por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 18 de maio de 2011

Trovinhas despretensiosas - por Socorro Moreira


Tomara que chegue Junho
Pra Julho chegar também
Enquanto isso eu me escondo
De mim, e de ti também !
.
Se antes eu não te via
Agora te vejo bem
Somos velhos conhecidos
Agora te quero bem !
.
Passado a gente discute
Presente quer se dar bem
Futuro é sempre o novo
Do velho que se deu bem !
.
Não choro a minha tristeza
Tão ligeira , sempre passa
Comemoro a alegria
De te encontrar por acaso
.
Os amores bem lembrados ...
São sempre os aventurados
No "Auto da Compadecida"
Permanecem os consagrados !
.
Aqui termino esses versos
Na fumaça , na tragada
Tua lembrança é clara
Não duvides, tá na cara !

VEM CONHECER RECIFE por Rosa Guerrera



O cantor e compositor Reginaldo Rossi prestou uma homenagem a cidade de Recife , dentro do seu estilo bem peculiar . E eu , aproveitando o ensejo , parabenizo a minha cidade pelos seus 473 anos , transcrevendo a letra dessa música que todo recifense sabe cantar .

Recife Minha Cidade
(Reginaldo Rossi)

Hei! Vem cá que eu quero te mostrar
Hei! A minha cidade, o meu lugar
Hei! Recife tem um coração
Hei! Tem muito calor, muita emoção

O povo daqui gosta de cantar
Tem religião, gosta de rezar
Tem cristianismo, tem candomblé
Tem muita cachaça e muita mulher

Tem Luiz Gonzaga, Rei do Baião
Tem Alceu Valença, anunciação
E em Olinda o carnaval
É o melhor do mundo
É sensacional

Recife tem encantos mil
É... É um pedacinho do Brasil
É um paraíso tropical
Tem... Tem um acervo cultural

Ela é a Veneza desse Brasil
É entrecortada por muitos rios
A capital do meu Pernambuco
Capitania que deu mais lucro

Ela é a cidade que viu surgir
grandes heróis da nossa nação
O negrão Henrique e o branco Negreiros
O índio Felipe e o Camarão

De Porto Alegre até Boa Vista
De Porto Velho até Natal
Em diagonal até Fortaleza
O Brasil, eu sei, tem muita beleza
Mas sou de Recife e devo cantar
A minha cidade, o meu lugar
Você não entende se não quiser
Tem muita cachaça e muita mulher

HÁ UMA GOTA DE SANGUE NO CARTÃO POSTAL- Cacaso



eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata

sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira
de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor

SAUDADES - CLARICE LISPECTOR - COLABORAÇÃO DE EURÍPEDES REIS


Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...

(Clarisse Lispector)

Tartarugas Marinhas - por José do Vale Pinheiro Feitosa


A praia vazia naquele começo da manhã. Apenas os três andando na planície infinda do litoral do Ceará. Pela terra e mar a visão só termina na curvatura do planeta. Foi quando ela disse:

- Parecem grandes tartarugas.

As pedras dos recifes semi-descobertas pela maré baixa. Grandes animais marinhos, pré-históricos sob nossos passos no presente. Imediatamente surgiu um arco-íris de tempo, com as cores de todos os momentos vividos por cada um. Em seguida um deles pergunta ao terceiro:

- Achas que temos alma? Uma vida eterna?

Pergunta mais antiga. Resposta mais experimentada. Mas assim mesmo a deu:

- Não digo que sim e nem digo que não. Tudo pode.

- Quando assim respondes é que existe em ti a idéia de que sobrevirás ao tempo. Se não considerasses a possibilidade de uma vida eterna não colocarias esta dúvida. Apenas dirias que não. Mas ao assim responder consideras esta possibilidade e, efetivamente, crês na alma e na eternidade.

- Não sei. Acho que somos diferentes. Dos porcos e dos jumentos.

- É verdade e os porcos e jumentos também nos achariam diferentes. Nos termos deles. Assim a nossa diferença não nos diz de qualquer supremacia e nem de qualquer eternidade.

- Mas não posso afirmar que não exista alma. Mesmo que ninguém tenha vindo e me dito que vive a eternidade. Alguém que já tenha morrido.

- Mas se somos diferentes de porcos e jumentos, um elemento central se encontra na inteligência e no enorme impacto desta sobre a natureza do planeta. E a inteligência se exercita pela razão, na qual a existência se pontua pela evidência de sua própria existência.

- Mas posso imaginar que exista vida noutro planeta. Assim como posso considerar a existência da alma, mesmo sem que tenha qualquer evidência.

