por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sexta-feira, 14 de junho de 2013

Do pijama à gravata



Em meio ao mundo utilitarista  em que vivemos, somos, continuamente, impelidos a crer que as cidades  são constituídas de prédios, de ruas, de carros, motos, muros e paredes. Ledo engano, amigos !  Uma peça de teatro, se se reparar bem , não  se resume apenas ao cenário. O que a faz grandiosa ou medíocre é  o doce tecido do seu enredo, a maneira sutil e poética com que os personagens desfilam, dialogam, interagem. É da leve trama das relações humanas, do bordado fino das aproximações, do macramê tantas vezes grosseiros  das suas  dissensões de que são fiadas as vilas e as cidades. Cada um de nós é uma linha nesta delicada trama. Alguns têm capacidade menor de insinuar-se entre os outros fios e se puem mais facilmente. Outros , tangidos pela agulha do destino, banham-se de cores, mergulham no coração do tecido , em sucessivos vai-e-vem e terminam por fazer brotar o bordado único que embeleza a toalha da vila e da vida: a casa, o lago, o sol, a árvore.  Sem eles, a urdidura do pano permaneceria na inércia da opacidade, na insulsa imacuidade do branco.
                                   No último mês ,  o Crato  viu esmaecer-se um pouco sua aquarela. A mão implacável do tempo desbotou, um tanto,  o colorido do nosso estampado.  Claro que o pano se vai puindo e outros desenhos vão surgindo nas extremidades, no faz-desfaz das ondas das horas. Mas doe-nos imaginar que os ornatos que nos acostumamos a admirar,  jamais os veremos de novo com as mesmas cores e as mesmas nuances. Um dos fios chamava-se Antonio Luiz Barbosa e era querido por todos. Funcionário aposentado do Banco do Brasil especializara-se na fina arte de fazer amigos. Um deles havia sido o Dr. Antonio Gesteira , uma das mais mitológicas figuras da terra de Frei Carlos e que nos deixara há mais de cinqüenta anos. Antonio Luiz fez-se o guardião da memória do nosso carismático cirurgião. Deixou, ainda, o mais completo trabalho que conheço sobre a vida do amigo, escrito num português correto e erudito, típico de quem havia perlustrado os umbrais do velho Seminário São José. Boêmio, amante das noites e tardes da  sua terra, compunha um grupo dileto de companheiros em que, estranhamente, o principal atrativo que os unia era a conversa, a palestra, a fofoca e não outras libações. Essa trupe engalanou as rodinhas da cidade por muitos e muitos anos e trazia nas suas hostes   membros ilustres e queridíssimos  : Caio Teles, Felicinha, Tália, Márcia, Regina Helena, Telizito, Dolores Milfont, Antonio Primo, Dionê e Natércia Pinheiro. Todos ainda tão presentes entre nós, dispersos que foram pela  inexorabilidade do tempo. O Crato fica menos colorido quando se percebe que toda uma trama rica  do bordado se esfumaça.
                                   Nestes dias, outros passamanes se desfizeram. Partiu o mais importante poeta-cronista caririense da atualidade. Mestre da poesia de circunstância, úmido do fino humor e sarcasmo da poesia popular, nosso poeta fez-se o fino crítico dos nossos costumes e da vida cotidiana cratense nos últimos cinqüenta anos. Chamava-se Zé Landim. Esportista nos anos áureos do futebol de salão cratense, fora um goleiro inspirado e admirado. Alma boêmia, tinha a noite como irmã , parceira e cúmplice. Seresteiro incensado, sua voz bonita e afinada inundou as serestas caririenses e saudou nossos luares. Interessante figura humana, Zé Landim fabricava amigos com a mesma facilidade com que se enfunava de arroubos os mais pueris, talvez porque , no fundo, nunca tivesse deixado crescer a criança que carregava consigo e norteava seus passos de artista.  Zé foi um ser múltiplo mas , certamente, era o fino bardo da poesia circunstancial que mais se lhe sobressaía. Era um craque. Vejam, por exemplo, as músicas  de campanha eleitoral. Alguém já viu coisa mais besta e banal ? Alguém se lembra de alguma da última campanha? Pois bem, há quarenta anos, Zé Landim fez um paródia para a campanha eleitoral de Pedro Felício que ainda hoje, pasmem vocês, está na lembrança de toda uma geração :
                                   “O Crato, já foi princesa
                                   A todo mundo  causava admiração
                                   Seu Pedro, na prefeitura, prá todo mundo
                                   Deu show de administração...”
                                   A maior homenagem que podemos lhe fazer, é lembrar algumas dessas crônicas poéticas que  ,se não escritas, tangidas pela volátil lembrança da oralidade, terminam por se perder na voragem do tempo. Pois vamos lá ! Grande Zé Landim!
                                   Zé fora dileto amigo e correligionário de um dos mais populares políticos do Cariri. Sabe-se lá porque, uma grande confusão aconteceu. E, em se tratando do nosso  poeta, não se fazia necessário muito para acender o estopim curto e inflamado. A intriga perdurou por muito tempo. Um dia, estava ele na rua conversando com um amigo comum, quando uma caminhonete parou colada aos dois. Era o político. Conversou com o amigo, mas como se dirigisse aos dois, pretendia, de alguma maneira, acabar com a infuca que já durava anos . Zé Landim fez ouvidos de mercador. Vindo da fazenda, após os cumprimentos, tirou o político dois queijos e presenteou os dois. Ao sair, Zé , desconfiado, cedeu o queijo ao amigo e à tarde mandou-lhe  uma quadrinha que , genialmente, resumia o encontro :
                                   “A velha cidade do Crato
                                   Doutras plagas é diferente
                                   Lá se dá queijo prá rato
                                   Cá rato dá queijo a gente”
                                   Zé Landim freqüentava, também,  com amigos de boêmia,  a bodega de uma outra figura adorada em Crato. Era ali numa das esquinas da Nélson Alencar e o proprietário :  Heleno Feitosa, um desses desconhecidos heróis do cotidiano. Heleno trabalhava de sol a sol. Almoçava no próprio estabelecimento, não arredava o pé  e com aquele pequeno comércio, trabalhando diuturnamente, formou todos os filhos e os fez cidadãos de bem. Um dia, Zé notou que Heleno ficava todo tempo sentado e com um pé inchado e em cima de um outro banco. Perguntou-lhe se o  tinha fraturado em algum acidente. Heleno, então, informou-lhe que se tratava de um esporão de galo que estava nascendo no tornozelo e incomodando como o diabo. Pouco depois, com o poder de síntese dos grandes poetas, Zé resumiu tudo numa Nona inesquecível :



