por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

JUDICIÁRIO: UM PODER DESMORALIZADO - José Nilton Mariano Saraiva


Em priscas eras (ou no tempo da vovozinha), o Poder Judiciário (no Brasil) era nominado de “guardião da sociedade”, no pressuposto de que demandas não resolvidas ou que dúvidas suscitassem (de qualquer ordem), ali desaguariam e seriam resolvidas sem maiores traumas ou celeumas.

No entanto, como os tempos são outros, o outrora bem-conceituado Poder Judiciário passou por uma metamorfose colossal e, hoje, figura como uma das instituições de credibilidade seriamente comprometida ante a sociedade, mercê das incríveis peripécias dos seus integrantes.

Tráfico de influência, venda de sentenças, desobediência sistemática à Constituição Federal, condenações sem provas, abuso de autoridade e por aí vai, o levaram a tal patamar.

Com o surgimento da tal Operação Lava Jato é que a coisa piorou (e muito), porquanto, se antes a coisa era circunscrita a determinados segmentos judiciais, agora os próprios componentes do Supremo Tribunal Federal (instância maior do Judiciário), tiveram que “entrar na dança”, pra valer.

Só que o fizeram fora de ritmo, de forma descompassada  e atabalhoada, já que, frouxos, prolixos e covardes, com medo da reação popular no tocante à Operação Lava Jato chancelaram todas as flagrantes e cabeludas ilegalidades praticadas por um despreparado e abusado juiz de primeira instância (conduções coercitivas sem a devida notificação, longas prisões sem necessidade de provas, condenações por personalíssimas convicções e achismos e por aí vai).

Pra completar, as notificações do STF enviadas aos mafiosos políticos com assento no Congresso Nacional (Eduardo Cunha, Renan Calheiros e outros), foram simplesmente ignoradas, e ficou o dito pelo não dito.

No entanto, o clímax da desmoralização veio nesses dias, quando o próprio Presidente do Supremo Tribunal Federal (Dias Toffoli) determinou que a votação para a eleição do Presidente do Congresso Nacional fosse realizada via voto secreto.

Como os mafiosos políticos não gostaram nem um pouco da presumível interferência do Judiciário no Legislativo, fizeram questão de, ao votar, exibir para a televisão como o tinham feito.  Ou seja, bateram de frente com o dito cujo, sem o menor temor, como que a indicar que, “aqui, você não apita nada”.

Justa e merecida desmoralização pública do STF, ao vivo e a cores.
   

domingo, 3 de fevereiro de 2019

“CIRCO” ou “PUTEIRO” ??? – José Nilton Mariano Saraiva


E quando se pensava que o ambiente iria mudar, com a entrada de novos atores, eis que os “palhaços-engravatados” com assento no tal Senado Federal nos propiciaram, nos dois últimos dias, espetáculos tristes e deprimentes, de 5ª categoria, dignos da mais recôndita periferia (com todo respeito à periferia).

É que, sem nenhum respeito a quem quer que seja (já que com transmissão ao vivo e a cores pra todo o Brasil), durante a eleição interna para eleger quem comandaria aquela casa, as supostas “excelências” quase que entram em luta corporal, ao tempo em que sobraram expressões “carinhosas”, do tipo canalha, ladrão, bandido e por aí vai.

A dúvida que ficou é se aquilo é um “circo” de periferia com seus “espetáculos” dantescos, ou se podemos compará-lo a um “puteiro” mambembe, onde as “damas” geralmente entram em confronto para ver que consegue ficar com o dote (cliente) que ofereça mais.

A certeza é que, lamentavelmente, nos próximos quatro anos tudo vai continuar a mesma merda de sempre e vamos ter que suportar e conviver com essa corja de bandidos que fazem da vida pública nada mais que um rentável meio de vida. E o Brasil ??? Que se foda.

Triste... mas verdadeiro.