- Imaginar é bem humano. Mas não diz nada da eternidade. Há a possibilidade de vida em outros planetas desde que resguardadas as preliminares para que exista vida como a conhecemos. Mas até agora nenhuma evidência há de que exista vida noutro planeta.

- Então, mesmo não existindo evidência se admite a possibilidade, é o mesmo caso da alma.

- Só que não existem preliminares para se definir a eternidade de um ser vivo.

- Mas a alma não é vida. É algo permanente.

- Então que seja este algo permanente, que não existe no universo. Mas existe no teu desejo por acréscimo. Por merecimento de ser diferente. Como paga de tua boa conduta.

O mar, a planície, o vento e as nuvens que prometem as chuvas que não caem. Andávamos na praia vazia de gente, apenas nós e por isso nem se podia qualificar como vazia de gente.

 por José do Vale Pinheiro Feitosa

Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vemos, se vão ?


 Eduardo Galeano

ZECA IV0 - Por Norma hauer


Em 19 de maio de 1894 nasceu, aqui no Rio de Janeiro, José Ivo da Costa, que adotou o nome de ZECA IVO e assim ficou conhecido como compositor. Embora não marcasse muito nosso cancioneiro popular, foi autor de alguns sucessos, como “Tristeza de Gaúcho”, isso porque, embora carioca, viveu muitos anos no Rio Grande do Sul.
Com temas gaúchos, ainda compôs “Gaúcho Velho”; ”Luar do Sul” e “Proeza de Gaúcho” . .
Regressando ao Rio de Janeiro, aqui fez parceria com Jota Machado compondo “Mês de Maria”, gravado por Francisco Alves; “Ondas Curtas” , com João Freitas (sendo esta a primeira gravação de Orlando Silva); “Jardineiro do Amor, com Custódio Mesquita e “Última Carta de Amor”, com Benedito Lacerda. Ainda com tema gaúcho compôs, com Ary Barroso, “Meu Pampa Lindo”.

Zeca Ivo gravou também com Pedro Celestino (irmão de Vicente), “O Guasca” e “A Vida é um Inferno, onde as Mulheres são os Demônios”, um fado-toada feito em parceria com Lamartine Babo. Com Laís Areda, uma cantora que foi companheira de Vicente Celestino, antes de seu casamento com Gilda de Abreu, Zeca Ivo gravou a canção ´”Órfão de Amor”. Com Sílvio Caldas, gravou o samba “Última Carta de Amor” e com Augusto Calheiros a valsa “Quero-te Cada Vez Mais”.

Visitou vários estados do Brasil integrando grupos teatrais ou sozinho, realizando recitais de poemas e canções.

Podemos considerar “Mês de Maria”, gravada, por Francisco Alves, a música mais conhecida de Zeca Ivo aqui no Rio de Janeiro, quiçá no Brasil.

Zeca Ivo faleceu aqui no Rio de Janeiro no dia 19 de fevereiro de 1964, sem completar 70 anos.


Norma

O leitor e a bibliotecária - por Ronaldo Correia de Brito - Colaboração de José do Vale Feitosa


Na cidade do Crato, no Ceará, onde vivi parte da infância e adolescência, havia uma biblioteca municipal. Ou seria diocesana? Também não sei aonde foi parar o acervo que marcou tão profundamente minha meninice pobre de livros. O prédio da biblioteca não existe mais; no local funcionam um bar e lojas de bugigangas. Embora o acervo literário fosse deplorável, quase todo formado por livros católicos mal impressos e muito velhos, acho que a troca de uma biblioteca por um comércio nunca é feliz. Já existem bares em excesso nas cidades brasileiras.

Imagino que sou a única pessoa do mundo que leu a coleção Grandes Romances do Cristianismo, de que fazem parte títulos como Perseguidores e Mártires, Quo Vadis?, Otávio, Papai Falot, Ben-Hur, Os últimos dias de Pompéia, Os noivos e por aí afora. Na falta de livros melhores, eu mergulhava nessas narrativas lacrimosas, escritas para arrebanhar os espíritos rebeldes, transformando-os em almas piedosas. Afora esses livros exemplares, havia a biblioteca de um primo, com a melhor literatura universal: só que todos eles estavam parcialmente devorados pelos cupins e pelas traças. Dessa maneira, minha formação ficou cheia de hiatos. Nela, faltam muitas páginas, capítulos inteiros, começos, meios e fins.

Não sei por arte de que nigromante os insetos não comeram uma única página, uma lombada sequer, nem mesmo o parágrafo mais insignificante das obras completas de Machado de Assis, José de Alencar e das crônicas de Humberto de Campos. Dessa forma, até os quinze anos eu já lera todos esses respeitáveis senhores, de cabo a rabo, tão bem lido que nunca mais voltei a eles. Minto: jamais consegui atravessar Guerra dos Mascates, do meu conterrâneo cearense, e sempre releio os contos de Machado. Humberto de Campos, confirmando a transitoriedade do sucesso, anda esquecido. Ninguém lembra que ele foi o autor brasileiro mais lido há algumas décadas, um fenômeno nacional parecido com Paulo Coelho. Sem a auto-ajuda, claro.

