por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Maior É Deus - Eduardo Gudin / Paulo César Pinheiro

É, maior é Deus
Pequeno sou eu
O que eu tenho foi Deus quem me deu
O que eu dou é o que eu tenho
Foi Deus quem me deu

Eu nada sou
Mas também não sou nenhum fariseu
Vim aqui pra falar, falou
Porque o cala boca já morreu
Maior é Deus

Mas é o que eu vou lhe mostrar
O que de melhor for meu
Quem quiser me escutar, escutou
Não quero glória, fama ou apogeu
(Maior É Deus)

Na Rádio Azul


14 de abril , no Crato Tênis Clube!



95% das mesas estão vendidas e ou/ reservadas.
Quem precisar de ingressos individuais, nos procure.
Telefones:
35234305( Hugo)
35232867(Socorro)
Não tenho dúvidas de que a festa será um sucesso.
4 hs de música para ouvir e dançar.
Encontro de várias gerações.
Data comemorativa  para Hugo, e os amantes da boa música.
É festa de músicos! É festa  da música! É festa de Hugo Linard!
Participação especial de Hildelito Parente, Leninha Sobreira, Ranier Oliveiva, Salatiel,Peixoto, e orquestra formada por diversos: metálicos, teclados, cordas e percussão.
Todos estão convidados!


Traje: esporte fino.
Ingresso p/pessoa: 25,00


Estamos de parabéns!




Ganhamos de presente  uma nova foto de Pachelly Jamacaru , sensacional, exclusiva, feita com o maior dos carinhos.
Obrigada,  amigo!
Apesar da temática feminina, os meninos se escondem  no azul do nosso caminho, e revelam-se  em palavras, nesta riqueza de textos, que iluminam o nosso dia a dia.


Belo, Pachelly!

O Mercado da Ética


Causou estardalhaço reportagem recente do Jornal Nacional sobre um grande esquema mafioso nas licitações públicas. Com câmeras escondidas, foram reveladas as vísceras de alguns desses esquemas , onde, com envolvimento de empresas e gestores, são armadas imensas farsas licitatórias, com desvio de polpudas frações do orçamento para os bolsos de empresários do ramo e inúmeros membros da gestão pública. A chaga exposta nos espanta , mas a rigor nada daquilo era do inteiro desconhecimento da população medianamente informada. Existe quase que um pacto tácito entre eleitores e governo : --Não tem jeito, se diz, é assim que a coisa funciona! Desde a mais remota prefeiturazinha desse Brasilzão imenso, até a mais desenvolvida metrópole, o mesmo filmezinho a que assistimos no JN é exibido todo santo dia. A Licitação é um mero artifício utilizado por quase todos com o fito de dar aparente legalidade ao crime mais hediondo : aquele que arranca merenda escolar da boca das crianças, ambulâncias de enfermos e remédios indispensáveis dos idosos. Tudo isso pode acontecer, amigos, sem nenhum problema, só não pode sair no Jornal Nacional que aí a revolta é geral. A coisa é tida como tão normal e necessária , ouvintes, que até a gerente de uma empresa definiu perfeitamente a questão : “É a Ética do Mercado, amigos, é assim que funciona!” E perguntou em que moeda o pretenso gestor gostaria de receber a sua parte no bolo : Dólar, Euro, Iene ? Inclusive, mesmo depois das filmagens terem chegado à Mídia, para o conhecimento de uma população que se fingia indignada em nada saber, a gerente repetiu a sua frase , sem nenhum pudor : “É a Ética do Mercado, é assim que funciona !” A média seria um desvio de 15 a 20% para o bolso dos espertalhões.

