por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 17 de junho de 2013

O Salmão - José do Vale Pinheiro Feitosa


Entre o céu e a terra há uma estrada de sofrimento e morte. A terra onde eclodem os ovos e se tornam vida no ambiente das nascentes dos rios ou dos lagos gelados das altitudes. E quando a adolescência alonga seu corpo sai das terras altas numa viagem a favor da correnteza até as baixadas marinhas onde o mundo se lhe apresentará como projeto de futuro.

E o futuro se realiza no plâncton dos mares. Nas correntezas sinfônicas da grande narrativa dos oceanos. Tantos semelhantes, muitos predadores, o sentido trocado dos canais ora como El Niño ou como La Niña. De tudo que o universo se contamina do lixo industrial, do arrastar com força de megatons atômicos do casco dos navios petroleiros perturbando toda a dinâmica da costa. 

É uma vida de criação, de solução frente às contradições, um construir na permanente desconstrução. No meio do cardume que protege a individualidade na trama do coletivo, mesmo que alguns membros caiam pelo avanço faminto dos predadores. Mas é uma vida em permanente substituição. Em contínuo apreender as necessidades.

Em permanente aprendizado do movimento dos oceanos. Com seus ciclos naturais e seus desastres ambientais. Aprender sobre o meio em que se desenvolve é a regra da permanência nele, além do contributo, se não em capítulos inteiros, pelo menos a redação da linha de um inciso.

E quando se toma de plenas forças no ambiente salgado dos mares em que vive, vem a necessidade de gerar outros iguais e tudo o mais é esquecido. Abandona a carreira na qual se consolidara e sai em decidido contrafluxo em busca de sua origem, abandona as águas salgadas e migra na renascença da água doce com uma determinação nascida simultaneamente em si e fora de si.

Todos fazem o mesmo. Portanto uma grande necessidade externa ao corpo e ao projeto de vida no mar. Rasga a desembocadura daquele mesmo rio onde um dia desceu e, contra a correnteza e a força de gravidade, toma a sinuosidade do aclive montanhoso como destino.      

Salta corredeiras, com seu corpo sobre as pedras, rasgado pelas lâminas das lascas que a erosão das águas soltam. Enfrenta pequenas cachoeiras, se emaranha no cipoal e galhos que descem pelas águas. E vai em busca de sua origem. Contra sua higidez física. Contra sua migração marinha. Contra a sanidade da vida conhecida e, até então, satisfeita.

Paradoxalmente o Salmão retorna ao lago onde eclodiu e nele libera milhões de ovos que gerarão outros de sua espécie. E se esta dramática vida é a síntese de todos na natureza mutável é, no entanto, o curso determinado com a participação dos atores e neles, apesar da ordem geral, reside a micronarrativa de uma vida.

Mas não os Salmões das multinacionais nórdicas do sul do Chile. Multinacionais que inventaram um falso ciclo que engana esta narrativa. No lago Llanquihue eclodem os ovos e em viveiros fazem crescer milhões num ritmo de granja a engordar e crescer rapidamente. Em seguida põem a todos em imensos tanques e os transportam até as gaiolas na costa do mar.

E aprisionados, mesmo que em ambiente marinho, os salmões não mais fazem o seu projeto de vida, mas o projeto de engordar o preço das ações nas bolsas de valores. Os salmões são ludibriados com a simulação do retorno às corredeiras de origem e assim nidam os ovos necessários ao ciclo do grande negócio.


Os salmões do Chile são como o povo do Chile: uma narrativa para mover o grande capital. Que além dos ovos ainda têm a rica venda da carne do salmão abatido logo após completar sua missão nesta ordem. Tornar a vida do poderoso investidor e do grande executivo numa especial e individualista presença sobre o destino do que resta do sufoco do aumento na passagem de ônibus dos trabalhadores. 

JR - "neo-colonialismo" - José Nilton Mariano Saraiva

Quando já pensávamos que, após 513 anos de vida, finalmente havíamos nos livrado da condição de “colônia” européia, eis que através do futebol descobrimos que não. E a constatação é de uma obviedade siderúrgica, hermética, irrecorrível (como diria Nelson Rodrigues): ao ser apresentado à torcida como novo jogador do time do Barcelona, o jogador Neymar entrou em campo já envergado a famosa camisa bicolor do novo time, só que com um pequeno detalhe: às costas, embora não constasse o número que irá usar (que tal o 17, idade da nova namorada global ???) lá constava a novidade, o JR. Sim, oficialmente agora ele passa a se chamar Neymar JR, embora tenha passado toda a sua vida futebolística brasileira usando apenas o nome Neymar. Não se sabe o “porquê” da mudança, mas, provavelmente, terá sido iniciativa-exigência do novo patrão. Como, "quem paga manda, obedece quem tem juízo..."
Pois bem, eis que agora, para surpresa de todos nós, no primeiro jogo da seleção brasileira pela Copa das Confederações, diante do Japão, aqui no Brasil, tomamos conhecimento da marmota descomunal: é que, além de envergar aquela que a mídia brasileira considera a camisa mais famosa (a de número 10) os “gênios” do futebol brasileiro resolveram repentinamente mudar a grafia do nome do jogador, agregando as duas letras – JR - garantidoras que existe, sim, o Neymar-pai.

