por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sábado, 6 de outubro de 2012

Coerência - Emerson Monteiro



Dentre as tantas histórias de Francisco Cândido Xavier, consta que, uma vez, o médium viajava de avião, na época dos resistentes DC-3, tradicionais bimotores a servir nas linhas aéreas do interior do Brasil, quando a aeronave resolveu falhar um dos motores em pleno vôo, para desespero dos que a ocupavam.

Mobilização geral na tripulação, por si só conformada, nessas horas difíceis. Os passageiros, todavia, entraram em pânico e desalento, tumultuando de incomum agitação os céus tranquilos de Minas Gerais.

Chico Xavier também não ficou de fora daquilo de emoções intensas nos momentos críticos. Entrou extremoso no clima que se configurava. Corre daqui, corre dali, braços aos ares, mãos a coçar a cabeça, gritos, aflição que tomava conta dos protagonistas, nas ensolaradas nuvens lá de cima.

Esse instante de gravidade fê-lo lembrar do seu guia espiritual, Emmanuel. Naquilo tudo, recolheu-se aos mais íntimos pensamentos e ainda conseguiu estabelecer contato e emitir pedido de urgência ao bom espírito, dada a situação vexatória por demais aonde padecia.

Naquele meio tempo, o comandante estabelecera providências e buscava aeroporto próximo, a fim de realizar o pouso forçado, quando Chico avistou, deslocando-se pelo intervalo das poltronas do avião, chegando na sua direção, a figura benfazeja de Emmanuel, motivo inigualável da mais pura felicidade do médium.

- Sim, Chico, me chamou? – indagou a princípio.

- Chamei, chamei – respondeu ofegante o sensitivo mineiro.

- Pois diga de lá o que com isso pretendeu.

- Ora, Emmanuel, não vê o que se passa comigo, no meio desse sufoco? Os acontecimentos a seguir como vão, e morreremos todos, sem qualquer apelo.

O espírito olhou em volta, prudente, reconhecendo a agitação que contagiava os ocupantes do vôo tumultuado. Outra vez fitou Cândido Xavier e disse:

- Sei, Chico, que ocorre tudo isso. Vejo o medo que invade os corações do grupo de que fazes parte, nesta hora – seguiu dizendo: - Contudo trate de adquirir a calma; se comporte à altura; controle seus nervos; dê exemplo de quem sabe das coisas do outro lado da vida.

- Mas, Emmanuel, o que espera para nos auxiliar a todos? Não observa que posso a qualquer momento desencarnar com a queda do aparelho? – e, quase a chorar, acrescentou: - Vou morrer sem ver os amigos, parentes...

- O que é que tem demais, Chico? Por isso mesmo, então, domine o desespero e morra com educação... No mínimo isso, morra com educação.

PARLENDA


















PARLENDA


Não temo a morte na floresta
não temo a morte na floresta
não temo a morte na floresta

Não temo a morte verde na floresta
não temo a morte do fogo na floresta
não temo a morte da água na floresta

Não temo a morte cinza na floresta
não temo a morte negra na floresta
não temo a morte branca na floresta

Eu vivo na cidade – não conheço a floresta
eu vivo na cidade – não temo a morte
não temo a morte na floresta – não temo a morte.




sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Charles e a vida que deveria e não é - José do Vale Pinheiro Feitosa

Charles tocando Valsinha


O que tem de vida na própria vida é o conteúdo do tempo que ela inventa. Sem possibilidades de condenações legais, embora a lei exista. Sem julgamentos morais, embora a Moral seja da história. Sem julgamento de qualquer espécie, embora viver em sociedade signifique a vigilância de outro.

O que vocês acabam de ouvir acima é a genialidade de um menino precoce que no início dos anos oitenta encantava a televisão, o público que o ouvia nas ruas de São Paulo e, principalmente, os músicos. O grande Altamiro Carrilho achou que aquele talento tão precoce e sem mestre algum só podia ser algo divino, explicado por uma reencarnação de alguém que chegara a este mundo de outra experiência histórica. O Maestro Júlio Medaglia apostou que ele seria um dos maiores flautistas do mundo e arranjou-lhe uma bolsa de estudos para a Alemanha.