Não tenho nenhuma dúvida de que a gerente não carrega consigo nenhum sentimento de culpa. Nem ela , nem todos os demais envolvidos , Brasil afora. Quem estuda um pouco de Ética sabe que um dos maiores problemas a se enfrentar é a sua relatividade. A Ética particular, privada, específica de um pequeno grupo é um verdadeiro pântano. Adentrou nessa seara dali não se sai imaculado. Eichmann , no seu julgamento , em nenhum instante se achou culpado pela morte premeditada de milhões de judeus nos campos de concentração: estava seguindo ordens, dizia, e se fosse possível retornar no tempo, reafirmava : eu repetiria novamente todas as medidas genocidas! Os islâmicos que se imolaram jogando os aviões nas Torres Gêmeas, levando junto quase 3000 civis, até o último momento se sentiram heróis de uma causa e assim são reverenciados. A política partidária tem também uma ética própria onde mentir, burlar, montar Caixa 2, prometer e não cumprir, fraudar são práticas perfeitamente aceitáveis e permitidas; diz-se sempre que só existe um crime hediondo em se tratando dessa área : Perder Eleição! Não é muito diferente a atitude de algumas religiões no que tange à proibição aos avanços científicos que poderiam levar ao alívio do sofrimento em milhões de pessoas no que tange à fertilização in vitro, às Células Tronco e até mesmo às transfusões de sangue. Todos partem de uma Ética particular e relativa, seja religiosa, política, geográfica ou cultural. E aí firma-se o impasse inevitável : se todos temos nossa Ética pessoal, de grupo, e exigimos , com unhas e dentes, que ela seja aceita, não podemos, claro, criticar a Ética particular alheia.

Como enfrentar o labirinto ? Fugindo do relativismo! Precisamos procurar valores éticos universais, distantes da gelatina das pequenas questões de grupos, de etnias , de culturas , de religiões. E a Filosofia já nos abriu algumas trincheiras balizadoras. Vamos lembrar dois gigantes nessa área. Primeiro o Utilitarista Stuart Mill (1806-1873) que já explicitava : “O mais Ético caminho é aquele que leva o maior Bem ao maior número de pessoas”. Pois bem, apliquemos nas fraudes licitatórias e veremos que não há nenhuma ética em beneficiar um pequeno grupo de farsantes em detrimento da maior parte da população. O outro, Emmanuel Kant (1724-1804) , afirmava categoricamente : “Devemos agir como se os nossos atos pessoais possam valer como princípios de uma Legislação Universal”. É fácil perceber que tornar as peripécias dos mafiosos da licitação numa verdade mundial seria a implantação definitiva do caos. E falamos apenas de Ética , amigos, junto disso corre ainda a Lei que deve punir rigorosamente os infratores e balizar todas as nossas relações humanas.

O diabo é que a maior parte dos males da modernidade está ancorada nesta cegueira parcial que é a relatividade da visão Ética. A sobrevivência do planeta , hoje, depende muito mais da Ética do que da Ciência. É preciso enxergar além do nosso quintal : as receitas que utilizamos para nosso pomar não servem, necessariamente, para a floresta, a catinga e a savana que se estendem por milhares de quilômetros à nossa frente.


J. Flávio Vieira

guarda-roupa



quatro portas,
flores incrustadas
desenho de cinzéis

que vestir?
indecisão que gravamos
no maciço da madeira
essência agora das portas
flor por ser

que vestir?
vestir o lá de fora,
formas possíveis lá dentro
pegadas no caminhar
no trocar o que é
e o que não é de fato
e não cabe nos braços
e às vezes sobra

do olho para os bolsos
paisagem nos tecidos
paisagem abotoada
ruas, avenidas, vitrines
não obstante depois
o sabão e seu esforço

o que vestir?
ser para olhos alheios
onde nem sempre se guarda
a presença que se quer
e no final pode ser
um tiro pela culatra
bem no meio do pé 

sofá


 sentar-se na forma
que acolhe o corpo
e verga-se à forma que vem sentar

as dores não sente
o cheiro retém por entre as dobras,
já seus domínios...
vão disputados com o cansaço,
mas é um jeito de o tapeceiro
encontrar-se na sala,
compartilhando o silêncio,
tomando parte na solidão
sem perguntar, sem dizer sim

sua presença se fecha
e se repete em tantos lugares
sem a nossa compreensão

através


travessia da noite
empurrar o silêncio para
um canto
subida, descida, vagando no
atravancado das saídas,

travessia da noite densa,
suas curvas
esbarram na fronteira
do corpo, sua brisa
fraseia o sem sentido no rosto

os passos não levam a lugar seguro,
transparente abrigo do outro lado,
para além da construção
toda com esse tecido opaco
e por isso frágil, ah, não...

