por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Embargos Infringentes




J. Flávio Vieira

                               Wanderico ensinava Sociologia em Matozinho e era uma figuraça. Alto e esguio, cabelo grande preso por uma Maria-Chiquinha, barba longa e desgrenhada, roupas simples montadas em cima de umas chinelas currulepe. Fazia parte daquele protótipo de professor sociólogo, só que não mandava rasgar livros e nem pensava em se meter em Academias. Os alunos o adoravam : tanto por sua dedicação,  como pelo carinho que dedicava a todos na Escola. Wanderico chegara a Matozinho, há pelo menos vinte anos, quando se mudara da capital. Adaptou-se perfeitamente àquela vida provinciana e trouxe na bagagem uma larga experiência pedagógica. Sabia-se pouco do seu passado  na beira-mar , mas ali sempre levara uma vida monástica.  Devia ter seus cinqüenta e lá vai lapada. Morava sozinho, fizera-se sempre um solteirão convicto. Não é que não gostasse da fruta, tanto que namorava há mais de dez anos uma mocinha bem mais nova que ele: Afonsina.  Ela fora sua aluna no colégio e era de família humilde, mas queridíssima na Vila.
                        Wanderico , um sujeito desprendido, justificava sua solteirice crônica , sua aversão ao altar, com razões bastante pragmáticas. Entendia que o casamento era uma instituição que não podia dar certo porque precisava, necessariamente, assassinar o namoro. Comer a famosa saca de sal juntos mostrava-se motivo suficiente para deixar intragável  qualquer relacionamento. Namoro e paixão, dizia sempre, eram coisas boas demais para serem liquidificadas pelo matrimônio.  Unir as duas escovas de dentes deixava, imediatamente, o tesão banguelo. Deusulive !
                        A filosofia de Wanderico, no entanto, esbarrava em muitos obstáculos. Afonsina, como toda mulher , sonhava em casar e aquele relacionamento longo a vinha deixando na berlinda. Em Matozinho, já se perguntava nas beiras de rua, se aquilo era pra casar ou pra que diabos era. Namoro longo denotava , imediatamente, intimidades na mesma proporção e, ali, todas as amizades tinham que ser, necessariamente, em preto-e-branco.  Qualquer  possibilidade de meximento prematuro  em cabaço de moça era igual a cutucar marimbondo de chapéu, com vara curta.  Assim, como no julgamento do Mensalão, sequer provas se necessitavam, as evidências se faziam mais que suficientes para a pronta condenação do acusado.
                        Passados os primeiros anos do namoro, começaram as inevitáveis pressões pelo desenlace final . Os vizinhos cutucavam a família de  Afonsina e  se foi criando um clima cada vez mais turbulento. “O homem é loiça!” , “Já era casado na capital, não pode casar de novo, né?”, “Já provou da fruta e parece que já tinham comido uns gomes antes dele!”  Todos, no entanto,  respeitavam muito Wanderico e se sentiam constrangidos em acintosamente o colocar no canto da parede. Insinuações escaparam aqui e ali, sutis indiretas se teceram, mas o professor  parecia um verdadeiro artista fingindo-se de João-Sem-Braço. Comemorado, por fim, o aniversário de dez anos do namoro, num Natal onde todos estavam reunidos, o pai da moça foi às vias de fato e , delicadamente, colocou o noivo a par das  expectativas e preocupações da família diante do infindável casa-não-casa.  Wanderico fingiu entender tudo e prometeu :
                        --- Quando Julho chegar, nós casamos, prometo ! Podem preparar a festa.
                        Afonsina e os familiares ficaram felicíssimos com a promessa e começou-se a finalizar o enxoval que já se vinha preparando há tantos e tantos anos.  A notícia espalhou-se por toda Matozinho:  finalmente  iria cair por terra o último reduto do celibatarismo regional. Os amigos mais chegados, no entanto, desconfiaram da mudança  súbita de Wanderico, sem uma resistência stalingradense,  ele que mostrava-se , sempre, um empedernido inimigo  do altar e da água benta. Na primeira oportunidade, já em meados de abril, no Bar do Giba, numa mesa de bar, entre uma e outra lapada de cana, um companheiro quis saber:
                        --- E aí, Wanderico ? Como é , rapaz, temos enterro de gente viva em julho?
                        --- Não, amigos, ainda não tem nada certo!
                        --- Como não, homem de Deus ? Você não prometeu ao pai da moça que casava logo que julho chegasse?
                        ---  Pois é, mas  pelo visto ele vai demorar!
                        --- Julho vai demorar? Mas como, Wanderico, não  chega daqui a três meses? -- Quis saber o amigo, já meio exasperado.
                        --- Eu prometi casar  quando Júlio chegasse! Vocês é que não entenderam!  Júlio é um amigo meu que foi pras bandas de São Paulo há uns trinta anos e nunca mais deu notícia, nem sei se ainda está vivo!
                        Só então Matozinho entendeu que Wanderico, diante da ameaça de prisão perpétua,  tinha impetrado  seus embargos infringentes.