Chamava-se Charles Gonçalves e de tão surpreendente em sua precocidade musical que recebeu o apelido de Pinguinho de Gente. Tocou com Paulo Moura e Artur Moreira Lima, além do já citado Altamiro Carrilho. Mas eis que o estado alterado da mente seja pelo álcool, drogas ilícitas ou lícitas, seja que sob a miséria das ruas de São Paulo, um pai viúvo, músico e pobre que cedo deu às ruas para os filhos exibirem seus talentos e ganharem algum trocado para ultrapassar as 24 horas do dia.

Há quatro anos Charles Gonçalves, o Charles da Flauta foi relembrado, objeto da curiosidade da televisão e de colunistas de jornais como Gilberto Dimenstein tentando promover o IBOPE e extrair conteúdos moralistas, que sejam sobre a educação pública. Acontece que Charles é gente como gente somos nós. Gente destruída e abandonada por um modelo de sociedade que só compreende o topo e detesta a base em que a maioria se encontra. Uma sociedade excludente que só poderia lançar, como o fez, Charles no Crack, destroçado, morando sob tetos de papelões embaixo do Viaduto Costa e Silva que eleva os automóveis sempre apressados, sem olhar para os lados.

E me lembrei de Charles apenas para lembrar-lhe neste 7 de outubro das centenas de Charles que estão com os dedos queimados pela “pedra” em algum terreno baldio, nalguma rua deserta dos nossos bairros da periferia. Os dedos queimados que já não tocam mais a vida, mas expõem a miséria desta sociedade desigual cuja razão a cabe a todos. Inclusive na hora de votar e eleger. 

O Programa Fantástico da TV Globo fazendo a crônica do inevitável sem fazer a crítica do evitável com uma boa dose de cinismo entre os apresentadores e dando ao programa televisivo a descoberta que não fez, qual seja apoiar uma sociedade que joga pedras para que os jovens pobres queimem. A culpa é do Charles tal qual um Pilatos moderno aponta o dedo em direção do Gólgata. 

PADRE FREDERICO NIERHOFF – por José Almino Pinheiro

No dia 31 de outubro, há 37 anos, falecia o Padre Frederico Nierhoff, um dos grandes homens que influenciaram a história recente do Crato. Por 20 anos, de 1948 a 1968, ficou à frente da paróquia São Vicente do Crato, onde conseguiu, sem alardes, deixar profundas marcas de sua atuação, tema tão bem exposto nos artigos de Armando Rafael. 

Aqui gostaria de tratar um pouco como era a minha convivência com o Padre. Fui batizado por ele, fato que muito me marcou. Com o batismo entrei no mundo da fé, tinha me livrado do limbo e do pecado original.  Por isso achava que ele era o responsável pela minha salvação. De mim tinha gratidão, admiração e respeito, ao mesmo tempo que me dava o direito  e a  liberdade para fazer questionamentos que, de outra forma, não teria coragem de fazer a meus pais ou mesmo aos meus professores de religião. Na adolescência, época do catecismo tradicional, o que sentia era medo, causado pelo ensinamento religioso sombrio, fundamentalista, baseado no temor a Deus. Para qualquer deslize havia a constante ameaça de acabar no inferno ou, na melhor hipótese, no purgatório. Tinha calafrios em pensar no pecado mortal que, uma vez cometido, e sem confissão e arrependimento, não tinha escapatória, era queimar no fogo eterno, O pecado original tal qual aprendi, era o que já nascemos com ele, uma dívida herdada das estripulias de Adão e Eva. Para mim não era fácil compreender esse fato, não considerava justo pagar pelo mau comportamento de algum ascendente, afinal o que eu tinha com isto? Para mim era uma contradição, e Deus é justo.  Essas foram as primeiras dúvidas que precisavam de esclarecimentos, as dúvidas seguintes eram para derreter o juízo: os mistérios da fé, missa celebrada em latim, os Dogmas , a Santíssima Trindade, fugiam ao meu entendimento.  Não tinha jeito, estava convencido que seria condenado, iria para o inferno.  

O Padre Frederico era da Congregação dos Missionários da Sagrada Família. Ordem fundada na Holanda pelo Padre Frances Jean Berthier, em 1895, portanto moderna, já com pouca influência do fundamentalismo medieval.  A ordem é dedicada à proteção da Sagrada Família e foi inspirada na frase de Jesus: “A messe é grande, mas poucos são os operários" (Mt 9,37).