                                   “Heleno Sales Feitosa
                                   Leva uma vida penosa,
                                   Todo dia faz serão,
                                   Trabalha que só um louco,
                                   Todo tempo prá ele é pouco
                                   E mal engole o pirão.
                                   Trabalha o ano inteiro,
                                   Não tira o pé do poleiro,
                                   Já tá nascendo esporão.”

                                   Uma outra história envolve nosso poeta e um outro mito cratense: João Aires de Aquino, conhecido por todos pelo carinhoso sacro-monárquico apelido de Dom João. Nosso quase rei ou bispo era proprierário de um dos mais famosos bares da cidade e que, pelo próprio temperamento algo difícil do dono, tornara-se quase um clube fechado. Zé Landim era um dos membros titulares e  vivia a cutucar onça com vara curta, aperreando o proprietário aqui e ali, esperando a reação. Um dia saiu na cidade a notícia que D. João havia sofrido um acidente de carro e estava ainda em recuperação, todo enfaixado. Zé Landim visitou-o e, depois, resumiu, assim o ocorrido :




                                   “João Aires de Aquino
                                   É um menino traquino
                                   E mexe com todo mundo,
                                   Num desastre de veículo
                                   Quebrou o par de testículo
                                   E as quatro pregas do fundo”
                                   D. João agüentou firme os primeiros versos, mas no final, saltou do cavalo :
                                   --- “Pensa queu não sei o que você tá insinuando, rapaz? Você tá querendo dizer queu só me restaram quatro, né, seu filho duma mãe?
                                   Sem Zé Landim e Antonio Luiz desbota um pouco a alma encantadora da cidade.  O Crato fica mais chato e menos gaiato:  tira o pijama e veste a gravata.

J. Flávio Vieira

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os Lagos Andinos e sua Travessia - parte 1 - José do Vale Pinheiro Feitosa

O turismo é um enredo da fantasia. Viaja-se em terras nunca dantes navegadas em nossos sonhos. Visitam-se paisagens, ruas e povos que continuam a ser estas categorias mas, como num ritual mágico, se elevam em significados. Os significados mágicos que já na encontramos nos nossos espaços sedentários.

Estrato da navegação, das grandes estradas, da conquista do ar, qual seja os meios que aceleraram o corpo humano a romper léguas de distâncias, a viagem se tornou ao mesmo tempo o grande adeus e a grande recepção. Por isso a viagem se tornou a mais relevante expressão da mudança. Da transformação. Quem sabe até da revolução.

E foi aí que num mundo mercantil a viagem se tornou objeto de venda. Até mesmo as chamadas viagens ao coração da natureza, ao âmago da fé religiosa, ao encontro da família e dos amigos, ao gosto da aventura e do conhecer o desconhecido, se tornaram oportunidade de negócio.

E desse modo aldeias de pescadores como Jeriquaquara se tornaram objeto do desejo de milhares de viajantes vindos do hemisfério norte, da outra banda do mundo e, claro, do sul do hemisfério sul. Tomando como referência paulistanos no amplo espaço a se deslocar com seus corpos independentes dos brutais engarrafamentos.

O remoto, o inacessível, o mítico e o sagrado foram desnudados, desmistificados num processo de "remistificação" lucrativa que move o negócio e viajam as pessoas. Tem de tudo para todos os estilos. Desde aqueles deslumbrados pelo consumo e pela afetação de expor-se no consumo fugaz do luxo, até aqueles tímidos das moedas contadas, numa despesa que parece um bolso furado e um aporte que parece as marquises daqueles sem teto.

E pelas gargantas que dão passagem às montanhas. Acima das nuvens furadas pelos pícos nevados dos Andes. O romper do manto de névoa e abrir-se sobre uma paisagem ondulada na encosta das grandes e escarpadas elevações. Paisagem sobre a qual um tapete lindamente verde associa o viajante com a única paisagem referente: as pastagens alpinas da Suíça, Alemanha e Áustria.

