por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sábado, 27 de julho de 2013

Foto de Samuel Araujo


Perdas...Como viver sem senti-las?




Uma multidão de gente amiga e bonita prestigiou o lançamento do livro “A Delicada Trama do Labirinto”. Aliás, o prestígio foi de todos! Senti falta de Joaquim, Zé do Vale, Mariano, Stela... Mas não somos onipresentes... Ou somos? Eles estavam por lá, com a força do nosso desejo.
A  noite foi perfeita, em todos os sentidos- grande encontro cultural!
E a magia continuará ,nas tramas de um livro especial.
Parabéns,Zé Flávio!

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Estou farto de tantos adjetivos - José do Vale Pinheiro Feitosa

Esperto. Manhoso. Velhaco. Ardiloso. Mas não covarde pelo menos como é dicionarizado o termo. Poderia ser astúcia, bote de serpente ou espera de felino. Mas pode ser cafajeste, infame, vil, canalha. Que se dar à práticas de bandos, corja, maloca, malta, quadrilha ou súcia.

Seria isso um estigma? Quem sabe menos. Poderia apenas ser o aprendizado de uma prática social do grupo em que se originou. Ladino menos pela vivacidade e mais por ser um espertalhão. Com pose de prestamista seria aquele vendedor de títulos de terras na lua. Em módicas prestações, com juros e correção monetária.

No particular e no bando é dado a práticas da luxúria. Aos prazeres do sexo, das bebidas refinadas, das comidas caras e dos restaurantes arrasadores de cartões de crédito. É dez, doze, quinze por cento quase sócio das empreitadas e das empreiteiras. Em nome do povo é a fonte que regra sua vida cara.

E tem casca grossa. Casco de jabuti. Não se afeta por tudo que dizem a seu respeito, a vida de velhaco já tem o desrespeito como britadeira dos próprios mal feitos. Não adianta todas as imprecações e todas os anátemas jogados contra sua ética. A vilania é sua natureza.

Se houver um decreto que roube a própria constituição e for pego com a mão na massa, não tem problema, corrige-se o “assessor” e republica-se o decreto. Se o bonde tombar sobre sua completa falta de manutenção, pague-se a defesa do Secretário, o chefe é revestido de teflon. É assim esse típico malandro que herda oito anos na coincidência que gerou um bilionário que quebrou bilhões de muita gente e instituições.  

E o Coquetel Molotov estava na mão de quem mesmo? Há! Mas não tem quem prove. O Coquetel estava lá, numa mochila que ninguém carregava e no entanto afirmaram que estava com um manifestante. Mas isso foi a polícia quem disse. E tudo que se refere à polícia foi delegado.

A culpa é do Secretário de Segurança Pública. A ele foi tudo delegado. Ele é o responsável pelas falsidades, mortes, desaparecimentos e tudo o mais do que um dia grandes assassinos do mundo desejaram como guerra cirúrgica. É o famoso efeito colateral da mezinha aplicada a este corpo rebelde e vivo de um sociedade injusta e capitalista, dado a achaques, mas inteiramente vivo e reativo.


Olhando a imagem na televisão por breves momentos, os únicos da minha vida, tive vergonha de ser da mesma espécie biológica daquele sacripanta. Mas sei que a humanidade tem algo a mais do que apenas seu organismo vivo, tem história e aprendizado. Certamente acima deste pântano de comportamento.  

Quem me levará sou eu - José do Vale Pinheiro Feitosa


E no planisfério daquela minúscula bola azul há um porta por onde se entra e outra por onde se vai. Não se sabe bem se tudo se desmancha no revelo de planícies, planaltos, vales e montanhas. Mas de algum modo há uma porta de saída não se sabe se é apenas uma porta e nada mais, assim como do mesmo modo que ao entrar não se sabe se havia um lugar de onde vir.

Mas o certo é que nesta levada que a mim toca ir adianta posso dizer a todos os meus que “a gente se vê depois. Tarde, toda tarde ir fiando, no silêncio a costurar, noite no bordado, vem chegando em retalho e põe estrelas no lugar.”

Prometo a todos que serei a costureira do lugar. A todos vocês: Anastácia, Alceu Valença, Chico Buarque, Clodô, Climério, Djavan, Fausto Nilo, Gilberto Gil, Guadalupe, Manduka, Nando Cordel, Renato Teixeira e todos que dessa agulha comigo costuraram.