A Ordem do padre Jean Berthier congregava as “vocações perdidas” com o chamado do Papa Leão XIII para a urgente formação de padres, a fim de enviá-los ao estrangeiro para a difusão da fé. Os padres deveriam seguir já ordenados sacerdotes e prestados os devidos votos obrigatórios de pobreza e castidade. No inicio do funcionamento da ordem, principalmente na Alemanha, o entendimento das “vocações perdidas” significava basicamente adultos com algum tipo de profissão dispostos a se tornarem padres e partir para as missões. De forma que a Ordem Sagrada Família era composta por padres “operários” nas mais diversas profissões: médicos, engenheiros, carpinteiros, mecânicos, enfermeiros, técnicos em geral. O Padre Frederico, por exemplo, era padeiro. Essa característica da ordem visava que os padres com seus conhecimentos pudessem em suas missões, ajudar de alguma forma na sobrevivência das populações para onde fossem mandados. E foi o que fizeram.

No Paraná na metade do século passado, por exemplo, os Padres da Sagrada Família ajudaram na colonização do estado montando serrarias e construindo casas. No Crato, além de montarem escolas, os padres se aproximaram de todos os empreendedores em geral, como os donos de oficinas, carpinteiros, padeiros, donos de fábricas de algodão, de doces, curtumes, serrarias, de pisos, olarias, de rapadura, hospitais, e foram os responsáveis pela introdução, no Cariri, da apicultura moderna, muitas vezes com ajuda financeira, dinheiro enviado pelos católicos alemães. Qualquer empresário que necessitasse de alguma orientação, logo aparecia um padre da Sagrada Família especialista no assunto em questão para oferecer ajuda, tudo isso de graça e com a maior boa vontade. 

Era uma visão diferente do mundo, os fundamentos do evangelho ensinados de forma prática sem imposição, sem dramas, sem temor a Deus. Os ensinamentos de Jesus, como a caridade, o amor ao próximo, a solidariedade, a tolerância e a sobrevivência, estavam ali praticados no dia a dia, e o mais importante com alegria. De vez em quando dizia que ”Deus tinha mandado o Filho para nos salvar e isso não podia ser feito com tristeza.” Nesse contexto a atuação dos padres desagradava certos setores da sociedade caririense, principalmente do Crato. Quem não se lembra da diferença entre os sermões dos padres seculares e os da Igreja São Vicente?  Muitas vezes minhas dúvidas sobre religião eram explicadas com paciência e sotaque alemão, na companhia de outros coroinhas durante as pequenas viagens em visita a paroquianos, pelos sítios no jipe DKV do padre; além de ajudar na missa tínhamos a tarefa de abrir cancelas. Lembro-me que não entendia o conceito da Santíssima Trindade, achava que lá deveriam estar também São José e a Virgem Maria. O Padre depois de pensar um pouco disse algo assim, “Zé, faz sentido, a Santíssima Trindade é dos teólogos, essa sua família é a que todos nós pertencemos.” Simples, sem ameaça de pecado nem de desrespeito. E com impaciência soltou: “Agora pare de pensar nisso, é a sua vez de abrir a cancela.” De forma que foi assim sem medo de pecar, que consegui aos poucos, não mais temer a Deus e sim, tentar seguir Seus ensinamentos.  

 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As Tias High-Tech não podem merendar nas ruínas da Roma Imperial - José do Vale Pinheiro Feitosa


Acabei de receber uma segunda ligação pelo meu Iphone 5 vinda de uma antena qualquer de São Paulo. Era um primo que mal acabara de ouvir o que lhe contara sobre as nossas tias Maria, Rosa e Raimunda, ligava-me de volta para pedir que contasse essa para a Stela Siebra.  

Pois bem.

- Stela desculpe o tarde da noite, mas obrigação é obrigação e cumpro a tarefa a mim confiada.

Não é de agora. Isso já vem rolando com meses de estratégias, táticas, aproveitamento de oportunidades e de um empreendedorismo digno de um órgão qualquer desses do Sistema S, especialmente o SEBRAE. As minhas tias Rosinha, Maria e Mundinha vinham desenvolvendo um complexo plano para uma viagem transcontinental.

O mais fácil seria imaginar um retorno histórico dos caminhos errados que pretendiam as Índias Orientais e terminaram em terras nunca dantes navegáveis muito além da Taprobana. Elas queriam o GPS de retorno das Américas até o Velho Continente.