Os lagos com nomes de raízes nativas. Assim como o fabuloso Llanquihue em cujas margens os migrantes alemães do século XIX deixaram ali uma cultura, uma economia e uma elite rica que regra a vida de todos. O mais impressionante do Llanquihue é sua paisagem de campos, montanhas e o fabuloso Vulcão Osorno com seu topo nevado. O vulcão se posta no horizonte das margens do lago assim como o Monte Fuji dá alma à paisagem e à fotografia japonesa.

Em Frutillar uma cidade da colônia Alemã a mais reveladora geografia social da sociedade desigual: a parte alta onde vivem os operários e a pequena classe média e a parte baixa, à beira do lago onde vivem não muito mais do que três mil pessoas, em ruas de cinema, jardins alpinos, casas alemãs, lojas e restaurantes e bares para turistas.

Na pequena cidade um dos melhores teatros que se vê até mesmo em grandes cidades. Todo construído com revestimento externo de tábuas de madeira em diversas cores. O teatro tem biblioteca, loja de vendas, salas para cursos, salas para apresentações mais restritas e o grande salão. Nele acontece um festival de música no verão sul americano comparável à qualidade do melhor do hemisfério norte.

A jóia do turismo dos lagos é sua travessia entre Puerto Varas e San Carlos de Bariloche na Argentina (conhecida pelos brasileiros apenas como Bariloche. Nos meses frios, especialmente julho tem tanto brasileiro que se brinca como se fosse o nome da cidade Brasiloche). O percurso chileno começa em ônibus, à margem do Lago Llanquihue, entra no Parque Vicente Perez Rosales (de preservação), visitam-se corredeiras de um rio e a seguir vai a Petrohue num porto do lago Todos os Santos (com as águas num belíssimo verde esmeralda) e o atravessa por quase duas horas.


No outro lado do lago, numa estreita faixa de terra plana embaixo das alturas dos Andes, fica Peulla e seu hotel para criar fantasia em turista. Mas uma fantasia de frio, de lago, de picos nevados e se houver uma lua cheia, de montanhas prateadas a cercar o território do visitante. A luz elétrica gera-se numa turbina de quedas d´água e só existem estradas estreitas a ligar as poucas casas. Não moram muito mais do que cem pessoas. Os funcionários do hotel trabalham num regime de embarcado em plataforma de petróleo: muitos dias no local e alguns em suas casas distantes. 

Uma noite de música - José do Vale Pinheiro Feitosa

E antes que a noite acabe. Que o encontro dos namorados cruze o ponteiro da meia noite ainda tenho tempo de oferecer a todas as mulheres o arquivo que segue abaixo. Mulheres com as quais namoro no ser de uma namorada. Namoro de presentes, passados e futuros. Sem prateleiras comerciais. Sem o consumo a esgotar a vida. Ao contrário, um namoro com luar, água e violão. Promitente e cumpridor. 


quarta-feira, 12 de junho de 2013

#FortalezaApavorada - José Nilton Mariano Saraiva

A incompetência e despreparo do titular da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Ceará (que foi escolhido a dedo e rebocado lá de Sobral pelo próprio Governador Cid Gomes), fizeram com que o Estado do Ceará (e principalmente a capital, Fortaleza) virasse manchete dos principais jornais e noticiosos do país, porquanto os índices de criminalidade atingiram números recordes nos últimos meses.  A coisa chegou a tal ponto que o Ceará disparou na liderança no que toca ao número de homicídios cometidos, suplantando inclusive o Estado de São Paulo, que detém uma população muito superior à nossa. E mais: por aqui os bandidos já não fazem nem questão de esconder o rosto (com máscara ou capacete), porquanto sabem que o setor está sem comando, acéfalo, um zero à esquerda.    
Por conta disso, surgiu nas redes sociais o movimento civil #FortalezaApavorada (assim mesmo, sem separação das palavras), que pretende reunir os diversos segmentos sociais objetivando “acordar” as autoridades competentes, concitando-as para a gravidade da situação. E, para tanto, convocou a população em geral pra se fazer presente a um protesto pacífico, com data, hora e local marcados (dia 13.06.13, às 15:00 horas, na cercanias do Palácio do Governo).
Foi o bastante para que o Governo do Estado preventivamente soltasse uma nota pública em que, mesmo reconhecendo a falência da política de segurança pública adotada pelo Estado (“...o Governo do Estado tem a consciência e a humildade de reconhecer que alguns crimes cresceram de forma intolerável; são eles o assalto à mão armada nas regiões de melhor renda e os homicídios nos bairros mais pobres”), ainda assim tenta tirar o braço da seringa e partir para a ofensiva ao denunciar/sugerir, sem nenhuma prova do que afirma, que “...grupos partidários e marginais de uma milícia que está sendo combatida dentro do organismo policial, pretendem se infiltrar na manifestação com o intuito de provocar violência e gerar repressão que escandalize a opinião pública”.

Numa mostra de que - tal qual cego em tiroteio, que não sabe pra onde correr ou o que fazer - tenta ameaçadoramente desestimular quem pretende comparecer ao ato ao literalmente sugerir que o “pau vai cantar”, conforme constante do último parágrafo da sua nota: “Aproveitamos para pedir aos participantes do movimento que evitem trazer crianças para a manifestação e não aceitem provocações de indivíduos infiltrados”.  

