por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Por Everardo Norões
Sesta
o galho de árvore
a penetrar na nuvem
pássaro a resvalar
no clarão da pele
lampejo de água
na chuva adormecida
sopro de luar
no cobre da bandeja
um sim dissimulado
na dobra do vestido
augúrio de festa
no aceso de dentro
molécula explodida
no cristal
da taça
Ribamar - Por Norma Hauer
Ele nasceu no dia 9 de dezembro de 1919, aqui no Rio de Janeiro, recebendo o nome de JOSÉ RIBAMAR PEREIRA DA SILVA.
Foi um dos principais parceiros de Dolores Duran.
Conheci-o quando não era ainda um nome famoso, como funcionário do Ministério da Educação.
Na época já tocava piano e era conhecido como pianista entre seus colegas de rapartição.
Iniciou sua carreira de músico
profissional em 1950, acompanhando Dolores Duran. Ainda nesse ano,
venceu o concurso para escolha de um pianista de música popular na Rádio
Nacional.
Em 1952 teve sua
primeira composição gravada: o bolero "Duas vidas", com Esdras Pereira
da Silva (seu irmão), na voz de Fernando Barreto. Atuou como violinista
de Fafá Lemos e com outros grupos, formando em 1953 seu próprio grupo.
Quando ele lançou, de sua
autoria e Dolores Duran, o samba "Idéias Erradas ", na voz de Carlos
Galhardo, ofereceu-me o disco "ainda tininho", recém-saído da gravadora.
"Ternura Antiga" letra de
Dolores, ele musicou após a morte da autora, que confiava nele para
musicar alguns de seus versos. Isso quando ela não fazia letra e música.
Da dupla, podemos ainda
"apontar""Quem sou Eu"; "Pela Rua; "Se eu Tiver ", isso sem citar o mais
bonito "Ternura Antiga", cujo sucesso ela não conheceu.
Ribamar faleceu em 6 de setembro de 1987, sem completar 68 anos.
Tocando em boates e outras casas noturnas, conheceu Marisa "Gata Mansa", que o acompanhou por toda sua vida artística.
Foi um dos principais parceiros de Dolores Duran.
Conheci-o quando não era ainda um nome famoso, como funcionário do Ministério da Educação.
Na época já tocava piano e era conhecido como pianista entre seus colegas de rapartição.
Iniciou sua carreira de músico
profissional em 1950, acompanhando Dolores Duran. Ainda nesse ano,
venceu o concurso para escolha de um pianista de música popular na Rádio
Nacional.
Em 1952 teve sua
primeira composição gravada: o bolero "Duas vidas", com Esdras Pereira
da Silva (seu irmão), na voz de Fernando Barreto. Atuou como violinista
de Fafá Lemos e com outros grupos, formando em 1953 seu próprio grupo.
Quando ele lançou, de sua
autoria e Dolores Duran, o samba "Idéias Erradas ", na voz de Carlos
Galhardo, ofereceu-me o disco "ainda tininho", recém-saído da gravadora.
"Ternura Antiga" letra de
Dolores, ele musicou após a morte da autora, que confiava nele para
musicar alguns de seus versos. Isso quando ela não fazia letra e música.
Da dupla, podemos ainda
"apontar""Quem sou Eu"; "Pela Rua; "Se eu Tiver ", isso sem citar o mais
bonito "Ternura Antiga", cujo sucesso ela não conheceu.
Tocando em boates e casas
noturnas,conheceu Marisa "Gata Mansa", passando a acompanhá-la ao piano,
até sua morte em 6 de setembro de 1987, sem completar 68 anos.
Norma
Norma
Colaboração de Geraldo Ananias
Geraldo Ananias Pinheiro Tudo
é real e recente. O pessoal da Escola Santa Tereza (de Altaneira-CE)
foi até Taboquinha e gravou, recentemente, todas as cenas (in loco) do
curta. Casa de minha vozinha, essa aí em cima (onde minha mãe nasceu e
viveu até se casar); o pé de juazeiro (eu costuma brincar e, mais tarde,
namorar debaixo da sombra dele); o acude (hoje seco). Como pode ver nas
fotos e no filme, tudo está seco e triste, menos o pé de Juazeiro, que
continua verde, forte e firme, porém sem graça. Ninguém já não o visita
mais, nem mesmo avião perdido. Ele ficou só, desencantado no meio do
sertão tórrido, esperando a nossa volta. Está calado, pensativo, sem
entender nada do que aconteceu. Todo mundo foi embora. Muitos morreram.
Talvez seja por isso que ele não balança mais seus galhos, suas folhas
ao vento, como fazia antes. Até Luiz Gonzaga, o rei do Baião, que o
alegrava com seus cantos (a inesquecível canção juazeiro) morreu. Restou
só a saudade, que é, no dizer do poeta, o amor que fica." Agora, meu
amigo, restam lembranças. Assim, para amenizar um pouco a saudade que
sinto no peito e na alma, fico a cantar: "Juazeiro, juazeiro, me arresponda por
favor; juazeiro, velho amigo, onde anda meu amor. Ai, Juazeiro, ela
nunca mais voltou; aí, juazeiro, como dói a minha dor..."
domingo, 9 de dezembro de 2012
Para Zé Flávio e Socorro Moreira - José do Vale Pinheiro Feitosa
Andei rodando na estrada ao encontro de Amélia Leonarda,
minha irmã, que mora em Barra Mansa e como boa conterrânea casou-se com o mais
radical cratense nascido em Farias Brito. Ele José Vilmar de Oliveira,
conhecido por “China” em sua época de juventude na cidade.
