizada», pelo próprio materialismo; mas veremos também mais adiante, como, apesar disso, não representa mais do que um estado de equilíbrio eminentemente instável, e, de que maneira, no ponto em que as coisas estão actualmente, esta segurança da "vida vulgar», na qual se baseou até agora toda a organização exterior do mundo moderno, se arrisca fortemente a ser perturbada por «interferências» inesperadas.


                                                                                             * * * * *

Nota :

(1) Poder-se-ia dizer ainda que é mais um «fruto» do que um «germe»; o facto de o fruto conter em si novos germes indica que a conseqüência pode, por sua vez, ter o papel de causa a outro nível, conforme o carácter cíclico da manifestação; mas para isso ainda é preciso que ela passe, de certo modo, do «aparente» ao «escondido».

Por Romar Rudolfo Beling - romarbeling@yahoo.com.br


Do Crato para o mundo

M
A vida e seus enredos, mágicos enredos. A vida: a surpresa, a alegria e a riqueza de cada novo instante. Por isso cumpre viver. Dia desses, aí no passado do blog, postei um poema do livro A rua do padre inglês, do poeta cearense Everardo Norões, radicado há muitos anos no Recife. A forma como cheguei a esse autor e a esse exemplar se mistura nas brumas de algum acaso: lembro de ter lido uma resenha desse volume em alguma das revistas culturais de banca (e por isso mais ainda prezo e reforço a importância de se frequentar e folhear revistas culturais). Foi na Iluminura, disso lembro. Imediatamente providenciei a encomenda de um exemplar com a equipe da livraria.

Até havia esquecido, na rotina das semanas seguintes, que havia solicitado esse livro. Mas o pessoal da Iluminura agiu a caráter e numa das minhas passagens por lá a Isabel me informou: chegou um dos livros que tu tinhas encomendado. Justamente o A rua do padre inglês, do Everardo Norões, pela 7Letras, autor do qual até então não tinha muitas informações biográficas. Bem, o fato é que abrir o simpático exemplar, num formato situado entre o pocket e o convencional 14x21; ler os primeiros versos e simpatizar instantaneamente com essa poesia foi inevitável.

Assim postei um dos textos aqui no Leituras de Mundo. Qual não foi minha surpresa que dias mais tarde o meu e-mail acusou a chegada de um contato do autor, que constatara ter sido mencionado no blog. Mais do que isso, ali pude saber que Norões estava com viagem programada para breve ao Rio Grande do Sul, a passeio.

Salto temporal. Pois ontem, quinta-feira, pude assim, por conta dessa manifestação de agrado e de empatia pela qualidade de sua poesia, conhecer pessoalmente o Everardo (da foto abaixo), acompanhado da esposa Sonia, em Porto Alegre. Ambos me concederam algumas das horas mais agradáveis de conversa de toda a minha vida. Pessoas vividas e com uma rara formação artística, humana e cultural, são dessas companhias que não nos propiciam, em um diálogo, saltar aenas alguns degraus em nossa caminhada de amadurecimento e de ampliação de nossa capacidade de ver o mundo com mais humanidade. Junto deles, em poucas horas de conversa e de troca cultural, acaba-se parando alguns andares acima nesse prédio do saber, tamanho é o fascínio que exercem.


Bendita a hora em que uma revista, de cujo nome sequer lembro, me mencionou o nome de Everardo. No caminho para encontrar-se com ambos, conforme previamente combinado, folheava ao acaso o exemplar da já indispensável antologia Poetas da América de canto castelhano, organizada e traduzida, reunindo um timaço de 120 poetas, pelo querido poeta amazonense Thiago de Mello para a editora Global. Qual não é o meu pasmo quando, na relação dos agradecimentos feitos por Thiago a colaboradores dessa sua empreitada, lá estava mencionado Everardo, pontualmente reconhecido pelo colega amazonense como um grande expoente da poesia brasileira. Eu já não precisava acrescentar mais nada para saber que estava diante de um raro homem de letras.

Nascido no Crato, bem no sul do Ceará, exatamente na divisa com Pernambuco, ainda jovem Everardo transferiu-se para Recife, onde encaminhou seus estudos e cumpriu a sua vida profissional, como economista, poeta, tradutor e crítico literário. Ali, como fiquei sabendo, conversa regularmente com outros nomes referenciais das artes e da literatura do Nordeste, dentre eles dois autores que, sem que os conheça igualmente, têm a minha predileção de leitor: o também poeta cearense Magela Collares, conterrâneo de Estado de Everardo e conterrâneo de cidade do Luciano Maia, ambos nascidos que são em Limoeiro do Norte; e o romancista cearense (este da já famosa Saboeiro) Ronaldo Correia de Brito, autor de Galileia, pelo qual ganhou o polpudo Prêmio São Paulo de Literatura de autor consolidado no mesmo ano em que o gaúcho Altair Martins, por seu A parede no escuro, mereceu o prêmio de autor estreante.