Tal ameaça nos faz lembrar aquele comandante nazista que, confortavelmente instalado em sua suíte na parte mais alta do campo de extermínio e cercado por seguranças, divertia-se em “praticar tiro ao alvo”... com seres humanos indefesos.

E aí, vamos lá ???

terça-feira, 11 de junho de 2013

Olhem só esta declaração do prefeito do Rio, Eduardo Paes sobre uma hipotética vitória da Argentina sobre o Brasil numa final do mundial: “Se eles vencerem o Brasil na final, eu me mato!”, disse. E complementou: “Eles já têm o Messi e o Papa, não podem querer tudo”, brincou Paes.  

Isso num jornal ou numa revista não teria efeito desconhecido para a pronta brincadeira do leitor: agora temos um motivo para torcer pela Argentina. Só que a brincadeira ficaria restrita ao leitor e eventualmente num encontro entre pessoas se reproduziria a brincadeira.

Mas nesses tempos de internet a história muda de figura: logo um grupo de pessoas reproduz o desejo de se livrar do prefeito simultaneamente através das redes sociais. E é o que está acontecendo.


Até estas gracinhas terão que ser retocadas para uso público. 

A Cerâmica Quinchamalí e o comportamento pequeno burguês - José do Vale Pinheiro Feitosa

O pensador francês Claude Levi-Straus na primeira metade dos anos 80 do século passado publicou um pequeno livro chamado A Oleira Ciumenta. Neste que foi um dos seus últimos livros, analisando o trabalho de ceramistas dos povos americanos identifica uma série de mitos que depois, segundo ele, foram tratados como achados originais da psicanálise. Na verdade Levi-Strauss defende que a maioria dos mitos tratados na psicanálise já pertenciam ao universo dos povos primitivos que viviam em sociedades culturalmente de caça, coleta e de uma agricultura puramente de sobrevivência.

Aquela arte que foi objeto das análises do pensador francês é questão principal em mais este texto sobre o chile: a cerâmica. Ou a “alfarería” como a fala hispânica costuma adjetivar, embora nesta língua cerâmica se refira a técnicas mais refinadas com várias cocções, com esmaltamento da peça e de acabamento mais sofisticado. De qualquer modo a nossa arte popular com cerâmica seria qualificada como uma “alfarería”.

E aí reside uma das questões mais agudas do nosso tempo: a aproximação e o desprezo em relação às artes oriundas dos povos desde os tempos mais primitivos em relação ao mercantilismo e ao capitalismo. Na verdade a civilização europeia se fez em base ao comércio mundial e à produção industrial. Por isso os valores econômicos das mercadorias são determinados pela produção, pelo trânsito e ponto de venda comercial.

Por isso vasos de cerâmica chegados aos portos brasileiros ou chilenos oriundos do comércio inglês, francês ou americano sempre tiveram maior valor do que aqueles modelados pelas mãos em argila dos próprios países. A cerâmica popular normalmente nesta escala é visto como de menor valor e não enfeitam as prateleiras das casas de classe média ou dos ricos.

E desse modo fomos encontrar uma grande exposição da cerâmica Quinchamalí no Centro Cultural Gabriela Mistral. Os jovens e o pessoal de classe média que visitava a exposição olhava as inúmeras peças com um sentimento entre o estranhamento aos padrões do design de consumo dos shoppings e uma vaga memória ancestral porém centrifugada pela atual padronização.

Quinchamalí é um povoado localizado no sul do Chile e que fica a 31 Km da cidade de Chillán. Estes oleiros produzem um cerâmica tracionalmente de cor negra, de aspecto brilhoso e que adquire o tom negro pois é cozida com bosta de cavalo. As peças são típicas com uma base que lembra um vaso ou a base de ums quartinha de água e em cima as cenas humanas, animais e plantas.

Além do tom preto da peça ela é decorada com motivos vegetais desenhados com incisões no barro e pintados em cor branca ou com outra cor que se destaque no fundo. Os oleiros de Quinchamalí se originaram nos povos Mapuche e como em toda as américas as peças tinham originalmente sentido utilitário como recipientes de água e panelas. No princípio do século XIX é que surgiram as garrafas com formas humanas e animais e por volta de 1850 uma figura típica desta arte é a guitarrera, um símbolo da mulher camponesa chilena. Depois aparece a louça artística como brinquedos e novas figuras zoomorfas que se inovam em relação às formas tradicionais.

No GAM vimos a exposição de 261 peças da coleção do Museu de Arte Popular Americano da Faculdade de Artes da Universidade do Chile (aliás onde se encontra o Museu de Arte Popular do Cariri e arredores nas nossas universidades estadual ou federal?). O título da amostra se identificava como “Quinchamalí no Imaginário Nacional” e tem duas marcas fundamentais.

A primeira é o quanto a arte popular se tornou um objeto do desejo das classes médias mais afetas a um chamamento intelectual. Na parede de entrada da exposição havia um texto primoroso de Pablo Neruda tratando do valor cultural e artístico da arte Quinchamalí usando de todos os artifícios de encantamento do consumo: dizendo ter tomado conhecimento de algumas peças através de um grande museu de Nova York. Certamente isso ilumina os desejos dos urbanos afastados dos seu povo.

