por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 11 de novembro de 2012

Porque hoje é domingo...- socorro moreira


Para um aposentado a frase de Vinícius deixou de justificar a expectativa da noite mais livre da semana...
Para os boêmios, notadamente os músicos, a segunda-feira é à noite!
Quando a gente tem energia mudana todas as noites revelam mistérios. A música é trilha dos encontros. O "papo-cabeça" (veja que besteira) estimulava mais um copo, mais uma beliscada num petisco. O dia ir clareando, o mar se mostrando, o sol revelando a pintura já marcada por um cansaço inútil, em pele viçosa... Nada disso, que importa?
Passa a vontade de cair fora dos lençóis; conhecer pessoas novas, dançar ciranda com gente estranha... Cantar com todos... Sorrir do, e com o espirituoso.
Sinto saudades de todos os dias da semana...
Porque hoje é domingo, perdi a praça, e o filme no Cassino... Perdi a matinal do Tênis, e a macarronada da minha mãe; perdi o ressonar satisfeito do meu pai na sesta do almoço...
Assisti o Fluminense ser campeão, e fiquei feliz, ou quase...
Gosto tanto de Vinícius, que vou seguir a deixa.




sábado, 10 de novembro de 2012

Porque hoje é sábado - José do Vale Pinheiro Feitosa


Nas cidades praianas os dias ensolarados azougam a preguiça das manhãs. Mas aos sábados quando o sol começa a curvar-se no horizonte surge um desejo de sair. De acontecer algo fora da rotina. De sair de casa ao encontro de grandes acontecimentos. Grandes acontecimentos lúdicos.

Vinícius de Moraes em seu Dia da Criação dá ao sábado o sentido de ordenação do trabalho e de modo distinto dos judeus e cristãos sabatistas, ele é o sexto dia e o domingo o último. O seu famoso refrão “porque hoje é sábado” neste poema extrai todas as consequências do sábado ao sexto dia da criação quando Deus cria a humanidade. A humanidade é o redemoinho que gira o trabalho e por isso o sábado.

Todos os dias da semana são dias de encontro pelo estudo, pelo trabalho ou por necessidades culturais. Mas no dia de sábado é como se fosse a celebração de um encontro diferente das obrigações, das rotinas e rituais. Os sábados não apenas são um novo redivivo como é o cessar do mesmo cotidiano.

Atrair ou ser atraído para encontros. Para ouvir música. Ir ao Shopping. Dançar forró. Tomar umas e comer outras. Sair pelas estradas em busca do vizinho. Aos restaurantes de Juazeiro, reviver a tradição imperceptível de encontrar algo diferente nas moças de Barbalha.

Mesmo quando tudo que resta é um filme solitário no DVD ou um livro envolto em silêncio, mas saliente em mundos incrivelmente ruidosos. O sábado continua, mesmo que marginal, sendo o pano de fundo em que a cena da vida desenvolve o seu entrecho.

E o sábado é mais raiz quando a vida já repetiu mais de três mil destas criaturas do enredo da gênese. Os sábados da nossa cidade. O brilho das roupas de sábado, os penteados de sábado e aquele olhar indiferente só para demonstrar a diferença dele em relação aos outros.

Os sábados estrelados no firmamento e as luzes de ânimo das doses de Cuba Libre ou do fermento inebriante destas louras geladas. E nosso corpo, por efeito paradoxal toma-se de calor de tal modo abrasador que derrete todas as conveniências sociais. E como um ferreiro molda-se uma espada suplicante por uma bainha.

Ao som de um bolero. Um samba canção. Uma dor de cotovelo, no lado oculto da lua, aonde os olhares moralista nunca chegam, uma fusão quase total, uma vez suspensa neste quase por estes implacáveis tecidos de roupas. Mas os odores de ambos se misturam num silêncio anterior ao dia da criação.

A noite já passou da estação das 22 horas aí neste horário normal e das 23 horas aqui no horário de verão e tudo isso porque hoje é sábado. E amanhã é domingo.    

Dia da Criação - Vinícius de Moraes. 



Leilões

.