Teria sido determinação do novo exigente patrão ??? Ou será que para agradar os europeus a cúpula da CBF resolveu que o que é bom para a Europa é bom também para o Brasil ??? Tal atitude poderia ser rotulada uma espécie de “neo-colonialismo” ???  

Mau começo - José Nilton Mariano Saraiva

Ainda bem que a própria seleção japonesa de futebol resolveu nos mostrar, dentro do quadrilátero gramado, que o ufanismo exacerbado da mídia esportiva brasileira, na tentativa de promover a seleção nacional, jamais se justificou. Bisonhos, inocentes, limitados e ainda por cima extremamente cansados, os nipônicos jamais confirmaram o oba-oba, a rasgação de seda, o verdadeiro carnaval que fizeram a respeito do time: primeira seleção a se classificar para a próxima Copa do Mundo, evolução do biotipo japonês (hoje com um ou outro jogador atingindo 1,80 m de altura) até o fato de ter sido treinada, lá atrás, pelo jogador Zico, então iniciando como técnico (que jamais vingou). Assim, com um gol “acidental” do tal do Neymar (na verdade, o Fred tentou matar a bola do peito e findou, sem querer, dando um passe para ele), aliada à sempre má colocação do goleiro (que falhou ali, assim como no segundo gol) os ocidentais mostraram que ainda têm muito que aprender.
Agora, vem aí a esforçada seleção do México (aqui em Fortaleza), e essa mesma mídia trata de nos lembrar que nos últimos confrontos entre as duas esquadras os jogos foram parelhos, que eles já ganharam uma dessas Copas em cima do Brasil (4 x 3) e por aí vai, sem que se atente que na briga pra participar da próxima Copa do Mundo os mexicanos estão ameaçados de não lograrem êxito, já que atrás dos Estados Unidos e Costa Rica na tabela classificatória.

E o tal do Neymar ??? Continua sem jogar nada e a cair muito (mesmo ante uma marcação frouxa como a japonesa), mas, ainda assim, eleito o “craque” do jogo. Os critérios utilizados ??? O gato comeu.

domingo, 16 de junho de 2013

Os Avatares do Conservadorismo - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os recentes acontecimentos de violência nas ruas de São Paulo têm um mérito incontestável. Aproximar o Brasil de todas as manifestações que acontecem nos países em crise assim como aconteceu com o movimento estudantil de 1968 (falo da aproximação pela mobilização). Além do mais mexe na envelhecida geração de 68 que já não consegue enxergar o momento com tanta clareza quanto via aquele de sua juventude.

A tônica da análise mesmo entre pessoas mais liberais é que o movimento gera uma perplexidade pela falta de bandeiras. Que a liderança não nasceu de organizações políticas, mas das redes sociais e que são muito jovens e “têm aparência frágil”. Que ele é apenas um movimento para expor a “energia da juventude’. Não tem alvo algum, só a sede de “mostrar a cara e participar’. São “avatares das redes sociais sem ideologia”, além de não terem “bandeiras claras” quando as tem não possuem as informações mínimas sobre os determinantes destas bandeiras.

Enfim os liberais esperam que os jovens aprendam com a violência nas ruas que saibam isolar os vândalos (sempre eles) e que tudo isso seja um exercício para formar os donos do futuro político do país. Acrescento por conta e risco: são os futuros líderes paulistanos que carregarão o futuro de todo este país? Não os jovens do Prouni, os egressos do bolsa família do nordeste, mas esta “gente fina é outra coisa”?

Já para os autoritários das direita a visão também é de perplexidade e carregada “in extremis” com a análise desqualificadora dos radicais de classe média. Um parêntese: do mesmo modo que classificavam no passados todos os universitários e secundaristas que fizeram a mobilização contra a ditadura que para este “direitões” eram merecedores da tortura e do extermínio feroz porque defendiam o comunismo soviético.

O que dizem se assemelha no núcleo das ideias aos liberais e se distancia na centrífuga das palavras. Para eles os jovens por todas as ruas do Brasil não têm uma raiz sociológica para chamar-se movimento social, são grupos esquerdistas sem importância política, têm prática fascista porque não têm expressão eleitoral (estão fora do mercado – acrescento por similaridade); encenam a revolução para suas bases que igual aos cristãos estão na eterna espera da queda do capitalismo que nunca vem (e nem virá até ao fim dos tempos).

A direita acrescenta mais alguns retoques ao perfil do Movimento do Passe Livre: o preço da passagem é apenas um mote para que as bases se mobilizem pois razão alguma há para se fazer a revolução contra o capitalismo. Por isso a radicalização destes grupos se retroalimenta com o vandalismo, saques, violência de destruição do patrimônio público e privado. E tem mais: a inteligência deste argumento que parece ter uma certa titularidade acadêmica é de modo tão burra que parece um ato de má fé. Argumenta que hoje não existe razão para fazer qualquer movimento igual a este pois vivemos em plena democracia e não existe semelhança com os anos 60 e 70.