A Biblioteca Municipal era pouco freqüentada e a bibliotecária passava a maior parte do tempo fazendo crochê ou rezando num terço de contas azuis e brancas. Creio que o seu interesse pela leitura não foi além das orelhas e prefácios. Dessa forma, ela construiu um conhecimento de superfície sobre o pequeno acervo, quase sempre doado, o que me leva a supor que se tratava de refugo, aquilo que as pessoas têm em casa e não apreciam. Nunca tive notícia de uma aquisição feita pela prefeitura da cidade, da compra de um pacote de bons livros. Quando completei catorze anos, deixaram que eu tivesse acesso à biblioteca da Faculdade de Filosofia e aí conheci livros melhores.

A bibliotecária pertencia à irmandade das Filhas de Maria, vestia-se de branco no mês de maio e usava uma fita azul no pescoço com uma imagem em prata de Nossa Senhora. Ela sempre me pareceu ingênua, boa e feliz. A necessidade de um emprego colocou-a no lugar de bibliotecária, sem vocação ou preparo para isso. Nossa amizade se deu por eu ser apaixonado pelos livros. A devoção que ela punha nas rezas eu colocava nas leituras. Diante de um menino deslumbrado por objetos de que ela cuidava sem maior convicção, sentia-se tocada. E era sincera quando me apresentava um título que acabara de chegar, uma nova doação. Esse é bom, dizia sem haver lido. Esperando que eu retornasse para a devolução com um resumo da obra e comentários que respeitavam sua fé católica.

Talvez um bibliotecário de grande erudição, culto e arrogante, tivesse me inibido. A bibliotecária modesta, com seu fetiche pelos objetos livros e sua admiração pelo menino leitor, me seduziu para a leitura. Ela me olhava invejosa e seus olhos confessavam: Ah, se eu tivesse coragem de atravessar esses dramas! Mas sua formação católica, de um catolicismo popular e singelo, reprimia vôos e fantasias, mesmo em romances que pareciam inventados por sugestão de Roma.

Quase todas as vezes em que voltava ao Crato, passava em frente à casa da bibliotecária. Nossa conversa não se mantinha por mais de dez minutos. Eu temia que a qualquer momento ela sacasse a sugestão de um novo romance. Mas o catolicismo anda em baixa e livros edificantes de escritores como Paulo Coelho tendem para o ecumenismo e o paganismo. A bibliotecária já não possui biblioteca, nem leitores a quem cativar.

Ela sabia que o menino curioso se tornara médico e escritor. Talvez desejasse ouvir um agradecimento que só agora faço: obrigado pelos livros que você me colocou nas mãos. Por mais estranhos que eles me pareçam hoje, contribuíram para me fazer leitor. Tomara que os santos em que você acredita lhe dêem no céu uma pequena biblioteca, com livros que você poderá nunca ler, mas com certeza amará, abaixo de Deus.

Ronaldo Correia de Brito

Só Um Pensamento. Por Liduina Belchior.


Estou com minha cabeça a mil:

Mil horas de labuta,
mil horas de sono,
mil horas de contemplação,
mil horas de alegria,
mil horas de preocupação,
mil horas de carinho,
mil horas de caminho.

Aguardo agora, as próximas mil horas
do futuro próximo, que há de vir, neste
novo porvir.

A furta cor de um dia- Marcos Vinícius Leonel




O parque, da quadra Bi-Centenário do Crato, sempre foi para mim uma espécie de refúgio, de idílio e de reserva imaculada de auto-afirmação, durante os meus conturbados anos de adolescência. Era um período de revolta inerente. Eram os fins da década de setenta e inícios dos anos oitenta. Foram praticamente três anos na companhia diária de Geraldo Urano, Clélio, Romildo e Orlando, principalmente. Sempre recebíamos algumas visitas inusitadas, bem como sabíamos de algumas despedidas repentinas, como a minha, por exemplo, rumo aos jardins suspensos do bairro Pinheiros, em São Paulo.

O horário sagrado era o pingo da mei dia. Os alunos passando ao largo, os sonhos flutuando à nossa volta, como pedras coloridas suspendidas, as divagações assumindo deliberadamente a solidão dos andarilhos envoltos em lençóis psicodélicos, enquanto a filosofia vã dos desocupados desenhava em nossas mentes paisagens urbanas ocupadas por tropas de assalto e anarquistas espiritualizados nas mais altas esferas da teosofia, dos mitos e do esoterismo fácil dos mundos adjacentes ao absurdo.