Em relação a Everardo, durante a ditadura ele acabou seguindo para o exílio, quando então viveu na França, na Argélia e em Moçambique. Poeta e tradutor, dedica-se a versar ao português autores latinoamericanos, caso da antologia El rio hablador/O rio que fala: antologia da poesia peruana, disponível pela 7Letras, em parceria com Pedro Americo de Farias. Na reta final de 2011 acabou de ser anunciado como vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus, pelo livro O fabricante de histórias. Em 2010, lançara o volume Poeiras na réstia, e sua bibliografia compreende ainda, dentre outros, Retábulo de Jerônimo Bosch (2008), Nas entrelinhas do mundo (2002), com artigos, em parceria com Abelardo Baltar; e Poemas (1999). É, ainda, e cumpre mencionar com admiração, organizador da edição de Poesia completa e prosa de Joaquim Cardozo, pela Nova Aguilar (em coedição com a Massangana/Fundaj), poeta que, ao lado de João Cabral de Melo Neto, é, na apreciação de Everardo, um dos maiores da poesia nacional.

Eis, assim, mais uma dessas gratas dádivas da melhor literatura do Nordeste ao conjunto da literatura brasileira. É por nomes da grandeza de arte e cultura de Everardo Norões que o Brasil deve se dizer a cada dia mais rico.

   Romar Rudolfo Beling - romarbeling@yahoo.com.br



* "Você já escutou Agustin Lara?"


Já leu Everardo Norões?

O Fabricante de Histórias, entre outros do autor, é fascinante!

Jornal do Commercio - PE

Escrita

Necessidade de escutar

Da Redação

"Você já escutou Agustín Lara?". A pergunta, ainda que só feita no último textos do livro de contos O fabricante de histórias, de Everardo Norões (Edições Muiraquitã), parece latejar na mente do leitor desde a primeira linha da obra. Não só porque parece marcar a urgência de se ouvir o compositor mexicano ou mesmo a necessidade de ao menos escutar alguma coisa, mas sim porque parece grifar o fato de que nunca nos colocarmos a ouvir direito, propriamente. "Deus seria surdo?", provoca o texto.

O fabricante de histórias, vencedor do Prêmio Arthur Engrácio, de Manaus, tem momentos potentes como esse. O trato referencial - nem sempre fácil - é uma chave fundamental dessas narrativas de Everardo, sempre incutidas de citações a outros escritores, pensamentos estéticos e artistas. É como se na própria escolha por trazer a literatura para o protagonismo das histórias (e da vida) houvesse uma escolha intimamente política, uma vontade de mostrar a leitura (de certos autores, claro) como uma prática que tem consequência na vivência social. "Sabe que cada palavra habita um ser. E cada nome é prognóstico de um fado", diz um dos contos, como que propondo uma ética da linguagem.

Contos sem pressa

Depois de um 2012 marcado pelo lançamento de Estive lá fora, sua experiência mais rápida de escrita ("Não creio que exista um tempo definido para se escrever um bom livro", afirma), Ronaldo Correia de Brito começa a preparar, sem pressa, um livro de contos. "Preciso de silêncio, de ler e pensar muito", revela o autor.

Ronaldo em turnê

Em março, o escritor passa por quatro cidades alemãs (Berlim, Leipzig, Frankfurt, Munique), em uma prévia para a Feira de Frankfurt de 2013, com homenagem ao Brasil.

Traduções

Na Alemanha, sairão traduções de seus contos em coletâneas durante o ano. Ronaldo ainda escreveu uma narrativa especialmente para uma antologia.

Na França

Em maio, Ronaldo ainda participa do Festival em Deauville, quando lança a tradução francesa de Faca. A versão musicada do livro, feita por Márcio Meireles, também será apresentada.

Retratos femininos

Saiu pela Carpem Diem Mulheres encantadas, do artista Luiz Jasmin. No livro, ele fala de sua relação com figuras como Maria Bethânia, Nélida Piñon, Maysa, Barbara Heliodora e Clara Nunes.

O centenário

do mestre

das crônicas

Rubem Braga é tema da mesa Assim canta o sabiá no Instituto Moreira Salles, no Rio, esta sexta, com Ana Maria Machado.

Record terá

novas obras de

Rubem Braga

Saem em 2013 Retratos parisienses e o infantil O menino e o Tuim, além da reedição de Na cobertura de Rubem Braga, de José Castello.

Mamulengo

A atriz, bonequeira e dramaturga Carla Denise lança no Janeiro de Grandes Espetáculos o livro Babau. O evento acontece no dia 27, às 17h30, no Teatro Hermilo.

