por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Padim Pedro - José do Vale Pinheiro Feitosa


Padim Pedro foi um vulcão com comportamento de cachoeira. Tinha uma força permanente de expressão telúrica e por ser permanente não era apenas um vulcão. Ainda na mocidade, nas quebradas de Cariutaba, fez seu próprio carrossel para ganhar dinheiro nas feiras e quermesses. Como todos tinha a ambição do plantio e da criação, mas na realidade tinha mesmo era espírito de gato de botas. Seu momento estático era romper léguas de distância a vender coisas. Pegar nas vizinhanças equatoriais e vender até aos trópicos.

Quando enviuvou, deixou meia dúzia de filhos no Ceará e mudou-se para o Rio de Janeiro no início dos anos 30 onde se casou pela segunda vez aumentando a densidade demográfica em mais oito vidas. Comprando ouro no Juazeiro e vendendo desde a calha do Amazonas até o Rio de Janeiro, Padim Pedro, se não fosse a injustiça nacional, já teria a patente de Almirante por tantas vezes que atravessou a costa brasileira.

Para compreender a personalidade de Padim Pedro além daquela corrida magmática, lembro dos sustos que nos deu. De repente lá chegava ele na porta de casa falando alto, contando coisas, pedindo água para matar a sede e abrindo mala para tirar os chinelos do repouso na cadeira espreguiçadeira. O mundo se desdobrava: Padim Pedro era avô de todos nós e já tinha mais de dúzia de bisnetos.

Sim é sobre os sustos que nos dava. De repente ele soltava um gemido de abalar a foice da morte e todo mundo vinha socorrê-lo com a fatalidade na ponta da pergunta sobre que mal lhe passava. E Padim Pedro respondia: nada! É que eu acho bom demais gemer. A paz reinava e se preparava a refeição antes do descanso do viajante.

Lembro como se estivesse acontecendo aqui na minha frente. Padim Pedro estava no céu do sabor, nas vizinhanças de sua alma cearense comendo a mais legítima culinária da terra. Satisfação maior só pode existir no outro mundo. Padim Pedro, sem cerimônia, enchia o gafo, levava à boca e logo estava com ele pegando mais outra porção. Eu só me lembrava dos trabalhadores enchendo um caminhão de areia no eito de sucessivas pás de material.

Tudo as mil maravilhas e para satisfazer mais ainda o meu querido avô Padim Pedro resolvi lhe ofertar a mais alvissareira das novidades. Padim Pedro na abordagem inicial queria mesmo era misturar sabor com boa conversa, de modo que o gafo não parou de viajar enquanto a mastigação triturava rápido e a faca cortava a carne na velocidade de uma máquina. Apenas o olhar de banda me dava certeza de ouvir as novidades.

O senhor vai ficar mais alegre ainda. Nasceu seu tetraneto!

Menino que susto mais veloz nunca tive. Padim Pedro largou o gafo e a faca sobre a mesa e desceu com os dois braços estrondando a mesa com tanta força que o prato dançou com comida e tudo e os talhares suspenderam-se no ar para retornar ao repouso da mesa fazendo uma cruz.  

Homem não me diga uma coisa dessas! – a voz de Padim Pedro era como um trovão de estalo.

E o que foi Padim Pedro?

Ô meu Deus do céu porque eu fui fazer um acordo desses? Agora danou-se tudo! Tô acabado! Mas que negócio mais mal feito eu fui fazer. – E repetia as lamúrias do acordo desvantajoso que fizera. Eu nem podia ligar uma coisa com a outra e perguntei que negócio fora esse.

O acordo que eu fiz com os santos que eu só morria quando nascesse o tetraneto. E ele nasceu. Eu agora vou morrer. Que acordo mais besta foi esse e eu não posso desmanchar.

E menos de 48 horas após lá saiu Padim Pedro passando pela casa de cada filho. Rodou vários cantos desse Ceará, foi encontrar mais outro que morava em Belém do Pará. Catou cada descendente que há nesse mundo para se despedir. Inclusive os outros filhos que moravam no Rio.