Na levada comigo mesmo levo a “sede de rio e a fome de pão.” “A sede do rio quem bebe é o peixe e sede de pão quem come é o chão. Apôs tá certo,” vim desde aquele “arrebol” de Garanhuns, “arrastando as alpercatas”, junto ao meu “anjo de guarda,” buscando “casa comida e paixão” e foi ai que “bateu no coração.” A “catingueira fulorou,” “vim de mala e cuia” “de volta pro aconchego.” E ói aqui “nós dois de testa”, tem tempo que “tudo é mel” e noutras horas o amargor do fel amanhece na nossa porta.  

Pois “eu sou do mundo,” pelas “costas do Brasil” traçando riscos na poeira, o “sertão me espera” e são “tantas palavras” como tantas são as dobras deste morim das saias das morenas. “E quando chega o verão é aquele desassossego no coração,” aquele sol bronzeando os desejos em forja de brasa.  São “sete meninas,” são todas as meninas. Algumas em cachos de pitomba, uma ruma são vagalumes na vereda, outras uma pluma de talco amaciando as pontas da vida. Mas de tudo quero, o que mais quero é um xodó. Aliás, “eu sou quero um xodó.”

“Estou de volta pru me aconchego, trazendo no peito bastante saudade.” Esse mato e essa terra e peço a tu, “não sai de perto de mim.” Mas a separação quando existe tem a trena da saudade. “Estou com saudade de tu, meu desejo, com saudade do beijo e do mel do teu olhar carinhoso, do teu abraço gostoso, de passear no teu céu.”

E posso dizer que levo a guia e logo na primeira parada “abri a porta.” “E apareci e a mais bonita sorriu pra mim. Nesse instante me convenci o melhor da vida vai prosseguir. Por este céu azul, onde a lei seja o amor e o bom e o melhor seja comum a qualquer um, seja quem for.” E neste lugar “cheguei para ficar.” “Nos olhos trago esperança, no coração trago amor e no futuro muita crença.”

“O amor não é sofrimento, não é tormento, não é dor, não existe lamento, o amor é o amor.” “Estrelas somos nós, dois vaga-lumes sós, dois objetos sós, tão sós, tão sós vamos vagando no ar.” Flutuando sem a economia do ar, a contabilidade da água e os custos dos alimentos. Vagando acima das posses, das cercas proprietárias, das contas bancárias, da renda e do imposto sobre a renda. Mas vagando acima destas coisas sem jamais esquecer das pessoas e tantas possibilidades de costurar a vida de modo tão surpreendente como o nascer de uma estrela.

“Amigos a gente encontra, o mundo não é só aqui. As coisas que eu tenho aqui, na certa terei por lá. Segredos de um caminhão, fronteiras a desvendar. Passar como passam os dias e se o calendário acabar eu faço contar o tempo outra vez. Tudo outra vez a passar. Quem me levará sou eu, quem regressará sou, não diga que não levo a guia de quem souber me amar.”

Atenção: texto construído com as letras das canções de Dominguinhos e seus parceiros. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

J. Flávio Vieira lança mais um livro no Crato

Quarto livro do escritor J. Flávio Vieira, "A Delicada Trama do Labirinto" foi contemplado no VIII Edital de Incentivo à Cultura no Estado do Ceará. 


São crônicas poéticas, histórias caririneses bem humoradas e textos mais reflexivos que abrangem mais de 15 anos da produção literária do autor, num total de 340 páginas. 



O projeto gráfico é do consagrado artista plástico caririense Reginaldo Farias. Parte da edição será destianda às escolas de ensino médio do Cariri com o fito do incentivo à leitura de autores regionais e de histórias da rica e diversificada Cultura Sul-Cearense.

O livro : A Delicada Trma do Labirinto inclui uma seleção de textos ( mais de 140) , em três grandes blocos : 1- "A Delicada" : Textos mais poéticos; 2- "A Trama" - histórias engraçadas centradas no Cariri; 3- " Do Labirinto" - Textos mais reflexivos. 

O lançando o livro : "A Delicada Trama do Labirinto" 

Fonte: Secretaria de Cultura do Crato 


terça-feira, 23 de julho de 2013

O Caminho Único de Santiago se desmanchou em outros destinos - José do Vale Pinheiro Feitosa

Não fui buscar as estatísticas. Contive-me apenas com a impressão. Impressão marcante e surpreendente. Uma cidade que já é cheia por natureza, nela ser visível um volume muito maior de gente.