Mamulengo 2

Carla é integrante do grupo Mão Molenga Teatro de Bonecos, grupo com 27 anos de trajetória. O prefácio do livro é assinado por Ronaldo Correia de Brito.

Lançamento no JGE

Livro aborda a antropologia teatral

Apontado como um clássico da teoria teatral internacional, o livro A arte secreta do ator: Um dicionário de antropologia teatral, escrito por Eugenio Barba e Nicola Savarese, vai ganhar lançamento dentro da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos. No dia 15, Patricia Furtado de Mendonça, tradutora dos textos, faz uma palestra sobre a obra.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Hoje, dia 21, o Conselho Municipal de Cultura fará o lançamento dos prêmios literários em cerimônia que acontecerá no Les Artistes Café-Teatro, a partir das 19hs. Na ocasião todos os vencedores receberão uma cota com 100 livros, o que corresponde a 10% do total de impressos. Os demais serão distribuídos nas bibliotecas municipais  e instituições dos segmentos cultural e educacional. Os vencedores nas 14 categorias são escritores de todo o Brasil e da região Norte, alguns deles revelados neste prêmio. O destaque vai para as seis categorias regionais.

Na cerimônia de entrega dos livros dos Prêmios Literários Cidade de Manaus, também será lançado o livro “A Catedral Metropolitana de Manaus”, de Mário Ypiranga Monteiro. Esta 2ª edição vem revisada e aumentada pelo autor ainda em vida, mas com publicação articulada por sua filha Marita Monteiro, com o apoio da ManausCult.

O livro fala da Catedral de Manaus, desde sua inauguração oficial em 1878. Este importante ícone da cultura religiosa de nossa cidade é contado por Mário Ypiranga Monteiro com riqueza de detalhes.

O evento contará também com a presença do Arcebispo de Manaus Dom Luiz Soares Vieira, que assina o comentário da orelha do livro.



Abaixo, lista completa dos escritores premiados:



I – Prêmio Álvaro Maia, destinado ao melhor Romance ou Novela



José Humberto da Silva Henriques: A TRAVESSIA DAS ARARAS AZUIS



Categoria Regional



Edilson Ferreira de Souza: O VATICÍNIO – PROMESSA DE AMOR E TRAGÉDIA



II – Prêmio Arthur Engrácio, destinado ao melhor livro de Contos



José Everardo Arraes de Alencar Norões: O FABRICANTE DE HISTÓRIAS

(...)

Everardo Norões!


Edição de - Literatura
O economista das letras
Fonte: Divulgação Clique para Ampliar
A literatura proporciona oxigênio valioso para a vida, assegurando fôlego extra na quase inapreensível aventura do existir. Como tal, nessa imensa floresta de livros e de autores pela qual podemos transitar a fim de respirar com mais ânimo, alguns integram bosques (estabilizados ou em formação); outros, os incomuns, configuram maciços impressionantes, despontando no horizonte cultural como araucárias, plátanos, sumaumeiras, sequoias, inspirados e inspiradores. Sua condição, é de crer, decorre de sabedoria, persistência, virtuosismo e maturidade. Afinal, uma árvore sólida, de raízes firmes, imponente, jamais se formaria em alguns poucos anos, ou com poucas leituras e parcas aprendizagens.
Na poesia, espécime dessa estirpe é o poeta cearense Everardo Norões, nascido em 1944, no Crato, sul do seu Estado, na divisa com o extremo Oeste de Pernambuco. Por conta dessas origens, para continuar os estudos Everardo radicou-se no Recife, onde, por sinal, segue residindo na atualidade, ao lado da esposa, a artista plástica Sônia. Na capital pernambucana, graduou-se em Economia. Em paralelo a essa atividade profissional, porém, nunca abdicou da percepção mais ampla da existência, através do apreço pela leitura e pelas artes.
A exemplo do que ocorreu com muitos intelectuais de sua geração, o recrudescimento da ditadura militar, nos anos 60, motivou a ida de Everardo e de Sônia para o exterior. No exílio, o poeta viveu na França, na Argélia e em Moçambique. A distância em relação às origens acentuou a análise crítica do ambiente político e social. Iluminou, igualmente, em seus escritos, o caráter de protesto diante do cerceamento à liberdade, das desigualdades, da violência.
Com privilegiada intuição estética, sua poesia, límpida e nobre, fala a um só tempo ao coração e ao intelecto. Os versos de Everardo requerem um leitor especialmente atento, determinado a apreender conteúdos e imagens embalados em fértil camada de referenciais. Exsuda, de sua obra, uma espécie de pátina suave, nostálgica, a cobrir tempos e espaços, que aquece a alma e nutre o devir. Fazendo jus a sua área de formação, Everardo é econômico, sóbrio, hábil nas metáforas e no manuseio dos infinitos recursos da linguagem poética.