na travessia da grande noite,
carência de certeza em suas coisas,
o imprevisível na coreografia dos fatos,
nas dobras do dia a caminho,
espelho de reflexo traiçoeiro
na tradução das cores e formas

Como estamos na Semana Santa, passo para vocês,
o que considero ORAÇÃO:
É você se desnudar das pressões externas,
das pressões internas e permitir que sua alma
navegue em direção a DEUS.

Um privilégio de poucos - Emerson Monteiro

Falo a propósito do livro, esse instrumento valioso que se mantém na via principal das revoluções da História, logo depois da revolução agrícola. Llivro, o responsável pela propagação das ideias no decorrer dos séculos, reservatório de transformações e passaporte da mais plena das liberdades, o livre pensar.

Percentuais dos leitores de livro apresentaram redução no Brasil nos dois últimos anos. Devido aos outros chamamentos, televisão, computador, celular, a margem de quem adota o livro a título de lazer e fruição sofreu queda expressiva, no entanto longe de causar maiores preocupações diante da importância acadêmica desse meio de comunicação, fator essencial entre mestres e alunos.

A satisfação de um bom livro jamais encontrará concorrente naqueles que desfrutam do prazer da leitura em qualquer idioma deste universo. O pensamento dos autores percorre, assim, milênios e multidões, renova tecnologias, alimenta possibilidades inestimáveis no trabalho dos povos, na civilização, abrindo espaço aos valores e bons costumes.

Uma casa sem livros é uma casa sem alma, contam os sábios. O livro caindo n’alma é germe que faz a pala, é chuva que faz o mar, afirmou Castro Alves.

Quiséssemos falar nas maravilhas de um bom livro e passaríamos vários dias longe de chegar ao destino, porquanto a força viva do engenho vital encontra nas páginas dos compêndios a galáxia das grandes descobertas, invenções, todo tempo. Viagem do infinitamente pequeno aos gigantescos momentos da imaginação e dos sonhos. Conhecer as entranhas do conhecimento através das letras e dos conceitos mergulha no milagroso das selvas fantásticas do saber, o que revela o suave deslizar pelas folhas à frente dos olhos.

Tais passageiros de naves milagrosas, continuam a busca da sabedoria nascida já na escola por meio dos livros, e presenciam acontecimentos revitalizadores à medida que seguem o curso, atentos na jornada iluminadora do aprendizado, libertos junto às jóias impressas.

Houve época quando afirmavam, quais realizações pessoais, gerar um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Porém agora, nesta fase dos eletroeletrônicos e do desmatamento incontrolado, talvez os dizeres peçam alguma alteração também quanto a escrever o livro. E queiram considerar naquelas previsões, e ler um livro. E pois um que seja, lido com gosto e desejo sincero, poderá até mudar vidas inteiras na direção da propalada libertação humana.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O CARDEAL









 
 


O CARDEAL

Acordo o dia e a vida com a cor
do meu canto. O vermelho contra o branco.
Sofro a dor de existir com a garganta
por um fio. Um espinho sangra a flor.

A manhã azul toda se ilumina.
O galo-da-campina numa orquestra
de pássaros. A música da luz.
No peito chama, clama e açoita a dor.

Amor e dor fulgindo na coroa
da beleza. Eis a vida em plenitude.
O vento me levou, resisti quanto
pude. Nada podemos, quase nada.