Quinze dias depois do retorno ao Rio, Padim Pedro tomava pouso na casa de Tio Gustavo, filho dele, e assim como os acordes finais de uma melodia fechou os olhos numa poltrona na qual descansava após o almoço. E desse modo aquela continuidade telúrica não mais manteve a erupção.

  

domingo, 16 de dezembro de 2012

Atos de Ofício com Vestimenta de Atos Falhos - José do Vale Pinheiro Feitosa


Quem escreve com frequência e é lido, tem alguns defeitos: fazer frases que mudam o sentido do que desejaria dizer, além dos atos falhos, ou frases mal construídas que levam o leitor, com razão, a concluir exatamente ao contrário do que ele queria dizer. Hoje o papa Bento XVI é autor de uma frase extremamente infeliz uma vez dita a uma multidão de fieis, se é que o erro não tenha sido da tradução. Vamos à frase: “fiquei profundamente entristecido pela violência sem sentido de sexta-feira, em Newtown, Connecticut.”

Então para o espírito cristão, que se acredita seja a Igreja Católica, é aceita a violência? Se é que existe violência sem sentido, alguma com sentido há de ter. Historicamente a nossa tendência é concluir que o Papa não tenha errado em sua frase, afinal a Igreja sempre aceitou a violência e até mesmo a praticou institucionalmente.

Meio bilhão de reais (R$ 518,6 milhões). Algo como 6% do gasto total com os dois braços da transposição do São Francisco e toda a infraestrutura desta transposição. Esse meio bilhão é quase a mesma coisa dos R$ 676 milhões de recursos extras para combate à seca nos municípios, aprovado recentemente pelo Senado com a Medida Provisória 583. Esse meio bilhão foi gasto no hoje inaugurado Castelão.

Desenvolver é criar infraestrutura e abrir oportunidades econômicas. Diante da soma gasta temos dois problemas centrais. Numa vulnerabilidade de seca como é o nordeste a prioridade é essa mesmo? E quais as oportunidades econômicas abertas com o novo Castelão? A resposta à segunda pergunta ajuda a argumentar sobre a primeira, uma vez que mesmo que gere oportunidades, continua em questão o quanto a subtração desses recursos subtraem oportunidades de proteção das cidades em situação de seca.    
  


Território, Saúde e Município - José do Vale Pinheiro Feitosa


Uma das características humanas mais marcantes é a territorialidade. É substancial na nossa identidade ser parte de um território e que vai muito além do ambiente geográfico, isso se compreendermos o geográfico como apenas espaço. Milton Santos foi mais além e elevou essa ciência à geografia humana e política e desse modo explicitando a relação humana com o espaço.  

Nenhuma análise séria sobre Políticas de Saúde pode desconsiderar que o substrato do chamado processo saúde-doença é o território. Quando falamos em progresso humano praticamente falamos em território. Nas sociedades mais rurais igualmente o homem vivia a sua territorialidade de um modo mais interdependente com o espaço em volta, mas nas sociedades urbanas essa interdependência adquire relações territoriais externas.

Viver na cidade é viver num território de atendimento integral das suas demandas, inclusive de emprego e renda, mais ou menos dependentes de outros territórios, por vezes até estrangeiros. Vou tomar o caso da atenção de saúde no município de Crato.

A quantidade de insumos, financeiros e formação de recursos humanos dependentes de multinacionais, recursos financeiros externos e estruturas de ensino a quilômetros de distância são imensos. Pegue esse aspecto da territorialidade urbana do Crato e memorize enquanto passo ao outro aspecto da territorialidade.

A integralidade do atendimento da demanda é o padrão ouro de sustentabilidade do território. E mais ainda a percepção desse padrão pelos cidadãos, embora uma construção local, é enormemente influenciado por esta vitrine de mídias e viagens que nos compara com outros territórios. A Constituição Federal trás o esqueleto desta tradução do necessário no território por meio do fundamento da República Federativa do Brasil, que é um Estado de Direito Democrático ao explicitar nos seus fundamentos a dignidade humana.