Na novela “Gabriela”, recém reapresentada na TV brasileira, numa adaptação do Romance do nosso centenário Jorge Amado, há uma cena típica da época retratada : a Ilhéus dos anos 20.   Ina, uma quenga novinha, cheirando a cueiro, tem sua estréia de gala no Bataclã, quando sua virgindade é posta em leilão pela cafetina Maria Machadão, expondo-a aos esfaimados coronéis baianos do ciclo do cacau. Pareciam imagens típicas de um período pretérito, aqueles tempos em que o casamento era uma mera instituição burocrática, uma fábrica de fazer herdeiros e manter o patrimônio das famílias mais abastadas; sem nenhuma ligação com os prazeres de alcova, geralmente procurados pelos homens, nos cabarés,  junto às profissionais do ramo. Hímen, então, era apêndice de luxo, guardado e velado a sete chaves; passível de, roto, impelir pessoas aos crimes mais hediondos. A preservação quase que doentia desta película, inclusive, precede ao cristianismo e à pretensa virgindade de Maria. Gregos, Fenícios e Romanos  vigiavam as fronteiras sexuais das suas moças, mais que os muros dos seus castelos.
                                               Nas últimas décadas, no entanto, aparentemente, a virgindade viu esvair-se   sua importância. A iniciação sexual dos jovens tem começado cada dia mais precocemente e ninguém mais se preocupa com essa história de selo. Os meninos se queixam , inclusive, que é um saco, que dá trabalho, que atrapalha. E , mais, deixou de ser condição sine qua non no casamento, ninguém se encuca mais com a inauguração, com o invicto, com quem primeiro passou pela porta da loja, mas sim com o conteúdo do estabelecimento. Virgindade,  de virtude,  passou a ser démodé, brega, a cheirar a mofo e a cafonice.
                                               A  notícia que invadiu a imprensa, nos últimos meses, pois, parece , no mínimo, estranha.  Catarina Magliorine , uma linda catarinense de vinte anos, resolveu leiloar sua virgindade, na internet. Existe, inclusive, um site especializado neste leilão eletrônico e se chama “Virgins Wanted”. Na última quarta –feira , um japonês ( o Coronel Jesuíno do momento ) viu o martelo bater e arrematou a prenda por , nada mais-nada menos ,que um e meio milhões de reais. O Bataclã do Século XXI será instalado em um avião e a lua de mel acontecerá num vôo entre a Austrália e os Estados Unidos.
                                               Nesta semana, ainda, noticiou-se, Brasil a fora,  uma outra calamidade. No município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, na fronteira com a Colômbia, a virgindade de meninas índias é comprada por um Celular, uma peça de roupa, uma caixa de chocolate ou por R$ 20,00. Existe todo um esquema criminoso envolvendo comerciantes locais, militares, motoristas  e até políticos no aliciamento de menores.
                                               Reflitamos um pouco sobre estas questões. Os casos do Amazonas não são tão diferentes do Bataclã do nosso Jorge Amado. Crianças são levadas à prostituição por mero instinto de sobrevivência . Já a nossa Catarina expõe-se, publicamente,  num leilão,  na busca desvairada pelo sangri-lá do consumo, inseto que já ferroou, inclusive, as nossas indiazinhas que se entregam , às vezes, por roupas de marca. A virgindade, talvez, pela raridade nos dias de hoje, volta a encantar . Se ontem mantinha seu infinito valor por conta da dificuldade em ser defenestrada, hoje reassume os valores de outrora, pouco a pouco, por vir se tornando um objeto em franco processo de extinção. O japonês e os meliantes do Amazonas compram-na , a preço de mercado, com a mesma sanha de um colecionador que adquire um Renoir para exibi-lo como parte da sua coleção. Nenhum dos dois tem qualquer amor à arte, fazem-no com a simples intenção de se mostrar para outros membros da sociedade, de pousar de bacana. Só. 
                               Como se vê, a história dos nossos costumes parece  andar em círculos. De repente, a virgindade volta a entrar em foco, a prostituição que se pensava seriamente ameaçada pela liberalidade sexual, reacende seu vigor; claro que com nuances e tonalidades diferentes. O imutável é apenas a Lei Internacional da Supremacia dos Poderosos sobre os Desafortunados. Continuamos numa mesma sociedade de castas, onde tudo está posto num balcão de negociação, tudo !  Dinheiro e poder compram tudo : amor verdadeiro, como dizia Nélson Rodrigues; beleza; santidade; reputação; saúde. Por enquanto,  apenas a morte ainda não entrou no processo de licitação, mas seu adiamento, sim.  A honra , neste mercado, vale alguma coisa entre o meio milhão de Catarina à caixa de chocolate das indiazinhas do Amazonas. 