Discutíamos de tudo, tanto no sentido lato como no sentido estrito. As leituras eram colocadas em dias e debatidas com uma ferocidade sarcástica que se superava a cada dia, trocando de pele como uma cascavel da caatinga, recém chegada dos desertos americanos. Geraldo tinha uma capacidade mórbida de desconcertar qualquer um com comentários lúcidos e perturbadores. Romildo era dono inconteste de argumentos ferinos contra qualquer coisa. Clélio era o anarquista que todos nós precisávamos constantemente para crucificar a sociedade em nosso passatempo preferido. Orlando era a mansidão naturalista em pessoa, o peso ideal para aliviar e elevar as nossas dores marginais.

Geralmente chegávamos ao nosso encontro diário e inadiável com as idéias fervilhando os nossos ideais. Sempre existia uma certa concordância inicial sobre qualquer coisa. Depois a dialética revestia nossas íris com um arco-íris chamuscado pela urgência existencial de cada um. A catarse era coletiva e individual, com a mesma intensidade com que um ovo é fritado na imaginação de um vagabundo, aos pés de um viaduto de uma metrópole encardida pela fuligem do asfalto e do gás carbono. A tensão era a nossa marionete. A sociedade o nosso Pantagruel. A arte e a cultura eram o outro perdido no labirinto de Borges. Nosso senso crítico distribuía igualitariamente um Dom Quixote para cada moinho movido pelas nossas controvérsias. A gente se despedia, ou não, sempre de mãos vazias, mas com a alma repleta de saudades inconfessadas já para o próximo dia.

Naquele dia sentamos em completo silêncio e nele mergulhamos nossos anseios, vitórias e derrotas, e nele permanecemos, em perturbações imperceptíveis, como uma árvore que cria cascas, quebrando espelhos e fundando universos paralelos. Foram as três horas mais prolíferas da minha vida, naquele período de descobertas indomáveis. Foi aquele silêncio barulhento que fez com que eu percebesse que naquele exato momento aqueles dias inesquecíveis haviam acabado e que não reencontraríamos mais nenhum daqueles nós mesmos de há pouco tempo atrás. Foi naquele dia que o saudosismo foi definitivamente banido do meu reduto. Senti na face o vigor do sorriso de quem reconhece o próprio sangue pulsando nas veias. 

 por Marcos Vinícius Leonel

A poesia de José Augusto de Lima Siebra -



Louvo na poesia de José Augusto de Lima Siebra seu amor pelo Ceará, cantado belamente no poema O Ceará Seco, que tem estes versos iniciais:
(Stela Siebra)

Oh! terra dos verdes mares,
Terra da luz, Ceará!
Alguma cousa de ti
A minha lira dirá
Com mágoas que nascem d’alma
Teu nome celebrará.

Terceira louvação:
Louvo na poesia de José Augusto de Lima Siebra seu encantamento com as belezas naturais do Cariri, região homenageada com o
Hino ao Cariri
(Stela Siebra)

No Cariri tudo é belo
Tudo é galas e primores
É belo no sítio ameno
Ver-se flores multicores.

É belo o cantar das águas
Que vem de encontro à pedreira
A brisa a gemer nas folhas
Da majestosa mangueira.

Soluça a patativa
Na folha da bananeira
A juriti tão saudosa
Chamando a companheira.

Vê-se a beleza que tem
Os grandes canaviais
O canto dos passarinhos
Na fronde dos laranjais.

Ouve-se o rumor nas folhas
Do coqueiro pelo vento
Fitar os círios eternos
Que habitam no firmamento.

Que primavera meu Deus
Desponta no mês de abril
Maio, um altar a Maria
Coberto de flores mil.

Eu como sou filho desta
Terra cheia de delícias,
Quero viver no seu seio
Gozando suas carícias.

Quarta louvação:
Louvo seu espírito cívico, sua participação na política local e seu patriotismo entusiasmado pelo Crato, registrado no poema Revolução de Juazeiro, em que narra em versos as intrigas, desventuras e batalhas da Revolução de 1914, gerada pela situação política do Ceará. Uma versão histórica registra que a revolução foi planejada pelo governo Federal, com o intuito de derrubar o Governo do Ceará, então nas mãos do Cel. Franco Rabelo.
(Stela Siebra)

Soneto 25
(....)
Procedendo desta forma
Fica o Crato abandonado
Do centro do Ceará
O ponto mais cobiçado
Torrão sagrado, altaneiro,
Por muitos bravos pisado.

Tendo somente no Crato
Um pequeno pelotão
Dois outros oficiais
Dos quais Tenente Romão
Aproveitando os jagunços
Esta pouca guarnição.