INTERAÇÃO – A estreia de Everardo Norões ocorreu com Poemas argelinos, em 1981. Seguiram-se os volumes Poemas, em 2000; e Nas entrelinhas do mundo, em parceria com Abelardo Baltar, em 2002. A rua do padre inglês, de 2006, firmou sua chegada à carioca 7 Letras, com carinhosa e inspirada apresentação de Marco Lucchesi.
Seu impulso expressivo reapareceu, universal, em Retábulo de Jerônimo Bosch, de 2008, e em Poeiras na réstia, de 2010, ambos pela 7 Letras. Em paralelo, Everardo exercitou a crítica literária, com resenhas e ensaios de invejável mergulho intelectual, alguns dos quais compartilha em seu blog, www.retabulodejeronimobosch.blogspot.com. Nesse ambiente, empenha-se em divulgar a obra de seus pares, especialmente os do grupo do Recife ou do Nordeste, aproximando-os de outras regiões.
O fabricante de emoções
Everardo Norões dialoga de forma privilegiada com seus conterrâneos cearenses, entre eles o poeta Majela Colares e o romancista Ronaldo Correia de Brito, igualmente radicados no Recife. Com este último, assina em coautoria as peças Auto das portas do céu e Nascimento da bandeira.
Há que se mencionar ainda o Everardo tradutor, que contribuiu para a efetivação da antologia poética do mexicano Carlos Pellicer, lançada pela Ensol, em versão realizada ao lado de um time formado, entre outros, por Ivo Barroso e Thiago de Mello (Thiago, aliás, refere efusivamente Everardo em sua antologia Poetas da América de canto castelhado, lançada em 2011 pela Global).
Em favor da integração literária latinoamericana, ao lado de Diego Raphael, Norões concretizou a antologia El río hablador/O rio que fala (Ensol/7 Letras), com a tradução de poesia peruana da segunda metade do século XX. Em outra frente, revela conhecimento da literatura francesa, a exemplo de sua dissertação de mestrado em Letras, sobre a obra de Jean-Claude Pinson, apresentada à UFPE em 2009.
Em um gênero no qual ainda é menos conhecido, o dos contos, aparece em grande estilo, tendo sido anunciado vencedor, recentemente, do Prêmio Literário Cidade de Manaus, com o volume O fabricante de histórias, a ser lançado brevemente. E na próxima semana, por sinal, começa a ser distribuída a sua mais recente incursão pela poesia, o livro W.B. ou os dez caminhos da cruz.
Em toda essa fértil produção, com simpatia, simplicidade, engajamento e amizade, Everardo firma sua condição de autor diferenciado na literatura brasileira. Sereno e atencioso, paira muito acima da média na floresta das letras, como leitura inspiradora, que oxigena mentes e corações.
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Hora Final - Léon Denis

“Quantas existências, quantos corpos, quantos séculos, quantos serviços, quantos triunfos, quantas mortes necessitamos ainda?” André Luiz