WINNER (Dr. Demóstenes Ribeiro)



          Quando eu era criança, em meio a tantas histórias, vovô acariciando os meus cabelos, falava repetidamente: Comandante, eu perdi a guerra civil espanhola, mas você será um vencedor. Voluntário contra o fascismo, ao lado de Apolônio de Carvalho e outros heróis, ele jamais aceitou a vitória de Franco.
          No entanto, contrariando o seu desejo, não estudei no Colégio Militar. Aluno medíocre em escolas particulares, nunca me afeiçoei aos livros. Gostava mesmo era de nadar, surfar e jogar futebol. Inventaram de eu ser franciscano e foi um fracasso. Frei Anselmo me viu com uma revista “Play Boy” e, fui expulso. Vovó chorou muito, mas eu só pensava em mulher. Não tinha a menor vocação.
          Aí, fora do convento, conheci a maconha e as baladas. Minha mãe pensou que um intercâmbio me colocaria nos eixos e me mandou pro Canadá. Porém, nada é tão ruim que não possa piorar. Lá eu só me diverti e não aprendi nada. Trouxe um diploma de conclusão do ensino médio e apenas um inglês razoável. Veio o vestibular e nenhuma profissão me fascinava. Cocaína, ecstay e LSD eram a minha felicidade. Pra ganhar um automóvel, entrei numa faculdade qualquer.
          Carro novo e boa mesada. Roupas de grife e heavy metal. Festas rave, o maior barato. O dia dormindo e a noite por aí. Passei a vender, além de consumir. Vieram as dívidas e as ameaças de morte. A minha mãe se desesperou, saldou os débitos e me internou numa clínica. No final, ela faliu, caiu na mão de agiota e estourou o cheque especial.
          Escapei da clínica e continuo numa boa. Não tomo remédio nem gosto de psicólogo. Vez por outra me entristeço quando encontro alguém da pré-escola. Hoje são médicos, advogados, engenheiros e eu nessa vida de merda. Perdi a faculdade. Como outros colegas, fui reprovado por faltas.
          Mas, com humildade, devagarzinho e, em memória do meu avô, eu vou me recuperar. As coisas estão melhorando. Um amigo meu, que é dançarino, bolou uma grande jogada. Ele me apresentou a umas velhotas como “personal trainer” domiciliar. Sou bonito, sarado, bom de papo e elas se encantaram comigo.
          Por uma boa grana, ensino qualquer exercício e topo qualquer parada. Às vezes, me aborreço, é claro. Outro dia, uma masoquista siliconada berrava para eu lhe apertar mais e mais: quase a matei e por pouco não estourei a sua prótese.
          Hoje, sou quase exclusivo da viúva de um desembargador. Ela pesa uns cento e trinta quilos, mas paga bem e me chama de Neném. Na última vez, chegando à sua cobertura, estava bem embriagada. Deixou o uísque na minha mão e disse que já voltava. Logo as luzes se apagaram, ficou somente um abajur lilás.
          Completamente nua e dando uma de soprano, Lola sacudiu as banhas cantando “Babalu” e me beijou desesperada.  Numa das mãos balançava a chave de um carro e dizia imperativa: vem Neném, vai descendo, bota essa língua bem dentro de mim, bem dentro mesmo, o mais fundo que você puder.
          Tomei um uísque triplo e fui descendo. Uns peitos enormes, ela girou e tinha a bunda fria, mas a boceta fumegava. Fechei os olhos, tapei o nariz e mandei bala.
          Está enojado? “I’m not a  loser!”: moro na Beira Mar e foi assim que ganhei esse “Corolla.”


É NA AUSÊNCIA QUE A SAUDADE VIVE (Rubem Alves)


Porque concordamos em gênero, número e grau, postamos o texto de Rubens Alves, à reflexão de todos os que não se deixam manipular por essa farsa chamada "religião" (católica, protestante, evangélica e por aí vai).

José Nilton Mariano Saraiva

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EU NÃO TENHO RELIGIÃO.

Não vou a igrejas, não participo de rituais, não acredito nos seus dogmas. Preciso não ter religião para amar a Deus sem medo, com alegria e, principalmente, sem nada pedir. NÃO TENHO RELIGIÃO PORQUE NÃO CONCORDO COM AS COISAS QUE ELAS DIZEM DE DEUS. Deus é um Grande Mistério. Está além das palavras. Diante do Grande Mistério a gente emudece. Fica em silêncio.

Discordo a partir do pronome “ele”.
DEUS “ELE”, MASCULINO ? ONDE FOI QUE APRENDERAM SOBRE O SEXO DE DEUS ? DEUS TEM SEXO ? SE TEM SEXO, POR QUE NÃO “ELA”, DEUS MULHER ? Como a mulher do Cântico dos Cânticos? A IGREJA CATÓLICA NÃO CONHECE A MULHER. CONHECE APENAS A “MÃE” QUE FOI MÃE SEM TER SIDO MULHER.