Não estou no Facebook a elencar as vantagens familiares e
nem a capacidade de rodar nas estradas. Isso tudo era para ser assim: andei
rodando na estrada e assim que retornei logo fui ler os blogs que acompanho,
especialmente o Cariricult e o No Azul Sonhado.
Então. A particularidade é sempre fundamental, mas a soma
das partículas é fascinante. Com alguma preocupação e, relação à sensibilidade
ética e honesta da minha amiga me referia à universal preocupação com a ratificação
do dito. Por isso insiste naquele assunto da frase do Niemeyer.
Não tem muito tempo que andaram publicando na internet um
poema do Maiakovski que terminou vítima da truculência stalinista como um
discurso genérico contra o comunismo. E, claro, contra todas as lutas
libertárias e, inclusive, as menos revolucionárias sobre o manto de reformas
para ampliar a participação popular na riqueza das nações. Ali estava uma
arapuca igual a essa do Niemeyer: por na voz dele exatamente o discurso de quem
ele combatia. Ou seja, levar Niemeyer a fazer o discurso da direita brasileira,
especialmente ao udenismo redivivo dos tempos atuais.
E já visitei esta estação na volta e passo à seguinte. Diz o
Zé Flávio sobre a claridade do passado frente à escuridão do futuro. E na
claridade do passado Zé põe luz sobre vários personagens do Crato,
especialmente dando personalidade a um personagem em especial. E entre o claro
e o escuro passei da iluminura dos textos transcendentais para o opaco das
indiferenças com a memória.
Mestre da narrativa, Zé vai num acréscimo de pequenos risos,
até que no último parágrafo nos guarda a gargalhada aberta. Mas foi entre tais risos
que tentava compreender como um jovem de hoje iria domar esta claridade do
passado para melhor identificar os sinais do futuro. As silhuetas que já estão
lá a menos que o fim seja de fato o 21 de dezembro.
A rigor não consegui entrar na interpretação dos jovens
lendo este texto do Zé. Mas ainda com fluxos respiratórios do riso
imediatamente vim para esta página. A me deleitar com a minha frágil capacidade
de guardar nomes e datas dos livros de história. Até que compreendesse a
própria história.
Está tudo bem com os que não conseguem guardar os nomes para
a próxima verbalização, deixe-os quietos na correnteza da memória. Guarde que
toda interpretação, a cada momento da convivência social, as nossas avaliações
oscilam como a imagem de ondas rádio. Há certa variação de amplitude, extremada
como este conto do Zé ou menos amplas, mas variante e com comprimento distintos
de mudança do perfil ondulatório.
O amor tem pressa.
Para Chico Buarque
“Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar”
“O amor não tem pressa”? “Ele pode esperar”?
Desculpe-me, Chico, mas desconheço o amor que pode esperar.
O amor, quando é pra valer, é sinfônico, urgente, latente.
Pede pela pele do outro. Pede pelo veludo da voz e pela maciez do sorriso. Pede pelo gozo, pelo gole partilhado na bebida, pela brincadeira noturna sob os lençóis e até mesmo pelo silêncio de depois. Pede por palavras escolhidas cuidadosamente que salientem o indizível.
O amor é valsa, baião de dois, salsa, molho, tempero, batucada, estrada.
Quem ama não espera! Muito menos em silêncio! Sofre e reclama quando o ser amado não está ao alcance das mãos.
Quando o amor acontece, ele é pra já, sim, senhor. Ele não cabe num fundo de armário, na posta-restante, num poema rabiscado ou num retrato rasgado.
Quem ama tem fome. Quem ama tem sede. Quem ama dá vexame, faz a fama e deita na cama.
Quem ama escreve cartas e às vezes nem envia. Quem ama escreve cartas ridículas.
O amor que espera, desconheço. Quem sabe não se trata de um mero adereço da resignação? Pluma que enfeita a fé de quem perdeu o bem amado? Pluma leve, que como a ilusão pode ser lançada ao longe com um simples sopro de realidade e se perder no ar...
O amor não tem remédio, nem nunca terá, não tem juízo, nem nunca terá, não tem medida, nem nunca terá... Mas não, Chico, ele não pode esperar.
by Mônica Montone

“Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar”
“O amor não tem pressa”? “Ele pode esperar”?
Desculpe-me, Chico, mas desconheço o amor que pode esperar.
O amor, quando é pra valer, é sinfônico, urgente, latente.
Pede pela pele do outro. Pede pelo veludo da voz e pela maciez do sorriso. Pede pelo gozo, pelo gole partilhado na bebida, pela brincadeira noturna sob os lençóis e até mesmo pelo silêncio de depois. Pede por palavras escolhidas cuidadosamente que salientem o indizível.