- Velho Continente não menina! Assim dito é muito vago. Como atingir o correio eletrônico exato de nossa querença se o Google Earth não aponta a Cidade Imperial?

-  Pois é Maria: As Sete Colinas, a Via Apia, o Senado, as Catacumbas e a Pietá com o Cristo morto sobre os seus  braços naquela estante de vidros do Vaticano!

-  Mundinha eu examinei as nossas economias, o dinheiro das nossas aposentadorias e o que ainda entra da fazenda tem o suficiente para toda a viagem.

- Rosinha vamos entrar no Decolar.Com para examinarmos as passagens e como adquiri-las e enquanto isso tu vai aí no Ipad e examina o site dos Hotéis.Com, viu Maria?

Quer dizer as conversas evoluíram rapidamente. Já haviam escolhido desde os voos de Juazeiro a Fortaleza, a TAP com conexão em Lisboa até Roma. Traslado, hotéis e excursões na cidade. Os desejos de locais turísticos. A vontade de tomar a bênção do Papa. A Capela Sistina, a Cúpula de São Pedro, os milagres da Santa Igreja.

- Rosinha pelo amor de Deus não vá meter a mão na “Bocca della Veritá”. Teus dedos são importantes para mexer a massa da nossa tapioca matinal.

- Nem ligo para tais aleivosias. A verdade é testemunha do meus pensamentos, palavras e obras. – Tia Rosinha respondia à brincadeira de Tia Mundinha.

Como estamos sentido, além do complexo planejamento internético, até já brincavam com as situações a serem visitadas por todas. Queriam um breve deslocamento até Assis, mas isso também não seria problema. Já poderiam sair do Potengi com tudo agendado. Desde a calçada do hotel em que ficariam em Roma até o retorno no fim do dia, já incluindo a merenda antes de dormir.

Naqueles dias havia mais luz nas manhãs, mais planos no entardecer e mais sonhos na hora de dormir. A Cidade Eterna povoava cada segundo das minhas tias, desde a hora de tirar o leite e colher os ovos no galinheiro até o chá de canela antes do deitar-se. E o lindo destas aventuras é que elas são imensamente duradouras: vão desde os planos, passam pelas antecipações, as esperas, o deslocar-se, visitar, aproveitar e pelas infindáveis horas contando vantagens, aventuras, perigos e espírito sagaz sobre as situações inusitadas. Nem mesmo as fotografias digitais, com tantos picheis que até duvidamos que os iphones tenham, são tão plenos de gigabits quanto o relembrar-se, especialmente nas rodas de fogueira nas noites do sertão com todos os moradores das vizinhanças em animada conversa.

Nada pode ser mais belo do que tais momentos a não ser quando a era da informação e do conhecimento mostra algumas das suas faces indesejáveis. O ruim que sempre se infiltra nos planos do bem viver. Pois foi isso que motivou os meus telefonemas para o primo em São Paulo.

Tia Rosinha com toda a decepção do mundo saiu da mesa do desktop e foi encontrar-se com as irmãs que se sentavam na brisa do entardecer, sobre as espreguiçadeiras na varanda. Maria já sentiu o semblante pesado da irmã:

- O quê foi que houve mulher?   

- O prefeito de Roma proibiu a pessoas de merendarem enquanto visitam as ruínas da Roma Imperial. E agora? Como vamos merendar?