O rubro, o branco, o negro conjugados
são a cor da beleza, o brilho e a sombra.
Nós levamos da vida o que vivemos
na nossa luta contra a morte em flor.


O PSDB no figurino do bom moço - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os simpatizantes do PSDB na nossa região não gostam de tocar em certos pecados. Como é natural buscam dar contemporaneidade às análises e críticas de natureza política. É como se tudo tivesse começado aqui e agora. É bem verdade que em alguma frequência o nível destes argumentos é bastante primário, enfeitados pelos trapos do udenismo moralista e pelas mágoas da guerra fria. Mas isso tem acontecido aqui e nos EUA.

Esse pessoal ler a Veja, Reinaldo Azevedo e sai reproduzindo uma seiva biliosa cheia de adjetivos e anátemas sobre os outros. Mas acontece que a história é mais dinâmica e os humanos têm a prerrogativa de pensar. Ninguém pode ser papagaio a vida toda. Tem um determinado momento que tem de ir à busca do comezinho alimento na mesa da produção coletiva.

O recente pacote do governo para estimular a indústria nacional tem matrizes como causa de desindustrialização e, também, as repercussões políticas devidas. A não ser Paulo Skaff e Paulinho da Força Sindical pegando carona no discurso oposicionista, as manifestações de hoje das centrais sindicais apontam para a politização desta questão. Não torna menor o pacote do governo como a imprensa gostaria, ao contrário, radicaliza posições justamente onde o pessoal liberal do PSDB pontificou nos oito anos do seu governo.

Agora vamos às matrizes da desindustrialização do país. Tem uma remota e outra que influi diretamente no quadro atual. A primeira foi o próprio PND de Geisel, pegando dinheiro abundante dos fundos da OPEP, ou os eurodólares e endividando o país. Então no início dos anos 80 ficamos reféns da dívida e tivemos a década perdida.

Nos anos 90 veio a estabilização da moeda com algumas intenções, muitos erros e tropeços. A raiz dos erros foram as opções neoliberais, a adesão subalterna a um consenso de Estado Mínimo e privatizações. Qual seriam os objetivos das privatizações? Superar a baixa capacidade do Estado em investir, portanto aumentar a receita do Estado. Mas aí três desgraças esfarelaram estas receitas: valorização da taxa de câmbio real, aumento da carga tributária para substituir as perdas de receitas com privatização das empresas produtoras de insumos e serviços essenciais e em terceiro os juros altos para atrair investimentos para o país, inclusive dos brasileiros ricos.

Luiz Gonzaga Beluzzo num artigo sobre a importância da indústria é quem analisa nestes termos. E aí nos surpreende sobre um tema que todos temos conhecimento, mas consideramos como uma questão meramente da cultura da informação que é o papel da mídia nisso tudo. Beluzzo diz textualmente: A cavalgada desses Três Cavaleiros do Apocalipse não prescindiu do Quarto, o bombardeio da opinião pública pelos ditos formadores de opinião.

O que se diz é que o governo do PSDB está na recente raiz da desindustrialização e chega até a ser irônico que venham usar discurso oposicionistas para exigir radicalizações. E tem um detalhe: todos lembramos que o tal Custo Brasil que fazia parte deste bombardeio da opinião pública tinha como eixo os direitos trabalhista, mas hoje o Presidente da FIESP malandramente junto às centrais sindicais passa ao largo e toca em algumas feridas chaves: juros alto, melhoria de infra-estrutura, estrutura tributária, custo da energia elétrica e da logística para exportação e venda no mercado nacional. Aconteceu uma coisa fundamental, na batuta do PSDB a produtividade dos setores privatizados, energia e comunicação, aconteceu com o aumento brutal destes serviços. Mas agora é preciso baixar e os malandros querem por a culpa no presente com o esquecimento do passado deles.

E os eleitores do Crato? Continuarão dizendo sim senhor na velha esteira do fisiologismo?