O amor é valsa, baião de dois, salsa, molho, tempero, batucada, estrada.
Quem ama não espera! Muito menos em silêncio! Sofre e reclama quando o ser amado não está ao alcance das mãos.
Quando o amor acontece, ele é pra já, sim, senhor. Ele não cabe num fundo de armário, na posta-restante, num poema rabiscado ou num retrato rasgado.
Quem ama tem fome. Quem ama tem sede. Quem ama dá vexame, faz a fama e deita na cama.
Quem ama escreve cartas e às vezes nem envia. Quem ama escreve cartas ridículas.
O amor que espera, desconheço. Quem sabe não se trata de um mero adereço da resignação? Pluma que enfeita a fé de quem perdeu o bem amado? Pluma leve, que como a ilusão pode ser lançada ao longe com um simples sopro de realidade e se perder no ar...
O amor não tem remédio, nem nunca terá, não tem juízo, nem nunca terá, não tem medida, nem nunca terá... Mas não, Chico, ele não pode esperar.
by Mônica Montone

sábado, 8 de dezembro de 2012
A moral de velhas prostitutas (Leandro Fortes)
Aos poucos, sem nenhum respeito ou rigor jornalístico, boa parte da mídia passou a tratar Rosemary Noronha como amante do ex-presidente Lula. A “namorada” de Lula, a acompanhante de suas viagens internacionais, a versão tupiniquim de Ana Bolena, quiçá a reencarnação de Giselle, a espiã nua que abalou Paris.
Como a versão das conversas grampeadas entre ela e Lula foi desmentida pelo Ministério Público Federal, e é pouco provável que o submundo midiático volte a apelar para grampos sem áudio, restou essa nova sanha: acabar com o casamento de Lula e Marisa.
Já que a torcida pelo câncer não vingou e a tentativa de incluí-lo no processo do “mensalão” está, por ora, restrita a umas poucas colunas diárias do golpismo nacional, o jeito foi apelar para a vida privada.
Lula pode continuar sendo popular, pode continuar como referência internacional de grande estadista que foi, pode até eleger o prefeito de São Paulo e se anunciar possível candidato ao governo paulista, para desespero das senhoras de Santana. Mas não pode ser feliz. Como não é possível vencê-lo nas urnas, urge, ao menos, atingi-lo na vida pessoal.
Isso vem da mesma mídia que, por oito anos, escondeu uma notícia, essa sim, relevante, sobre uma amante de um presidente da República.
Por dois mandatos, Fernando Henrique Cardoso foi refém da Rede Globo, uma empresa beneficiária de uma concessão pública que exilou uma repórter, Míriam Dutra, alegadamente grávida do presidente. Miriam foi ter o filho na Europa e, enquanto FHC foi presidente, virou uma espécie de prisioneira da torre do castelo, a maior parte do tempo na Espanha.
Não há um único tucano que não saiba a dimensão da dor que essa velhacaria causou no coração de Ruth Cardoso, a discreta e brilhante primeira-dama que o Brasil aprendeu desde muito cedo a admirar e respeitar. Dona Ruth morreu com essa mágoa, antes de saber que o incauto marido, além de tudo, havia sido vítima do famoso “golpe da barriga”. O filho, a quem ele reconheceu quando o garoto fez 18 anos, não é dele, segundo exame de DNA exigido pelos filhos de Ruth Cardoso. Uma tragicomédia varrida para debaixo do tapete, portanto.
O assunto, salvo uma reportagem da revista Caros Amigos, jamais foi sequer aventado por essa mesma mídia que, agora, destila fel sobre a “namorada” de Lula. Assim, sem nenhum respeito ao constrangimento que isso deve estar causando ao ex-presidente, a Dona Marisa e aos filhos do casal. Liberados pela falta de caráter, bom senso e humanidade, a baixa assessoria de tucanos, entre os quais alguns jornalistas, têm usado as redes sociais para fazer piadas sobre o tema, palhaços da tristeza absorvidos pela vilania de quem lhes confere o soldo.
Esse tipo de abordagem, hipócrita sob qualquer prisma, era o fruto que faltava ser parido desse ventre recheado de ódio e ressentimento transformado em doutrina pela fracassada oposição política e por jornalistas que, sob a justificativa da sobrevivência e do emprego, se prestam ao emporcalhamento do jornalismo.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Coalho
Toda vila tem seus muitos filhos naturais e um sem número de outros adotivos.
Aqueles não tiveram escolha, emitiram
seus primeiros vagidos no lugar, por mero acaso ou por ditames obscuros da
sorte e do destino. Os adotivos, por outro lado, usaram sua sensibilidade e sua
empatia na escolha do lugar geográfico onde iriam depositar sua história.
Difícil compreender que estranhas forças os impeliram para lugares distantes e
muitas vezes inóspitos, sem nos ampararmos nas amarras do fatalismo ou da
transcendência. O Crato viveu, durante todo seu percurso, prenhe de uma
infinidade de filhos adotivos que aqui chegaram, por obra de estranhas forças e
ajudaram a escrever e reescrever muitas linhas da história da Vila de Frei
Carlos: Bárbara de Alencar, Martins Filho, os coronéis Antonio Luiz, Álvaro
Bomílcar, Jéfferson de Albuquerque, Dr. Antonio Gesteira, Padre David Moreira, José do Vale Feitosa,
Manuel Vieira, Soriano de Albuquerque, João Brígido, isto apenas para citar
alguns.