DEUS, por que não uma flor, a mais perfumada? Por que não um mar sem fim onde a vida navega? Místicos houve que disseram que Deus é uma criança que nos convida a brincar... Mas pode ser também que Deus seja música, como pensaram os místicos pitagóricos.

Ter uma religião é falar as palavras sagradas daquela religião e acreditar nelas. As religiões se distinguem e se separam: pelas diferenças das palavras que usam para se referir ao sagrado. Se elas nada falassem, se houvesse apenas o silêncio diante do Grande Mistério, a Babel das religiões não existiria. Diante do Grande Mistério apenas uma palavra é permitida, a palavra poética, porque a poesia não o diz, mas apenas aponta para ele. O Grande Mistério está além das palavras.

Só tenho uma religião, ela se chama poesia. Por isso, amo a Cecília Meireles, sacerdotisa profana, que quando queria se referir a Deus falava sobre um mar sem fim, misterioso e selvagem. Quem em silêncio contempla o mar sem fim ouve vozes em meio ao barulho das ondas. Também Fernando Pessoa sabia disso. Mas, prestando bem atenção, é possível ver, a voar sobre o mar sem fim, um pequeno pássaro que canta: “Leve é o pássaro, e a sua sombra voante, mais leve. E a cascata aérea de sua garganta, mais leve. E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve...”

Os poetas escrevem em transe: não sabem sobre que estão escrevendo. Faz muitos anos, escrevi um livro para minha filha. Ela tinha 4 anos. Eu iria fazer uma demorada viagem pelo exterior e ela ficou com medo de que eu morresse e não voltasse. Apareceu-me, então, uma estória, A menina e o pássaro encantado.

Resumida, era assim: era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe contava estórias; o pássaro a fazia imensamente feliz. Mas sempre chegava um momento quando o pássaro dizia, “tenho de ir”, a menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse. Menina, disse-lhe o pássaro, aprenda o que vou lhe ensinar:

EU SÓ SOU ENCANTADO POR CAUSA DA AUSÊNCIA. É NA AUSÊNCIA QUE A SAUDADE VIVE. E A SAUDADE É UM PERFUME QUE TORNA ENCANTADOS A TODOS OS QUE O SENTEM. QUEM TEM SAUDADES ESTÁ AMANDO. TENHO DE PARTIR PARA QUE A SAUDADE EXISTA E PARA QUE EU CONTINUE A AMÁ-LA, E VOCÊ CONTINUE A ME AMAR...”.

E partia. A menina, sofrendo a dor da saudade, maquinou um plano: quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu numa gaiola de prata dizendo: “Agora ele será meu para sempre”. Mas não foi isso que aconteceu. O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não mais tinha estórias para contar. E o amor acabou. Levou tempo para que a menina percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre e voltava quando queria. E ela soltou o pássaro que voou para longe. A ESTÓRIA TERMINA NA AUSÊNCIA DO PÁSSARO E A MENINA SE ENFEITANDO PARA A SUA VOLTA.

Minha intenção, ao escrever esta estória, era simples: consolar a minha filha. Mas quando foi publicada ganhou um sentido que não estava nas minhas intenções: começou a ser usada em terapia, com casais possuídos pela ilusão de que, engaiolado, o amor seria posse eterna.... Desde então passei a presentear noivos com uma gaiola da qual eu arrancava a porta. Mas, passado algum tempo, uma pessoa me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!” “Sobre Deus ?”, eu perguntei sem entender. “Sim”, ela me respondeu. “O PÁSSARO ENCANTADO NÃO É DEUS ? E AS GAIOLAS NÃO SÃO AS RELIGIÕES, NAS QUAIS OS HOMENS TENTAM APRISIONÁ- LO ?”

Aprendi, então, da minha própria estória, algo que não sabia: Deus como um Pássaro Encantado que me conta estórias. Amo o Pássaro. Odeio as gaiolas. O Pássaro Encantado não pousa em galhos para cantar. Não é possível fotografá-lo. Canta enquanto voa. Dele, o que temos é apenas a sua leve sombra voante e a cascata aérea de sua garganta... Quando ouço o seu canto, ele já passou. Só é possível vê-lo em seu voo, por trás. Vai-se o Pássaro. Fica a memória do seu canto.