J. Flávio Vieira

Apresento-lhes O SILÊNCIO DE DEUS em e-book!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

"American Way of Death" - José do Vale Pinheiro Feitosa


Antes que me imagine um “anti-americanista” de carteirinha, volte-se para si mesmo e compreenda o quanto a ideologia política, o estilo de vida e a cultura americana são fortes sobre a formação brasileira da geração pós-guerra. Muitos entre nós tivemos a oportunidade de sermos crítico em relação ao American Way of Life, afinal a URSS, a Social Democracia Europeia, além dos movimentos de libertação colonial, nos ofertaram esta oportunidade sem par.

O modelo americano de “desenvolvimento humano” é cada vez mais questionado pelo grau de pobreza e violência que produz, associado a uma dependência consumista que parece viver para si mesma, com enorme reação por esgotamento e corrupção da natureza que o modelo tem provocado sem qualquer parâmetro sustentável. Acho que ficou evidente que os EUA, por exemplo, parecem muito despreparados para desastres ambientes como furacões e tempestades tropicais. Primeiro foi Nova Orleans, mas isso  parece ter ficado às custas do atraso relativo, mas agora o impacto foi em Nova York e aí já não dar para esconder a marca de batom na cueca.  

O American Way of Life que começa com uma ideia generosa de liberdade e vontade de crescer individual, vai se transformando num caos progressivo não em razão do individualismo exacerbado, mas face a face com a concentração da renda e o poder absoluto do capital e das grandes corporações na área de energia, guerra, alta tecnologia e assim por diante. Por isso ele vai tomando uma série de faces de clivagem que mais e mais demonstram seus problemas.

Vou tomar quatro destas faces que existem quase em parelhas, uma a depender da outra. A primeira é expressa sistematicamente nos filmes como algo do tipo “é meu trabalho”. Isso para se referir tanto ao orgulho e de um plantador de frutas da Califórnia, quanto a um assassino pago para perseguir migrantes ilegais destas ditas plantações. “É o meu trabalho” e naquele mundo livre para viver, matar é um meio de vida. A face gêmea é de esperança frente ao espanto destrutivo e “animal” do sistema: “uma segunda chance”. Quantas vezes não a ouvimos em diálogos e até mesmo no argumento de um filme esta frase que parece dizer que o sistema pode oferecer outra chance. Em todos os ciclos de depressão econômica a segunda chance nunca aparece, mas se existe, certamente é para os mercenários a serviço do poder absoluto.

As outras duas faces são filhas diretas do neoliberalismo econômico: “cada um por si” e “a culpa é somente sua”. As duas faces de clivagem no bloco do American Way of Life parte do princípio que nem Adam Smith parecia acreditar: que o mercado seja perfeito. Teria oportunidades iguais para todos e se a pessoa não as buscou é culpa puramente delas. Coisas do tipo você tentou e não conseguiu, não precisa regulamentar práticas monopolistas e nem controlar juros, nem qualquer outro artificio para tirar você da concorrência através de práticas de sabotagem. O problema é que você não teve competência e espírito para se estabelecer.

A segunda é o do tipo: a culpa é do seu pai que não criou um patrimônio por herança. Quem mandou você não estudar o que deveria ter estudado? Por qual motivo não trabalhou mais horas do que as longas jornadas da vida? É esse o argumento do “a culpa é somente sua”.

E agora que o Obama ganhou que tal repetir uma frase que cai bem: um outro mundo é possível. Ou a de Hemingway: o mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele.      

Para Stela


Para Stela


Para Stela


Hoje é o dia dela: Stela Siebra!

Um brinde a esta mulher amiga, tão especial para mim e para muitos!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012



Feliz aniversário, Caio!