Pois bem,
hoje, falaremos de um desses importantes filhos adotivos do Crato e que fundiu
sua alma ao doce espírito da nossa Vila. Chamava-se Teófilo Artur de Siqueira
Cavalcante e nasceu em Palmares , no Pernambuco tão ligado umbilicalmente ao
Cariri. Nascido em 1869, veio para o Crato ainda guri, com seu pai, juiz de
direito e aqui permaneceu até sua partida definitiva em 1941. Nas primeiras décadas do Século XX, Teófilo
fundou a Pharmácia Siqueira, estabelecida ali na Rua do Fogo ( hoje Senador
Pompeu), colada ao nosso primeiro Clube :
“ O Cariri”. O prédio foi demolido ,recentemente, como tem acontecido
com todo o Centro Histórico da nossa cidade , numa deliberada e programada
incineração do nosso passado glorioso. A Pharmácia Siqueira funcionava como uma
espécie de Pronto Socorro da cidade, junto com outros estabelecimentos
farmacêuticos da Vila : A Pharmácia Telles, a do Coronel Secundo Chaves, a
Botica do Coronel Garrido e a Central de
José Alves de Figueiredo ( o Zuza da
Botica). Mais que isso, elas juntavam , em rodinhas de fim de tarde, toda a
intelectualidade da vila, a comentar as últimas notícias, as derradeiras
fofocas e os debates acalorados das áreas:
literária, econômica e política.
Teófilo
era esguio, usava óculos de lentes grossas e tinha um nariz proeminente que lhe
imprimia feições parecidas com a do
poeta Manuel Bandeira. Nosso boticário era bem humorado e irreverente. Língua
afiadíssima, comentava todas perversões da sociedade provinciana com uma fina
argúcia , imersa num comburente molho de malagueta. As suas peripécias faziam
parte da nossa doce mitologia cotidiana, cresci ouvindo meu pai , na Livraria
Católica, narrar as suas histórias, alegremente, como se viessem de João
Grilo, Cancão de Fogo ou Pedro Malasartes. Percebendo que se vão
esmaecendo estas lembranças nas novas gerações, resolvi registrá-las no papel
que tem uma perenidade bem maior que a saliva. Pois aí vão, vendo-as pelo mesmo
preço que as comprei !
Aí
pelos anos 20, chegou ao Crato um oftalmologista e se estabeleceu na Rua
Grande, numa sala agregada à Farmácia Telles , onde depois funcionou o
consultório do Dr. Maurício Telles. A novidade espalhou-se rapidamente na
região. Se médico naquele tempo era coisa rara, especialista, então, tornava-se
artigo para ser tombado pelo IBAMA. A notícia chegou aos ouvidos de Teófilo que
não engoliu bem a história. Imaginou, logo, que estabelecido nas beiradas da farmácia rival, o especialista só
iria prescrever remédios da farmácia mais próxima. Começou, imediatamente, a
alfinetar o novo esculápio , sem ao menos o conhecer. Um dia, o oculista entrou
na Pharmácia Siqueira . Desejava cumprimentar o boticário e apresentar-se ,
pensando na possibilidade de alimentar uma política de boa vizinhança e, claro,
vislumbrando possíveis encaminhamentos de pacientes ao seu consultório.
Siqueirinha, o filho do boticário e balconista,
conhecia já o novo profissional e percebendo a aproximação ainda à distância,
resolveu pregar uma peça no pai. Abriu o assunto que sabia bastante melindroso:
---
Pai, sabia que chegou um novo oculista na cidade?
Teófilo,
meio exasperado, respondeu, enquanto o doutor já entrava na botica:
---
Soube meu filho ! Pois vá lá em Gonzaga de Melo—que era genro Siqueira– e diga
para mandar aqui para farmácia uma carrada de vara !
Siqueirinha,
sem compreender, já com o médico junto do balcão, pergunta, ciente da bomba que
vem de lá:
---
Carrada de vara, papai ? Aqui pra farmácia ? Não entendi !
Teófilo,
então, explode a dinamite:
----
Vara, sim, menino ! Pelo qu´eu soube desse oculista novo, o que vai dar
dinheiro agora, em farmácia, é vara de puxar cego !
Siqueirinha,
por sua vez, aproveita para completar a pegadinha . Virando-se para o oculista,
diz:
---
Papai, eu quero lhe apresentar este rapaz! Ele é o novo oculista da cidade.
Ao
contrário do que esperava o filho, o boticário não perdeu a fleugma. Olho-o da
cabeça aos pés, sem demonstrar surpresa e saiu-se com essa:
---
Oxente, tá besta menino ! Eu conheço o doutor já de muito tempo, já tava até
brincando com ele !
A
década de vinte trouxe ao Crato uma das maiores pianistas brasileiras.