Atender a alguém num território é buscar a sua dignidade e isso é muito bem pautado pela própria constituição nos direitos e garantias essenciais; nos direitos sociais e políticos; nas ordens sociais e econômicas e na organização do Estado. Daí se vem que desenvolver uma política de governo é atender integralmente às demandas territoriais naquela pauta constitucional.

Por isso as questões ambientais, habitacionais, de saneamento, de uso do solo, de exploração econômica, de transportes, de renda, de combate à fome e à extrema pobreza, do trabalho e da educação têm tanto peso sobre o processo saúde-doença. Esse processo é um processo territorial. Ponta da Serra e Dom Quintino, por exemplo, são territórios cujos processos podem guardar certa semelhança de demandas, mas não são iguais dadas as diferenças que caracterizam cada um deles.    

Para buscar a equidade territorial no espaço de um município é preciso sustentar-se na pauta constitucional, manifestar a vontade dos territórios, fazer intermediação externa intensa e a mediação permanente com as contradições no interior do território. Vou pegar o exemplo da saúde pública com a qual tenho maior familiaridade.

A pauta constitucional é que todos têm direito à saúde e que esse direito é um dever do Estado mediante políticas sociais e econômicas que reduzam o risco de doenças e outros agravos e o acesso universal e igualitário a ações e serviços de promoção, proteção e recuperação da saúde. E mais ainda esse dever do Estado é descentralizado e sua base é municipal. Nada mais próximo do território no sentido da mediação em senso exato com o espaço do que o município.

Como vemos a própria ciência da administração pública deveria ter dado um enorme salto organizativo para responder ao problema de saúde com ações matriciais que envolvam várias secretárias municipais de acordo com o desenho administrativo atual.  A própria estrutura orçamentária deveria se modificar para que o financiamento obtivesse o máximo resultado com recursos que são pulverizados em diversos projetos, programas e setores para os mesmos objetivos de atenção integral das demandas territoriais.

É impossível estabelecer uma atenção integral territorial sem construir uma vontade política própria. E a vontade política é como uma vontade eleitoral: há que se mobilizar, formular e construir uma bandeira de transformação que se deseja em sentido da pauta constitucional e da atenção integral ao território. Em certo sentido o controle social já é  reconhecido pelas normas do Estado e deve ser plenamente exercido  mas elevando o conceito de controle para o da construção de vontades. Considero que não é mera questão vocabular, a vontade é muito mais do que apenas criticar ou exigir soluções como sugere o controle. A vontade é a formação de um poder político mediado no território.

Quanto à questão da intensa intermediação externa. Os agentes do Estado, com sua instância política representativa, no caso do Prefeito e a Câmara de Vereadores, devem se preparar para a realidade da dura e intensa intermediação externa. Por exemplo, no caso da atenção às doenças, especialmente na média e alta complexidade: a demanda territorial expressa por sua vontade não pode se confundir com os interesses de uma tendência profundamente mercantilizada nestes setores. Esses setores não se estabelecem como causa em si, mesmo quando se trata de complexas e sofisticadas tecnologias, mas como consequência da atenção integral e promoção da saúde.  

O caso explicitado é apenas um no processo saúde-doença, outros mais também guardam muita importância como a questão do financiamento da saúde. Seja pela escassez de recursos de um lado ou pela profusão de ingerências burocráticas federais. Quem abrir o Orçamento de uma cidade como o Crato irá se admirar o quanto é grandemente constituído por repasses da União e do Estado. E nesse momento a intermediação externa tem que ser no sentido de garantir a vontade territorial, não transformando o governo municipal em apenas uma instância burocrática federal ou estadual de execução de programas definidos externamente.

A quarta e última ação para equidade territorial é a mediação das contradições no interior do território. Vivemos em uma sociedade de classes. Com alguma frequência o consenso até pode sair na fase de formular vontades, mas quando esta vontade se expressar como poder surgirão inúmeras contradições. Aí o poder Municipal tem que agir para mediar os problemas e avançar rapidamente para que as soluções aconteçam.       