Uma boa nova!

Vizinha de Abidoral, na Rua José Carvalho, em Crato, foi inaugurada uma galeria permanente dos trabalhos de Pachelly Jamacaru.Vale a pena conferir!
Particularmente,  encantou-me  o extremo bom gosto do casal: Pachelly/Socorrinha.
Agora, a opção de presentes especiais está ampliada.
Lindas peças!
Parabéns, casal da nossa admiração!

Esses tais “recursos infringentes” – José Nilton Mariano Saraiva

Em razão da aposentadoria compulsória (em razão da idade), de dois dos ministros (Cesar Peluso e Carlos Ayres Brito) que compunham o pleno do Supremo Tribunal Federal e a conseqüente indicação dos respectivos substitutos (Luis Roberto Barroso e Teori Zavaschi), o julgamento do processo conhecido por “mensalão”, que já se encaminhava à sua fase crepuscular, findou por apresentar uma guinada espetacular, espécie de reviravolta inesperada: é que os dois novos integrantes daquela corte têm apresentado uma abordagem totalmente diferente da usada pelos antigos titulares e, aí, como do lado de lá (dos réus) temos tarimbados e caros advogados, que conhecem como ninguém o “caminho das pedras” (também conhecidos como “atalhos legais”) a história tende a ser (re)contada de outra forma.
Assim é que, quando os réus já haviam sido condenados e as penas respectivas estipuladas (em atendimento ao arrazoado não tão convincente do relator ministro Joaquim Barbosa), eis que a defesa aparece com a figura dos tais “recursos infringentes”, que se trata de uma manobra absolutamente legal, permissível desde que, quando do ato condenatório, o acusado (mesmo apenado) haja sido contemplado com pelo menos 04 (quatro) votos favoráveis por parte dos integrantes do pleno do Supremo Tribunal Federal.
E como em alguns supostos crimes aventados (formação de quadrilha, por exemplo) a votação do STF pela condenação foi praticamente dividida, existe a possibilidade, sim, de que tudo seja “zerado” e tenhamos um novo julgamento (para tanto, basta que, também aqui, os acusados obtenham pelo menos quatro votos favoráveis à aceitação dos tais “recursos infringentes”.

A essa altura seis (06) dos onze (11) ministros já votaram, com o placar apontando 4 x 2 pela aceitação do pedido da defesa (basta, portanto, mais um (01) voto, dos cinco (05) faltantes, para que a decisão anterior (condenação) seja revista).

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Os "mercenários" - José Nilton Mariano Saraiva

Sabe daquela máxima de que “nada melhor que um dia atrás do outro, com uma noite no meio” ??? Pois é, em 1992, o então governador do Ceará, Ciro Gomes, durante uma greve dos médicos do estado, investiu de forma truculenta contra os integrantes da categoria, ao peremptoriamente afirmar que além de “mercenários”, os médicos eram como sal: “branco, barato e tem em todo lugar”.

Depois daí, mesmo com tamanho desrespeito e desprezo à categoria, forçou a barra para tentar viabilizar-se como ministro da Saúde nos governos de Fernando Henrique e Lula da Silva, sem sucesso (aliás, convém atentar que a família Ferreira Gomes se acha toda “empregada” na política: o irmão mais novo é governador, a ex-mulher vereadora, e o outro irmão responde hoje pela Educação de Fortaleza).