Conhecida familiarmente por “Chaguinha”, tinha uma grande ligação com o Crato. Consta que a artista tivera um affair ou um
rolo com o nosso Pedro Maia, músico, fotógrafo e motorista, por fim, quando
suas folhas começaram a tombar no outono da existência. Pois, bem, a cidade engalanou-se para o
show. Armou-se um grande palco na Praça da Sé, onde se instalou um piano de cauda
e uma grande mesa que comandaria a importante solenidade. Teófilo fora
escolhido como orador do evento. Possivelmente por indicação de Dr. Elysio
Figueiredo(1892-1975) de quem era grande amigo. Dr. Elysio, médico, talvez tenha sido o orador mais brilhante e
inspirado que o Cariri já teve . Dono de uma memória prodigiosa, de porte
atlético e com gestos teatrais tinha o poder de hipnotizar qualquer platéia com
sua voz possante e sua erudição. Ele sabia perfeitamente que Teófilo possuía um
discurso básico e único adaptável a qualquer ocasião e já o tinha decorado de
cabo a rabo. Antes do início da solenidade, procurou o Dr. Irineu Pinheiro(1881-1954),
um dos nossos maiores historiadores , o autor de “Éfemerides do Cariri “ e o
informou que sabia qual seria a fala de Teófilo naquela noite. Sapecou-lhe o
discurso que tinha decorado com sua memória fotográfica. Montada a mesa, antes
do concerto, com todas as autoridades locais, inclusive Dr. Elysio e Dr.
Irineu, a palavra foi cedida ao orador da noite : Teófilo Siqueira. Encetado o
discurso, Dr. Irineu começou a não se agüentar e a rir descontroladamente: saía
o pronunciamento igualzinho ao que Dr. Elysio havia há pouco recitado. Nosso
historiador necessitou sair de mansinho , sob qualquer pretexto, sem conseguir
sustentar a crise de riso. Terminada a solenidade e o concerto inspirado de
Chaguinha, Teófilo comentou o descontrole do escritor:
---
Tu viu, Elysio a besteira de Irineu? Aquilo é burro, tapado, bocó que só uma
porta velha . Também num é pra menos, né ? Ele nasceu no “bê-erre-obró” !
Dr.
Elysio sabia que Teófilo , como um ascendente do personagem “Coxinha”, tinha sempre duas avaliações
críticas. Uma na presença do avaliado e outro na sua ausência. Finalizado o
concerto, nosso boticário se dirigiu para a pianista e dissolveu-se em elogios:
---
D. Chaguinha, eu nunca vi coisa tão linda. A senhora toca como um anjo ! Por um momento eu fechei os olhos e tive o maior sobressalto, pensei que tinha
era morrido e já tinha chegado no céu !
Isso que a senhora carrega nas mãos não são dedos : são varinhas de condão !
Terminada a solenidade, voltando para casa, Dr. Elysio
pediu, por fim a segunda avaliação da artista. Teófilo olhou para um lado e
para o outro, certificando-se que não havia testemunhas outras e soltou o
verbo:
----
Elysio, como é que a pessoa não tem vergonha e vem para o Crato dizendo que
sabe tocar piano ? A noite toda tengo-tendo-tengo ! Parecia um ferreiro
cantando numa gaiola! Uma nota não batia com a outra, rapaz! Era ver uma casa na chuva, cheia de goteira,
as panelas espalhadas pelo chão e os pingos caindo aqui e ali: tém-tém-tém.
O cratense
Vicente Leite ( 1900-1941) foi um artista plástico de fama internacional,
considerado por alguns o maior paisagista brasileiro. Aluno da Academia
Brasileira de Belas Artes, Vicente foi colega de Portinari e Orlando Teruz. Muito premiado, Vicente Leite em 1935 recebeu
como prêmio, uma viagem pelo Brasil , seu maior sonho. Aproveitou a
oportunidade para expor seus trabalhos na sua terra natal , vindo em companhia
ilustre do escritor cearense, membro da Academia Brasileira de Letras, Gustavo
Barroso (1888-1959). Sua Exposição foi
aberta em Crato com muito estardalhaço e, na inauguração, estiveram presentes,
na comitiva principal que acompanhava o pintor e Gustavo Barroso, Dr. Elysio e
Teófilo. Antes Dr. Elysio já havia alertado o artista plástico e nosso
importante literato sobre a variabilidade das avaliações estéticas do
boticário, dependendo, claro, da presença ou ausência do avaliado. Cientes
todos destas características, combinaram todos para apreciar a primeira opinião
e , depois, se ausentarem Vicente e Gustavo, escondendo-se por perto, para ,
assim, terem , por fim, aquela outra visão menos pessoal de crítica estética. À
medida que a comitiva ia, pouco a pouco, degustando as lindas paisagens do
pintor cratense, Teófilo proporcionalmente parecia se extasiar com a beleza das
telas e comentava :
---
Vicente, isso é uma coisa divina ! Sua arte, meu amigo, é de um realismo
difícil de se conceber. Eu acho que você deve , embaixo de cada uma dessas
paisagens, botar uma advertência informando que se trata de um quadro. Corre o
risco, se não o fizer, de um menino querer trepar num pé de mangueira desse
pensando que é de verdade. Eu mesmo, há pouco,
cheguei a pensar em ir buscar minha rede prá armar debaixo dessa braúna
à beira do rio.