Camelô



Houve um tempo ( antes do automóvel e da energia elétrica) em que a chegada de novidades no interior do Brasil estava nas mãos dos tropeiros. Eram eles que, varando o país  com suas alimárias, faziam as vezes dos Cargueiros, Trens, Correios, Rádio, TV , Jornal  e até das  Modistas. Tendo que continuar sua interminável jornada, deixavam suas funções na responsabilidade de pequenos varejistas e dos camelôs que, com poderes teatrais, eram os publicitários naqueles tempos remotos. Com voz tonitruante e recursos cênicos faziam aquele misto de  propagandistas-vendedores-radialistas, seduzindo os ouvintes para a compra das mais variadas  quinquilharias. O nome acredita-se vem do francês Camelot( vendedor ambulante), com raízes etimológicas no árabe HAMLAT: tecido de lã barato, comercializado pelos primeiros mouros que aqui aportaram.    O palco do camelô, em geral, era a Feira, onde ele se esparramava , como peixe em mar aberto. Com o advento dos meios de transportes mais velozes , o carro e o trem, as mercadorias começaram a ser comercializadas em pontos mais fixos. A Feira perdeu seu encanto e passou a ser , paulatinamente, freqüentada apenas pelo povaréu. As Casas Comerciais foram se especializando e o camelô foi perdendo importância. Continuou nas Feiras periódicas, agora com público mais reduzido e trabalhando em bicos, como animador , quase um palhaço, no comércio varejista.
                                                Passaram-se os anos e, com a globalização, as grandes redes de varejo engoliram os comerciantes menores, vieram os Shoppings, as galerias, as grandes lojas de departamentos e o camelô foi se tornando assim um objeto apenas de contemplação. Um fóssil daqueles áureos tempos: uma peça de museu como uma máquina de datilografia.  Mas como a história, em moto-contínuo, gosta dos círculos e das elipses, eis que os antigos tropeiros terminaram por ressurgir, agora travestidos de crediaristas. De motos ( o cavalo da atualidade) percorrem os lugares mais inóspitos, levando um sem número de objetos utilitários, de porta em porta, com venda facilitada, não muito diferente do que faziam seus ascendentes no início do Século XX.
                                               Bonito ver o camelô em ação, nas poucas Feiras Livres que ainda sobraram. Armam a banquinha, pacientemente, trazendo geralmente algum truque de abertura para atrair a população ao seu redor. Uma mágica, um animal de estimação como uma jibóia ou um macaco amestrado ( quando o IBAMA ainda não existia), a leitura de um Cordel Clássico. Depois da encenação, com uma considerável platéia ao redor, vem então : “Nossos Comerciais, por favor!”. Salta à nossa frente o produto a ser vendido, sem que ao menos tenhamos percebido. Técnica copiada depois pela TV e pelo Rádio.
                                               Pois , neste sábado, em memória dos muitos e muitos camelôs, Brasil afora, vou narrar três historinhas , uma que ouvi e duas presenciadas por mim, destes mágicos do ilusionismo e da prestidigitação.
                                               O camelô põe uma grande mala no chão, dela tira uma outra menor e já avisa:
                                               --- Eita ! Daqui a pouco a cobra vai sair de dentro da mala !
                                               Armando a banca, repete a ameaça dor diversas vezes, enquanto fita a mala menor, pretensamente portadora do risco ofídico. Vai também montando várias latinhas em cima da banca, coberta com um rótulo barato, onde se lê : “Pomada do Peixe Elétrico do Amazonas”. De repente, já com uma considerável platéia,  abre a mala menor e de lá retira uma grande jibóia que enrosca no pescoço. Com trejeitos teatrais, voz de locutor de FM, mas sem precisar botar sotaque sulista, explica as indicações do seu remédio:
                                               --- Pomada do  Peixe Elétrico do Amazonas, uma pechincha !  Cura:  sapiranga, tisga, morróia, pano branco, unha encravada, parto atravessado, escorrença de muié, esquentamento de homem, morféia, afuleimação na mãe do coipo, espinhela caída, defruxo, tosse braba, derrame, ferida braba, bicho de pé, crista de galo, escambichamento de véi, reuma, panarício,dor de dente, mordida de cobra e de cachorro doido, curuba e cezão.
                                               À medida que os ouvintes vão se aproximando e adquirindo a panacéia, o camelô continua com seu interminável querequequé. Depois de vender bastante, percebe, que alguns circunstantes ainda estão em dúvida sobre a capacidade milagrosa da sua panacéia. Dá então o tiro de misericórdia:
                                               --- Sim, meu povo, esqueci de dizer o mais  importante, essa pomadinha cura até ENFERMIDADE, viu ?
                                               Outro, em plena Feira, com vários produtos dispostos em uma esteira no chão: roupas, armadores, chave de fenda, martelo, raizada, temperos, arnica, parafusos , pregos, cabo para machado e enxada, Grita:
                                               --- Minha senhora, compre ! Gaste o dinheiro do marido, aproveite, senão ele gasta com as outras...
                                               Uma senhora vinha com o esposo, aparentemente atravessando crise no casamento e, diante do apelo, quase como afrontando ao safado do  companheiro, se aproxima e pára, observando pacientemente os objetos dispostos cuidadosamente na esteira. O marido fita o camelô com cara de poucos amigos. O vendilhão não perde a pose e emenda na bucha:
                                               --- Aproveite, senão ele gasta com as outras... coisas, as outras... necessidades da casa, né, meu amigo ? 
                                               Dirige-se para a patroa e completa, sem querer perder a freguesa:
                                               --- Porque a senhora sabe, né , D. Maria ? Todo homem é fiel, entre nós só tem cabra sincero e respeitador !
                                               Por fim, um outro camelô , recentemente, vendia numa feira, uma grande quantidade de panelas de alumínio. Aproxima-se um sujeito bem vestido, meio metido a falante, abaixa-se , examina as panelas com ares de expert em fundição , balança a cabeça e diz:
                                               --- Meu amigo, só tem essas? Pense numas panelas pebas! Alumínio velho fino, fraco, onde diabo você encontrou isso ? Uma bicha dessas não dura nem três anos: fura perde o cabo! Boas eram aquelas panelas antigas, duravam até vinte anos! Essas são uma porcaria.
                                               O camelô não perdeu o traquejo e, emendou, sem piscar :
                                               --- Meu amigo, nesse tempo do ronca que você tá falando, os casamentos duravam vinte, trinta anos. Hoje , no máximo,  dois aninhos. Logo os casais se apartam, vai um para um canto e o outro para o outro lado. Nós resolvemos fazer panela para durar só isso  : um casamento. Deus me livre de durar mais, termina dando uma briga danada na hora da partilha dos bens. Nãooooo!  Falar, nisso,  meu senhor, para quantos casamentos o senhor vai levar ?