A segunda é como uma arte popular se projeta no trabalho artístico e faz nascer uma força estética tomando por base sua estrutura. Assim como em Caruaru até hoje se cultua o Mestre Vitalino e no Cariri as duas Ciças como fundadores autorais de uma estética da nossa cerâmica, entre os Quinchamalí se destacou uma artesão chamada Práxedes Caro. Não tenho espaço para reproduzir seu impressionante testemunho de liberdade e decisão sobre seu corpo e destino como mulher.


Nesta linha da estética veio o grande gravador Nemesio Antúnez, artista chileno de expressão formal na arte mundial, que mergulhou na forma e na expressão da cerâmica Quinchamalí. Quem ainda for ao Chile até 23 de junho bem poderia dar fugidinha daquele circuito turístico tradicional e ir ao Centro Cultural Gabriela Mistral (GAM) e aproveitar para abrir o coração ao povo. Quem ficar neste friozinho das nossas madrugadas caririenses estimule-se a ir ao Centro de Artesanato Mestre Noza ou outros que desconheça e ali observar a originalidade popular. Sempre será um “descarrego” deste pesado mundo pequeno burguês em suas gôndolas de consumo fugaz.   


E Se  (Francis Hime)
E se o oceano incendiar
E se cair neve no sertão
E se o urubu cocorocar
E se o Botafogo for campeão
E se o meu dinheiro não faltar
E se o delegado for gentil
E se tiver bife no jantar
E se o carnaval cair em abril
E se o telefone funcionar
E se o pantanal virar pirão
E se o Pão-de-Açúcar desmanchar
E se tiver sopa pro peão
E se o oceano incendiar
E se o Arapiraca for campeão
E se a meia-noite o sol raiar
E se o meu país for um jardim
E se eu convidá-la para dançar
E se ela ficar assim, assim
E se eu lhe entregar meu coração
E meu coração for um quindim
E se o meu amor gostar então de mim






segunda-feira, 10 de junho de 2013

Os novos conservadores e os negócios dos agrotóxicos - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os conservadores brasileiros na variabilidade própria dos matizes de todas as categorias ideológicas têm em comum o temor de uma sociedade plural e democrática. Eles gozam da fé inabalável nos EUA e no seu modo de ser. Para eles aquele napalm no corpo daquela jovem vietnamita, correndo sem roupas após o bombardeio, é apenas um erro na justa luta contra o mal comunista.

Eles continuam com horror às eleições livres, chamam de ditadura os eleitos fora do seu credo e guardam, por enquanto, o silêncio da enorme afeição à ditadura militar de recente memória. Eles são integrais, totais e orgânicos em seu modo de ver o mundo: acreditam na fé neoliberal, têm horror à agricultura familiar e amam o agrobusiness; acreditam na “ordem total” e abominam os movimentos sociais; usam discurso contra a corrupção para combater as lutas sociais, os direitos sociais e os direitos humanos.

São competentes na manutenção do poder mas atabalhoados se as rédeas do Estado não estiverem em suas mãos. Os conservadores piscam o olho para Pinochet, se amuam com a morte do “bom velhinho” Videla na prisão e fazem isso de um modo malandramente disfarçado: combatem Fidel e Raul Castro, além de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales.   
  
Enfim jamais lerão algo de um conservador apontando a contradição entre grandes negócios e o desastre ambiental mundial. Quando abordam o assunto tendem a falar de uma culpa original e geral contra o ser humano de modo a garantir que o desastre é um tema irreversível da maldade humana. Jamais apontarão para o grande negócio e a necessária luta política contra esta ordem que apodrece o presente e apaga o futuro. Leiamos o seguinte caso.

Sygenta, Monsanto, Bayer, Dow Chemical, Dupont controlam 100% dos agrotóxicos e dos organismos geneticamente modificados (plantas e sementes). Agora desenvolveram uma nova geração de inseticidas neuro-ativos relacionados com a nicotina (neonicotóides).  Um milho geneticamente modificado da Sygenta matou gado na Alemanha e 52 milhões de americanos sofreram contaminação com o agrotóxico Atracina em seu lençol freático usado para beber. A atracina tem a capacidade de mudar o gênero em animais.

Os neonicotóides são letais para aves e o sistema aquáticos que elas dependem. Esta nova geração de agrotóxicos tem uma enorme capacidade de persistir no meio ambiente e se infiltrarem nas águas subterrâneas. Um só grão de milho contaminado com neonicotóides pode matar um pássaro.

Estes agrotóxicos estão se acumulando nas águas superficiais e nas águas subterrâneas e muitas coleções já chegaram ao nível de contaminação suficiente para destruir invertebrados e aves que dependam destas água. A questão mais recente é o impacto destes tóxicos sobre a destruição de abelhas selvagens e domesticadas.
A mortandade entre apiculturas tem sido tão elevada nos EUA que seus proprietários, através de sua associação, estão processando o governo americano pela sua leniência com o crime ambiental. Está acontecendo um conflito intenso entre o governo Obama que defende as empresas produtoras e o governo Putin da Rússia que se indignou com a mortandade de abelhas em toda a Europa em decorrência dos neonicotóides.

A situação é tão grave que a Europa tende a que os governos passem a controlar todas as plantas e sementes. Isso significa que o liberalismo comercial das grandes empresas terá de perder o proselitismo de seus executivos e de suas ações em bolsa, para sujeitarem-se à análise ambiental de governos. Os tempos dos negócios desenfreados para concentrar capital e oferecer glamour à vida de executivos high-tech se encontra na encruzilhada do desastre físico do planeta. Some-se mas este efeito os desastres econômicos dos neoliberais.