Os
elogios se sucediam até chegar o momento em que
o previamente combinado se realizou. Vicente Leite e Gustavo deram uma
desculpa , pediram licença, dizendo que precisariam se ausentar um pouco a fim
de resolver algumas pendências da Vernisage.
Sem que ninguém percebesse, esconderam-se por trás de um empanada
próxima que fazia a divisória de partes da exposição. Dr. Elysio, então, mandou
o mote :
---
Teófilo, agora que os homens já saíram, diga prá gente, rapaz, o que é que você
tá achando mesmo dos quadros de Vicente Leite ?
Teófilo
cubou o ambiente certificando-se da ausência dos autores e não tardou em mandar
a glosa:
---
Compadre Elysio, mas como é que pode ? A pessoa trazer de tão longe uma
porcaria dessa dizendo que é arte ? O sobrenome dele já diz tudo : Leite ! E
pode ter certeza, compadre, botaram água nesse leite. Eu não sei não, viu ? Prá
fazer uma coisa labrocheira como essa eu acho que só tem um jeito : ele envia o
pincel no cu e fica rodando prá lá e prá cá, como um pião doido.Nãããããooooooo!
Por
trás da empanada se ouviram gritos abafados e mal contidos. Parece que o leite
de Vicente tinha acabado de talhar.
J. Flávio Vieira
PATATIVA X VICELMO E A USINA DE AÇÚCAR
Na década de 70, a Usina Manoel
Costa Filho, instalada em Barbalha, enfrentava problema com o pequeno
fornecimento de cana. Seu parque
industrial produzia abaixo da capacidade porque os plantadores preferiam
fabricar rapadura ou aguardente a vender sua matéria prima.
O jornalista Antônio Vicelmo,
líder de audiência na região do Cariri, que ainda hoje comanda o noticiário de
maior credibilidade em todo Sul do Ceará, foi contratado para levar adiante
campanha publicitária visando convencer os agricultores se tornarem
fornecedores da usina.
Além dos anúncios nas rádios,
Vicelmo planejou cordel enaltecendo os
benefícios que aquela indústria trazia para a Região e as vantagens que os
plantadores de cana teriam vendendo sua cana de açucar. Para o cordel pensou logo no nome de Patativa
do Assaré. Naquela época o poeta já era nome consagrado, respeitadíssimo pelo
Sertanejo e, porque não dizer, amado pelo seu povo. Apesar da fama, vivia com dificuldades
financeiras, no limite da pobreza.
Vicelmo , por ter entrevistado
várias vezes Patativa, ter noticiado os lançamentos dos seus livros, divulgado
sua poesia e pelo vínculo de amizade, achou que a tarefa seria fácil, ainda
mais que os usineiros haviam disponibilizado uma boa quantia, uma verdadeira “loteria”
para remunerar o trabalho do poeta de Assaré.
O radialista deslocou-se até
Assaré confiante no êxito da missão. Chegando na casa de Patativa e vendo a
pobreza em volta, seu otimismo aumentou. Jamais pensou receber um não. Pois foi o que aconteceu. Patativa ouviu atentamente a proposta de Vicelmo, entendeu a oferta de recompensa financeira, mas recusou explicando que 40 anos antes havia feito a poesia “Ingém de Ferro”, e o pedido da Usina significava exatamente o contrário do que ele expressara em versos. Sua consciência não ficaria em paz se produzisse algo no sentido oposto. Seria traição pura.
Vicelmo retornou ao Crato deprimido, esmagado pela força moral e dignidade de Patativa do Assaré. Viu que existiam Homens que não se vendem.
Ingém de Ferro
Ingém de ferro, você
Com seu amigo motô,
Sabe bem desenvorvê,
É munto trabaiadô.
Arguém já me disse até
E afirmô que você é
Progressista em alto grau;
Tem força e tem energia,
Mas não tem a poesia
Que tem um ingém de pau.
O ingém de pau quando canta,
Tudo lhe presta atenção,
Parece que as coisa santa
Chega em nosso coração.
Mas você, ingém de ferro,
Com este horroroso berro,
É como quem qué brigá,
Com a sua grande afronta
Você tá tomando conta
De todos canaviá.
Do bom tempo que se foi
Faz mangofa, zomba, escarra.
Foi quem espursou os boi
Que puxava na manjarra.
Todo soberbo e sisudo,
Qué governá e mandá tudo,
É só quem qué sê ingém.
Você pode tê grandeza
E pode fazê riqueza,
Mas eu não lhe quero bem.
Mode esta suberba sua
Ninguém vê mais nas muage,
Nas bela noite de lua,
Aquela camaradage
De todos trabaiadô.
Um falando em seu amô
Outro dizendo uma rima,
Na mais doce brincadêra,
Deitado na bagacêra,
Tudo de papo pra cima.
Esse tempo que passô
Tão bom e tão divertido,
Foi você quem acabô,
Esguerado, esgalamido!
Come,come interessêro!