Hoje meu primogênito completa 42 anos.
São muitas as lembranças. Uma delas, seu primeiro dia de aula, no Pequeno Príncipe, antes dos 3 anos de idade.No final do expediente informou-me: tenho uma coleguinha  chamada Diana ( filha de Zé do Vale Arraes Feitosa e Maria do Carmo).Acho que, naquele dia, começou sua atração natural pelas meninas loirinhas.Casou aos 21 anos com Carla Valéria Sobreira, e ainda hoje são felizes. Encontrou o amor verdadeiro muito cedo... Que Deus os abençoe, sempre!
Que estes próximos anos tragam-lhes muitas realizações, saúde, paz e alegrias.
Com todo amor, meu grande abraço!




Tome Pílulas Amargas - José do Vale Pinheiro Feitosa


A Constituição Federal define quatro princípios para a administração pública: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Focando o assunto: a administração das leis submete-se a tais princípios constitucionais. No caso do processo do Mensalão trata-se de um caso típico de administração da lei, não estamos discutindo constitucionalidade de assuntos litigantes. No caso o foco da constitucionalidade é o STF e seus ministros, pois são eles a aplicar a lei.

Ontem o Ministro Relator do Processo do Mensalão, Joaquim Barbosa e por extensão o STF, ao meu entender, andou arranhando três desses princípios: impessoalidade, moralidade e eficiência. Chega da Europa onde foi fazer um tratamento com a medicina da sua confiança e se comporta como uma estrela de mídia, fazendo piadas com alívios de dores. Em seguida faz um discurso para as televisões em transmissão direta criticando réus que manifestaram desacordo com as sentenças que o Ministro deseja aplicar-lhe, depois manda prender o passaporte de todo mundo, pretende ampliar as condenações e ataca o comportamento moral dos seus pares, especialmente do Revisor com o qual se sente contrariado.

Não vou cansá-los com os detalhes desses princípios, pois estão disponíveis na internet, mas há uma vasta análise do julgamento que põe dúvidas imensas sobre inclusive o princípio da legalidade em razão de que a jurisprudência é inovadora ao caso e por outro lado existem outras jurisprudências a favor e contra ao que se aplica ao caso. Mas há uma vasta discussão sobre a quebra geral de todos os princípios: a diferença de tratamento a fatos idênticos acontecidos na base pelos mesmos autores que é o chamado Mensalão do PSDB igualmente com raízes em Minas Gerais.

Esta história exprime muito bem a sociedade que queremos e qual a democracia que se espera nela. Uma parcela enorme da população brasileira sabe muito bem que além de princípios políticos e ideológicos se necessita raciocinar e extrair conhecimentos com a realidade. É claro que o julgamento no STF é um confronto entre partidos políticos assim como é cristalina a posição das grandes corporações de mídia de cunho nacional com o resultado do julgamento.

Envolvendo um STF em base questionável politicamente e uma mídia corporativa que faz um discurso de absoluta liberdade comercial como a se confundir com o interesse público e a expressar uma liberdade de crítica que não aceita para si, requer de todos nós certo arranjo interno fora das paixões. A questão de uma sociedade plural na qual um partido como o PT seja objeto de crítica e punições é a medida para igualmente pensar-se nas Organizações Globo, Abril, Folha, Estado de São Paulo apenas para falar aquele eixo corporativo mais evidente.

Gustavo Gindre no Observatório do Direito à Comunicação exprime um jogo empresarial das Organizações Globo que expões toda a contradição do discurso de combate ao estatismo e apoio incondicional ao liberalismo e as práticas empresarias da mesma na mesma pauta cínica. As Organizações defendem mesmo é o controle da família Marinho sobre a Holding; não conseguiu dar um pulo internacional tornando-se algo global como até mesmo empresas mexicanas; fez pressão pela Lei 12.845 que ampliaria a participação das teles no mercado de mídia; apoiaram o máximo de 30% de participação estrangeira no mercado de produtoras e programadoras; proibiu a contratação de eventos nacionais por produtores estrangeiros como campeonatos de futebol e até mesmo de talentos brasileiros; ao mesmo tempo aquele Telecine é uma mera associação com a Universal, Paramount, Fox entre outras e com a Sony-Columbia naquele canal chamado Megapix. Em outras palavras as Organizações querem ser um ponto de passagem dos estrangeiros ao mesmo tempo em que usando o Estado dificulta-lhe o ingresso no mercado nacional. É o pedágio amplo e universal da cultura nacional.