NEWTON TEIXEIRA- Norma Hauer


A DEUSA DA MINHA RUA

Foi no dia 4 de Abril de 1916 que nasceu, aqui no Rio de Janeiro, o compositor, cantor e instrumentista (bandolim e violão) NEWTON TEIXEIRA .

Morando em Vila Isabel, naturalmente conviveu com Noel Rosa, sendo também amigo de Orlando Silva e Sílvio Caldas, que gravou seu maior sucesso “A Deusa da Minha Rua”, feito em parceria com Jorge Faraj...

“Na rua uma poça dágua,

Espelho de minha mágoa

Transporta o céu para o chão...

Tal qual o chão da minha vida

A minh’alma comovida

O meu pobre coração

Espelho de minha alma

Meus olhos são poças dágua

Sonhando com seu olhar

Ela é tão rica e eu tão pobre

Eu sou plebeu e ela é nobre

Não vale a pena sonhar.



. Em 1936, , Francisco Alves já gravara ,"Ela Disse Adeus" (com Cristóvão de Alencar). Como compositor, dividiu parceria com o referido Cristóvão de Alencar ("Mal-Me-Quer", "Não", "Vamos Cantar"), Ataulfo Alves ("Você Não Tem Palavra"); David Nasser ("Até o Amargo Fim") e Torres Homem (“Recordando”) entre outros. Também foi violonista de sucesso, acompanhou ases como Orlando, Silvio e Francisco Alves, e, como cantor, atuou nas rádios Guanabara e Tupi


. Interrompeu a carreira de cantor em 1943, por causa de um problema na garganta, mas continuou trabalhando em rádio, nas emissoras Jornal do Brasil e Nacional

. Seu derradeiro sucesso, deu-se em 1969, com o samba “Lágrimas de um coração", parceria com Brasinha, interpretado por Zé Kéti em um concurso promovido para o carnaval daquele ano.

NEWTON TEIXEIRA, como outros compositores de sua época, afastou-se quando a “Bossa Nova” tomou conta de nosso meio musical e as rádios perderam sua força, com o advento da televisão.

Colocarei aqui parte da letra de “Recordando”, de Newton Teixeira e Torres Homem, gravação de Carlos Galhardo:



...e deixo-me embalar nesta canção dolente

Que fala de esperança e sorrindo me diz:

Não chores o passado e viva do prersente

Porque ainda te quero, porque sempre te quis.

E tudo se transforma repentinamente

Como um raio de luz batendo a escuridão

Minh’alma que era triste canta alegremente

E o sol do meio-dia me abrasa o coração”.



Newton Teixeira faleceu em 7 de março de 1990 , sem completar 74 anos, em seu inferno zodiacal