Na tarde de vinte e quatro
O Crato foi atacado
A noite inteira passando
Num tiroteio cerrado
Às dez horas do outro dia
Pelos jagunços tomado.
(....)

Quinta louvação:
Louvo na poesia de José Augusto de Lima Siebra seu espírito profundamente religioso e devotado, sentimento que ele expressou em diversos poemas, notadamente nesta descrição da
Morte de Jesus.
(Stela Siebra)

Está parado o ramo de oliveira
E muito triste o céu da Palestina
Três horas. Lá no céu o sol declina
Queda silente a natureza inteira.

Jesus, o bom Jesus a fronte inclina
Deita da face a lágrima primeira
Do peito exala a ânsia derradeira
Morre na cruz suspensa na colina.

Escuta calmo o glauco mar profundo
Há um silêncio tal em todo mundo
Que a própria hierarquia desconhece.

A mãe do Verbo a fronte ao céu erguia
E ao supremo soluço de Maria
A terra treme, o sol empalidece.




Uns dias são diferentes dos outros.

Não me cobrem alegrias, otimismo...
Talvez um pouco de tolerância...
Esta, sempre !

Desde que nasci choro as perdas,
Inclusive as vindouras.
E o futuro implacável sempre chega.

Não existem ganhos que nos compensem
das perdas afetivas
Dizem que as feridas cicatrizam-se...

Sinto-as arrebentadas , incuráveis,
Indolores ...
A falta da dor confunde-se com o amor que findou
Morreu de desesperança

Parece fácil viver ...
-Viver, contemplação
-Morrer, liberação !

(socorro moreira)

O CANTO DO POETA-Por Rosemary Borges Xavier

o canto do poeta
é a poesia
que contagia
a quem escutar
um bom repente
e bem contente
recitar

o canto do poeta
é o poema
que sem dilema
vive a compor
belas poesias
cheio de alegrias
paz e amor

sou um poeta
e o meu canto
afasta o pranto
e a solidão
deixando a paz
que satisfaz
o coração


Israel Batista

Enviado por e-mail

D’APRÈS ALBERTO CAEIRO

O Tietê é mais belo que os dois córregos que correm pela minha aldeia,
Mas o Tietê não é mais belo que os dois córregos que correm pela minha aldeia
Porque o Tietê não é os dois córregos que correm pela minha aldeia.

O Tietê é um rio enorme
Perto dos meus pequeninos dois córregos.
Foi a rota dos bandeirantes, dos aventureiros, dos colonizadores,
Nasce na beira do mar e atravessa todo o Estado de São Paulo.
Toda a gente sabe disso.
Mas poucos sabem quais são os dois córregos da minha aldeia,
Que um se chama Fundo e o outro Lajeado
E que se encontram formando o rio do Peixe,
Que vai se tornar muito mais adiante o rio Jaú,
Mas isso é outra história.
O que importa é que na confluência do Fundo e do Lajeado
Nasceu a minha aldeia
E por isso o Fundo e o Lajeado são muito maiores
Para mim e para a minha aldeia.

Pouco importa que pouca gente conheça os dois córregos da minha aldeia,
Os dois córregos que lhe deram o ser e o nome.
O Tietê também passa pela minha aldeia,
Mas lá longe, descendo tanto a serra que nem é mais a minha aldeia.
O Tietê é a História,
Todo mundo conhece, todo mundo ama.
Todo mundo imagina mil histórias heróicas ao pé do rio Tietê.
Ao pé dos meus dois córregos não se imagina nada,
Apenas deixa-se existir simplesmente
Como as coisas existem,
Como as águas que passam e se renovam sem se dar por isso.




Divórcio à Italiana - por José do Vale Pinheiro Feitosa


Olho para teu sorriso, outrora sedutor, e nele um plástico moldável pela conveniência diária. Os cabelos continuam longos, brilhosos e envolvendo teu corpo, mas me dão coceiras de calor. Sabe estes olhos entre verdes e azuis, uma cor de encanto de borboleta, se tornaram enfeites inertes do cotidiano.

Quando falas com humor, acende-me um fogareiro de rancor. Vagueias pelas incertezas humanos de Shakespeare ou Nietzsche e todo o meu dia se torna um tédio com porta aberta para a rua. Se falas das coisas doces ou dos perfumes naturais, sinto as moscas sobre o merengue e me transporto aos odores dos matadouros.

E me vens com as lembranças dos filhos. Dos filhos que ambos fizemos no exercício das paixões em cópulas de dias inteiros, mas o que me resta são as faturas das creches ou as notas incertas dos colégios. A conta do médico, a paga da farmácia, a padaria, o mercado, a TV a cabo e a internet.