Que se passa no momento da morte e como se desprende o Espírito da sua prisão material? Que impressões ou sensações o esperam nessa ocasião temerosa? É isso o que interessa a todos conhecer, porque todos cumprem essa jornada. A vida foge-nos a todo instante: nenhum de nós escapará à morte.
As sensações que precedem e se seguem à morte são infinitamente variadas e dependentes, sobretudo do caráter, dos méritos, da elevação moral do Espírito que abandona a Terra. A separação é quase sempre lenta e o desprendimento da alma opera-se gradualmente. Começa, algumas vezes, muito tempo antes da morte e só se completa quando ficam rotos os últimos laços fluídicos que unem o perispírito ao corpo. A impressão sentida pela alma revela-se penosa e prolongada quando esses laços são mais fortes e numerosos. Causa permanente da sensação e da vida, a alma experimenta todas as comoções, todos os despedaçamentos do corpo material.
Dolorosa, cheia de angústias para uns, a morte não é, para outros, senão um sono agradável seguido de um despertar silencioso. O desprendimento é fácil para aquele que previamente se desligou das coisas deste mundo, para aquele que aspira aos bens espirituais e que cumpriu os seus deveres. Há, ao contrário, luta, agonia prolongada no Espírito preso à Terra, que só conheceu os gozos materiais e deixou de preparar-se para essa viagem.
Entretanto, em todos os casos, a separação da alma e do corpo é seguida de um tempo de perturbação, fugidio para o Espírito justo e bom, que desde cedo despertou ante todos os esplendores da vida celeste; muito longo, a ponto de abranger anos inteiros, para as almas culpadas, impregnadas de fluidos grosseiros. Grande número destas últimas crê permanecer na vida corpórea, muito tempo mesmo depois da morte. Para estas, o perispírito é um segundo corpo carnal, submetido aos mesmos hábitos e, algumas vezes, às mesmas sensações físicas como durante a vida terrena.
Outros Espíritos de ordem inferior se acham mergulhados em uma noite profunda, em um completo insulamento no seio das trevas. Sobre eles pesa a incerteza, o terror. Os criminosos são atormentados pela visão terrível e incessante das suas vítimas.
A hora da separação é cruel para o Espírito que só acredita no nada. Agarra-se como desesperado a esta vida que lhe foge; no supremo momento insinua-se-lhe a dúvida; vê um mundo temível abrir-se para abismá-lo e quer, então, retardar a queda. Daí, uma luta terrível entre a matéria, que se esvai, e a alma, que teima em reter o corpo miserável. Algumas vezes, ela fica presa até à decomposição completa, sentindo mesmo, segundo a expressão de um Espírito, “os vermes lhe corroerem as carnes”.
Pacífica, resignada, alegre mesmo, é a morte do justo, a partida da alma que, tendo muito lutado e sofrido, deixa a Terra confiante no futuro. Para esta, a morte é a libertação, o fim das provas. Os laços enfraquecidos que a ligam à matéria destacam-se docemente; sua perturbação não passa de leve entorpecimento, algo semelhante ao sono.
Deixando sua residência corpórea, o Espírito, purificado pela dor e pelo sofrimento, vê sua existência passada recuar, afastar-se pouco a pouco com seus amargores e ilusões; depois, dissipar-se como as brumas que a aurora encontra estendidas sobre o solo e que a claridade do dia faz desaparecer. O Espírito acha-se, então, como que suspenso entre duas sensações: a das coisas materiais que se apagam e a da vida nova que se lhe desenha à frente. Entrevê essa vida como através de um véu, cheia de encanto misterioso, temida e desejada ao mesmo tempo. Após, expande-se a luz, não mais a luz solar que nos é conhecida, porém uma luz espiritual, radiante, por toda parte disseminada. Pouco a pouco o inunda, penetra-o, e, com ela, um tanto de vigor, de remoçamento e de serenidade. O Espírito mergulha nesse banho reparador. Aí se despoja de suas incertezas e de seus temores. Depois, seu olhar destaca-se da Terra, dos seres lacrimosos que cercam seu leito mortuário, e dirige-se para as alturas. Divisa os céus imensos e outros seres amados, amigos de outrora, mais jovens, mais vivos, mais belos que vêm recebê-lo, guiá-lo no seio dos espaços. Com eles caminha e sobe às regiões etéreas que seu grau de depuração permite atingir. Cessa, então, sua perturbação, despertam faculdades novas, começa o seu destino feliz.
A entrada em uma vida nova traz impressões tão variadas quanto o permite a posição moral dos Espíritos. Aqueles – e o número é grande – cujas existências se desenrolam indecisas, sem faltas graves nem méritos assinalados, acham-se, a princípio, mergulhados em um estado de torpor, em um acabrunhamento profundo; depois, um choque vem sacudir-lhes o ser. O Espírito sai, lentamente, de seu invólucro: como uma espada da bainha; recobra a liberdade, porém, hesitante, tímido, não se atreve a utilizá-la ainda, ficando cerceado pelo temor e pelo hábito aos laços em que viveu. Continua a sofrer e a chorar com os entes que o estimaram em vida. Assim corre o tempo, sem ele o medir; depois de muito, outros Espíritos auxiliam-no com seus conselhos, ajudando a dissipar sua perturbação, a libertá-lo das últimas cadeias terrestres e a elevá-lo para ambientes menos obscuros.
Em geral, o desprendimento da alma é menos penoso depois de uma longa moléstia, pois o efeito desta é desligar pouco a pouco os laços carnais. As mortes súbitas, violentas, sobrevindo quando a vida orgânica está em sua plenitude, produzem sobre a alma um despedaçamento doloroso e lançam-na em prolongada perturbação. Os suicidas são vítimas de sensações horríveis. Experimentam, durante anos, as angústias do último momento e reconhecem, com espanto, que não trocaram seus sofrimentos terrestres senão por outros ainda mais vivazes.
O conhecimento do futuro espiritual e o estudo das leis que presidem a desencarnação são de grande importância como preparativos à morte. Podem suavizar os nossos últimos momentos e proporcionar-nos fácil desprendimento, permitindo mais depressa nos reconhecermos no mundo novo que se nos desvenda.

Texto retirado do livro “Depois da Morte” - Léon Denis

Um ato que se repete.
Começa no primeiro instante,
no corte umbilical
E com isso a vida diz :
aprende a conviver, amar e separar !
 