Corinthians 1 x Chelsea 0

Jogo emocionante!


sábado, 15 de dezembro de 2012

Troca de e-mails - José do Vale Pinheiro Feitosa


Primeiro envio:

Não tive como adiar o envio sobre o centenário de Seu Luiz. Afinal se trata de uma data.
Bom final de semana.

José do Vale.

Resposta:

A FESTANÇA  CONTINUA POR AQUI.
NÃO É MERA COINCIDÊNCIA SER UM ANO DE SECA “BRABA”. COM CARRO PIPA TRAZENDO ÁGUA POTÁVEL  DO PIAUI PARA  AIUABA E SEUS DISTRITOS. CADA LATA DE 20 LITROS CUSTA R$1,50. POR LÁ  AINDA HÁ UM POUCO DE  ÁGUA NOS AÇUDES, MAS  O GADO  EMAGRECENDO. QUEM PODE, COMPRA RESIDUO PARA AS VACAS, PRINCIPALMENTE PARA AQUELAS DE BEZERRO NOVO. E HAJA ESPERANÇA  EM SANTA LUZIA, NO DIA 13 DE DEZEMBRO, JUSTO NO ANIVERSÁRIO DO VELHO LUA.
QUANDO CHEGARÁS POR AQUI?

ABRAÇOS.

CARMINHA.

Segundo Envio:

Carminha,

A seca continua maior que nossas barragens. Que barram a solução dos nossos problemas históricos com a firmeza de barro frouxo. Agora fica claro que as águas que correm nos grandes rios do Brasil precisam irrigar o semiárido nordestino e os grandes trogloditas espumam apenas pela transposição do São Francisco que afinal parece que estacionou em alguma empreiteira. Mas é preciso trazer água dos grandes rios da Amazônia para que, na falta das nuvens, o sertanejo e suas cidades não se tornem o que é o solo dos rios secos: a rachadura da integridade do fundo do leito.

Prima é comum que alguém no clima de um bom ar condicionado olhe como uma obra de arte as fotos das carcaças do gado morte de fome e sede. Esse alguém que derrete nos trópicos sonhando com a fantasia friorenta dos natais do hemisfério norte, não sabe o que aquelas carcaças significam. Aquele couro furado pelo bico dos urubus, cada osso em processo de tornar-se despojo do solo arruinado do sertão, é a marca da magreza dos sertanejos. Cada osso do gado morto que surge ao sol das máquinas fotográfica dão mais um ponto nas costelas magras do nosso povo.

E tome atraso na escola dos filhos. Os prefeitos cuidam de se lamentarem e não cuidam de abastecer, basta perceber que dez latas de água já levam 2% do salário mínimo. E se a situação permanecer além do dia de Santa Luzia, e o dia de São José passar sem nuvens, a lei da oferta e da procura irá disparar o preço da lata de água. Disparar sobre as costelas magras dos nossos fazendeiros.

Por isso água permanente para os sertões é uma grande revolução no nordeste. E estamos vendo que as barragens não são seguras para o futuro. E precisamos ter consciência que o aquecimento global é uma realidade em curso e isso provocará modificação geral no clima do planeta. Quando seu Luiz cantou os versos de Zé Dantas com a volta da Asa Branca ainda sonhava com o relampejar do norte. Agora precisamos dos canais dos rios do norte e não apenas do São Francisco que vem do sudeste.

Beijos,

José do Vale.     



CRATO - "IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA" - José Nilton Mariano Saraiva