Se este é o tipo de professor nas nossas universidades, estamos todos perdidos. E as democracias americanas, francesas, alemãs e italiana dos anos 60 deram conta da luta pelos direitos civis? Por mais justiça social ou por acesso às universidades? Mais uma vez estamos tomados pela incapacidade de entender o nosso tempo? Talvez não, eles querem a capacidade de atacar as vítimas deste tempo.

As manifestações de rua pelo mundo todo, inclusive derrubando governos, simultaneamente acontecidas na periferia de guerras civis e das guerras imperiais e neocoloniais, além da permanente tensão com as armas nucleares são o espelho desta história. Os avatares das redes sociais e os vândalos não explicam nada. Basta viver nas grandes cidades para se entender que há um abismo entre periferias de baixo emprego e o centro que emprega e que absorve o conforto do dinheiro coletivo. Esta é a contradição que ninguém procura entender. E para entender realidades complexas é preciso despir-se de seus confortos e de suas fés nos modelos vigentes.  

Sinceramente: jamais tivera a consciência tão nítida do quanto o conforto material amolece a consciência de classe (falo dos liberais, a direita de classe média continua igual em todas as idades).


sábado, 15 de junho de 2013


A Estrutura e Ação da Direita na América do Sul - José do Vale Pinheiro Feitosa

Um paulistano. Igual a estes que correram abaixo da saraivada de balas de borracha, spray de pimenta e gases irritantes das mucosas. Destes paulistanos que foram presos porque portavam garrafas de vinagre para suportarem os efeitos sufocantes do gás lacrimogênio.

Estava vestindo a pele de um turista deslumbrado, ele e a namora numa viagem internacional a uma realidade distinta do seu dia-a-dia. Com a câmara fotográfica à mão, aqueles equipamentos digitais maravilhosos, com lentes de longa distância, fotografando de modo a romper tudo que lhes ensinaram na faculdade de administração e que é o suprassumo da dinâmica empresarial.

Perdera o foco. Não perdera o clic, apenas o foco conceitual, a obrigação de se concentrar no seu negócio e segui-lo como uma batalhão que segue a trilha do objetivo. Fotografava tudo. Quem sabe algum ângulo, um detalhe não lhe desse a expressão de uma fotografia artística ou o registro singular de um momento.

E assim vinha o nosso paulistano como um paulistano de volta para casa ali no centrão da cidade de São Paulo. Pela Maria Antônia, na Consolação, na Augusta ou na Paulista. Vinha pelas ruas de Santiago do Chile, aliás no vazio dos dias de domingo, mas plena da truculência da polícia chilena acostumada a massacrar manifestantes e opositores.

Vinha o Paulistano como um “inocente” que não sabe bem porque a mão do destino lhe dá uma cacetada. Assim como um jornalista da Folha de São Paulo, do Estado ou do Globo andando na calçada estreita entre as manchetes e editoriais de suas publicações pedindo porrada e a porrada que lhes caiu nos olhos, no lombo, cacetadas no pescoço.

As ruas desertas de Santiago eram o prazer da liberdade de poder gastar aquele dinheiro suado numa viagem internacional e as imagens eram o troféu da conquista. Eram mais do que registros, eram os souvenires dos pedaços daquele lugar. E assim o paulistano como um poeta metrificava cada espaço no centro da cidade.

São Paulo com suas mazelas. Suas revoltas e sua ideologia do negócio. As partículas da matéria e da energia são apenas a física do negócio. Tudo que existe é o negócio. Manipule, crie demanda, venda e lucre. A felicidade é o ciclo completo e a civilização a lei da oferta e da procura.

Seja livre e tenha méritos. Eis o discurso ideológico. Esta tua liberdade o levará muito além e a tua “competência” galgará a escadaria luminosa de Jacó. Por mérito sentarás à mão direita de Deus para julgar os vivos que desejam respirar, beber e comer quando por teus critérios eles não merecem isso e sim muito tiverem restara-lhes uma cova rasa e uma placa elucidativa dos desconhecidos.

Ser Paulistano, já com a conquista do status de turista é uma vitória deslumbrante na carreira deste mérito outorgado pelo departamento de RH da empresa. Estava num estágio de superioridade, de domínio do pedaço, assim como os jornalistas que acompanharam na última quinta-feira a manifestação da juventude em prol do passe livre no transporte coletivo.   
   
Acontece. Ele não é o escolhido. Não pertence à classe privilegiada. Não tem segurança. Não tem direito. Nem cuidados com sua segurança pode ter pois a violência nascida na raiz que lhe inventou se volta contra ele com um furor que reduz suas conquistas a pó. Uma lama que nem privada mais o é. É lixão de todas as pessoas excluídas desta “civilização” que corre mundo em todas as cidades com seus exércitos e polícias violentos.