Norma

terça-feira, 3 de abril de 2012

PATATIVA DO ASSARÉ


Texto de Zé do Vale Filho, postado aqui no Azul Sonhado, em que tece associações da temática nordestina no desfile de algumas Escolas de Samba do Rio de Janeiro com Patativa do Assaré, fez aflorar da minha memória a figura do poeta cearense.
Minha ligação com Patativa vem da infância. A casa da minha avó, na João Pessoa, 98,  era seu ponto de apoio no Crato. Chegava nas tardes dos domingos, jantava e ficava até 21/22h conversando no terraço. No dia seguinte, terminada a sua feira, era lá que aguardava transporte para retornar à sua cidade. Tinha o hábito de responder às perguntas de minha mãe sob a forma de poesia, de improviso. Assim, cresci vendo Antônio Gonçalves da Silva declamar no terraço da minha casa. Havia uma ligação de parentesco, pois a avó do poeta era irmã da avó de D. Benigna Arraes, minha avó. Além disto, ele era afilhado de batismo da D. Silvinha de Alencar Arraes, mãe de D. Benigna. Fato de que tinha orgulho.
Seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, saiu da transcrição de cadernos copiados por minha mãe, D. Almina Arraes. D. Almina insistia para Patativa escrever seus poemas, ele sempre prometia, mas não cumpria. Percebendo que a promessa não seria efetivada, minha mãe resolveu copiar em cadernos as declamações que ouvia.  A cena era estranhíssima para mim que achava que “ditado” era tarefa restrita de estudante na escola primária.
Um dia, meu tio avô, José de Alencar Arraes, Chefe da Consultoria Geral da Presidência do BB no Rio de Janeiro, de férias no Crato, leu os cadernos com os trabalhos de poeta. Achou tudo de tanta qualidade que foi à agência do BB em Crato e requisitou um funcionário para datilografar os poemas de Patativa. Por sinal, o Gerente era Moacir Mota, filho de Leonardo Mota, escritor, poeta e folclorista famoso. Tenho lembrança da cena, para mim inusitada, de um estranho engravatado, batendo na máquina o dia todo, com o meu tio sentado ao lado e minha mãe em pé, decifrando uma ou outra palavra.
O tio José Arraes, conhecido na família como Tio Dú, merece um capítulo à parte. Nascido em Araripe, ainda no século XIX, saiu de casa com 16 anos para ganhar a vida. Era o segundo dos sete filhos da madrinha de Patativa. O primeiro era Alexandre Arraes, prefeito do Crato nos anos 40. Tio Dú foi para o interior da Bahia com 16 anos. Trabalhou em um jornal e em um escritório de contabilidade para se manter e custear seus estudos. Aos 18 anos foi para Belém do Pará submeter-se a concurso do BB. Foi gerente em Belém, Manaus, Recife, entre outras cidades, até ser convocado para a Direção Geral. Poliglota, falava oito idiomas. Filólogo de renome, autor de dicionários, gramáticas, com várias obras publicadas.
Foi o tio Dú quem custeou a edição do primeiro livro de Patativa e manteve correspondência com o poeta ao longo de sua vida. O tio lhe remetia, do RJ, livros pelo correio e minha avó Benigna, leitora contumaz, também lhe fornecia muitos livros, pedindo aos parentes que fizessem o mesmo. Patativa apesar da aparência de camponês que de fato era, era leitor voraz, sobretudo de literatura, especialmente de poesia.
Das muitas lembranças que guardo de Patativa, um detalhe sempre me chamou a atenção: o fato dele sempre recusar um quarto que lhe era oferecido para dormir na nossa casa. Preferia pernoitar em uma pensão, na rua do Recreio, quase em frente ao Hospital Manoel de Abreu. A hospedaria, na verdade, era uma latada de uma casa de taipa, com uma porção de redes armadas, uma ao lado da outra. 
Passei mais de dez anos sem ver Patativa. De férias no Crato, resolvi me deslocar até Assaré e fazer-lhe uma visita. Fui acompanhado por minha mãe e minha amiga Lilinda. Ao entrar na sua casa, cumprimentei-o com um Boa Tarde e a pergunta de praxe, “Tudo bom, Patativa?”. Surpreendentemente respondeu com uma pergunta “É Joaquim, de Almina”?  Apesar do longo tempo sem contato, reconheceu minha voz. memória auditiva admirável. Uma curiosidade, embora detentor de memória privilegiadíssima, capaz de gravar mais de mil poemas, não sabia um só número, não conseguia gravar nem o número da casa dele.

Texto dedicado a José do Vale Pinheiro Feitosa.


As Escolhas da Mídia - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os temas da mídia nestas duas semanas se galvanizaram entre dois: Demóstenes Torres e a Guerra das Malvinas. O primeiro tema é a exposição de um cacoete da mídia e ao mesmo tempo a crítica deste cacoete. A mídia adora um escândalo público, isso vende e estimula a prece moralista do nosso conservadorismo com a sina do privilégio. É o mesmo conservador que tem um bico público, sonega, gosta de uma vantagenzinha e de vez em quanto até suborna um agente público. Dirige bêbado e com um barato na cuca.