Um pássaro voando é um pássaro livre. Não serve para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo, controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é, precisamente, o seu segredo, a sua inutilidade; ele está além das maquinações dos homens. Sua única dádiva é o seu canto. Só faz um milagre, um único milagre: quando, chorando, lhe peço “Passa de mim esse cálice”, ele canta e o seu canto transforma a minha tristeza em beleza. Por isso eu nada lhe peço. Sei que ele não atende a pedidos. O seu canto me basta: ao ouvi-lo transformo-me em pássaro. E voo com ele...


MAS AÍ VÊM OS HOMENS COM AS SUAS ARAPUCAS E GAIOLAS CHAMADAS RELIGIÕES. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que o seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro…

Por que prenderam o Pássaro? Porque o seu canto não lhes bastava. Não lhes bastava a beleza. Na verdade, não o amavam. O QUE OS HOMENS DESEJAM NÃO É A BELEZA DE DEUS. O QUE ELES DESEJAM É MANIPULAR O SEU PODER. O que eles querem é o milagre. O canto do pássaro poderia lhes dar asas para voar. Mas não é isso que querem. O que desejam é o poder do pássaro para continuar a rastejar: Deus, transformado em ferramenta. Ferramenta é um objeto que se usa para se atingir um fim desejado. Assim são os martelos, as tesouras, as panelas... O QUE AS RELIGIÕES DESEJAM É TRANSFORMAR DEUS EM UMA FERRAMENTA A MAIS. A MAIS PODEROSA DE TODAS.

A ferramenta que realiza os desejos. Como o gênio da garrafa. POIS NÃO É ISSO QUE É O MILAGRE, A REALIZAÇÃO DE UM DESEJO POR MEIO DA MANIPULAÇÃO DO SAGRADO ?    Só é canonizada santa uma pessoa que realizou milagres: o milagre é o atestado do seu poder para manipular o divino.

E é assim que as religiões se multiplicam, porque os desejos dos homens não têm fim, e os seus santuários se enchem de santos de todos os tipo.  Os santos milagreiros são nossos despachantes espirituais, todos eles a serviço dos nossos desejos, atenderão nossos desejos a preço módico, se rezarmos a reza certa e prometermos publicar o milagre em jornal, e pela televisão se anunciam fórmulas, sessões de descarrego, águas bentas milagrosas, exorcismo de demônios, os DJs de cada religião têm uma música na fala que lhes é própria…

Assim, a poesia do canto do Pássaro Encantado se transforma em manipulação do pássaro engaiolado. E não percebem que aquele pássaro que têm dentro de suas gaiolas não é o Pássaro Encantado, que não se deixa engaiolar, porque é como o vento, e voa como quer, e tem uma única dádiva a oferecer aos homens: a beleza do seu canto.

À TRANSFORMAÇÃO DA POESIA EM MANIPULAÇÃO MILAGREIRA OS PROFETAS DERAM O NOME DE IDOLATRIA...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O DOUTORZINHO


    Entre os figurões da cidade, poderíamos dizer que lá estavam todos. Os de praxe, o tédio inarticulado dos chavões. Doutor Flávio, delegado Lisboa, doutor Auceu, e os demais “insetos em volta da lâmpada” que geralmente os acompanham.
    Era churrasco para comemorar a formação do filho do anfitrião da casa, Pedro Ivo, que agora tinha o rebento formado, adivinha em quê? Medicina é claro. No país do futebol, não se comemora a formação de alguém que ensine os outros a ler ou a escrever. No país do futebol a formatura que interessa é aquela que conserta-se canelas, dê pontos, remende cabeças, e, não podemos deixar de dizer, também salva vidas.
    Davi, o recém-formado, agora chamado de “doutorzinho” era o típico doutor interiorano. Esforçado, ágil, gentil e semianalfabeto. Nos primeiros ganhos de sua clínica o primeiro investimento foi o de sempre. Carro grande, um gasto considerável em um som automotivo, festas populares regadas a whisky, onde, obviamente ele financiava tudo, uma vez que dinheiro não era problema.
    A mãe, que inicialmente era só orgulho, começara a perceber a nova rotina que adquirira o filho depois que retornara a cidade. Era um misto de orgulho e angústia. Perguntava ela ao marido:
    -    Pedro, será que não está demais essas farras desse menino? Precisa dessa gastança de dinheiro?
    O pai muito assertivo, com o rádio ao ouvido refutava:
    - O menino passou a vida inteira com a cara enfiada nos livros, trabalha feito um condenado e você não quer deixar o coitado se divertir? Que mal tem meu Deus? Que mal tem?
    Inadvertidamente o “doutorzinho” seguia sua rotina diária. Sua fama na cidade pequena se espalhara. Competente, gentil, compromissado. Percorria as sertania e atendia, inicialmente, a todos de bom grado. As mais idosas, deslumbradas com o jaleco branco e os olhos verdes eram mais devotas: - Parece até nosso Senhor Jesus Cristo!
    O “doutorzinho” agora santificado, tinha suas rédeas mais soltas na sociedade. Opinava sobre economia, futebol, literatura. As verdades fugiam-lhe da boca qual pássaros em fuga de um viveiro:
    - Saramago é o maior! Não tem escritor no mundo maior que Saramago.