O nosso passado e o nosso amor são chagas que doem em cada esquina do cotidiano. E quando me vens à memória, é com certo asco que a esqueço. És palha de arroz, o borralho da queima da caldeira. Quando te vejo em foto, me vem um desejo de deletar teus pixels. Um desejo de nem mais haver uma tela em branco. De nunca ter havido uma tela.

O pior da palavra divórcio é a perpetuação em si do casamento, pela via da negação. Quando alguém me diz divórcio, logo um fel de lembranças ruins me toma da cabeça aos membros. E hoje, nem gostaria de sonhar que um dia nunca tivesse te conhecido. Tal sonho é apenas a lembrança de meu corpo colado ao teu. E tenho rejeições como uma doença crônica.

Nada mais me restando, mudo de vida, mudo de cidade, embora não mude de mim, vou a busca da bomba atômica que promova a fissão da minha substância. E mesmo envenenado pelas partículas que de mim se dissiparão é preciso que morra com esta lepra de amor roto.

E desesperado após esta última frase, todo motivo novo é uma solução do velho. E jamais gostaria de ter vivido este velho. Mas vivi. E ainda vivo dele. Dela. Dos múltiplos que vieram dos dois.

Como fazer? Divorciar-me do divórcio?

 por José do Vale Pinheiro Feitosa

Louvações à poesia de José Augusto de Lima Siebra - Por Stela Siebra Brito




Poeta caririense: 1881 - 1960


José Augusto de Lima Siebra, nascido em novembro de 1881, em Várzea Alegre, vivenciou seus grandes momentos poéticos na primeira metade do século XX. Oriundo de uma família de agricultores teve apenas instrução primária, mas, sendo um ávido leitor, ampliou seus conhecimentos e com isso suas possibilidades intelectuais. Participou dos movimentos políticos da cidade e do estado, foi orador e poeta.
O poeta foi pouco conhecido e quase nada restou dos seus manuscritos, mas pelo material que suas filhas conseguiram recuperar, dá para reconhecer seu mérito poético e homenageá-lo com estas louvações.
Herdei do meu avô, José Augusto de Lima Siebra, a ousadia poética de conversar com as estrelas e louvar a natureza inteira, desde a contemplação da beleza das flores até o fascínio pelo manto azul do céu estrelado. E é com esse espírito que teço estas louvações.

Primeira louvação:
Louvo na poesia de José Augusto de Lima Siebra, além da reverência à obra do Criador, o conhecimento das leis cósmicas, homenageando a presença divina manifestada nos fenômenos da natureza, no canto dos pássaros ou dos homens, registros estes que podemos encontrar em muitos dos seus escritos. Como exemplo, podemos apresentar estes versos finais do poema Amanhecer e o belo poema Viagem ao Infinito.

Amanhecer
(......)
Gosto de ouvir nesta hora
A cantiga do Geraldo,
Peito que estala saudoso,
Qual um piston afinado.

Quem vê o pobre negrinho
Sujo, roto e aleijado,
A cabeça descoberta,
O olhar atravessado

Não diz que naquele peito
Bate a voz de um chorão
Nem sabe que a voz de Deus
Mora no seu coração.

O Geraldo quando canta
Deus escuta atentamente,
E sendo um Deus no seu peito
Se manifesta contente.

Solta feliz, ó Geraldo,
Este teu canto bonito
Neste teu canto eu vejo
As notas do infinito.

WOODSTOCK - por José do Vale Pinheiro Feitosa



Se foi maior, durou menos. Mas existe esta incoerência no cotidiano burguês. Troca-se a radicalidade da árvore principal por alguns galhos desfolhados como sua vida tediosa. E mesmo que o tempo passe: não devemos confiar em pessoas com mais de trinta anos.

Venderam seu tempo em forma de trabalho. Viciados, dependentes, são capazes de matar por um copo de coca cola se não estiver bem gelada. Se as luzes das vitrines não seduzirem seu olhar ao menos uma vez por semana, a infelicidade do mundo baixo como um fumo negro.

Alguns dias. O desafio à guerra; cuspo no olho do teu consumo; resisto às tuas regras cínicas; nego teus filmes, tuas músicas, teus texto, tua poesia. Se a Caterpillar que desmonta teu morro de certezas ainda não o pôs abaixo, é que a lâmina que arrasta tuas entranhas leva tempo até consumir-se.

Um minuto ao invés de um século. Sessenta segundos de intenso mergulho no vazio do edifício que tomas por civilização ao invés de milhares de horas na praça de alimentação cercada de Hambúrguer. Gosto de pipoca, olfato de ketchup, tato de jujuba, escuta de roleta, a estética das rugas que sustentam o botox.