Eis que, agora que se achava desempregado (porque o povo negou-lhe mais um mandato, no executivo), recebeu do irmão-governador o “presente” que sempre acalentou, o “mimo” objeto de desejo: atuar na saúde (embora a nível estadual).

Se dará conta (ou não) do recado, difícil prognosticar; até porque, para conseguir tal desiderato, obrigatoriamente terá de mudar radicalmente seu diagnóstico a respeito dos “mercenários”  que são “barato e tem em todo lugar”.

Conseguirá o apoio dos antigos desafetos ???


sábado, 7 de setembro de 2013

O "jeitinho" - José Nilton Mariano Saraiva

A exoneração do Secretário de Segurança Pública do Estado do Ceará é a “prova provada” da hipocrisia (e dissimulação) que vige no meio político.

Escolha pessoal e intransferível da família Ferreira Gomes, desde o princípio o então coronel da polícia mostrou que não era do ramo, que não tinha aptidão para a coisa, que se constituía um autêntico peixe fora d’agua, que não passava de um blefe e, enfim, que era um incompetente em potencial em termos de gestão e comando.

E o resultado não poderia ser diferente: durante sua catastrófica permanência à frente da Secretaria de Segurança, a bandidagem deitou e rolou, fez e desfez, casou e batizou. Tanto é que os assaltos a ônibus aumentaram 155,9% e os homicídios dolosos no Estado 17,5%, quando comparados com o mesmo período do ano passado; além do que, em 08 meses do ano corrente, tivemos 24 assaltos (com explosões) em bancos, ou uma média de 03 por mês. 

De outra parte, sabe-se que quando convidado a assumir a pasta, o coronel da polícia Francisco Bezerra era um ilustre desconhecido da maioria dos cearenses, já que nunca houvera militado na arena política, assim como em qualquer outro setor de maior visibilidade; era, por assim dizer, um zero à esquerda, uma nulidade em termos de apresentação pessoal, já que com um currículo inexistente.

Pois não é que agora, a fim de não dar a mão à palmatória, já que a cobrança por um mínimo de segurança tornou-se uma grita generalizada em todo o Estado, o “padrinho” (arrependido) do senhor Secretário (o Governador do Estado) houve por bem substituí-lo, sem que antes haja elaborado um tal “jeitinho”, espécie de saída honrosa (caricata) para o dito-cujo: assim, o coronel tira o time não por incompetência, ou porque haja transformado a segurança no calcanhar de Aquiles do Governador, mas, sim, porque irá concorrer a uma vaga para Deputado Estadual nas próximas eleições.


Qual o “curral eleitoral” que o Governador do Estado irá cooptar para que descarregue seus votos numa nulidade, não se sabe: o certo é que, se o afilhado “pegar corda” e resolver mesmo concorrer, Sua Excelência corre o risco de “quebrar a cara” novamente, já que a derrota será fragorosa.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Antes tarde... - José Nilton Mariano Saraiva

O sentimento de desconfiança da população brasileira para com os políticos com assento no Congresso Nacional atingiu um nível de descrédito tal que, de certa forma, causou surpresa a atitude do presidente da Câmara Federal, em Brasília, em sugerir, colocar em votação e conseguir aprovar em tempo recorde a emenda que acaba com excrescência conhecida por “voto secreto”, nas votações naquele recinto.

Como se sabe, através do uso de tão imoral artifício, eles, os políticos, livravam a cara um do outro quando da perspectiva de perigo iminente individual (a cassação do mandato, por exemplo), assim como se ajudavam mutuamente quando se colocava em pauta projetos tidos como imorais, mas que os beneficiariam a partir de.

Só que, como nós eleitores não tínhamos como saber quem houvera votado contra ou a favor do desejo popular, recaia sobre todos eles a suspeita de nos ter ludibriado, daí o repúdio geral contra esse corporativismo nojento.

No entanto, como a repercussão da votação que livrou da cassação o “deputado-bandido-presidiário” Natan Donadon foi extraordinária, descredenciando-os ainda mais ante à população, houve como que uma espécie de “despertar” para a realidade, e daí, pra tirar a suja e tentar reverter o impacto negativo (inclusive em termos internacionais), resolveram as tais  lideranças dos diversos partidos por acabar de vez com a excrescência (espera-se que o Senado Federal a ratifique).