Meses atrás, o Zé Flávio nos deu ciência do atraso no pagamento dos servidores lotados nos órgãos da saúde do município do Crato, assim como se reportou à falta de material/equipamentos básicos nos postos de saúde do município (coincidentemente, o problema aconteceu antes das eleições municipais, levando muita gente a imaginar que o dinheiro faltante teria sido desviado para finalidades outras).
Em resposta, o pessoal da Prefeitura da cidade resolveu transferir a culpa para o Governo Federal, porquanto teria atrasado o repasse de determinadas verbas para o setor.
Pois bem, hoje, com base em informações do Tribunal de Contas dos Municípios, o jornal O POVO (que não circula na cidade), publica matéria onde a prefeitura do CRATO é citada pela prática de “IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA” e onde deverá haver uma “TOMADA DE CONTAS ESPECIAL”  (processo no qual a administração pública exige a restituição de recursos ao patrimônio público ou que os envolvidos apresentem sua defesa).
Aos fatos.  
Detectadas “irregularidades graves” em 14 municípios
O Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) determinou Tomadas de Contas Especial em 14 das 39 prefeituras cearenses que foram fiscalizadas depois do período eleitoral deste ano. Conforme O POVO já havia antecipado na edição de ontem, irregularidades foram constatadas em todos os 39 municípios e a análise do que foi constatado nas visitas dos inspetores continua.
Por isso, o resultado é apenas parcial e a Tomada de Contas Especial deverá ser direcionada também a outros municípios nas próximas semanas. “Há improbidade administrativa e crime em todos os 39 e acho que em todos (a Tomada de Contas Especial) vai ser determinada”, afirma o promotor Eloílson Landim, do Ministério Público (MP-CE)
O balanço da Operação Antidesmonte foi divulgado em coletiva na manhã de ontem, na sede do TCM. Os relatórios do tribunal são repassados à Procuradoria de Crimes Contra a Administração Pública (Procap). A análise desses relatórios nos próximos dias poderá culminar no bloqueio de contas ou afastamento de gestores, a exemplo do que já ocorreu em outros municípios.
“Agora, cabe ao Ministério Público, através dos promotores das respectivas comarcas, agilizarem as ações de improbidade administrativa e, à Procap, atuar no campo criminal”, afirma o promotor Luis Alcântara. Segundo ele, certamente as investigações em curso no momento resultarão em operações do MP em várias cidades, durante 2013, a exemplo do que vem ocorrendo este ano. “Nosso trabalho está apenas iniciando e irá ter continuidade durante os próximos quatro anos”, complementa o procurador Maurício Carneiro.
Embora a situação verificada no fim deste ano seja melhor frente ao que ocorreu em outros períodos de fim de gestão, a procuradora de contas do TCM, Leilyanne Feitosa, aponta que houve também um “refinamento” das práticas irregulares. “(Os gestores) pensaram o que pra eles deve ter sido forma brilhante de desviar o dinheiro, só que nós também temos mentes brilhantes do lado de cá”, advertiu, acrescentando que “muita gente” será atingida ao fim das investigações.
Municípios onde foi determinada Tomada de Contas Especial:
Acopiara /Antonina do Norte / Barroquinha / Baturité / Coreaú / Crato / Granja / Ibiapina / Icó / Itaitinga / Pacajus / Santa Quitéria / Uruburetama / Uruoca
Saiba mais
Tomada de Contas Especial é processo no qual a administração pública exige a restituição de recursos ao patrimônio público ou que os envolvidos apresentem sua defesa.
Em conseqüência da ação do TCM e do MP, a Justiça já determinou o afastamento de alguns gestores. O primeiro a ser afastado como resultado da Operação Antidesmonte foi o prefeito de Granja, Hélio Fontenele Magalhães, acusado de improbidade administrativa. Também foi afastado o prefeito de Uruburetama, Giuvan Nunes (PPS), e suas secretárias de Educação e Ação Social.
O presidente do TCM, Manoel Veras, frisou que, apesar das irregularidades constadas, o cenário atual é bastante diferente (para melhor) se comparado aos últimos pleitos. Segundo ele, isso se deve ao trabalho de prevenção e fiscalização do TCM, em parceria com o MP e a Justiça.

Tiros em Newtowm Atingem o Alvo do Teu Futuro - José do Vale Pinheiro Feitosa


Logo que a notícia de mais um atirador massacrando estudantes nos Estados Unidos da América veio para a mídia internacional, emissoras de televisão brasileiras passaram a fazer transmissão direta com aquele país. A Globo News entrevistou um brasileiro que mora na vizinha cidade do massacre e ele traçou um perfil do morador daquele distrito de Connecticut. O perfil da cidadezinha Newtown onde o massacre ocorreu: é uma cidade pacata, ocupada por pessoas de alta classe média que trabalha em Nova York. Gente muito educada. As crianças são educadíssimas, muito respeitosas e preparadas.