Na orla litorânea, na beira da Lagoa, nas ruas dos bairros, no centro da cidade, nos pontos turísticos, nas estradas, ônibus, aviões, nos prédios e praças grupos de pessoas com as camisetas da JMJ. Ou Jornada Mundial da Juventude.

A maioria jovens. Tirando fotos, nas calçadas, com mochilas, quase em procissão com filas duplas ou triplas para não se perderem um dos outros pelos espaços estreitos. Lembro de uma sensação assim, qual seja viver numa megalópole invadida, de outra vez, mas naquele remoto tempo por gente em veículos.

Foi numa disputa do Fluminense com o Corinthians e os paulistas tomaram as ruas da cidade com seus carros, ônibus, bandeiras e cantos de torcida. Agora a visita do Papa Francisco junta-se a um Congresso católico mundial.

Que a rigor é o encontro de jovens latino-americanos. Isso pela crise na Europa e por um fato real: o catolicismo é uma religião menos europeia hoje do que foi no passado. Mais de 65% deles estão noutros continentes e especialmente na América Latina. Eis porque habemus papam.

Quando o primeiro Papa visitou o Brasil em 1979, apenas esteve aqui no Rio. Na época lembro que limparam a imagem do Cristo Redentor e de multidões nos seus encontros públicos. Mas as ruas da cidade não tinha tantos estrangeiros quanto agora.

Uma salada de línguas, sendo a principal o Espanhol. Um novo tipo de peregrino. Naquele final dos anos setenta, eram pessoas de mais idade, vindas do próprio país. Visitavam a cidade, mas não tanto e tão expansivamente como agora.

Agora tudo é diferente. Além do Papa latino-americano. Acontece que jornais, blogs, redes sociais não são consensuais sobre a visita e as despesas públicas que gera. O mesmo senso crítico que envolveu a Copa das Federações.

Isso surgiu na manifestação de ontem nas Laranjeiras, Largo do Machado e Flamengo. Os manifestantes tinham em seu conjunto uma agenda variada, mas com um discurso uniforme: contra o Governador aquele que tem a caneta das despesas na mão, contra as posturas conservadores do Vaticano a respeito das expressões GLT, e contra a religiosidade invadindo o território laico do Estado.

A verdade é que agora a marcha da humanidade nas ruas brasileiras já não tem a ordem unidade daqueles anos das primeiras visitas. Além da unicidade, temos a multiplicidade. Na verdade sempre coexistiram, mas agora os diferentes se manifestam e se apresentam. Aliás já havíamos sentido isso na internet.

    

domingo, 21 de julho de 2013

As manifestações são a guerra política mundial - José do Vale Pinheiro Feitosa

Saiu publicado em alguns blogs (Carta Maior e Outras Palavras) a tradução de um texto de Immanuel Wallerstein analisando as manifestações populares que, tal qual sabemos, acontece em várias partes do mundo. A característica mundial das manifestações é o foco de sua diferenciação em relação a lutas populares localizadas, por vezes, até em regiões de um país. Junto com a crise econômica que atinge o centro industrial as manifestações forma um par gravitacional como se fossem estrelas duplas.

A principal conclusão de Wallerstein é que as manifestações fariam parte de um processo contínuo de algo que começou com a revolução mundial de 1968. (No final do texto ele explicará melhor o que seria esse algo). Estas manifestações teriam as seguintes características:

A primeira é que todas as revoltas tendem a começar muito pequenas e se pegam (de modo imprevisível) tornam-se maciças. Não só o Governo é atacado como também o Estado o é. Reúnem no mesmo barco quem quer apenas a mudança do governo e quem questiona a legitimidade do Estado. O tom das manifestações começa pela esquerda política e tem como tema a democracia e os direitos humanos, embora com variações sobre o conceito do que entendem dos dois temas. Normalmente a reação dos governos é reprimir ou abrandá-las com concessões ou as duas coisas. A repressão funciona, mas pode juntar mais gente ainda nas ruas. A concessões funcionam mas podem servir para ampliar as demandas. Embora as repressões sejam a principal opção elas tendem a funcionar em prazo relativamente curto.