Até porque, em atendimento a um dos parlamentares que não houvera concordado com o resultado e recorrera ao Supremo Tribunal Federal, o ministro Luiz Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu a decisão do plenário da Câmara que produziu tão vexatória e desmoralizante decisão, “anulando” a sessão que a produziu (deveremos ter uma nova votação e, aí, sim, já com o voto em aberto, o “deputado-bandido-presidiário” deverá ser cassado).


Fato é que, por cima de pau e pedra, aos trancos e barrancos, os ajustes vão sendo processados em nossas caducas legislações, incluindo até a Constituição Federal, há pouco tempo promulgada.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Falta "gestão e comando" - José Nilton Mariano Saraiva

Durante os 08 (oito) primeiros meses do ano corrente (jan/ago), no Estado do Ceará foram dinamitados nada menos que 24 (vinte e quatro) estabelecimentos bancários, tanto em Fortaleza e região metropolitana como no interior. Ou seja, tivemos uma média de 03 (três) assaltos por mês ou, mais precisamente, 01 (um) assalto a cada 10 (dez) dias (ontem foi a agência do Banco do Brasil de Boa Viagem e hoje a de Pindoretama).

Na capital, especificamente, o clima é de medo e apreensão, por conta da ação quase que diária de marginais, não só assaltando, mas, também matando inocentes, deixando a população em clima de permanente alerta, com medo até de sair de casa.

Convidado a comparecer ao plenário da Assembléia Legislativa para discorrer sobre o assunto, o afilhado dos Ferreira Gomes que está Secretário de Segurança do Estado, um certo coronel da polícia, pintou um quadro totalmente alheio à realidade, porquanto, na sua avaliação, a situação é de plena normalidade. E como o governo tem maioria na Assembléia, os “deputados-cordeirinhos” não o questionaram, não o debateram, aceitando passivamente as mentiras por eles expostas.

E o pior é que a coisa parece ter se intensificado ainda mais a partir do momento em que o irmão (desempregado) do governador do Estado, senhor Ciro Gomes (reconhecendo intimamente que a coisa estava sem comando), afirmou que iria prestar uma “ajuda informal” ao senhor Secretário de Segurança do Estado, numa tentativa de moralizar a pasta.

No entanto, pela volúpia com que os bandidos passaram a agir a partir de então, parece até que a fama de “valentão” do dito-cujo não assusta nem o mais amador deles, porquanto o caos se faz presente a cada dia que passa. 


Pergunta-se: até quando teremos que ficar trancados em nossas casas gradeadas, enquanto a bandidagem passeia livremente pelas ruas da cidade, pintando e bordando, fazendo e desfazendo, por falta de gestão e comando numa área tão crítica ???

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Edelson Diniz – Mais incentivos para as artes visuais


Artista que despontou nos Salões de Outubro na década de oitenta no Crato, Edelson Diniz  tem propriedade no que faz e fala. Criativamente inquieto, tem um trabalho que nos remete a cultura e a religiosidade popular. Para o artista, no Cariri existe uma produção de qualidade, mas alerta que o campo das artes visuais precisa de incentivos para  qualificar e difundir o que se faz por aqui.      

Alexandre Lucas - Quem é Edelson Diniz?

Edelson Diniz - Pra ser sincero, acho estranho dizer quem eu sou, sou estado de espírito, ás vezes artista, ás vezes bandido...

Alexandre Lucas – Como ocorreram seus primeiros contatos com a arte?

Edelson Diniz - Foi com um irmão meu, ele desenhava quando eu era criança, só que nunca se dedicou, seguiu outro rumo. Dai me senti a vontade pra me apropriar do talento dele e aliar ao que eu ainda hoje tento fazer.


Alexandre Lucas – Quais as suas influências artísticas?

Edelson Diniz - Eu diria que tudo pode me influenciar, não existe um cardápio de influências no meu processo de criação e construção. Notoriamente pode se perceber certa apropriação de traços, cores e formas do nosso folclore e da religiosidade popular, acho que é o mais evidente na maioria dos meus trabalhos.