J. Flávio Vieira

O e-mail desconhecido - José do Vale Pinheiro Feitosa

Recebi um e-mail com sabor doce e amargo ao mesmo tempo. Doce pois alguém lembrou-se de mim a ponto de ler a minha postagem sobre a música Lili Marleen. E mais do que isso: enviou-me uma versão em Tcheco por mim desconhecida da referida música. Amargo, o e-mail, pois era uma ponte feita por Joaquim Pinheiro cuja margem separada era do Zé Almino. Primo querido e que povoa minhas experiências de vida e as boas lembranças do viver. Zé desconhece o meu e-mail, que um arroba globo qualquer e de apenas um com sem qualquer br, como um predicado do jvalefeitosa.

Apoio ao Crato - José do Vale Pinheiro Feitosa

As pás metálicas das Usinas Eólicas se preparam para roubar a paisagem da Chapada do Araripe. Milhões de reais já estão na aposta eleitoral e no governo futuro que fará com mão direita aquilo que envergonha a esquerda. É a política de tomar conta do bem público para negociá-lo como empresa para auferir vantagens. Depois pegam um refrigerado assento num avião qualquer e vão comemorar o sucesso de suas vidas torpes, consumidas num gole qualquer e num colesterol lateral em suas artérias gulosas. A política do alto do negócio é o câncer da vida da sociedade.

Amanhã o querido bairro da Batateira continuará tão à míngua como amanhecerá no dia 7 de outubro se outra pás de vida não animarem o seu futuro. O Alto do Seminário, São Miguel, o Romualdo, a Ponta da Serra, Dom Quintino não gozarão a sorte dos políticos de negócios. Estarão na rabeira do destino se deles mesmo não se elevarem e gerarem o poder de superar este estado vil de coisas ruins.

O Crato precisa muito de suas próprias pernas. Os que gozam a vida construída, precisam abandonar a saudosa fotografia ou o me acompanhe em mais uma aventura no Facebook. As turmas que gozam entre si, precisam se confluir num grande lago de mudança, de sua terra, mesmo quando não é mais nela que respiram. Louvo a coragem do meu povo, que reconhece os tombos fora do eixo e é capaz de nestes dias que restam avançar sobre os fatos consumados e as vantagens ditas últimas.

A eleição elege os governantes e o opositores. Os dois estados precisam ficar claros: governar é trombar com as contradições e se opor é agitar as contradições. O que não se pode é imaginar que tudo termina no próximo domingo. O futuro se encontra em construção e o caminho da oposição é muito mais vigoroso pois isento dos dividendos a serem pagos aos capitais investidos nas eleições. 

Que na segunda feira, dia 8 outubro nada continue como hoje: uma morta política a serviço dos mesmos. Que neste dia se manifeste a força da contradição e se contraponha aos negócios de ocasião e se juntem ao destino que soma em benefício de todos.