Lá dos confim do estrangêro,
Com seu baruio indecente,
Você vem todo prevesso,
Com históra de progresso,
Mode dá desgosto a gente!
Ingém de ferro, eu não quero
Abatê sua grandeza,
Mas eu não lhe considero
Como coisa de beleza,
Eu nunca lhe achei bonito,
Sempre lhe achei esquesito,
Orguioso e munto mau.
Até mesmo a rapadura
Não tem aquela doçura
Do tempo do ingém de pau.
Ingém de pau! Coitadinho!
Ficou no triste abandono
E você, você sozinho
Hoje é quem tá sendo dono
Das cana do meu país.
Derne o momento infeliz
Que o ingém de pau levou fim,
Eu sinto sem piedade
Três moenda de sodade
Ringindo dentro de mim.
Nunca mais tive prazê
Com muage neste mundo
E o causadô de eu vivê
Como um pobre vagabundo,
Pezaroso, triste e pérro,
Foi você, ingém de ferro,
Seu safado, seu ladrão1
Você me dexô à toa,
Robou as coisinha boa
Que eu tinha em meu coração!
A frase que Niemeyer não disse - parte 2
Quando fui testar na internet a origem da tal frase que o Niemeyer não disse, encontrei-a em blogs pessoais e alguns coletivos, por vezes dependentes de fontes de e-mail ou das redes sociais. A fonte original não se identificava. Assim mesmo com os elementos que possuía fiz o texto, mas tomando o cuidado de consultar um assessor privilegiado do Niemeyer, presidente da Editora Revan, o Renato Guimarães com quem tenho afinidade de amizade. Hoje o Renato confirma a fraude:
Caro Zé. Você tem razão, a frase
é fraudulenta. Gostei de seu artigo hoje sobre Oscar e Lúcio Costa.
Abraço,
Renato
Revista Carta Capital (transcrição)
Nos tempos do engavetador-geral: “Refrescando” Henrique Cardoso
O que é mais vergonhoso para um presidente da República? Ter as ações de seu governo investigadas e os responsáveis, punidos, ou varrer tudo para debaixo do tapete? Eis a diferença entre Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva: durante o governo do primeiro, nenhuma denúncia – e foram muitas – foi investigada; ninguém foi punido. O segundo está tendo que cortar agora na própria carne por seus erros e de seu governo simplesmente porque deu autonomia aos órgãos de investigação, como a Polícia Federal e o Ministério Público. O que é mais republicano? Descobrir malfeitos ou encobri-los?
FHC, durante os oito anos de mandato, foi beneficiado, sim, ao contrário de Lula, pelo olhar condescendente dos órgãos públicos investigadores. Seu procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, era conhecido pela alcunha vexaminosa de “engavetador-geral da República”. O caso mais gritante de corrupção do governo FHC, em tudo similar ao “mensalão”, a compra de votos para a emenda da reeleição, nunca chegou ao Supremo Tribunal Federal nem seus responsáveis foram punidos porque o procurador-geral simplesmente arquivou o caso. Arquivou! Um escândalo.
Durante a sabatina de recondução de Brindeiro ao cargo, em 2001, vários parlamentares questionaram as atitudes do envagetador, ops, procurador. A senadora Heloísa Helena, ainda no PT, citou um levantamento do próprio MP segundo o qual havia mais de 4 mil processos parados no gabinete do procurador-geral. Brindeiro foi questionado sobre o fato de ter sido preterido pelos colegas numa eleição feita para indicar ao presidente FHC quem deveria ser o procurador-geral da República.
Lula, não. Atendeu ao pedido dos procuradores de nomear Claudio Fonteles, primeiro colocado na lista tríplice feita pela classe, em 2003 e, em 2005, ao escolher Antonio Fernando de Souza, autor da denúncia do mensalão. Detalhe: em 2007, mesmo após o procurador-geral fazer a denúncia, Lula reconduziu-o ao cargo. Na época, o presidente lembrou que escolheu procuradores nomeados por seus pares, e garantiu a Antonio Fernando: “Você pode ser chamado por mim para tomar café, mas nunca será procurado pelo presidente da República para pedir que engavete um processo contra quem quer que seja neste país.”
E assim foi.
Privatizações, Proer, Sivam… Pesquisem na internet. Nada, nenhum escândalo do governo FHC foi investigado. Nenhum. O pior: após o seu governo, o ex-presidente passou a ser tratado pela imprensa com condescendência tal que nenhum jornalista lhe faz perguntas sobre a impunidade em seu governo. Novamente, pesquisem na internet: encontrem alguma entrevista em que FHC foi confrontado com o fato de a compra de votos à reeleição ter sido engavetada por seu procurador-geral. Depois pesquisem quantas vezes Lula teve de ouvir perguntas sobre o “mensalão”. FHC, exatamente como Lula, disse que “não sabia” da compra de votos para a reeleição. Alguém questiona o príncipe?
Esta semana, o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da presidência, colocou o dedo na ferida: “Os órgãos todos de vigilância e fiscalização estão autorizados e com toda liberdade garantida pelo governo. Eu quero insistir nisso, não é uma autonomia que nasceu do nada, porque antes não havia essa autonomia, nos governos Fernando Henrique não havia autonomia, agora há autonomia, inclusive quando cortam na nossa própria carne”, disse Carvalho. É verdade.