E foi esse perfil que gerou um jovem que matou a mãe, matou 20 crianças entre 5 e 10 anos e mais outros adultos. Temos três coisas a considerar: a) como esta patologia bio-psicossocial surge; b) qual a causa desse massacre tomar as dimensões que toma; c) como isso funciona na psicologia social humana, especialmente no EUA.

Apesar dos estudos que analisam padrões do surgimento desses assassinos que geralmente vão ao ato do suicídio a verdade é que do ponto de vista do seu controle, incluindo detecção precoce, tratamento e ajuste à sociedade, ainda deixa muito a desejar. Pelo menos é o que notícias como essa levam à conclusão.

Mas isso tem um viés central: muito da percepção vem da tragédia pela extensão dos massacres. E não estamos apenas falando em controle de indivíduos com esses padrões. Não estamos porque uma causa central da extensão do problema é a arma de fogo. Basta comparar com casos ocorridos na China que parecem semelhantes em comportamento patológico, mas a extensão é mínima quando a arma do ataque no máximo é uma faca.

O EUA tem praticamente uma arma para cada cidadão. Isso é uma sociedade que possui uma máquina de morte para cada um e por consequência, todos estão armados contra todos. É uma ilusão que iremos proteger a vida quando as lanças apontam para o peito de todos. Vamos é produzir mais mortes do que se não existisse todo esse arsenal.

A evidência é tanta que comparando estados que têm algum controle no porte de arma, existem menos assassinatos por tais armas do que aqueles que tão têm controle nenhum. E a situação americana se eleva ao padrão político: o filme “Tiros em Columbine” do diretor Michael Moore expõe claramente o lobby das armas nos EUA e de modo patético para minha geração, expôs o papel negativo do ator de cinema Charlton Heston.      

E como tudo funciona na psicologia social da humanidade e em especial dos americanos? Antes, basta não esquecer o episódio de Realengo aqui no Rio de Janeiro quando um jovem de 24 anos matou onze estudantes. O que fica de efeito é o terror em estado bruto. Enquanto os carros bombas e os assassinatos seletivos geram ação política e revolta para um discurso político, esse que aconteceu ontem leva ao terror sem ação. Ele essencialmente transforma o ser humano em bicho do ser humano.

O mais dramático é revelar a compulsão de final dos tempos: jovens matando crianças na primeira infância. Quando as crianças são aniquiladas não existe mais futuro. É equivalente à sensação de fim de mundo. É desesperançador. E tudo toma ares de impotência quando um dos políticos mais importantes da atual civilização, Barack Obama chora frente à rede mundial de comunicação demonstrando sua total fragilidade humana.

Mas é engano. A fragilidade é a contradição com os lucros da indústria de armas de fogo. Se for impossível detectar todos aqueles com compulsão de morte, é possível lhes tirar o poder de massacrar em grande número. Ou não é por isso que basicamente apoiamos o controle das bombas atômicas?

Por Socorro Moreira





Carrossel da vida
Tempo passando em tela
Com nuances nunca vistas
Esse giro que me traz de volta
Fundo musical inesquecível

Presenças novas e antigas
Tenham paciência comigo
Passei da idade
Não vivo desatinos

Chegaram com as chuvas
Corrente fria na barriga
Fiquei sem prumo pra colher os versos
Na terra , bandeja
Cachos de emoções oferecidas

A vida é milagre sem mágicas
Sons soltos no éter
Unem-se em falas
Escrevo complexos de vida

Nova canção
Olhar maduro sobre o já vivido
Olhar infantil
No presente, arrisco...
Umas esperanças sem esperas
No porvir se ligam

Éramos loucos
Salgados de mar
Bocas molhadas de desejo
Mesmo assim
Deixávamos passar
O carro, o comboio
E o mês de dezembro