O paulistano se admirou daquele carro da polícia repressiva do Chile pronta para massacrar algum estudante que viesse à ruas reivindicar universidade pública e gratuita. O carro era blindado, tinha chapas por todos lados e grades de ferro à frente dos vidros e das portas. Era uma imagem muito diferente para o paulistano. Ele nunca o vira antes e o fotografou.

O mundo desabou sobre ele. Foi cercado por soldados fortemente armados, vestindo roupas blindadas, bombas, armas pesadas, máscara de proteção, capacete e uma determinação de arrasar quarteirão. Frente ao nosso paulistano frágil, de carne e osso, afinal compreendendo não ser nada na engrenagem empresarial dos negócios, dos focos e dos objetivos.

Não teve a dignidade do seu corpo lanhada em pancadas como seus conterrâneos estão tendo, mas sua honra, sua liberdade, suas vitórias, sua dignidade psicológica viraram um nada diante da “mão invisível” do capitalismo sul americano. Mas antes de tirar o paulistano das ruas de Santiago e remetê-lo no voo para sua conflagrada São Paulo é preciso dizer que no mesmo dia em que corria sangue do rosto de pessoas na cidade brasileira, em Santiago igualmente corria.

Com invasão da Universidade pela polícia, o massacre de professores, pais e aluno. E não deixa de ter a face lisa, cruel e cínica de um Piñera ou um Alckmin no dois lados dos oceanos sul americanos justificando o massacre.



Os Lagos Andinos e sua Travessia - Parte 2 - José do Vale Pinheiro Feitosa

De Peulla, após a burocracia da emigração chilena, se atravessa uma grande fazenda que cria Llamas, Alpacas, Carneiros e Bovinos e daí se toma uma via estreita subindo os Andes. Passando em diversas cachoeiras, rasgos de rios descendo algum declive suave da montanha e sobre seus leitos, por vezes, o Condor sai das alturas vem com sua envergadura de asas espetaculares a planar o vale em busca de comida.

Neste vales estreitos a noite sem lua apaga todos os traços do conhecido. O viajante em caminhadas perde a trilha e se toma de uma perdição gelada e úmida que pode minar o ânimo de sua existência. Nas montanhas com vegetação densa e sempre verde, apesar do frio, habitam animais maiores, inclusive o puma. Que se satisfaz com o que tem nas alturas, mas na escassez, desce até aos vales em busca de presas nas fazendas. Um viajante perdido não se exclui deste cardápio, embora não se tomem notícias entre os guias turísticos de que tal aconteça. Só o cuidado com as possibilidades.

Os micro-ônibus são aparelhados por sistemas de rádio para avisar que transitam a estreita via que sobe a montanha em direção à fronteira com a Argentina. De tão estreita é impossível cruzar veículos, mas apenas os veículos com os empregados no negócio do turismo funcionam. Aliás esta travessia começou a ser feita à pé, no início do século XX, por europeus que pagavam ao dono da fazenda que funcionava em Peulla. Por isso surgiu o negócio da travessia e do hotel em Peulla.

Mais de um século após ainda é um negócio da mesma família que é de descendência suíça. Os barcos, os hotel, os ônibus e micro-ônibus, além de guias, pilotos e motoristas e todo o pessoal de serviço. A família tem uma casa numa ilha no lago Todos os Santos e quando os barcos passam em frente a ela, tocam a buzina em homenagem ao fundador. É um ritual seguramente tradicional, mas hoje é mais para turista saber da história da família. Na travessia até Peulla de vez em quando um pequeno barco a motor encosta no barco maior com a finalidade de trocar passageiros que embarcam e desembarcam. Inclusives empregados do hotel que vivem às margens do lago.

Entra-se no território migratório da Argentina pelo Lago Frias, uma pequena bacia navegada em meia hora. Desce-se em Puerto Alegre e de micro-ônibus chega-se a Puerto Blest. Neste porto o turista já se encontra num dos maiores lagos andinos. O lago que deu vida econômica a San Carlos de Bariloche. Um lago imenso, o Nahuel Huapi, que fica a 764 metros acima do nível do mar, tem uma superfície de 55 mil hectares e uma profundidade conhecida de 454 metros. Ou seja quase meio quilômetro na parte mais funda.

De Puerto Blest até Llao Llao, onde existe um dos hotéis mais caros da América do Sul, o catamarã leva quase uma hora e quarenta minutos. Navegando o lago pelas margens de verdadeiros fiordes e durante a travessia as gaivotas pousam no barco para se deixarem fotografar bicando, em pleno vôo, biscoitos que os turistas deslumbrados põem na ponta dos dedos. De Llao Llao até o centro de Bariloche o ônibus leva meia hora.

Enfim Bariloche que projetou-se como uma moda de deslumbramento de novos ricos brasileiros é de fato uma paisagem, uma viagem ao universo montanhoso das saudades seculares que a sociedade dominante da Europa nos impregnou. Neve, lagos, jardins floridos, casas em encostas de morros, lareiras, gramados e campos desenhados por montanhas e animais.