Um amigo especial está fora de mim
Com ele se foi a poesia
ou a poesia persiste em mim?
 
Os amores não se perdem
quando as pessoas de nós
se despedem
O amor se inaltera, e até cresce...
Mesmo no silêncio !
 
socorro moreira
Até a poesia do teu silêncio

me preenche

E o nosso encontro,

na linha do horizonte,

em qual Janeiro será?
 
(socorro moreira)
manhã chuvosa
mágoas lavadas
vivem o dom e o tom
- novo dia !

sem cereja na boca
sem graúna nos olhos
ocidental nos anelos
calos de rendeira
- azeitado desejo

um cheiro de flor
lembra a nossa história
acorda,
tá na hora...
- o sol voltou !

socorro moreira

Se não houvesse...

se não houvesse relógio
se não houvesse trem
se a felicidade fosse vendida
e a alegria também
muito dinheiro teria
o pobre, que alegria tem.
felicidade teria
o rico, que poder tem.
e o homem seria livre
e o mundo, livre também!

(socorro moreira)

Por Stela Siebra de Brito





Há 93 anos atrás, em 15 de Janeiro de 1919, era assassinada Rosa Luxemburgo e Karl Liebknetch. Rosa foi uma das inspirações para o nome da minha filha. O que mais me atrai em Rosa, uma das maiores revolucionárias marxi...stas, era que nela irradiava lirismo, amor, paixão as pessoas que a rodeavam e a natureza. Como fica claro nessa carta que ela escreveu a amiga Sonia Liebknecht:

“Dentro de mim sinto-me bem mais em casa num pequeno canto de jardim como aqui, ou no campo, sentada na grama, cercada de abelhas, que num congresso do partido. Posso dizer-lhe isto tranquilamente, você não vai desconfiar de que estou traindo o socialismo. Você sabe, espero, apesar de tudo, morrer no meu posto, numa batalha de rua ou nos trabalhos forçados. Mas o meu eu mais profundo pertence antes aos meus
passarinhos mais do que aos meus camaradas'” (02/05/1917)



tomei emprestado do meu amigo Antonio Paulo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013



Receita de Chantilly Caseiro (Duas Versões)
Duas opções de chantilly para suas receitas!
Receita de Chantilly Caseiro (Duas Versões)
Chantilly
Ingredientes
  • 1 lata de creme de leite gelado e sem soro
  • 3 colheres (de sopa) de açúcar
  • 1 pitada de fermento em pó
  • 100 gramas de manteiga
  • ½ colher (café) de essência de baunilha
Modo de preparo
Na batedeira, bata a manteiga, o açúcar e a essência até ficar um creme. Acrescente o creme de leite e o fermento e bata por mais 5 minutos. Leve à geladeira por no mínimo 30 minutos.

2ª Versão

O legítimo chantilly (com creme de leite fresco)
Ingredientes
  • 500 gramas de creme de leite fresco bem gelado
  • 4 colheres (de sopa) de açúcar
  • Essência de sua preferência
Modo de preparo
Bata na batedeira em velocidade média até criar consistência. Mais ou menos 5 minutos.

POEMINHA SENTIMENTAL

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
Mario Quintana

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

POR QUE A REPUBLICA NO BRASIL - TEXTO I


A Proclamação da República Brasileira foi um levante político-militar ocorrido em 15 de novembro de 1889 que instaurou a forma republicana federativa presidencialista de governo no Brasil, derrubando a monarquia constitucional parlamentarista do Império do Brasil e, por conseguinte, pondo fim à soberania do imperador Pedro II. Foi, então, proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil.
A proclamação ocorreu na Praça da Aclamação (atual Praça da República), na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, quando um grupo de militares do exército brasileiro, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, destituiu o imperador e assumiu o poder no país.
Foi instituído, naquele mesmo dia 15, um governo provisório republicano. Faziam parte, desse governo, organizado na noite de 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca como presidente da república e chefe do Governo Provisório; o marechal Floriano Peixoto como vice-presidente; como ministros, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, Quintino Bocaiuva, Rui Barbosa, Campos Sales, Aristides Lobo, Demétrio Ribeiro e o almirante Eduardo Wandenkolk, todos membros regulares da maçonaria brasileira.