A natureza da adjetivação dos relatórios em relação aos organismos geneticamente modificados está de tal forma talhado que na União Europeia se fala em “sementes monstruosas” criadas geneticamente. A EU e a Rússia de Putin têm esta visão mas o governo Obama defende as cinco grandes dos agrotóxicos argumentando que a morte das abelhas não se deve aos neonicotóides e atribui tais mortes (fora do normal) a inúmeras causas.

Argumenta-se em contrário que Obama foi financiado pela Monsanto e que pôs inúmeros funcionários da empresa em órgãos chaves do governo ligados à regulação dos agrotóxicos e dos organismos geneticamente modificados tais como o FDA (US Food and Drug Administration) e a USDA (US Departamento of Agriculture).   

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou uma lei que anistia previamente todas as “agrotoxicoleiras” de suas eventuais responsabilidades em desastres ambientais. Ou seja, protege as sementes geneticamente modificadas de eventuais litígios perante riscos ambientais. A lei foi sancionada por Obama e passou a ser jocosamente chamada de “Monsanto Protection Act”. Se alguém no futuro tiver algum problema de saúde associado com as sementes da Monsanto não poderá recorrer aos tribunais.

O capitalismo sempre aprende a fazer negócio e os capitalistas a se eximirem de suas responsabilidades sociais: se houvesse uma lei como essa em relação a nicotina as companhias tabageiras jamais teriam sido responsabilizadas pela epidemia decorrente do uso do cigarro.   


Enquanto isso o regime franco dos conservadores brasileiros teve um grande ideólogo que foi um grande executivo da Dow Chemical. Chamava-se Golbery do Couto e Silva.  

sábado, 8 de junho de 2013

A Ópera e o Mito da Nacionalidade na América do Sul - José do Vale Pinheiro Feitosa

Subindo a rua San Antonio no centro de Santiago, após transitar pela Alameda, passando pela Universidade Católica e pelo Cerro Santa Lúcia, chega-se ao Teatro Municipal. Como tem no Rio, São Paulo e que em Buenos Aires chamou-se Colón. Naquele dia anunciava em cartazes, fixados na fachada do Teatro, uma apresentação do pianista chinês Lang Lang. Hoje um dos mais destacados pianistas do mundo. Lotação esgotada.

Os teatros de ópera têm um fator essencial na chamada modernidade. Aquela fase da história humana que compreende as ideias do iluminismo, as revoluções burguesas, a revolução industrial, a centralidade urbana em detrimento da terra e a consolidação do capitalismo após sua fase de acumulação chamada mercantilismo.

Um parêntese: muita gente diferencia o mercantilismo do capitalismo, mas há uma certa tendência a adotar a visão de que o mercantilismo foi a fase de acumulação de capitais (especialmente com a escravidão, a mineração e a produção de monoculturas). Na verdade o capitalismo é o grande capital que é, em outras palavras, a acumulação monocrática de capitais em torno de pequenas classes ou grupamentos familiares.

A idéia de um capitalismo democrático pulverizado na renda de famílias de classe média ou de operários é um engano, nestes termos, uma vez que o jogo jogado dos capitais acontece nas grandes instituições financeiras sob a manipulação de poucos. Basta observar a grande quebra das bolsas no anos 30 e dos bancos de investimento em 2008 para entender que o jogo jogado no capitalismo é um jogo de minoriai manipulando a estabilidade e o futuro de milhões de famílias.

Mas retornemos às ruas de Santiago do Chile, exatamente a Calle San António, em frente ao Teatro Municipal. Segundo algumas fontes o mais antigo prédio teatral da América do Sul seria a Casa de Ópera de Vila Rica. Sua data de começo funcional seria 1770. Se bem que a entrada no teatro como uma prática cultural aconteceu desde o início da conquista e durante todo o período de colonização, sempre pela mão dos Jesuítas que utilizaram a prática como meio de catequização dos povos nativos.

De qualquer modo no Brasil no final do século XVIII foram criadas casas de ópera além de Vila Rica, em Diamantina, no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Salvador. Em síntese a ópera é um segmento essencial da formação da nacionalidade, especialmente na fase do romantismo. Quando as ex-colônias começaram seus movimentos independentistas, era preciso formar uma mentalidade em sua elite. Uma mentalidade própria não subalterna à corte européia.

Por isso em toda a América do Sul foram criadas nas grandes cidades teatros espetaculares preferencialmente para a apresentação de ópera. O teatro municipal de Santiago onde se assistiu ao mito da nacionalidade alemã pelas mãos de Richard Wagner com sua ópera Parsifal, a preferida do Fuhrer  foi fundado em 1857 e foi inaugurado com uma ópera de Verdi intitulada Ernani. O Teatro Colón de Buenos Aires é de 1908 e é considerado um dos melhores teatros do mundo. O Teatro Municipal do Rio de Janeiro foi construído em 1909 no calor das obras de remodelação do centro do Rio. O teatro municipal de São Paulo foi construído entre 1903 e 1911 e não foi à toa que ali aconteceu a Semana de Arte Moderna de 1922.