Segurei convites descentes
A indecência estava na recusa
Na vitalidade de abraçar
Sonhos impossíveis

Imantados
Sinto a flecha , destino ferido
Enfim, Eros voltou...
De asas curadas
Sem Psique, sem Afrodite

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012


Ano Novo, vida velha!- socorro moreira


Globo Repórter mostrando-nos uma linda região da França. O que nos emociona é a familiaridade que temos com a beleza.
As nossas casas, nossas cidades, um pé de roseira, seja!
Fico com indisposição de viajar toda vez que penso em desvendar a beleza que vive próxima de mim, exterior e interior. A vida, na consciência das intempéries, embota a nossa visão e outros sentidos, e ainda nos protege dos sentimentos e dores da alma.
A gente precisa ser forte pra enfrentar as surpresas do dia a dia. Algumas enternecedoras, outras doloridas pelas dolosidades.
A visão francesa da vegetação luminosa que inspirou Van Gogh foi desviada para o último texto do José do Vale. A gente sabe, mas a gente parece que não deseja entender. Parece, mas deseja!
Votamos pra que alguém ou muitos ocupem o poder, no entanto logo afloram as discrepâncias, e o poder de mudanças fica  longe do nosso alcance.
A arte nos salva dos desencantos; a comidinha gostosa do nosso canto; a música que a gente escolhe pra ouvir no carro, na cozinha, no quarto... Depois rezamos do nosso jeito e esperamos um novo dia.
Não precisamos apenas prorrogar a vida. Precisamos aprender a viver no caos das significâncias.
Estamos às vésperas do Natal. Fico pensando nos sacrifícios de tantos humanos para presentear filhos e colocar frutas secas na mesa. O bolso varia de tamanho. Muitos não têm conta no Banco, e até os de classe média (a sofredora) conta o dinheiro, e se individa.
Mas, fazer o que, doutor?Estamos viciados nos malabarismos econômicos, dentro da realidade doméstica - a ela nos acostumamos.
Desejo a todos um 2013 promissor. Principalmente saúde para o nosso Planeta, e boas realizações nas novas administrações públicas.
Tenho pressa de vida, mas quero vivê-la serenamente!
Um abraço forte em todos os amigos.

Os Padeiros do Pão Amargo - José do Vale Pinheiro Feitosa


Nóis num sabe tudo, mas nós né besta não!

Sete e meia da manhã e a classe média (os trabalhadores há muito já se encontram pendurados em alguma condução ou andando a pé para o trabalho) faz o seu “breakfast” com dentes arreganhados de raiva frente ao Bom Dia Brasil. Miriam Leitão, Chico Pinheiro e Renata Vasconcellos apresentando o “absurdo” dos impostos no Brasil. Os empregados da Globo são os padeiros daquele pão amargo.   

Qual o absurdo? Altos impostos, baixa escala de produção, custo da mão-de-obra (incluindo os gastos com os trabalhadores como assistência de saúde, condução e outros benefícios trabalhistas que eles acham que deveriam ser do Estado), a má infraestrutura pública e, claro, a Presidenta da República. Os padeiros recebem pronto o chavão para sintetizar o fermento diretamente dos donos da farinha de trigo.
E sabem o quê me veio pelo peito acima? Um fermento mais poderoso ainda: vamos combinar a transparência total. Se as notas fiscais me informarão o que pago pelos impostos, qual o motivo de também não vir discriminado os custos da produção, o quanto pagam de salário, qual o lucro dos produtores e quanto a rede de comércio leva naquele preço?

Quem poderá achar injustiça que se saiba o valor do que estou pagando em toda a cadeia de produção do mesmo? Quanto os juros oneram esse preço? Quanto os operários recebem direta ou indiretamente, os “executivos”, os acionistas, os atravessadores e assim por diante numa total transparência com a qual me sinta bem informado sobre o que pago.