Sentiram o quanto é preciso pensar sobre o que vemos e ouvimos?     
    

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Marchinhas de Carnaval - José do Vale Pinheiro Feitosa


Não imagine que a grande diferença de desenvolvimento entre os países depois dos anos 50 foi um diferencial histórico de sempre. Segundo recente artigo de José Fiori a Argentina entre 1870 e 1920 estava entre as grandes economias do mundo. Depois dos anos 30 mudou o rumo. Os EUA balançaram a depender das décadas de observação: seja surto industrial dos Estados Nortistas ou se fosse visto durante a recessão, isso contando que foi ali que se inventou a maior indústria de sonho e fantasia que foi Hollywood que escamoteava a real situação do povo americano nos anos ruins.

A verdade é que a história cultural e, particularmente, da música expressou igualdades que evoluíram na segunda metade do século XIX e durante todo o século XX. Os músicos se tornaram uma grande vanguarda de migrantes rurais ou oriundos da escravidão onde existiu e que vieram formar a urbanidade das nações. Isso quer dizer que nesta raiz de pobres oriundos dos sertões e da classe média baixa já existente nas grandes cidades é que nasceu a base cultural da música, particularmente da brasileira.

A vinda de europeus, das casas de dança, das dançarinas, de músicos e das polacas fez do Rio de Janeiro e São Paulo uma base de recepção de ritmos e canções que aqui se adaptaram e se desenvolveram. Um dos estilos criados neste início da formação urbana brasileira é o que se denominou marchinha de carnaval. Inaugurada com o Abre Alas de Chiquinha Gonzaga a Marchinha de Carnaval se tornou um das grandes manifestações culturais entre os anos 20 e 60 em todo o Brasil.

A Marchinha de Carnaval contava a expectativa das pessoas em relação à política, à economia, aos costumes, aos problemas urbanos, às inovações do mundo, aos eventos históricos e assim por diante. Nada se tornou mais uma narrativa cronológica da vida urbana do que a marchinha. Mas voltando a um dos aspectos da sua origem vamos ouvir o Pé de Anjo.

A música foi gravada nos anos 20 para o Bloco Fala Meu Louro. Aqui ela foi na voz de Blecaute. Segundo se diz a marchinha, ainda em ritmo lento que depois veio se acelerando, foi uma chupada de Sinhô numa destas músicas vinda pelos europeus e a letra refletia a disputa do compositor que frequentava a Cananga do Japão, uma casa de dança da Praça XI onde pontificavam os “baianos” da casa da Tia Ciata entre eles o Pixinquinha. Segundo se diz a música era uma gozação ao irmão do Pixinquinha que tinha o pé de tamanho avantajado.

E esta Mamãe eu Quero da dupla Jararaca (José Luiz Calazans) e Ratinho (Vicente Paiva) que vivia sendo presa pela ditadura de Vargas.



Mamãe eu quero mamar é a grande crítica à extensa mamata que se criou em torno da política e burocracia de estado. A dupla foi na veia como ouvimos.

Um pouco no estilo, mas já enveredando pela crítica aos costumes, é esta Sassaricando que vem abaixo.



Aqui cantada pela famosa vedete dos anos 40 e 50 Virgínia Lane Sassaricando se tornou título de novela da Globo e depois um musical que arrastou muitos corações cariocas em anos recentes. Música do grande compositor Joaquim Antonio Candeias Júnior que tinha um senso de crítica social inigualável. É dele aquela famosa Lata D´água na Cabeça.

A lua é dos namorados de Klecius Caldas, Brasinha e Armando Cavalcanti. com Ângela Maria.


A música é uma crítica ao avanço da exploração espacial e a corrida entre russos e americanos para pousarem na lua pela primeira vez. Lembro de uma noite, tentando voltar para casa, um dia de carnaval. Ali por volta das 21 horas e passo perto da Igreja de São Vicente e escuto em amplificadoras instaladas na rua Senador Pompeu, talvez no Clube da Rapadura e voz de Ângela Maria denunciando o fim dos luares do sertão.