Enfim: ao longo da performance de Parsifal no Teatro Municipal ficou claro que o grandes teatros de Ópera em Milão, Paris, Berlim, Viena e assim por diante eram a expressão da nacionalidade típica da consolidação da burguesia embora como sempre com os salamaleques das monarquias.

Por isso na América Latina os teatros de ópera foram tão importantes, não para o povo em geral, mas para a formação das elites nacionais que começaram a beber água nas fontes do romantismo e seus mitos fundadores das nações. Claro que se inclua por aí os poemas de Gonçalves Dias e os romances de José de Alencar.

Por último um exemplo emblemático: o fabuloso prédio do Teatro Amazonas. Construído na época e no estilo da Belle Epoque (os anos dourados da burguesia européia) em razão dos fabulosos capitais oriundos da borracha. Um teatro para espanto do mundo erguido no meio da floresta amazônica. Foi proposto pela primeira vez em 1881, aprovado um financiamento pela Assembléia Legislativa em 1882, o projeto arquitetônico foi de um escritório de Lisboa e a construção feita sob orientação de um arquiteto italiano. A obra durou quinze anos quando, finalmente, em 1897, foi inaugurado com a ópera italiana La Gioconda de Ponchielli.


As performances no Teatro Amazonas eram feitas por companhias europeias que vinham até o centro da floresta e depois retornavam com o ouro no bolso. Salvo alguma revisão está neste périplo a origem do meu amor sendo gerado por duas gerações deste um maestro italiano em busca de sobrevivência. E assim se formam o mito que busca dar sentido ao nada de nossas origens.  

Afinal, quem manda ??? - José Nilton Mariano Saraiva

Segundo veiculado pela imprensa, meses atrás, o senhor Ciro Gomes, momentaneamente sem ocupação (já que o povo o reprovou nas urnas, por diversas vezes), teria sido nomeado “assessor” do PSB, partido comandado pelo irmão-governador, Cid Gomes, sem que se saiba quais as atividades a exercer e, principalmente, qual o valor que nós, contribuintes, temos que suportar para pagar seu “ócio-remunerado”.
Fato é que, mesmo desocupado, o senhor Ciro Gomes sempre dá um jeito de se manter em destaque na mídia cearense, por conta da influência que exerce sobre o irmão-governador (já que seu padrinho político), a ponto de antecipar (sem consultá-lo) atos e ações que, sob sua ótica, deverão ser implementados pelo Governo do Estado.  
Basta lembrar, por exemplo, que meses atrás, na cidade do Crato, em confronto com os estudantes da URCA, que questionavam sobre se não seria mais produtivo e apropriado aplicar em educação uma vultosa verba para construir um tal de “Aquarius” (brinquedinho-turístico pra inglês ver), o dito-cujo declarou em alto e bom som que o “Aquários” seria construído, sim, porque ele, Ciro Gomes, assim o queria. E o “brinquedinho” tá sendo tocado, sim, mesmo que a um custo exorbitante e sob protesto de muitos.  
Pois bem, agora se tem notícia que “informalmente” o senhor Ciro Gomes é quem dá as cartas na Secretaria de Segurança Pública (de fato, embora não de direito), do governo do irmão, pintando e bordando a seu bel-prazer, tendo em vista a comprovada inaptidão (ou seria incompetência ???) para o cargo do atual titular da pasta (que houvera sido rebocado lá de Sobral, terra dos Ferreira Gomes). E para comprovar isso, já chegou fazendo barulho, ao acusar um capitão da polícia, que foi eleito vereador em Fortaleza com uma votação significante, de ser o responsável por uma milícia atuante na capital, aliada a narcotraficantes, objetivando desgastar o Governo. (não esqueçamos que anteriormente o senhor Ciro Gomes já houvera investido contra professores, médicos e militares, destratando-os publicamente).
O certo é que, a cada dia se solidifica no seio daqueles tem têm um mínimo de massa cinzenta (capacidade de discernir), que o atual Governo do Ceará é gerido a quatro mãos, porquanto o “irmão-Governador” não tem ascendência sobre o “irmão-desocupado” que, afinal, foi quem o colocou no "trono".
A dúvida é: afinal, quem manda - Cid ou Ciro ??? De quem é a palavra final ??? 