A Situação Política do Brasil em 1889O governo imperial, através do 37º e último gabinete ministerial, empossado em 7 de junho de 1889, sob o comando do presidente do Conselho de Ministros do Império, Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, do Partido Liberal, Proclamação da República do Brasil
A Proclamação da República Brasileira foi um levante político-militar ocorrido em 15 de novembro de 1889 que instaurou a forma republicana federativa presidencialista de governo no Brasil, derrubando a monarquia constitucional parlamentarista do Império do Brasil e, por conseguinte, pondo fim à soberania do imperador Pedro II. Foi, então, proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil.
A proclamação ocorreu na Praça da Aclamação (atual Praça da República), na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, quando um grupo de militares do exército brasileiro, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, destituiu o imperador e assumiu o poder no país.
Foi instituído, naquele mesmo dia 15, um governo provisório republicano. Faziam parte, desse governo, organizado na noite de 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca como presidente da república e chefe do Governo Provisório; o marechal Floriano Peixoto como vice-presidente; como ministros, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, Quintino Bocaiuva, Rui Barbosa, Campos Sales, Aristides Lobo, Demétrio Ribeiro e o almirante Eduardo Wandenkolk, todos membros regulares da maçonaria brasileira.

A Situação Política do Brasil em 1889O governo imperial, através do 37º e último gabinete ministerial, empossado em 7 de junho de 1889, sob o comando do presidente do Conselho de Ministros do Império, Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, do Partido Liberal, percebendo a difícil situação política em que se encontrava, apresentou, em uma última e desesperada tentativa de salvar o império, à Câmara-Geral, atual câmara dos deputados, um programa de reformas políticas do qual constavam, entre outras, as medidas seguintes: maior autonomia administrativa para as províncias, liberdade de voto, liberdade de ensino, redução das prerrogativas do Conselho de Estado e mandatos não vitalícios para o Senado Federal. As propostas do Visconde de Ouro Preto visavam a preservar o regime monárquico no país, mas foram vetadas pela maioria dos deputados de tendência conservadora que controlava a Câmara Geral. No dia 15 de novembro de 1889, a república era proclamada.
A Perda de Prestígio da Monarquia Brasileira
Muitos foram os fatores que levaram o Império a perder o apoio de suas bases econômicas, militares e sociais. Da parte dos grupos conservadores pelos sérios atritos com a Igreja Católica (na "Questão Religiosa"); pela perda do apoio político dos grandes fazendeiros em virtude da abolição da escravatura, ocorrida em 1888, sem a indenização dos proprietários de escravos.
Da parte dos grupos progressistas, havia a crítica que a monarquia mantivera, até muito tarde, a escravidão no país. Os progressistas criticavam, também, a ausência de iniciativas com vistas ao desenvolvimento do país (fosse econômico]], político ou social), a manutenção de um regime político de castas e o voto censitário, isto é, com base na renda anual das pessoas, a ausência de um sistema de ensino universal, os altos índices de analfabetismo e de miséria e o afastamento político do Brasil em relação a todos demais países do continente, que eram republicanos.
Assim, ao mesmo tempo em que a legitimidade imperial decaía, a proposta republicana - percebida como significando o progresso social - ganhava espaço. Entretanto, é importante notar que a legitimidade do Imperador era distinta da do regime imperial: Enquanto, por um lado, a população, de modo geral, respeitava e gostava de dom Pedro II, por outro lado, tinha cada vez em menor conta o próprio império. Nesse sentido, era voz corrente, na época, que não haveria um terceiro reinado, ou seja, a monarquia não continuaria a existir após o falecimento de dom Pedro II, seja devido à falta de legitimidade do próprio regime monárquico, seja devido ao repúdio público ao príncipe consorte, marido da princesa Isabel, o francês Conde D'Eu).
Embora a frase de Aristides Lobo (jornalista e líder republicano paulista, depois feito ministro do governo provisório), "O povo assistiu bestializado" à proclamação da república, tenha entrado para a história, pesquisas históricas, mais recentes, têm dado outra versão à aceitação da república entre o povo brasileiro. É o caso da tese defendida por Maria Tereza Chaves de Mello (A República Consentida, Editora da FGV, EDUR, 2007), que indica que a república, antes e depois da proclamação, era vista popularmente como um regime político que traria o desenvolvimento, em sentido amplo, para o país.

Antecedentes da Proclamação da RepúblicaA partir da década de 1870, como consequência da Guerra do Paraguai (também chamada de Guerra da Tríplice Aliança) (1864-1870), foi tomando corpo a ideia de alguns setores da elite de alterar o regime político vigente. Fatores que influenciaram esse movimento:
• O imperador dom Pedro II não possuía filhos, apenas filhas. O trono seria ocupado, após a sua morte, por sua filha mais velha, a princesa Isabel, casada com um francês, Gastão de Orléans, Conde d'Eu, o que gerava o receio em parte da população de que o país fosse governado por um estrangeiro.
• O fato de os negros terem ajudado o exército na Guerra do Paraguai e, quando retornaram ao país, permaneceram como escravos, ou seja, não ganharam a alforria de seus donos.