E tinha pensado naquela Corre Corre Lambretinha ou no Homem da Vassouras com João Dias para marcar o aspecto dos costumes e da introdução de tecnologias no estilo de vida ou o discurso político. Não conseguindo acha-las para exemplificar me agarrei a esta Me Dá Um Dinheiro Aí dos irmãos Homero, Glauco e Ivan Ferreira um sucesso com Moacir Franco. Mas bem que poderia ser o Bigorrilho (Paquito, Romeu Gentil e Sebastião Gomes) e cujo nome virou uma incógnita como a famosa “Tonga da Mironga do Cabuletê”.



E essa Marcha Rancho de Humberto Silva e Paulo Alves Sette cantada por Marcos Moran pegando na saudade da quarta feira de cinza. Do meu ponto de vista poucas canções representam tão bem o espírito entre Eros e Tanatos que parece pairar sobre o carnaval e suas marchinhas. Com essa música encerro simbolicamente o fim histórico da marchinha.



Referências-socorro moreira

A vitória de Obama; a violência  na capital Paulista; os julgamentos do Mensalão; a decisão do Congresso em modificar  os percentuais de distribuições dos royalties gerados pela  produção do petróleo; a liderança  do Fluminense,  na reta final do Brasileirão; eleição da primeira senadora gay, nos Estados Unidos;a queda da produção industrial da Alemanha, maior parceira da região do euro...Temos pensado sobre os assuntos!
Enquanto isso aguardamos a semana das artes, produzida pelo SESCCariri ( 8 a 13.11.2012), e as sucessivas confraternizações de fim de ano, já tão próximas. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Os odiosos odientos - José do Vale Pinheiro Feitosa

A UDN ainda é uma teia de aranha em algumas memórias do passado. Ela não existe mais, porém o udenismo do "mar de lama" faz parte da realidade política, social e cultural atual. Impossibilitada de apresentar uma projeto alternativo para promover a ascensão social de grandes massas da população. esse "udenismo" espectral se refugia no ódio. 

Faço ressalva: existia uma militância udenista no exercício legítimo da política e esta não é um zinabre do tempo, isso é um lustro da vida em sociedade. Aqui quem critico é a corrente udenista furibunda, magoada, perdedora, que não media consequências e usava os piores métodos para combater os adversários e além do mais era golpista. Só para medir a diferença procurem no Google algo sobre a banda de música da UDN para entender que não falo amplamente do partido. Ou leia a recente entrevista de Aécio Neves na revista Carta Capítal. 

Mas o que tenho recebido de e-mails odientos sobre o julgamento do Mensalão é algo que expõe o que os repassadores são por sucessão das práticas atuais em alguns partidos ou são os velhos golpistas de sempre, que apoiaram a ditadura militar, tinham ódio de tudo que combatesse o regime e depois com a democracia esconderam a vestimenta até que o baile à fantasia os reconvocasse.

Aliás li um texto lúcido no blog da Cynara Meneses sobre Lobão, Roger Moreira e Leo Jaime em que os "rebeldes" dos anos 80 desvestiram as fantasias libertárias e rebeldes e hoje mostram o que realmente foram e são: filhinhos de papai com direito aos uns muxoxos adolescentes. Os meus repassadores de e-mail com os piores xingamentos contra Bolsa Família, Cotas Raciais, ENEM, Lulas, Dilmas, PT e outras secreções dos canais biliares terminam descendo pelas alças intestinais aos destino dos canais que os coletam.

O que me fez vir a esse desabafo, não apenas pelo conteúdo, mas por receber tais e-mails de pessoas a quem considero como de valor equilibrado foi o que escreveu Bob Fernandes no seu Terra Magazine: Brasil afora há quem venere Lula. E ele sabe disso; é muito mais agradável informar e ser informado sobre isso. Mas certamente Lula deve saber, alguém deve dizer a ele de quando em quando: além de fazer oposição, um direito de todos, há quem lhe devote um ódio profundo.

Sem dúvida que é preciso se antecipar aos fornos do fascismo, mas também é alentador que a humanidade ainda mantem o espírito de sobrevivência ou de permanecer em vida de modo a jamais aceitar os foguistas destes fornos.     