E isso não vem porque aí mora o segredo maior do “crime” virado para a janela. E esse pessoal que se acha tão sofisticado na verdade mesmo conta é com a nossa besteira. Querem diminuir impostos e querem que o governo assuma as despesas integrais com a saúde dos empregados. Eu acho que a Constituição diz é isso mesmo, mas tudo bem senhores da “razão do venha a nós tudo”, é fácil fazer a transferência: tirem de suas despesas diretas os 84,48 bilhões de reais faturados pelos Planos Privados de Saúde e repassem para SUS que vocês verão o ânimo que isso provocará na atenção de saúde.

E digo mais: na gestão pública esse dinheiro, ao contrário do ralo dos Planos Privados de Saúde, teria muito mais eficiência (custo benefício). A lógica pública é de menos lucro e mesmo que malfeitores andem nas suas beiradas, estarão fora da lei, enquanto no setor privado isso é o sacrossanto direito ao lucro e ao intenso mercantilismo da medicina, transformada em produto de consumo, bem precificado e abusado pelo cliente e pelo profissional.

Os padeiros são todos bobos de balcão, mas os donos da farinha não. O argumento da escala de produção é uma balela especialmente nos últimos 15 anos com a moeda estável, equilíbrio fiscal, distribuição de renda e crescimento econômico. A indústria automobilística dizia que o carro brasileiro era caro por baixa escala de produção e como explicar o preço hoje quando somos o quinto maior mercado produtor e o maior comprador de veículos em 2010?

Esta pétala do argumento já pode ser jogada fora.

E os impostos altos? Vamos compreender uma coisa: quem fala em redução das despesas públicas como tese generalizada, quem deseja cortar gastos e zerar impostos na verdade ataca com alguma dose de cinismo ou por mero eco ideológico, os direitos humanos e a integridade territorial da nação.

Todos sabemos que cortar bens materiais é sempre uma luta política e social. Os tesoureiros do corte sempre pensam cortar os benefícios do vizinho e manterem o seu integralmente. É igual a essa discussão dos fazendeiros com o código florestal: é mais fácil defender a idéia sendo da cidade e não sendo fazendeiro. Mas no exemplo da indústria automobilística os impostos dos carros caíram nos carros médios e nos modelos flex.

Aqui no Brasil todos aqueles “adventures, cross, sport, eco” da vida são maquiagens de outros modelos, com acréscimo de 5 a 7% nos custos de produção, mas vendidos com aumento de 10 a 15% a mais. Aí se encontra uma das maiores malandragens da produção capitalista: as maquiagens de produtos para vendê-los muito mais caro. Na tecnologia de saúde isso é largamente utilizado pelos produtores e usam os profissionais de saúde na cadeira de imposição dos produtos.  

Uma análise feita comparando o preço do Honda City fabricado aqui no Brasil e vendido no México por um preço muito inferior ao praticado aqui, levou à conclusão que a margem de lucro da montadora e sua cadeia produtiva aqui no Brasil era acrescida de 38% em relação ao lucro por ela praticado no México. Tudo leva a crer que o alto preço praticado no Brasil se deve ao que os produtores consideram: valor percebido pelo cliente. Se o consumidor paga o que se pede, porque baixar o preço?
Agora imaginem onde esta engenharia de comunicação social começa? Quem cria o mito da bolsa Luis Vitton e diz que ela vale tudo o que vale e faz com que os outros fabricantes sigam a mesma política de vender pelo que o consumidor paga de qualquer modo. Aí temos que fazer um programa da verdade com os donos da farinha de trigo. Da farinha de trigo do pão amargo.  

E aí um brasileiro ouvinte do Bom Dia Brasil vai concluir que tudo isso foi imposto.

E foi mesmo!

Imposto pela montadora e pelos donos da farinha de trigo.  

NATAL


Não quero
mergulhar
num emaranhado
de ruas

Tenho tanto
cansaço
sobre os ombros

Deixa-me assim
como uma
coisa
posta
num
canto
e esquecida

Você
não ouve
outra coisa senão
as quatro
cambalhotas
de fumaça
da lareira


Nápoles, 26 de dezembro de 1916

Giuseppe Ungaretti



(Trad. de José C. Brandão)


__________


Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

Vinícius de Moraes