A segunda característica é que não continuam intensos por muito tempo. Os manifestantes sente o efeito da repressão, ou são cooptados pelo governo, ou ficam cansados, mas isso não indica uma derrota. E, portanto, a terceira característica é que deixam um legado, mudam políticas quase sempre para melhor como discutir as desigualdades ou aumentar a dignidade do povão ou, ainda, ficam vacinados contra a demagogia de governos. A quarta característica é que os que chegam depois aos movimentos, em outras ondas de protestos, não chegam para preservar os objetivos iniciais, mas, ao contrário para perverte-las ou para levar grupos de direita ao poder.  A quinta características de todas as manifestações é que terminam por receberem influência de governos poderosos, de fora do país, que procuram ajudar os aliados aos seus interesses para que atinjam o poder.


E então ele conclui o texto identificando o algo que tem traçado uma movimentação de massas em todo o mundo desde 1968. Segundo Wallerstein estaríamos no meio de uma transição estrutural: de uma economia mundial capitalista, que está se esgotando, para um novo tipo de sistema. Esse novo sistema pode ser melhor ou pior. E por isso a grande batalha política mundial nos próximos vinte a quarenta anos é o que emergirá desta transição. 

Onde fica o centro do terrorismo mundial - José do Vale Pinheiro Feitosa

Esta semana, alegando profunda depressão, renunciou à candidatura para a presidência da República do Chile o candidato direitista Pablo Longeira. O agora ex-candidato, que já fora deputado e senador, começou sua liderança embaixo do guarda chuvas da ditadura chilena tendo sido escolhido por Pinochet para ser Presidente da União dos Estudantes da Universidad Catolica. Longueira, em 1986, liderou um quebra quebra sobre os carros que transportavam o ex-Senador e já faelecido Edward Kennedy que fora ao Chile falar em Direitos Humanos.

O radicalismo da direita chilena não foi maior e nem menor do que no resto da América Latina. A direita latino americano foi um substrato sobre o qual os EUA agiram em torno dos interesses próprios de suas empresas e corporações. De modo que o radicalismo da direita por esta região foi um lago de mágoa preenchido pelos interesses exclusivos dos EUA e quase nada dos povos da região.

O pensador ocidental Noam Chomsky falando sobre o móvel da política externa dos EUA em seu livro “O que tio Sam Realmente Quer?” é claro sobre a motivação: o exclusivo interesse das empresas americanas. Análises realizadas pelo economista Edward Herman encontraram uma correlação em todo mundo entre a tortura e a “ajuda norte-americana”.  A conclusão é que a tortura e a ajuda “estão correlacionadas com a melhoria da condições de operações das empresas”. 

Pelos cálculos realizados por Chomsky e outros pensadores, os EUA estão diretamente envolvidos, só na América Central, ao assassinato de 200 mil pessoas além de terem dizimado todos os movimentos populares que lutavam por democracia e reforma social. E antes que alguém pense em Stalin, não falo em Hitler pois este está no espectro político de quem logo assim argumenta e claro os EUA e a direita latino-americana, transcrevo a conclusão do texto de Chosky: essas façanhas qualificam os Estados Unidos como fonte de “inspiração pra o triunfo da democracia em nosso tempo”, nas admiráveis palavras da revista liberal New Rapublic. Tom Wolfe conta-nos que a década de 1980 foi “um dos grandes momentos de ouro da humanidade”. Como diria Stalin: “Estamos deslumbrados com tanto sucesso.”

Não deixam de ser reveladoras as fotos das intervenções americanas na América Latina. Examinenos estas duas fotos que seguem e sintamos o que dizem. A primeira é o encontro do Marechal Castelo Branco em sua face de hospedeiro satisfeito e um sorridente Lincoln Gordon, embaixador americano o homem que operou o Golpe de Estado a favor dos EUA. E a segunda esta ameaçadora foto de Pinochet tendo às suas costas homens com as fardas da Forças Armadas chilenas.

Castelo Branco e Lincoln Gordon

Pinochet: o ódio se instala

Onde esse texto quer chegar? Ele faz parte de uma série que postei sobre o Chile. Ele é uma sequência sobre Pablo Neruda, a quem voltaremos sobre sua vida e obra. Mas a questão básica é que Neruda morreu logo após o golpe de Pinochet. Ele já estava doente com um câncer de próstata. Provavelmente morreria em consequência, mas o que choca a todos é a possibilidade de sua morte ter sido executada sobre as ordens do esquema golpista do Chile e com a participação da CIA. Após a morte de Allende, Neruda era o último símbolo da luta popular no país. Para consolidar rapidamente o poder golpista, eles teriam eliminado intencionalmente Neruda para não deixar nenhuma resistência às forças mortíferas que se instalaram no Chile.