A Crise Econômica
A crise econômica agravou-se em função das elevadas despesas financeiras geradas pela Guerra da Tríplice Aliança, cobertas por capitais externos. Os empréstimos brasileiros elevaram-se de 3 000 000 de libras esterlinas em 1871 para quase 20 000 000 em 1889, o que causou uma inflação da ordem de 1,75 por cento ao ano.

A Questão Abolicionista
A questão abolicionista impunha-se desde a abolição do tráfico negreiro em 1850, encontrando viva resistência entre as elites agrárias tradicionais do país. Diante das medidas adotadas pelo Império para a gradual extinção do regime escravista, devido a repercussão da experiência mal sucedida nos Estados Unidos de libertação geral dos escravos ter levado aquele país à guerra civil, essas elites reivindicavam do Estado indenizações proporcionais ao preço total que haviam pago pelos escravos a serem libertados por lei. Estas indenizações seriam pagas com empréstimo externo.
Com a decretação da Lei Áurea (1888), e ao deixar de indenizar esses grandes proprietários rurais, o império perdeu o seu último pilar de sustentação. Chamados de "republicanos de última hora", os ex-proprietários de escravos aderiram à causa republicana.
Na visão dos progressistas, o Império do Brasil mostrou-se bastante lento na solução da chamada "Questão Servil", o que, sem dúvida, minou sua legitimidade ao longo dos anos. Mesmo a adesão dos ex-proprietários de escravos, que não foram indenizados, à causa republicana, evidencia o quanto o regime imperial estava atrelado à escravatura.
Assim, logo após a princesa Isabel assinar a Lei Áurea, João Maurício Wanderley, Barão de Cotegipe, o único senador do império que votou contra o projeto de abolição da escravatura, profetizou:
"A senhora acabou de redimir uma raça e perder um trono!" (Barão de Cotegipe)
A Questão Religiosa
Desde o período colonial, a Igreja Católica, enquanto instituição, encontrava-se submetida ao estado. Isso se manteve após a independência e significava, entre outras coisas, que nenhuma ordem do Papa poderia vigorar no Brasil sem que fosse previamente aprovada pelo imperador (Beneplácito Régio). Ocorre que, em 1872, Vital Maria Gonçalves de Oliveira e Antônio de Macedo Costa, bispos de Olinda e Belém do Pará respectivamente, resolveram seguir, por conta própria, as ordens do Papa Pio IX, não ratificadas pelo imperador e pelos presidentes do Conselho de Ministros, punindo religiosos ligados à maçonaria.
D. Pedro II, aconselhado pelos maçons, decidiu intervir na questão, solicitando aos bispos que suspendessem as punições. Estes se recusaram a obedecer ao imperador, sendo condenados a quatro anos de trabalho braçal (quebrar pedras). Em 1875, graças à intervenção do maçom Duque de Caxias, os bispos receberam o perdão imperial e foram colocados em liberdade. Contudo, no episódio, a imagem do império desgastou-se junto à Igreja Católica.

A Questão Militar
Os militares do Exército Brasileiro estavam descontentes com a proibição, imposta pela monarquia, pela qual os seus oficiais não podiam manifestar-se na imprensa sem uma prévia autorização do Ministro da Guerra. Os militares não possuíam uma autonomia de tomada de decisão sobre a defesa do território, estando sujeitos às ordens do imperador e do Gabinete de Ministros, formado por civis, que se sobrepunham às ordens dos generais. Assim, no império, a maioria dos ministros da guerra eram civis.
Além disso, frequentemente os militares do Exército Brasileiro sentiam-se desprestigiados e desrespeitados. Por um lado, os dirigentes do império eram civis, cuja seleção era extremamente elitista e cuja formação era bacharelesca, mas que resultava em postos altamente remunerados e valorizados; por outro lado, os militares tinham uma seleção mais democrática e uma formação mais técnica, mas que não resultavam nem em valorização profissional nem em reconhecimento político, social ou econômico. As promoções na carreira militar eram difíceis de serem obtidas e eram baseadas em critérios personalistas em vez de promoções por mérito e antiguidade.
A Guerra do Paraguai, além de difundir os ideais republicanos, evidenciou aos militares essa desvalorização da carreira profissional, que se manteve e mesmo acentuou-se após o fim da guerra. O resultado foi a percepção, da parte dos militares, de que se sacrificavam por um regime que pouco os consideravam e que dava maior atenção à Marinha do Brasil.

Arquivo internet

Lupeu Lacerda

ainda olho borboleta voando
sol se pondo
primeira estrela.
ainda amo
sonho
acredito.
ainda espero quem partiu
a noite
a notícia de riso.
ainda abraço apertado
namorada
filhas
amigos do peito.
...
acho que ainda tenho jeito.