À noite, num restaurante alemão, um salto de dentro para fora do universo consumista que soterram os turistas. Um descendente de alemães tocando um acordeon magnifico e solando canções de todo mundo. As melodias que fizeram o mundo entre os anos 30 e o final do século XX. Até o nosso Luiz Gonzaga em seu voo internacional com seu Assum Preto se ouviu junto com tangos, canções americanas, francesas, alemãs, italianas e o nosso Brasil de Ary Barroso.

Ali um bom vinho de uma vinha a que os argentinos chamam de Bodega del Fim do Mundo que dá fantasia à Patagônia e o fim do continente. Sem deixar de falar no prato que era um Carneiro Patagônico, na verdade pedaços assados da junção da costela com o espinhaço. Muito gostoso. Feita a fantasia completa. Faltava atravessar os Andes de volta ao Chile, passando pelas alturas onde todo o relevo se encontrava encoberto por uma camada de areia branca que foi oriunda do vulcão Puyuhue.

Recordemos. No final de 2011, não a cratera principal, mais pequenas crateras ao redor do Puyuhue lançaram cinza na alta atmosfera a ponto de causar problemas na aviação sobre a cidade de Porto Alegre e em Buenos Aires. O pessoal de Bariloche diz que por volta de 4 horas da tarde fez-se noite e no céu escuro aconteceu um tempestade elétrica com raios aterrorizando a escuridão das cinzas que caíram sobre a cidade em grossas camadas, irritando olhos e causando problemas respiratórios. 
  
De volta ao Chile e uma conversa com o motorista numa visita à Ilha de Chiloé lhe dizendo que os Argentinos não pronuncia Lla Llao como os chilenos que diz Jao, Jao, mas Xao Xao, além de que tínhamos tomado vinho da Patagônia e comido carneiro da Patagônia. Pronto restabeleceu-se a guerra do Canal de Beagle: o chileno desfez a fantasia que tais coisas fossem da Patagônia a milhares de distância de Bariloche além de falar onde a melhor pronúncia do Espanhol havia na América do Sul. Não era argentina certamente, embora admitisse que tampouco chilena. 

Afinal a grande viagem é uma curtição no verdadeiro sentido do curtume. O negócio do turismo é uma venda comercial com as disputas de fantasias. O melhor, o maior, o primeiro, o mais belo, o mais emocionante, o mais engajado, o mais romântico, o mais luxuoso. A fórmula ainda funcionará por muito tempo até que se descobra o verdadeiro sentido do viajar sem turismo.


Encontrar-se no mundo, neste mover-se do tempo e do espaço. E, desgraçadamente hoje é um encontrar-se em circunstâncias filosóficas e históricas que emparedam ou melhor, cegam o existir para a paisagem fora dos marcos do princípio e do fim. Quando os campos forem realmente parte da viagem ela será uma não viagem. Ou melhor, não será de recreio, mas do viver. Não será esta viagem para fora da existência com a promessa do céu. Será a viagem no “céu” da existência. E não obrigatoriamente na posição de lótus sem sair do lugar. Se temos pernas para que as quero?