E antes de ouvir o velho argumento de que apesar da ditadura o liberalismo melhorou a vida do chileno, é preciso que se diga o seguinte: a) o Chile viverá algumas gerações com ódios recíprocos em razão da violência; b) em que melhorou a vida de alguns na fase de ouro das exportações de commodities, c) hoje o Chile é um país meramente exportador de matéria prima. E alguns setores chilenos que se acham privilegiados ainda devem gozar os turistas brasileiros se vangloriando dos baixos preços dos automóveis chilenos que lá pagam menos da metade que aqui.


Mas tem uma realidade cruel: o Chile tem que importar o combustível que move sua frota e não gera nenhum emprego no setor. Toda a sua frota é fabricada e geram empregos em outros países. Este modelo é furado: só leva dinheiro do povo chileno que o ganha vendendo matéria prima. A cada dia se aproxima mais o abismo deste tipo de realidade neste mundo que se queira ou não continua sendo industrial.    

PARLAMENTO OU REVOLUÇÃO? - por Pedro Antônio Lima Santos


 

É necessário reconsiderar algumas questões resultantes das manifestações populares de rua. Uma dessas questões é a violência latente, presente e expressa nessas manifestações. Outra questão é o próprio futuro das manifestações: continuar como manifestação, esgotar-se ou transformar-se.

Quanto à violência convém colocá-la em um contexto mais amplo. Pois, a violência, contrariando o sonho idílico dos que querem ver o brasileiro como um povo pacífico, já existia antes das manifestações e se encontra em um processo de crescimento e de expansão por todo o Brasil.

O tráfico e o consumo de drogas produzem, diariamente, cenas de violência (assaltos, espancamentos, assassinatos), que são divulgadas profusamente pelos meios de comunicação.

A violência do trânsito mata tanto quanto as guerrinhas entre países que andam por aí. Há a violência contra as mulheres, contra os idosos e crianças, contra os homossexuais e os negros (e até contra os nordestinos). Mutilações e mortes, sequestros, sequestro-relâmpago, estupros, explosão de caixas eletrônicos –a lista de violências parece interminável.

Mas, há também a violência do Estado, que se manifesta, por exemplo, nas balas-perdidas e balas-encontradas que matam cidadãos –velhos, adultos, jovens e crianças. O Estado age com violência nos processos de reintegração de posse e, mais recentemente, nas manifestações populares de rua. No passado também era assim.

Também há quem diga, às vezes, como um mero slogan, uma bandeira de luta ou uma figura de retórica, que a violência maior do Estado é manter a maior parte da população na pobreza e na miséria. De certo modo, essa violência histórica do Estado é, como diriam alguns, a mãe de todas as violências.

Embora se verifiquem ações violentas de massa e individuais em países sem pobreza e sem miséria (dir-se-ia que estes são elementos intrínsecos da sociedade capitalista), isso não chega a ser muito comum. Assim, acredita-se que uma população informada, assistida e respeitada, com saúde, educação, trabalho e segurança seria uma população pacífica e ordeira. Não há consenso sobre isso. Os assassinatos em série nos Estados Unidos da América e até na Europa (Noruega), as cenas de intolerância racial, sexual etc. desmentiriam aquele enunciado.

Mas isso não explica tudo ou não explica nada. Nada justifica a violência, nem do Estado contra as pessoas, nem das pessoas, nas manifestações populares de rua, contra a polícia e contra as propriedades.

O Brasil é um Estado democrático e de direito. As leis garantem aos cidadãos direitos de livre expressão e de manifestação, e o direito de ir e vir. Cabe ao Estado garantir a integridade das pessoas e das propriedades.

Aí alguém poderia dizer: -A lei só protege os grandes. Os pobres e os miseráveis são, sempre, os desprotegidos da lei. Neste caso, a solução é mudar as leis, aperfeiçoá-las; e mudar os políticos, escolhê-los melhor.

Isto nos remete à outra questão colocada no início dessas anotações: qual o futuro das manifestações populares de rua?

O Partido dos Trabalhadores teve sua origem, também, nas grandes manifestações de trabalhadores, no sindicalismo e em outros movimentos sociais. Quando participei de sua fundação, em Natal, havia o dilema entre adotar a via parlamentar ou seguir o caminho revolucionário. Muitos dos militantes que defendiam esse caminho saíram do Partido dos Trabalhadores e hoje integram partidos como o PCO, PSTU e PSOL…

Coube ao Partido dos Trabalhadores, a partir de 2002, inverter as prioridades nacionais para realizar uma agenda, que ataca a pobreza e a miséria (seculares), garantindo dignidade e cidadania para milhões de brasileiros.