Alexandre Lucas - Fale da sua trajetória:

Edelson Diniz – Despontei nos Salões de Outubro em Crato, nos anos 80, participei ativamente dos Movimentos OCA – Officinas de Cultura e Artes, Movimento Xá de Flor. Depois fui funcionário da Secretaria de Cultura de Juazeiro por quase 15 anos, foi de lá onde surgiu muita influência, uma vez que eu desenvolvia um trabalho com os grupos folclóricos. Hoje, produzo e tento sobreviver na medida das possibilidades do meu trabalho.

Alexandre Lucas - Como você caracteriza o seu trabalho?

Edelson Diniz - Múltiplo

Alexandre Lucas - Como você ver a relação entre arte e política?

Edelson Diniz - Não vejo relação prática entre política e cultura, a cultura oficial inviabiliza muitas vezes a produção e criação artística, vejo um certo excesso de teoria.

Alexandre Lucas - Qual a contribuição social do seu trabalho?

Edelson Diniz - Não sei se contribuo socialmente com meu trabalho, minha única meta, é encher os olhos de quem aprecia o que faço e mostro. Pode ser que influencie de alguma forma em alguém, mas não existe uma preocupação de focar uma contribuição.

Alexandre Lucas – Como você ver a produção das artes visuais na Região Metropolitana do Cariri?

Edelson Diniz - A qualidade é boa, temos grandes artistas, a produção poderia ser melhor, se houvesse mais incentivos, uma política pública prática, que sugerisse infraestrutura para qualificar e difundir o que se faz por aqui.

Alexandre Lucas – O Salão de Outubro fez história na região do Cariri. Fale sobre o significado desse movimento para as artes no Cariri.

Edelson Diniz - Significou muito na época em que acontecia, o formato era abrangente, o acesso era fácil, e a receptividade era a melhor, diria que é o alicerce de todos os movimentos que hoje existem aqui no Crato hoje em dia. Quem está à frente desses novos movimentos, passaram pelo Salão de Outubro.

Alexandre Lucas – Quais os seus próximos trabalhos?


Edelson Diniz - Pretendo fazer uma sugestão de um  projeto para iluminar e ornamentar a cidade do Crato no próximo final de ano, sugiro que sejam criados critérios para avaliação de projetos, tipo ver o lado técnico, pesquisa de arte etc, . Fica sugestão.