Traduções Cariris com Luiz Carlos Salatiell, Abidoral Jamacaru, João Do Crato, Zabumbeiros Cariiris e participação de Luciano Brayner dia 11/11 na Praça da RFFSA -Crato
Foto Pachelly Jamacaru

A Luta dos Contrários - José do Vale Pinheiro Feitosa


As culturas das grandes civilizações expressam toda a grandeza, no sentido matemático, do que seja uma civilização, isso para contrastar com as culturais tribais de sociedades coletoras e caçadoras ou apenas agrícolas. Uma grande civilização normalmente abriga muito mais contradições, pois as classes dominantes e dominadas são mais claras, a expansão territorial é uma marca, a face guerreira por consequência e principalmente a grande rede de produção e comércio. Por certo entendemos que nessa complexidade dialética se encontra os povos dominados pelas expansões territoriais.

Se pegarmos qualquer manifestação de uma cultura da grande civilização vamos encontrar não só os elementos em conflito como, também, o evoluir desta relação ao longo do tempo. Peguemos o cinema americano como exemplo. Ele expressa toda fricção das classes sociais americanas, sua expansão, seus ciclos econômicos, as transformações urbanas e rurais ao mesmo tempo em que acentua, ao longo do tempo, o papel de fonte de discurso e propaganda do “sonho americano” que é afinal o domínio das elites com a natureza já imperial.

Por isso Hollywood é visto essencialmente como máquina de propaganda da política imperial, fazendo por vezes um discurso escapista em relação à realidade e, por outra, fazendo uma pregação ideológica da elite imperial (incluindo instituições como a indústria, bancos, bolsas de valores, impérios midiáticos, universidades etc.). Não estranhemos esta enorme capacidade de “articular” vontades traduzidas numa inteligência estratégica nem sempre baseada em pessoas isoladamente, especialmente grandes lideranças.

A evolução empresarial globalizada evoluiu de tal modo que apenas 147 empresas dominam 40% das riquezas controladas pelas maiores empresas em todo o mundo. Isso numa escala globalizada é uma dimensão nunca dantes vista na história: 1% das empresas controla uma rede estratégica inteira. Neste sentido até mesmo instituições como o cinema de Hollywood já não é parte do projeto apenas americano, mas de toda a ideologia e cultura forjada pelo comando estratégico de poucos agentes. Embora os EUA sejam a grande fonte do modelo imperial e concentrador, o espírito privatista domina a cultura globalizada especialmente pelas estruturas bancárias que são os representantes majoritários daquele comando de apenas 1% das maiores empresas do mundo. A “austeridade” em prol dos bancos pode gerar a força política contraditória a esse comando privado do mundo e essa é a perspectiva política da atual crise. Os desdobramentos nos dirão.

Dois filmes de produção americana expressam muito bem o evoluir da cultura americana ao longo do século XX e início do atual século. O primeiro é um filme que retrata o breve casamento de Ernest Hemingway e Martha Gellhorn considerada a maior correspondente de guerra americana. A essência desse filme é de um país em expansão, mas vivendo ainda uma crise interna de pobreza que por isso mesmo tinha enorme simpatia pelos povos do mundo em crise. Hemingway como escritor do “Por quem o Sinos Dobram” e Gellhorn como correspondente da revista Collier´s na Guerra Civil Espanhola ainda tinham o espírito de solidariedade social pelos povos. O jornalismo aceitava que correspondentes como Gellhorn fizesse matérias arrasadoras sobre violações humanas mesmo que isso contrariasse e ideologia imperial ou os acordos estratégicos do grande capitalismo americano. O livro da Martha a Face da Guerra relatada toda esta questão.

O outro filme é “O Informante” que aparentemente mostra o poder avassalador da indústria do cigarro americana quando surgiram as evidências que ela manipulava o tabaco para ampliar o vício e que o consumo de cigarro era uma nova forma de epidemia. A indústria como é da natureza de todo cinismo privado reagiu dizendo que não reconhecia o vício e jogava toda a responsabilidade do fumar aos fumantes como se não houvesse essa manipulação física e a de psicologia social através da propaganda e marketing.

O filme trata não apenas do poder desta indústria, mas essencialmente demonstra o quanto a imprensa no ambiente imperial, globalizado e privatista tornou-se a função ideológica da hegemonia estratégica do núcleo (elite) imperial avassalador. A observação da cultura é uma fonte inesgotável do aprendizado histórico e da fricção dialética.