Mas, hoje as manifestações populares de rua repudiam os partidos, os políticos e até a própria Política. Essas pessoas não se sentem representadas pelo Congresso Nacional, desconfiam dos Tribunais e temem a polícia. Então como encaminhar e realizar suas reivindicações –as transformações que almejam para o Brasil?

Parece pertinente, portanto, evocar, aqui, aquele antigo dilema entre a via parlamentar e o caminho revolucionário.

Os grupos que organizam as manifestações e as pessoas que fazem parte delas tenderiam a se institucionalizar, sob alguma forma de entidade ou até mesmo de partido político?

Ou permaneceriam convocando e realizando manifestações para divulgar suas reivindicações? Esta opção corre o risco de se esgotar com o tempo, por falta de organicidade e de objetivos claros.

Porém, se alcançar organicidade e conseguir definir com clareza os seus objetivos, poderia acenar com a perspectiva, digamos, revolucionária. Neste caso, prefiro acreditar que o conteúdo da palavra REVOLUCIONÁRIA explodiria em alguma forma, ainda não realizada, de democracia, onde a política, como o amor, diria respeito e seria praticada por todos os cidadãos.

Sei que as utopias desse tipo ou desapareceram ou andam escassas. Entretanto, um modo de tornar realizável a utopia de uma democracia radical, hoje reivindicada nas ruas, é defender e aperfeiçoar a temos.