domingo, 1 de setembro de 2013

Casa Grande & Senzala



Dr. Umberto Hernandez ficará na história do Cariri como um dos primeiros  Neurocirurgiões a se radicar  na nossa região com um continuado e profícuo exercício que salvou incontáveis vidas. Numa época em que já proliferavam as motos como meio popular de transporte  e sua consequência inevitável, os politraumatismos,  a Neurocirurgia  , estrategicamente, postava-se na fronteira entre a Vida e a Morte.  Dr. Umberto vinha de Cuba, já maduro, com uma larga experiência no seu ofício e trouxe consigo  outras louváveis virtudes:  uma profunda visão social da Medicina; uma ética acima de qualquer mácula; uma enorme aversão a qualquer tentativa de exploração da sua digna atividade; o desprendimento e a humildade de formar outros profissionais qualificados. Consta que depois de um trabalho  diuturno e benéfico, por longos anos, terminou sendo denunciado por alguns de seus pares e precisou retornar ao seu país.
                               Lembrei-me dele nos dias atuais  quando  se gera enorme polêmica com a vinda de outros profissionais  estrangeiros  no Programa Governamental  Mais Médicos.  Gostaria de dar minha visão, um pouco na contra corrente do pensamento médio institucional, no que tange à questão. Temos enormes disparidades na distribuição de profissionais num Brasil,  onde ¾ dos médicos se alojam estrategicamente, e não por mero acaso, nas regiões Sul e Sudeste.  A tônica da Medicina  desde o Século XX tem sido, claramente, uma atenção direta com a forma Terapêutica e um afastamento da sua face Preventiva. Formamo-nos médicos para tratar as pessoas e não para prevenir os males que por acaso podem ser evitados. Por trás disso tudo, claro, existe um grande e forte movimento empresarial   clínico- hospitalar e toda indústria farmacêutica, para quem a Doença é sempre  um vultoso negócio.  Durante todo o Século XX,  a lógica eminentemente capitalista relegou a prevenção ao subsolo e nomes como Osvaldo Cruz, Adolfo Lutz,  Carlos Chagas, passaram a fazer parte de um passado heroico e ultrapassado. A distribuição dos médicos, formados para tratar quem pode pagar, fixou-se, prioritariamente, nas regiões mais ricas e litorâneas.  Os poucos que se aventuraram a , como bandeirantes, adentrar o interior pobre do país, foram sempre vistos de forma preconceituosa por seus colegas dos locais mais abastados: com poucas condições,  estariam praticando uma Medicina atrasada, própria de séculos anteriores. Por sua vez, a forte e importante onda tecnicista que envolveu a atividade médica durante todo o Século XX, com avanços importantíssimos  e indiscutíveis , não só aumentou a distância entre o praticado na capital e  no interior, mas fez , também, com que os médicos se tornassem cada vez mais técnicos e menos missionários.  E o técnico é bem mais cartesiano, não lhe passa pela cabeça a possibilidade de dois mais dois não serem exatamente quatro.
                                               O SUS, no final dos anos 80, tentou dar uma reviravolta nesta ordem de priorização do terapêutico ,em detrimento do profilático. Nasceu, no entanto, dentro destas dicotomias inevitáveis : um sistema de viés socialista tentando ser instalado num país de forte tendência neoliberal;  necessitando de médicos e profissionais com ampla visão generalista e formando médicos especialistas e com forte formação terapêutica;  buscando profissionais  hipocráticos e se defrontando com médicos de boa formação técnica , mas pragmáticos e amplamente antenados com o Mercado.  O sonho igualitário de trazer Saúde para todos os brasileiros topou na exiguidade de recursos de um país em desenvolvimento. Verba pouca foi destinada prioritariamente para a Atenção Básica, levando ao colapso da Atenção Secundária. Mesmo assim, com todos os percalços, conseguimos, com ações mínimas , abater drasticamente a Mortalidade Infantil , a Desnutrição, as Doenças de Controle Vacinal, levando a um invejável aumento na Esperança de Vida.
                                               É com essa visão particular e mais ampla que , como médico há mais de trinta anos trabalhando no interior do Brasil, que vejo como inequívoca a necessidade de contratação de médicos , seja lá de onde for, para trabalhar nos grotões desse país. Vi luminares da Medicina Uspeana , dizendo que o médico não iria, por nenhum dinheiro desse mundo, trabalhar nos locais mais miseráveis, porque lá, sem nenhum recurso, não teria o que fazer e se desesperaria. Discordo completamente dessa visão de Avenida Paulista. Estão querendo passar para todos que os profissionais no interior desse Brasil nada estão fazendo, pois não têm às mãos um Pet Scan ou uma Ressonância Magnética. Querem me convencer que Dr. Leão Sampaio em Barbalha, nada representou; que Dr. Cícero em Campos Sales teria sido dispensável;   que Dr. Gouveia em Iguatu foi uma excrescência; que Dr. Montalverne  Guarany em Sobral era perfeitamente descartável.  Permitam-me discordar dessa visão estreita e tosca. Cabe-nos lutar para que um dia , todos os rincões desse país tenham as mesmas condições de acesso à Saúde , mas não é justo que até lá profissionais médicos sejam impedidos de fazer o pouco que estiver ao seu alcance para minimizar a dor, o sofrimento, mesmo cientes que poderiam, sim, fazer muito mais, se assim condições existissem. Se se reparar bem,  não temos no Cariri os mesmo recursos de Forteleza, Fortaleza não tem os mesmos de São Paulo e São Paulo, por sua vez , perde para os dos EUA. Tudo é perfeitamente relativo.  Jogar no lixo a  vocação missionária hipocrática é o mesmo que  arrancar a sagrada túnica de sacerdote  que historicamente  vestimos e nos imantou de  um poder mágico e encantado.
                                               Acredito que, no presente momento – mesmo sujeito à cara trombuda dos meus pares-- a contratação  médicos estrangeiros é uma necessidade  imperiosa e, mais, é preferível os cubanos pela forte formação em Medicina Social. Aprenderam a , com medidas simples,  combater a miséria. Seus achaques são bem mais próximos das nossas centenárias chagas. Sempre é bom lembrar que os Indicadores de Saúde do seu país são os melhores das Américas todas. Pasmem, ganham do Canadá ! Muitos dirão que  estas conclusões são perfeitamente ideológicas, mas todas as que se contrapõem a elas também o são. Os opositores babam de fúria, não contra os profissionais, mas contra Fidel. Se os médicos que aqui desembarcaram viessem dos EUA ou da Inglaterra seriam recebidos com flores e fogos de artifício.
                                               As vaias que irromperam em Fortaleza contra os médicos cubanos denotam , totalmente, a nossa falta de foco.  Almofadinhas, não somos acostumados às manifestações públicas, coisa de proletários. Os colegas aqui chegaram num projeto governamental. Não têm nenhuma culpa das nossas desavenças. Éticamente devem ser tratados com educação e lhaneza. Os gritos de  “Escravos!”  “Escravos!” que ecoaram na Escola de Saúde Pública vieram dos amplificadores da “Casa Grande” . A Senzala não merece atendimento de médicos, já tem seus rezadores e meizinheiros.  Já não basta ?