E quando revi tuas imagens, gastas, desbotadas, toda a energia do intenso relampejou por um breve tempo. Como breves foram tuas vidas, a rebeldia, a profunda negação daquele megassismo em alguns hectares nos arredores de N. York.

Como Che Guevara aquela geração se não morreu fisicamente no intenso que não dura, pouco depois foi enforcada com a gravata de algum escritório clean das ruas da América. E hoje, se vivos estiverem, estão em algum zoológico das espécies em extinção ou se tornaram zumbis com frases soltas de recordação.

Afinal não é da idade. É a intensidade. Se uma pessoa com mais de trinta anos não era confiável, menos ainda os menores de trinta dos tempos de agora.
Postado por José do Vale Pinheiro Feitosa às 22:07 1 comentários
Crônica para você – Por Claude Bloc
Quando somos jovens achamos muitas vezes que tudo é tão difícil! Primeiro vem o sonho. Nunca sabemos se aos poucos conseguiremos realizá-lo, mas por alguma razão desconhecida continuamos sonhando.
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A seguir, vem uma série de artifícios e processos, como, por exemplo, o questionamento dos outros sobre nossa escolha sobre o futuro, vem a expectativa dos nossos pais, e principalmente, aquela perguntinha martelando na nossa cabeça: “será que vou conseguir”? Não sabemos, portanto, a esta altura, que esta será uma pergunta constante durante o restante de nossa vida.
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Aí, então, começam as renúncias, que se estendem pela vida a fora: desde festas e passeios até falta de atenção à família, aos amigos, à/ao namorada/o…mas sempre há motivos de renúncia. (Ou não!). No final das contas todos nós podemos escolher, e é justamente quando o cansaço bate, quando a mente está já tão cheia de informações e de conhecimentos, quando não conseguimos aprender mais nada (mas não largamos o livro), quando todos reclamam que estamos estressados... sim, é nesses momentos que alguma escolha é feita.

Memórias do Quadrilátero São Vicente - Maria Amélia Pinheiro



Uma pequena grande imagem faz várias outras passarem como um filme em nossa memória. São lembranças saudáveis de um tempo que não volta .

Certa manhã, navegando no “Cariricaturas”, vi uma linda foto da Praça Juarez Távora, conhecida como Praça São Vicente, por localizar-se em frente à igreja do mesmo santo. São Vicente era espanhol, um famoso pregador dominicano. O quadrilátero que formava a Praça São Vicente é um pedaço marcante da minha infância. Era passagem para vários lugares do Crato, como por exemplo para a casa de Tia Maria Alice, para o Instituto São Vicente Férrer , Estação ferroviária, AABB, igreja. Era passagem obrigatória para as missas dos domingos, para as quermesses da paróquia que angariava dinheiro para as obras sociais. Os bingos nas noites de abril, bebidas e comidas. Um espaço com mesas e cadeiras na rua, onde havia a confraternização dos paroquianos que prestigiavam a festa, reencontro de amigos degustando comidas, ou melhor os frangos com farofas leiloados pelos presentes. "Quem dá mais"?, perguntava Correinha....

Esse quadrado, onde a felicidade também morava, era privilegiado, com praça, igreja, colégio, pensão, hotel, a casa da D. Rosa Amélia, que era uma senhora distinta, proprietária de um poodle branquinho que era carregado dentro de um carrinho de bebe. Ela passeava orgulhosamente com o cão pela calçada, com a certeza de que o animalzinho era mais bem cuidado do que muitas crianças da cidade. Na esquina do hotel e restaurante do Sr. Hermes Lucas havia janelas altas e estreitas que, da calçada, possibilitava vermos os hóspedes nas mesas de toalhas brancas se deliciarem com a comida cheirosa e caseira da D. Conceição. Na outra lateral da igreja morava a D. Nery, dona de uma bodega, com um balcão preto de moscas, circundado por um cheiro característico de pinga e bolor. Lá, vendiam-se balas e chicletes maravilhosos. Uma quartinha de barro em cima do parapeito da janela, que dava para a rua, era acompanhada de uma caneca "democrática" de alumínio virada no gargalo, e aquela água deliciosa geladinha matava a sede de quem passasse na rua, dos fregueses da bodega e de alguns alunos do Instituto. A caneca era de todos. (Parecia que naquela época não existiam bactérias, H1N1, outros vírus, micróbios, micoses, ou será nós que tínhamos mais resistência a esses invisíveis bichinhos que o pessoal de hoje?)

Em frente à bodega, ficava a pensão de Sr. João do Alto, que tinha o costume de colocar a cadeira de balanço na calçada para ver o movimento da rua, e nós saiamos da escola vendo aquele pacato senhor sentado naquela cadeira de balanço. De vez em quando o ajudávamos a embalar a cadeira, até que um dia ele resolveu deixar um pedaço de madeira roliço perto da cadeira e não tivemos mais como embalá-la. (Desconfio que o incomodávamos). Saudosas travessuras de criança.