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Do pijama à gravata



Em meio ao mundo utilitarista  em que vivemos, somos, continuamente, impelidos a crer que as cidades  são constituídas de prédios, de ruas, de carros, motos, muros e paredes. Ledo engano, amigos !  Uma peça de teatro, se se reparar bem , não  se resume apenas ao cenário. O que a faz grandiosa ou medíocre é  o doce tecido do seu enredo, a maneira sutil e poética com que os personagens desfilam, dialogam, interagem. É da leve trama das relações humanas, do bordado fino das aproximações, do macramê tantas vezes grosseiros  das suas  dissensões de que são fiadas as vilas e as cidades. Cada um de nós é uma linha nesta delicada trama. Alguns têm capacidade menor de insinuar-se entre os outros fios e se puem mais facilmente. Outros , tangidos pela agulha do destino, banham-se de cores, mergulham no coração do tecido , em sucessivos vai-e-vem e terminam por fazer brotar o bordado único que embeleza a toalha da vila e da vida: a casa, o lago, o sol, a árvore.  Sem eles, a urdidura do pano permaneceria na inércia da opacidade, na insulsa imacuidade do branco.
                                   No último mês ,  o Crato  viu esmaecer-se um pouco sua aquarela. A mão implacável do tempo desbotou, um tanto,  o colorido do nosso estampado.  Claro que o pano se vai puindo e outros desenhos vão surgindo nas extremidades, no faz-desfaz das ondas das horas. Mas doe-nos imaginar que os ornatos que nos acostumamos a admirar,  jamais os veremos de novo com as mesmas cores e as mesmas nuances. Um dos fios chamava-se Antonio Luiz Barbosa e era querido por todos. Funcionário aposentado do Banco do Brasil especializara-se na fina arte de fazer amigos. Um deles havia sido o Dr. Antonio Gesteira , uma das mais mitológicas figuras da terra de Frei Carlos e que nos deixara há mais de cinqüenta anos. Antonio Luiz fez-se o guardião da memória do nosso carismático cirurgião. Deixou, ainda, o mais completo trabalho que conheço sobre a vida do amigo, escrito num português correto e erudito, típico de quem havia perlustrado os umbrais do velho Seminário São José. Boêmio, amante das noites e tardes da  sua terra, compunha um grupo dileto de companheiros em que, estranhamente, o principal atrativo que os unia era a conversa, a palestra, a fofoca e não outras libações. Essa trupe engalanou as rodinhas da cidade por muitos e muitos anos e trazia nas suas hostes   membros ilustres e queridíssimos  : Caio Teles, Felicinha, Tália, Márcia, Regina Helena, Telizito, Dolores Milfont, Antonio Primo, Dionê e Natércia Pinheiro. Todos ainda tão presentes entre nós, dispersos que foram pela  inexorabilidade do tempo. O Crato fica menos colorido quando se percebe que toda uma trama rica  do bordado se esfumaça.
                                   Nestes dias, outros passamanes se desfizeram. Partiu o mais importante poeta-cronista caririense da atualidade. Mestre da poesia de circunstância, úmido do fino humor e sarcasmo da poesia popular, nosso poeta fez-se o fino crítico dos nossos costumes e da vida cotidiana cratense nos últimos cinqüenta anos. Chamava-se Zé Landim. Esportista nos anos áureos do futebol de salão cratense, fora um goleiro inspirado e admirado. Alma boêmia, tinha a noite como irmã , parceira e cúmplice. Seresteiro incensado, sua voz bonita e afinada inundou as serestas caririenses e saudou nossos luares. Interessante figura humana, Zé Landim fabricava amigos com a mesma facilidade com que se enfunava de arroubos os mais pueris, talvez porque , no fundo, nunca tivesse deixado crescer a criança que carregava consigo e norteava seus passos de artista.  Zé foi um ser múltiplo mas , certamente, era o fino bardo da poesia circunstancial que mais se lhe sobressaía. Era um craque. Vejam, por exemplo, as músicas  de campanha eleitoral. Alguém já viu coisa mais besta e banal ? Alguém se lembra de alguma da última campanha? Pois bem, há quarenta anos, Zé Landim fez um paródia para a campanha eleitoral de Pedro Felício que ainda hoje, pasmem vocês, está na lembrança de toda uma geração :
                                   “O Crato, já foi princesa
                                   A todo mundo  causava admiração
                                   Seu Pedro, na prefeitura, prá todo mundo
                                   Deu show de administração...”
                                   A maior homenagem que podemos lhe fazer, é lembrar algumas dessas crônicas poéticas que  ,se não escritas, tangidas pela volátil lembrança da oralidade, terminam por se perder na voragem do tempo. Pois vamos lá ! Grande Zé Landim!
                                   Zé fora dileto amigo e correligionário de um dos mais populares políticos do Cariri. Sabe-se lá porque, uma grande confusão aconteceu. E, em se tratando do nosso  poeta, não se fazia necessário muito para acender o estopim curto e inflamado. A intriga perdurou por muito tempo. Um dia, estava ele na rua conversando com um amigo comum, quando uma caminhonete parou colada aos dois. Era o político. Conversou com o amigo, mas como se dirigisse aos dois, pretendia, de alguma maneira, acabar com a infuca que já durava anos . Zé Landim fez ouvidos de mercador. Vindo da fazenda, após os cumprimentos, tirou o político dois queijos e presenteou os dois. Ao sair, Zé , desconfiado, cedeu o queijo ao amigo e à tarde mandou-lhe  uma quadrinha que , genialmente, resumia o encontro :
                                   “A velha cidade do Crato
                                   Doutras plagas é diferente
                                   Lá se dá queijo prá rato
                                   Cá rato dá queijo a gente”
                                   Zé Landim freqüentava, também,  com amigos de boêmia,  a bodega de uma outra figura adorada em Crato. Era ali numa das esquinas da Nélson Alencar e o proprietário :  Heleno Feitosa, um desses desconhecidos heróis do cotidiano. Heleno trabalhava de sol a sol. Almoçava no próprio estabelecimento, não arredava o pé  e com aquele pequeno comércio, trabalhando diuturnamente, formou todos os filhos e os fez cidadãos de bem. Um dia, Zé notou que Heleno ficava todo tempo sentado e com um pé inchado e em cima de um outro banco. Perguntou-lhe se o  tinha fraturado em algum acidente. Heleno, então, informou-lhe que se tratava de um esporão de galo que estava nascendo no tornozelo e incomodando como o diabo. Pouco depois, com o poder de síntese dos grandes poetas, Zé resumiu tudo numa Nona inesquecível :



                                   “Heleno Sales Feitosa
                                   Leva uma vida penosa,
                                   Todo dia faz serão,
                                   Trabalha que só um louco,
                                   Todo tempo prá ele é pouco
                                   E mal engole o pirão.
                                   Trabalha o ano inteiro,
                                   Não tira o pé do poleiro,
                                   Já tá nascendo esporão.”