Imediatamente FHC foi acionado pelos jornais para rebater o ministro. “Tenho 81 anos, mas tenho memória”, disse o ex-presidente. Nenhum jornalista foi capaz de refrescar suas lembranças seletivas e falar do “engavetador-geral” e da compra de votos à reeleição. Pois eu refresco: nunca antes neste País se investigou tanto e com tanta independência. A ponto de o ministro da Justiça ser “acusado” de não ter sido informado da operação da PF que revirou a vida de uma mulher íntima do ex-presidente Lula. Imagina se isso iria acontecer na época de FHC e do seu engavetador-geral.
O erro do PT foi, fazendo diferente, agir igual.
Cynara Manezes
Oscar Niemeyer e Lúcio Costa - José do Vale Pinheiro Feitosa
O conhecimento é cumulativo até que de repente, num ponto de
transição, dá um salto e muda de patamar. Assim como a água que vai acumulando
calor até que entra em ebulição e se torna vapor.
O salto no nosso conhecimento acontece o tempo todo. Os de
fala inglesa chamam isso de insight, é aquele lampejo da inteligência que de
repente compreende algo que estava na fronteira, mas ainda não se havia percebido.
A célebre maçã da lenda que na gravidade a jogara na cabeça de Newton.
Vou falar de duas experiências pessoais. Uma com Oscar Niemeyer
e outra com Lúcio Costa. No primeiro ano do governo Brizola eu coordenava uma
área de controle de doenças e fui escalado pelo Secretário de Saúde Eduardo
Costa para ser contraparte da Secretaria de Saúde no Programa de Educação dos
CIEPS na ocasião sendo gestado pelo Darcy Ribeiro.
Na primeira reunião com Darcy Ribeiro, cheguei cedo à antessala
e fiquei aguardando o Darcy terminar outra reunião. Estava sozinho quando Oscar
Niemeyer entrou, sentou-se numa poltrona ao meu lado. E ficamos esperando
sermos chamados.
Então com trinta e poucos anos a minha tietagem aflorava naquela
oportunidade de ao lado de um ícone brasileiro sofrer a angústia de não dizer
nada. Na petulância da mocidade querendo aparecer. Mas a serenidade de Oscar
não convidava a esse tipo de tietagem. E foi aí que começamos a falar das
nossas matérias ali: a construção dos CIEPS.
Em resumo: o salto de conhecimento a respeito de Niemeyer
não foi sua genialidade e menos ainda um traço exuberante de sua personalidade:
a criatividade. A nossa conversa, naquele tom um pouco monocórdico dele correu
em torno da finalidade e da responsabilidade. Oscar não criava um projeto
arquitetônico como arcabouço ambiental, na verdade ele apontava a confiança no
projeto pedagógico de Darcy para aí sim criar o ambiente em que o dia-a-dia de
alunos e professores iria potencializar o futuro do país.
Niemeyer tinha compromissos com ideias e com projetos de
transformações da humanidade. Quando muito se vêm em perplexidade por Niemeyer
manter-se um marxista convicto e à espera de um sistema comunista de
organização social, não tome como medida a Muro de Berlim e nem o fim da União
Soviética. Niemeyer e muita gente mais não pensa o mundo apenas como um
aparelho ideológico para se aplicar a toda e qualquer realidade. Ao contrário:
eles têm a convicção que era preciso pensar a crise do sistema dominante para
que se possa ter um amanhã que seja um salto no conhecimento da nossa
realidade. E não se trata apenas da esperança, mas, sobretudo, de remexer os
escombros para a matéria do futuro.
Encontrei Lúcio Costa no aniversário de Pierre Gervaiseau,
casado com Violeta Arraes. Lúcio já com mais de 90 anos, sentava-se numa
cadeira relativamente baixa, junto aos batentes que ligavam a sala a uma área
descoberta. Sentei-me nos batentes, ao lado dele, igual companhia não podia ter
para aquela noite.
Lúcio Costa não falou de grandes projetos, de grandes
realizações. Não posso nem dizer que levantou grandes críticas ao mundo naquela
passagem entre o século XX e XXI. Aliás, ali estavam pessoas importantíssimas
da história do século XX no Brasil, como Celso Furtado, Luiz Carlos Barreto,
Célio Borja entre outros. E a lição de transição de Lúcio Costa foi no sentido
que as montanhas da cidade do Rio de Janeiro precisavam retornar às suas dimensões
dominantes na paisagem da alma carioca. Os prédios ao escondê-las e ao se
erguer diante dos nossos pés como ciclopes de segunda categoria haviam
escondido a silhueta histórica da cidade.
Oscar e Lúcio não vagueiam entre a simplicidade e a complexidade,
entre a genialidade e mediocridade, entre o lírico e o poético, ambos estiveram
no mundo querendo pensa-lo, em suas contradições e no que o conhecimento é
capaz para garantir o humanismo como um norte além da selvageria individualista
do capitalismo cumulativo.
Assinar:
Postagens (Atom)