sexta-feira, 7 de junho de 2013

Lua cheia



O padre Adalmiram Vasconcelos, pároco de Farias Brito, vem sendo seguidamente imputado de polêmico pela população caririense. Conheci-o , recém ordenado, ainda como capelão do Hospital São Francisco , e sempre me pareceu um religioso aberto, cordato e tranqüilo. Em 2010, ele  trabalhando em Santana do Cariri , tomara medidas firmes no que tange à festa da padroeira daquela cidade que vinha tomando formato de um “Carnaval fora de época”. Blocos, trios elétricos, camisetas com alusões indecorosas e incentivo maciço às libações alcoólicas. Na época, com ajuda do prefeito e Ministério Público, criou regras e condutas na tentativa de imprimir um sentido mais cristão à festa religiosa. Sofreu , em represária, perseguições de grupos jovens locais,  disseminando-se o boato de que, à noite, o nosso pároco uivava à lua e virava lobisomem. Em 2011, o padre assumiu a paróquia de Nossa Senhora da Conceição em Farias Brito. Em setembro do ano passado , solicitou aos fiéis da Serra do Quincuncá para não soltarem fogos de artifícios na missa em sufrágio da alma de Padre Cícero. Adelmiram acreditava que haviam sido os fogos que causaram um incêndio que terminou por devastar mais de dez quilometros da serra, com grave impacto ecológico. A população afeita ao fogaréu e ao pipoco , não viu com bons olhos a medida. Agora, por fim, explode uma outra polêmica. Aberta a Festa de Santo Antonio em Cariutaba, o sacerdote recorreu aos serviços do Ibama e da polícia para impedir o corte de uma árvore gigantesca , feito anualmente, desde o Século XIX, para se usar como pau da bandeira. Fincou a bandeira do santo casamenteiro na torre da igreja. Proibiu ainda o consumo exagerado de bebidas . As festividades vêm acontecendo do lado de fora do templo: por medida de segurança,  Adelmiram mandou passar um cadeado na capela. A revolta dos  moradores, num local tradicionalmente sem muitas atrações,  parece visível e perturbadora.
                                   À luz da razão , é difícil confrontar as medidas saneadoras e corajosas do nosso padre. É um verdadeiro absurdo se cortar, anualmente, uma árvore antiga, com o fito único de se montar um suporte de bandeira. Essa medida, amigos, fere não só princípios ecológicos, mas também legais. Sem falar no contra-senso que é uma religião que deve defender intransigentemente a preservação da vida nas suas mais diversas formas, servir de instrumento para a destruição. Que pensaria disso São Francisco de Assis ? Por que não mantemos a mesma tradição , utilizando sempre o mesmo mastro ? Por outro lado, que têm de sagradas as nossas festas religiosas? As estatísticas de violência na Semana Santa são, historicamente,  muito mais catastróficas de que as do Carnaval. Há shows nababescos  toda  Sexta Feira Santa em Gravatá, Pernambuco, regados a droga, sexo e Rock´n Roll. A Festa do pau da Bandeira de Barbalha  é similar aos rituais de fertilidade pagãos, com seu símbolo fálico reverenciado em cada esquina. As festividades da Baixa Rasa ,aqui em Crato,  não juntariam tanta gente sem a música, o aguardente e a paquera, ingredientes básicos de qualquer solenidade profana que se preze. Padre Adalmiram traz consigo esta pureza quase missionária, remontando às raízes do Cristianismo. Com coragem, cumpre a responsabilidade que se espera de um pastor : ver adiante, perceber novos caminhos por trás das lentes embotadas da aparente normalidade cotidiana. Nada, no entanto, contra a corrente, será massacrado pela população, pela política e mesmo seus pares não compreenderão sua Cruzada.
                                   O Sagrado e o Profano sempre estiveram umbilicalmente ligados em todas as nossas comemorações sacras. Talvez os brasileiros, por natureza, não sejam muito afeitos aos liames dos ritos. Pela nossa própria colonização, nossa religião é, também, profundamente miscigenada. Comungamos na igreja, mas freqüentamos o Centro Espírita, vez ou outra comparecemos ao Terreiro, acreditamos em reencarnação, usamos umas folhinhas de arruda , alguma figa, somos fatalistas, não comemos carne de porco e por aí vai. Nas festividades religiosas rapidamente entra um atabaque, um violãozinho, uma sanfona , que puxa uma caipirinha. Rapidamente os cultos ultrapassam as fronteiras do sagrado. Por outro lado, as cidades tomam as festas como suas( o turismo é politicamente cada vez mais atraente e uma fonte de renda importante), entram nas agendas turísticas dos municípios , parte-se para divulgação, procuram-se atrações de massa como isca e, de repente, a festa é festa e não mais culto. As entidades religiosas, por sua vez, pragmáticas, beneficiando-se com o aumento da arrecadação , fecham os olhos para o crescimento absurdo do profano, afinal  no Brasil tudo sempre acaba em festa.
                                   Acredito, no entanto, que não podemos apenas , simploriamente, lançar no povo brasileiro a culpa pela propensão natural à esbórnia.  O Cristianismo , estrategicamente, colocou sua festas principais na mesma data das antigas festas pagãs, no sentido de esvaziá-las. Os festins são todos retratos vivos de velhas encenações e iniciações de ritos pagãos. O Natal ( até hoje não sabemos a data do nascimento de Cristo) foi alocado em  25 de Dezembro, exatamente na antiga Saturnália , a grande festa romana que comemorava o solstício de inverno. A Páscoa, com seu coelhinho, seu chocolate e seus ovos, remontam ao culto da Deusa Ostera, símbolo da fertilidade e do renascimento na Mitologia anglo-saxônica. As comemorações dos nossos dias santos não passam, na verdade, de adaptações aos rituais às deusas primitivas, reverenciadas na época das plantações e cultivos dos alimentos. Deve ter se sedimentado no nosso inconsciente coletivo que não se pode venerar Zeus, sem acender também uma  vela para Vênus, para Baco e Dionísio.
                                   Possivelmente as árvores continuaram sendo tombadas; as bandas de forró seguirão fazendo a trilha sonora das festas religiosas; os tonéis de aguardente  persistirão na sua tradição de regar as preces. Apesar das nuvens, a lua permanecerá cheia. Adelmiram sabe disso e – mesmo sem sê-lo--  faz aquilo que se espera de um lobisomem : uivar !

 J. Flávio Vieira