                                   Uma outra história envolve nosso poeta e um outro mito cratense: João Aires de Aquino, conhecido por todos pelo carinhoso sacro-monárquico apelido de Dom João. Nosso quase rei ou bispo era proprierário de um dos mais famosos bares da cidade e que, pelo próprio temperamento algo difícil do dono, tornara-se quase um clube fechado. Zé Landim era um dos membros titulares e  vivia a cutucar onça com vara curta, aperreando o proprietário aqui e ali, esperando a reação. Um dia saiu na cidade a notícia que D. João havia sofrido um acidente de carro e estava ainda em recuperação, todo enfaixado. Zé Landim visitou-o e, depois, resumiu, assim o ocorrido :




                                   “João Aires de Aquino
                                   É um menino traquino
                                   E mexe com todo mundo,
                                   Num desastre de veículo
                                   Quebrou o par de testículo
                                   E as quatro pregas do fundo”
                                   D. João agüentou firme os primeiros versos, mas no final, saltou do cavalo :
                                   --- “Pensa queu não sei o que você tá insinuando, rapaz? Você tá querendo dizer queu só me restaram quatro, né, seu filho duma mãe?
                                   Sem Zé Landim e Antonio Luiz desbota um pouco a alma encantadora da cidade.  O Crato fica mais chato e menos gaiato:  tira o pijama e veste a gravata.

J. Flávio Vieira

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os Lagos Andinos e sua Travessia - parte 1 - José do Vale Pinheiro Feitosa

O turismo é um enredo da fantasia. Viaja-se em terras nunca dantes navegadas em nossos sonhos. Visitam-se paisagens, ruas e povos que continuam a ser estas categorias mas, como num ritual mágico, se elevam em significados. Os significados mágicos que já na encontramos nos nossos espaços sedentários.

Estrato da navegação, das grandes estradas, da conquista do ar, qual seja os meios que aceleraram o corpo humano a romper léguas de distâncias, a viagem se tornou ao mesmo tempo o grande adeus e a grande recepção. Por isso a viagem se tornou a mais relevante expressão da mudança. Da transformação. Quem sabe até da revolução.

E foi aí que num mundo mercantil a viagem se tornou objeto de venda. Até mesmo as chamadas viagens ao coração da natureza, ao âmago da fé religiosa, ao encontro da família e dos amigos, ao gosto da aventura e do conhecer o desconhecido, se tornaram oportunidade de negócio.

E desse modo aldeias de pescadores como Jeriquaquara se tornaram objeto do desejo de milhares de viajantes vindos do hemisfério norte, da outra banda do mundo e, claro, do sul do hemisfério sul. Tomando como referência paulistanos no amplo espaço a se deslocar com seus corpos independentes dos brutais engarrafamentos.

O remoto, o inacessível, o mítico e o sagrado foram desnudados, desmistificados num processo de "remistificação" lucrativa que move o negócio e viajam as pessoas. Tem de tudo para todos os estilos. Desde aqueles deslumbrados pelo consumo e pela afetação de expor-se no consumo fugaz do luxo, até aqueles tímidos das moedas contadas, numa despesa que parece um bolso furado e um aporte que parece as marquises daqueles sem teto.

E pelas gargantas que dão passagem às montanhas. Acima das nuvens furadas pelos pícos nevados dos Andes. O romper do manto de névoa e abrir-se sobre uma paisagem ondulada na encosta das grandes e escarpadas elevações. Paisagem sobre a qual um tapete lindamente verde associa o viajante com a única paisagem referente: as pastagens alpinas da Suíça, Alemanha e Áustria.

Os lagos com nomes de raízes nativas. Assim como o fabuloso Llanquihue em cujas margens os migrantes alemães do século XIX deixaram ali uma cultura, uma economia e uma elite rica que regra a vida de todos. O mais impressionante do Llanquihue é sua paisagem de campos, montanhas e o fabuloso Vulcão Osorno com seu topo nevado. O vulcão se posta no horizonte das margens do lago assim como o Monte Fuji dá alma à paisagem e à fotografia japonesa.

Em Frutillar uma cidade da colônia Alemã a mais reveladora geografia social da sociedade desigual: a parte alta onde vivem os operários e a pequena classe média e a parte baixa, à beira do lago onde vivem não muito mais do que três mil pessoas, em ruas de cinema, jardins alpinos, casas alemãs, lojas e restaurantes e bares para turistas.

Na pequena cidade um dos melhores teatros que se vê até mesmo em grandes cidades. Todo construído com revestimento externo de tábuas de madeira em diversas cores. O teatro tem biblioteca, loja de vendas, salas para cursos, salas para apresentações mais restritas e o grande salão. Nele acontece um festival de música no verão sul americano comparável à qualidade do melhor do hemisfério norte.