 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Ariado



J. Flávio Vieira

                                               A história de Zé Felipe não se fazia tão diferente  de muitos outros caminhoneiros Brasil afora. Começara com uma pequena Rural transportando feirantes de Matozinho para cidades vizinhas como Bertioga e Serrinha dos Nicodemos. Aos poucos o negócio foi progredindo  e Zé comprou uma caminhonete, depois uma sopa e, já nos anos quarenta, terminou adquirindo seu primeiro caminhão, ramo em que acabou se fixando pelo resto da vida. Estradas de barro , esburacadas, íngremes, tortuosas,  a profissão era uma aventura digna de um  Fernão Dias Paes Leme. Acostumara-se àquela vida de peregrino, de judeu errante. Mesmo velho, por inércia, já era impossível parar.Transportava cargas sem destino previsível, de um ponto a outro do país. Muitas vezes passava  mais de seis meses sem retornar a Matozinho.  A família não tinha nenhuma notícia de Zé neste período. A única comunicação possível seria via telegráfica e saltando de cidadezinha em cidadezinha, pelos ocos mais inóspitos do Brasil, até esta via se mostrava inexeqüível. Restava aos familiares a saudade e a prece.
                                   Cada retorno de Zé , assim, inundava a vila de alegria, comemorava-se o feito de um herói, como se ele houvesse escalado o Everest ou pisado pela primeira vez no Pólo Sul, como Amundsen. Por outro lado, Felipe vinha também como um Marco Pólo, trazendo notícias e histórias de terras distantes e quinquilharias para vender ao povo de Matozinho: últimas novidades da civilização.  Quando o velho caminhão Mercedes  apontava na descida da Serra da Jurumenha, a vilazinha exultava. Junto de Zé , seu eterno ajudante : Tico Biroba. Eles faziam uma dupla perfeita: D. Quixote e Sancho Pança da Caatinga. As histórias de Felipe ainda hoje inundam o imaginário de Matozinho, tantos anos depois, pelo inusitado, pelo humorístico, pelo doce tom de irreverência.
                                   Cada curva da estrada escondia perigos insondáveis. Felipe computava inúmeros acidentes na profissão. O maior deles , no início dos anos cinqüenta, uma capotagem terrível nas montanhas das Minas Gerais, quase dá cabo dele e de Biroba. Escaparam,  mas o caminhão destruiu-se, em tempos em que seguro de carro  inexistia. Zé ficou com uma mão no cano e outra no feixe, triste e desiludido pelos cantos. Escreveu então a Getúlio Vargas, então presidente, contando o infortúnio por que passava, agora, inclusive, sem mais ter como sustentar a família. Dias depois recebeu, por incrível que possa parecer, uma resposta do Catete. O presidente lhe ofertava um outro caminhão para que continuasse a vida nômade. Felipe recebeu-o no Rio de Janeiro e  escreveu no pára-choque uma frase que demonstrava toda  sua gratidão : “Esse foi Getúlio quem deu !”
                                   Varando as tortuosas estradas do Brasil,  por tantos e tantos anos, Felipe conhecia cada buraco. Familiarizara-se com mecânicos, borracheiros, bodegueiros, motoristas por tudo quanto é de biboca desse país. Bom papo, cheio de presepadas, conheciam-no nos lugares mais ermos, como se fora uma reencarnação de Pedro Malasartes.  Suas peripécias corriam de língua em língua e até foram , um dia, imortalizadas em um cordel atribuído  ao poeta Pedro Pito. Foi do cordel esgotado de Pito que arrancamos algumas dessas histórias  que deixamos registradas aqui, na esperança que este texto tenha mais durabilidade que as páginas já puídas do nosso poeta maior.
                                   Numa das suas raras permanências em Matozinho, Felipe encontrou, um dia, na feira, com Mané Mago, um varapau que morava nas terras do Cel Anfrízio, homem sério como fundo de touro e de pouca conversa. Mané passara uma época em São Paulo e, não encontrando o El Dorado, retornara a sua vila, com o rabinho entre as pernas. Trouxera, junto com ele, aquela indumentária própria para o inverno paulista e não a dispensava , mesmo no sol mais escaldante de outubro. O adereço mais chamativo era um chapelão enorme que mais parecia uma sombrinha. Foi com essa arrumação que Zé Felipe deu com ele, no pino do meio dia, na feira. Cumprimentou-o, cordialmente, mas não perdoou :
                                   --- Zé, meu amigo ! Onde é que você vai montar esse carrossel ?
                                   Zé, enfezado, saltou com quatro pedras na mão :
                                   --- No cu da mãe, Felipe ! No cu da mãe !
                                   Felipe não se enrolou :
                                   --- Bacana, Mané ! Só assim eu rodo de graça !
                                   Em uma das suas incontáveis viagens, no inverno,  o caminhão atolou feio lá pras bandas da Paraíba. Alguns  lavradores ,que limpavam uma roça próxima, reconheceram o motorista e vieram ajudá-lo. Calça daqui, cava dali, empurra dacolá , depois de umas duas horas, conseguiram, por fim, desatolar o veículo. Estavam todos exaustos e calabreados como se trabalhassem em Serra Pelada. Os lavradores eram todos de uma mesma família, residente ali próximo. Todos atarracados e com uma característica interessante, pescoço curtíssimo, como se a cabeça saísse diretamente dos ombros. Já no carro e acelerando, Zé perguntou-lhes quanto devia. Eles, solícitos, disseram que não era nada, enquanto já retornavam meladíssimos ao trabalho da roça. Saindo, Zé Felipe gritou :
                                   --- Obrigado, amigos ! Quando eu voltar de Campina Grande vou trazer um par de pescoço pra cada um de vocês !
                                   Teve que acelerar rápido, pois o palavrão e a pedrada comeram no centro !
                                   De uma outra feita, no interior da Bahia, próximo a Jequié, em plena zona rural, algumas pessoas atravessaram na estrada , pedindo socorro. Zé Felipe freou. Uma mulher contou então que o pai estava muito doente e pedia ajuda para levá-lo, no caminhão improvisado de ambulância, até a cidade.  O motorista mostrou-se solícito, mas pediu para examinar primeiro o paciente, pois se dizia experiente, já fora meizinheiro na feira de Matozinho e, quem sabe, poderia ajudar. Levaram-no até uma casinha de taipa e lá, em um dos quartos, encontrava-se um senhor  gordo, com uma barriga enorme e feio como o diabo com convulsão. Disse que estava sem desistir há mais de uma semana e não soltava um vento nem pelo amor de Deus. Zé o examinou, rapidamente e selou o diagnóstico :
                        --- Minha senhora, não é nada demais! É só um peido ariado. O cabra é feio demais e o peido fica zanzando pra cima e pra baixo :  não sabe se o cu é em cima ou embaixo !
                        Já velho, Zé Felipe, ainda em atividade, caiu doente. Pressentiu que a velha da foiçona arrodeava sua casa. Chamou Tico Biroba, o companheiro de toda uma vida e pediu-lhe que passasse com o velho Mercedes diante da sua casa e desse um apitão daqueles de ecoar na pradaria. Biroba, com os olhos lacrimejando, realizou o desejo do chefe e foi montado naquela buzina  que Zé Felipe empreendeu sua última viagem , desta vez por uma estrada escura e totalmente desconhecida.