No final da rua, onde ficava localizado o Instituto São Vicente, os moradores da rua passavam uns mau bocados com os gritos, correiras e brigas dos alunos. Tal acontecia na espera pelo som do apito da fabrica, pois a escola abria nesse momento e os alunos entravam em horda bagunçada até as salas de aula. Não respeitávamos a sesta das D. Maria Pia, Maria Guedes e de Lilia, que hoje descansam em paz.
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Maria Amélia Pinheiro

terça-feira, 17 de maio de 2011



Evoquei todas as águas,

nas quais já me molhei.

Bendisse a vida.

Umedeci a pele,

folha seca da cegueira.

Agora posso fechar os olhos

Viver o que deixei passar.

Posso na vida

também adiantar o olhar.

Buscar-me, buscar-te

Entregar alma em mãos...

Confiar!

Socorro Moreira

Cega no invisível- socorro moreira




"Quem pensa muito não casa". Quem pensa muito vive cansado. Quem vive o dia, no caminho do sol, tem a esperteza dos mascotes.
Dias chuvosos, nos convidam a permanecer na cama. O apetite é voraz, olhamos menos para o espelho, nos desapaixonamos.
Hoje estou assim, desativada da minha energia natural. Caminho pesadamente, entre o térreo e o primeiro andar, e parece que tenho tamancos nos pés. O céu tem cheiro de lavanda; minha roupa tem cheiro de lama, e perfume do passado.
Escrever ainda é uma boa saída porque oferece passagem de ida e de volta, num vai e vem sem limites.
Visito um recanto, que apenas imagino. Busco o concreto imaginável, já que estou diante da cegueira, no invisível.
Subo no elevador. É o apartamento de um pintor. Respiro terebintina e tintas frescas. Imagino afrescos, e telas espalhadas pelos cantos. O dono está ausente. Viajou com um baú de desenganos, esculpindo pedras no caminho, rasgando a matéria, como se ela fosse molambo, e deixando nela, o produto do seu pranto.
Faço a vistoria, tateando a intuição : um sofá confortável, mas cheio de marcas; sala íntima com cheiro de "vetiver”; um relógio de pulso atrasado; canetas e papéis, numa escrivaninha de cedro; escritos em negrito, uns esquecidos, e outros amassados.
Falei com seu short, largado na cadeira do quarto. Ele olhou para mim meio intimidado, (desconfiou que eu não fosse uma ladra comum, pois de nada dali me apossara, a não ser com o olhar, e o resto dos sentidos) e disse-me:" ele me deixa assim, quando se cansa de mim".
Meu dono viajou. Ele sempre volta com um sorriso enfadado, e um brilho novo no olhar.
Sai do cenário. Não olhei em volta, nem fui até a janela, descobrir em qual cidade estive. Desprezei a personalidade física de um lugar, provavelmente conhecido.

Lembro (de) vagar ... - Por Socorro Moreira


Metades

Uma parte sabe que é ele
Outra parte sabe que é dele


Aprendo sobre mim
Não é em ti que eu me escondo



Gotas nos olhos da cara
salpicam em folhas
de papel e flores


Vento não apaga
a tinta borrada

Folha se gasta
e a lagarta pinta !



Destino
águas vivas
águas calmas

a Vida apresenta
eu bato palmas..

( joão Nicodemos)

Água - Por Assis Lima



Beleza mesmo é o Cariri no inverno,
época das chuvas.
Há quem prefira o seco e tórrido sertão,
e nele vislumbre uma beleza austera,
simples e luminosa como a antiga paisagem da terra santa.
O deserto esteve fincado dentro de mim,
áspera miragem.
Por falta de água em meu mapa astrológico
a estação das chuvas é oásis,
vida e encantamento.
Que me cubra o nevoeiro!
Relâmpagos e trovões:
estrondem na barra do meu horizonte
dias,
noites,
néctar.

Assis Lima

Bela, a madrugada ! - Por Socorro Moreira




O sonho voltou da estrada
e o sono tarda.

Lua alta, e o céu achando graça
Hoje fotografei a noite sem maquilagem
- A cara da noite tem sardas !

Bela era o nome dela.
Faltava-lhe alguns sinais,
mas possuía outros tantos.

A medida que o tempo passava
ganhava alguns ,
e perdia uns
Era uma de cada vez
Feia uma vez por mês

Sua imagem ficou solta,
nos instantâneos das lembranças
Ora bela, ora ela
Ora quase nunca , e tanto !