J. Flávio Vieira

"Catherine" - José Nilton Mariano Saraiva

Os que hoje se situam na faixa dos 60 anos certamente hão de recordar do bom ator “yanque” Kirk Douglas, fichinha carimbada em grandes filmes sobre o velho oeste americano, com seus índios e mocinhos se engalfinhando em batalhas tão cruentas como memoráveis. Mas, como a marcha inexorável do tempo não perdoa quem quer que seja, rico ou pobretão, famoso ou não, Kirk Douglas teve que, paulatinamente, ceder seu lugar a uma nova geração de atores.
E ai todos tivemos (inclusive o próprio) o grato prazer de conhecer e constatar que seu filho, Michael Douglas, houvera se tornado um “artista” de mão-cheia (muito mais competente que o pai) porquanto, além do talento hereditário, eclético no atuar e com mais presença em cena devido ao porte físico avantajado (quase 2 metros) e um bem delineado corpo nas academias da vida; assim, logo logo estabeleceu-se.
Para o mulherio, então, foi um autentico achado, uma descoberta de outro mundo, daí a “caça” permanente, obstinada e diuturna visando “laçar a fera”, de qualquer jeito; e como o cara mostrou-se um garanhão insaciável, um autêntico atleta sexual, muitas e muitas mulheres (e que mulheres) privaram da sua alcova. O exemplo emblemático da “qualidade” pode ser visualizado na atual esposa, a escultural atriz britânica Catherine Zeta-Jones (nascida em Swansea, País de Gales, em 25.09.69), um autêntico “supersônico”.
Pois bem, rico, belo e disputado (apesar de casado), eis que a o destino lhe reservou uma surpresa nada agradável: numa rotineira consulta médica, à procura de debelar uma “coceira” na garganta, Michael Douglas (fumante inveterado), recebeu a infausta notícia de ser portador de um “câncer” na região.
Transparente e corajoso fez questão de, pessoalmente, dividir com gregos e troianos a sua situação, botando a boca no trombone; e, como não poderia deixar de ser, a partir do “velho”, da esposa e da família, a solidariedade fez-se presente das quatro esquinas do planeta Terra; comoção generalizada.
Mas... o Michael Douglas é um ser humano e, como tal, tem seus momentos de “apagão”, seus pecados, suas fraquezas, suas idiossincrasias e, assim, sua pessoal e desabrida explicação para o que ocorrera provocou um baita estrago: segundo ele, seu câncer na garganta, na verdade, teria sido provocado pelo costumaz exercício do “sexo oral”, com uma mulher portadora do temível vírus HPV (detectável via “papanicolau”); sim, senhores, o nosso ídolo era adepto e praticante habitual de tal “esporte”.
Se tal declaração foi recebida por muitos como “corajosa”, por revelar ao mundo uma sua faceta não conhecida (e nada edificante), para a bela esposa, Catherine Zeta-Jones, representou uma afronta pessoal, desrespeito intraduzível, uma espécie de acusação descabida: afinal, em sendo ela a esposa daquele autentico “deus” grego, já há bastante tempo, teoricamente, dela, ele teria contraído o tal vírus em suas relações heterodoxas.
O resultado é que o pedido de divórcio (anunciado nesta última quarta-feira, 28.08.13) já foi por ela formalizado e, se conseguir vencer a doença, Michael Douglas vai ter que “lambuzar-se” em outra fonte.