Los Perros y el Poeta - José do Vale Pinheiro Feitosa

As longas ruas de Santiago assim as são pelo comprido vale que se estica entre os Andes e a Cordilheira do Mar. E por todas as alongadas ruas os cães vivem soltos, especialmente no centro formigueiro de gente. Ainda não em matilhas, mas em grupos ou solitários.

A sociedade protetora dos animais manifesta sua vontade política de não retirá-los das ruas, os donos de bancas e camelôs os alimentam e assim cães que viram latas, mas vira-latas não são pelos padrões das pobres ruas brasileiras, ocupam um território. Atravessam as longas e movimentadas avenidas da capital ao ritmo das pessoas, pelos sinais, sem compreenderem as cores, mas seguindo a procissão humana em obediência ao verde sinalizado.

Do corpo congelado dos latifúndios conservados e dos feitores da mineração do cobre surgiu uma elite ígnea e por isso mesmo acobertou-lhe uma grossa camada oxidada. Dessa ferrugem em camadas como uma massa folheada, vieram os bastardos do latifúndio e das susseranias, as sobras lanhadas dos feitores rurais, as escolas de fazer guerra aos apelos das novas camadas populares em busca de participação nas riquezas.

Estos perros se convirtieron em matilha. Assaltaram o poder popular, bombardearam a sede do poder democraticamente eleito. Aprisionaram, torturaram e mataram os cantores, os artistas, os líderes, os estudantes, os operários, los obreros como Manoel de Amanda.

Levaram a todos para o Estadio Nacional e ali começaram a seleção de assassinatos, de soltar os cães agressivos, os chutes na barriga das mulheres grávidas. Um oficial louco de ódio trucidou o compositor e cantor Victor Jara. O canil fora alimentado na medida, nem muito e nem pouco, mas com a ameça da escassez pelo governo imperial dos Estados Unidos da América em Saque. A matilha dos cães do Chile orquestradas pela chibata de comando de Augusto José Ramón Pinochet Ugarte.

Os franceses têm muitos créditos com a civilização ocidental. Mas um débito tremendo com os direitos humanos, com a dignidade e a paz dos povos em razão do seu pervertido espírito colonial. Não muito diferente dos outros países colonialistas da Europa, mas esmerados em técnicas de fazer sofrer os oprimidos. A sua prolongada guerra colonial na Argélia gerou o pior dos soldados, aquele pervertido em torturas e destruição da humanidade e das pessoas. Era, Augusto Pinochet, filho de um militar de origem francesa.

Los perros atacaram La Chascona, a residência do poeta Pablo Neruda e de Matilde, que fica ao pé do Cerro San Cristóbal no bairro popular de Bela Vista. Cercaram o bairro com armas e veículos de guerras. Os soldados tomaram as ruas, entraram na casa do poeta, saquearam os livros e os queimaram em las calles próximas. A nuvem negra do sacro espírito das fogueiras inquisitoriais. O ódio ao poeta. Aos comunistas. Ao povo que havia eleito Salvador Allende.

O golpe de los perros aconteceu no dia 11 de novembro de 1973 e no dia 23, doze dias passados, morreu Neruda. Membros das embaixadas, especialmente da embaixada da Suécia se deslocaram em solidariedade a Matilde que cercada por los perros, velava o corpo do poeta. La Chascona estava cercada por baionetas caladas. E Matilde resolveu que iria levar o corpo de Neruda pelas ruas até ao cemitério sobre enorme risco pela saliva de ódios da direita chilena que cercava o poeta.

No dia marcado Matilde não ficou só. O embaixador da Suécia, Harald Edlestam que salvou muitos exilados brasileiros e que é tema de um recente filme sueco, entrou no meio do cortejo em franco desafio às balas dos golpistas. E vieram outros membros de outras embaixadas e los perros não tinham como atacar este pessoal, mas acompanharam o féretro com passadas de fel espelhado pelas ruas de Santiago. Para surpresa da história, anônimos foram surgindo não se sabe de onde e silenciosamente engrossaram o cortejo que honrava o poeta maior do Chile.


Um desafio ao ódio. À morte. Ao assassinato e à tortura. O poeta não saiu vencedor da morte física, mas a humanidade dos chilenos foi salva neste gesto. Incluso los perros no pueden esquercer de ella.