A crítica é a aliança da mídia com um submundo criminoso como a melhor prática de tomar partido contra o governo. Uma diretora da Folha de São Paulo até chegou a anunciar que a mídia fazia o papel que a oposição não tinha competência para fazer. Aí entra o Carlinhos Cachoeira e o Senador Demóstenes com os “artifícios” de buscar furos para uma verdadeira cadeia midiática formada por Veja, Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e Rede Globo tocarem no mesmo diapasão. Uma cadeia intestina de repercussão simplesmente sem qualquer crítica aos fatos.

E a prova é o seguinte: o Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres são personagens de Goiás. E a capital de Goiás não é Goiana, é Brasília. Quem alimenta a vida política, econômica e trama as punhaladas nas costas no jogo do poder é uma mancha urbana que vai até Anápolis. Não é a toa que o “empresário” Cachoeira era dono de um poderoso laboratório de medicamentos genéricos. Como sabemos o genérico brasileiro é uma política pública formulada pelo Ex-Ministro da Saúde Jamil Haddad, mas implementada a toque de caixa pelo também ex-Ministro da Pasta, José Serra. A menor crítica que se tem aos genéricos brasileiros é a de que as medidas de bioequivalência não estão obrigatoriamente postas na cadeia de qualidade destes medicamentos.

A Guerra das Malvinas está no mesmo contexto dos conflitos guerreiros no mundo atual. A Inglaterra tem uma cabeça de ponte no Atlântico Sul e militariza a região contra os países localizados no Cone Sul. Os ingleses estão ali por eles e pelos EUA. Qualquer interesse estratégico destas nações torna as Malvinas numa base de ataque à Argentina, Uruguai e Brasil. Por isso tanto ontem como agora, os brasileiros e argentinos sentem a necessidade de afastarem a ameaça do continente. As Malvinas continuam um problema estratégico a requerer coordenação continental da América do Sul.

Duas notícias andaram na periferia da mídia, mas são uma explicitação exuberante da nossa pós-modernidade. Uma delas é de que homens do Zimbábue morrem de medo das mulheres que roubam sêmen. Usam sêmen em rituais e por isso sequestram homens, forçam relações sexuais e enchem várias camisinhas com sêmen para serem utilizados num ritual típico da cultura local. Os homens recusam carona de mulheres e isso é significativo, pois é costume naquele país o uso da carona.

A outra é de que farmacêuticos hospitalares italianos insatisfeitos com o governo lançaram uma campanha sui generis: Vida dura para nós, Nada de Viagra para vocês. E aí surgiu a janela de oportunidade para o pessoal da saúde fazer greve e boicotes a quem os ignora. É antiético reter quimioterápicos para o câncer, mas perfeitamente plausível deixar mole os desejos dos vetustos senhores do poder.

Esperem aí. Só mais uma: o tremendo ato falho do Senador Agripino Maia do DEM do Rio Grande do Norte ao anunciar a desfiliação de Demóstenes Torres. Aliás, o Jornal Nacional escondeu o ato. Diante de toda a imprensa no Senado ele diz: os democratas não convivem com a ética. Logo depois se corrige, mas vale recordar o que tem na internet a respeito dos atos falhos: Ato falho é um equívoco na fala, na memoria em uma atuação física, provocada hipoteticamente pelo inconsciente, isto é, através do ato falho o desejo do inconsciente é realizado. Isto explica o fato de que nenhum gesto, pensamento ou palavra acontece acidentalmente. Os atos falhos são diferentes do erro comum, pois este é resultado da ignorância ou conveniência.

O lugar


Se as poesias são tão frias não nos trazem alegrias
Se as coloco em um Abril
Quiçá as tornem febril
Se as coloco em um rio
Espero um desafio
Se as lançam ao mar
Certamente as verei navegar
Ou quem sabe naufragar
Se as direciono ao firmamento
Quem sabe aliviará o tormento de um breve pensamento
Se as escondo na imensidão
Seguramente as terei em outra dimensão
Rosemary Borges Xavier