Fato é que, agora, doente e sem asas (já que desprovido do “supersônico”), Michel Douglas ainda terá que conviver com uma cobrança inevitável: “ô, cara, por que fizestes tamanha maldade com a bela e doce Catherine” ???  

sábado, 31 de agosto de 2013

O fenomenal Ângelo Monteiro. Parte 1.


"FLORES RARAS" - José Nilton Mariano Saraiva

“Flores Raras” (baseado em fatos reais) é a tal prova cabal de que nós, brasileiros, já conseguimos, sim, produzir com extrema competência, filmes adultos, sérios e - mais importante - de qualidade indiscutível.

Produzido e dirigido pelo consagrado Luiz Carlos Barreto (em parceria com a esposa) e tendo no papel principal uma Glória Pires madura e simplesmente exuberante, trata da intensa e sofrida relação homossexual entre a arquiteta carioca Lota de Macedo Soares (Glória Pires), uma das responsáveis pela construção do Aterro do Flamengo, no Rio, e a poetisa americana Elisabeth Bishop.
 
É que esta, buscando fugir do estresse do dia-a-dia de Nova Iorque, decide aceitar o convite de uma contemporânea de faculdade (que se mudara para o Brasil), para conhecer o Rio de Janeiro. Extremamente tímida, introvertida e recatada, em aqui chegando se surpreende ao notar que a ex-colega “vivia” com uma outra mulher, Lota Macedo.

Despachada, autoritária e mandona, Lota Macedo não fazia nenhuma questão em esconder sua atração por pessoas do mesmo sexo. E a paixão por Elisabeth foi instantânea, como que a adivinhar que por detrás daquela timidez, introversão e recato excessivos se escondia um autentico “vulcão”. E não deu outra: na primeira saída a sós (por ela provocada) e num recanto paradisíaco (Teresópolis), um inesperado beijo na boca e... deu-se a erupção, fiat lux.

Daí pra frente a paixão só cresceu, ao ponto do ciúme da ex-amante ter que ser debelado com a adoção de uma criança e a abertura definitiva e sem rodeios do jogo: sim, a bola da vez, agora, era Elisabeth (que com ela passou a dividir a cama).

Viveram intensamente a paixão e cresceram profissionalmente em suas respectivas atividades (Elisabeth chegou a ganhar o concorrido prêmio Pulitzer, por um poema que lá atrás houvera dedicado a Lota) até que deu-se a “fadiga do material”: convidada para lecionar numa faculdade americana, Elisabeth resolve aceitar, mesmo com a não concordância e o protesto veemente da companheira (que chega a lhe oferecer mundos e fundos, tal o medo de perde-la).

Acostumada a mandar, desmandar e jamais ser questionada, com a viagem da companheira à sua revelia, Lota Macedo acusa o golpe: entra em um penoso processo depressivo, alimentado pela saudade, daí o consumo excessivo de álcool. Suas cartas não têm resposta, simplesmente porque a ex, que fora rejeitada, não as encaminha. A degradação é visível e impressionante (que maquiador fabuloso).

Após certo tempo, ao tomar conhecimento, por acaso, do estado crítico da ex, Elisabeth (já com outra amante, uma aluna bem mais nova) se manda de lá pra cá, a fim de socorrê-la; e aí, novamente juntas, as duas descobrem que “não dá mais liga”, alguma coisa se perdera pelo caminho, o sonho acabara, esvaíra-se, escafedera-se.

Alfim, por não admitir o fracasso, e visando livrar-se daquele calvário que já lhe atormentara excessivamente, Lota Macedo põe fim à própria vida ao ingerir um generoso coquetel de medicamentos com whisky. Mesmo condoída e consciente de ter sido responsável por aquele ato extremo, Elisabeth volta para os braços da amante americana.


Resumindo: independentemente dos preconceitos que decerto hão de surgir, um filme adulto, sério e que merece ser visto com extremada atenção. E com um adendo: é brasileiro, sim, com locação na sua maior parte em Teresópolis, contando com uma atipicidade: os diálogos em inglês e legendado em português.