A jóia do turismo dos lagos é sua travessia entre Puerto Varas e San Carlos de Bariloche na Argentina (conhecida pelos brasileiros apenas como Bariloche. Nos meses frios, especialmente julho tem tanto brasileiro que se brinca como se fosse o nome da cidade Brasiloche). O percurso chileno começa em ônibus, à margem do Lago Llanquihue, entra no Parque Vicente Perez Rosales (de preservação), visitam-se corredeiras de um rio e a seguir vai a Petrohue num porto do lago Todos os Santos (com as águas num belíssimo verde esmeralda) e o atravessa por quase duas horas.


No outro lado do lago, numa estreita faixa de terra plana embaixo das alturas dos Andes, fica Peulla e seu hotel para criar fantasia em turista. Mas uma fantasia de frio, de lago, de picos nevados e se houver uma lua cheia, de montanhas prateadas a cercar o território do visitante. A luz elétrica gera-se numa turbina de quedas d´água e só existem estradas estreitas a ligar as poucas casas. Não moram muito mais do que cem pessoas. Os funcionários do hotel trabalham num regime de embarcado em plataforma de petróleo: muitos dias no local e alguns em suas casas distantes. 

Uma noite de música - José do Vale Pinheiro Feitosa

E antes que a noite acabe. Que o encontro dos namorados cruze o ponteiro da meia noite ainda tenho tempo de oferecer a todas as mulheres o arquivo que segue abaixo. Mulheres com as quais namoro no ser de uma namorada. Namoro de presentes, passados e futuros. Sem prateleiras comerciais. Sem o consumo a esgotar a vida. Ao contrário, um namoro com luar, água e violão. Promitente e cumpridor. 


quarta-feira, 12 de junho de 2013

#FortalezaApavorada - José Nilton Mariano Saraiva

A incompetência e despreparo do titular da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Ceará (que foi escolhido a dedo e rebocado lá de Sobral pelo próprio Governador Cid Gomes), fizeram com que o Estado do Ceará (e principalmente a capital, Fortaleza) virasse manchete dos principais jornais e noticiosos do país, porquanto os índices de criminalidade atingiram números recordes nos últimos meses.  A coisa chegou a tal ponto que o Ceará disparou na liderança no que toca ao número de homicídios cometidos, suplantando inclusive o Estado de São Paulo, que detém uma população muito superior à nossa. E mais: por aqui os bandidos já não fazem nem questão de esconder o rosto (com máscara ou capacete), porquanto sabem que o setor está sem comando, acéfalo, um zero à esquerda.    
Por conta disso, surgiu nas redes sociais o movimento civil #FortalezaApavorada (assim mesmo, sem separação das palavras), que pretende reunir os diversos segmentos sociais objetivando “acordar” as autoridades competentes, concitando-as para a gravidade da situação. E, para tanto, convocou a população em geral pra se fazer presente a um protesto pacífico, com data, hora e local marcados (dia 13.06.13, às 15:00 horas, na cercanias do Palácio do Governo).
Foi o bastante para que o Governo do Estado preventivamente soltasse uma nota pública em que, mesmo reconhecendo a falência da política de segurança pública adotada pelo Estado (“...o Governo do Estado tem a consciência e a humildade de reconhecer que alguns crimes cresceram de forma intolerável; são eles o assalto à mão armada nas regiões de melhor renda e os homicídios nos bairros mais pobres”), ainda assim tenta tirar o braço da seringa e partir para a ofensiva ao denunciar/sugerir, sem nenhuma prova do que afirma, que “...grupos partidários e marginais de uma milícia que está sendo combatida dentro do organismo policial, pretendem se infiltrar na manifestação com o intuito de provocar violência e gerar repressão que escandalize a opinião pública”.

Numa mostra de que - tal qual cego em tiroteio, que não sabe pra onde correr ou o que fazer - tenta ameaçadoramente desestimular quem pretende comparecer ao ato ao literalmente sugerir que o “pau vai cantar”, conforme constante do último parágrafo da sua nota: “Aproveitamos para pedir aos participantes do movimento que evitem trazer crianças para a manifestação e não aceitem provocações de indivíduos infiltrados”.  

Tal ameaça nos faz lembrar aquele comandante nazista que, confortavelmente instalado em sua suíte na parte mais alta do campo de extermínio e cercado por seguranças, divertia-se em “praticar tiro ao alvo”... com seres humanos indefesos.

E aí, vamos lá ???

terça-feira, 11 de junho de 2013

Olhem só esta declaração do prefeito do Rio, Eduardo Paes sobre uma hipotética vitória da Argentina sobre o Brasil numa final do mundial: “Se eles vencerem o Brasil na final, eu me mato!”, disse. E complementou: “Eles já têm o Messi e o Papa, não podem querer tudo”, brincou Paes.  

Isso num jornal ou numa revista não teria efeito desconhecido para a pronta brincadeira do leitor: agora temos um motivo para torcer pela Argentina. Só que a brincadeira ficaria restrita ao leitor e eventualmente num encontro entre pessoas se reproduziria a brincadeira.

Mas nesses tempos de internet a história muda de figura: logo um grupo de pessoas reproduz o desejo de se livrar do prefeito simultaneamente através das redes sociais. E é o que está acontecendo.


Até estas gracinhas terão que ser retocadas para uso público.