    Para o bem da verdade é que gemia mudo em sua estante um esquálido exemplar de “Ensaio sobre a cegueira” que nunca passou das orelhas. Porém, a segurança encantava. Entre uma dose e outra, desciam as carnes e peixes de primeira, que, acompanhado da plateia segura, os “insetos em volta da lâmpada”, jamais questionariam. As opiniões eram emitidas sobre todos os assuntos. Se o apelido carinhoso de “doutorzinho” já não o tivesse se espalhado, poderíamos dizê-lo como “rosa dos ventos”. Seu saber embora médico, servia para tudo sob o sol.
    Entre um xarope e outro receitado, entre uma gripe e outra diagnosticada, entrara uma nova paciente. Olhos verdes, tamanho diminuto, cabelos tingidos de sabe-se lá que cor. Adentrou no consultório feito uma aparição cristã. Em êxtase o nosso quase cristo de aldeia a atendeu com voz trêmula, mas discreto.
    - O que posso ajudar?
    - Oi doutor, não consigo respirar direito. Dói-me a garganta e o peito quando respiro.
    Retirou-lhe a camisa, encostou o estetoscópio gélido em seu seio e aferiu—lhe a pressão. Procedimentos básicos de um bom profissional com exceção do olhar demorado sobre os seios rosados.
    Curiosamente a jovem que consultada de forma tão atenta, que atendia pelo nome de Clarisse, rapidamente piorava, as consultas eram por assim dizer, quase diárias. As troca de olhares eram mais densas. O que as bocas falavam sobre as necessidades diárias da jovem malsã, não condiziam com os desejos ardentes escorridos dos olhos dos dois jovens pecadores.
    Tão logo não tardou o casamento. Os mais entusiasmados, ainda na festa já cobravam:
    - Quero um neto viu rapaz? E é para logo!
    Cobrava discretamente o pai da noiva, que, para o bem da verdade, um neto era a ssinatura de uma garantia social para sua filha para o resto da vida. Os pais do noivo por sua vez discordavam entre si sobre o casamento tão rápido. O pai queixava-se que o filho aproveitara pouco a vida de solteiro. Poderia ter, em seu palavreado calculado, “ter ganho mais experiência antes de casar”. Nisso resumia-se apenas a mais tempo de bebida e sexo sem compromisso. A mãe ao contrário, vira na nora a possibilidade inadiável de dar uma vida mais regrada ao filho, e incuti-lhe responsabilidades que ele sequer imaginava.
    Consumado o casamento a vida ia bem. Era um casal que a cidade admirava e invejava. Ele, um médico renomado, simpático, admirado por todas as castas sociais,. Ela, uma jovem belíssima, de competência questionável – antes de se casar com um médico, é claro -, mas que após investir na maior loja de roupas da região converteu-se do dia para noir em “personal estylist”. Profissão muito rara nos dias de hoje.
    A vida social não era menos frenética. Casamentos, batizados, aniversários. A vida era uma festa que se dividiam entre um ponto e outro dado, entre uma receitinha azul e outra cedida as senhoras que pouco dormi. Entre uma festa e outra, não raro, era convidado a discursar em aniversários. A da vez era Amanda, uma jovem de quinze anos, onde tivera o privilégio de ouvir tão nobres palavras:
    - Jovem de tal pedigree, filha de tão nobre família, já vejo em seus olhos não outro talento senão a devoção que este humilde servo de Deus, que fala essas palavras também dedicara a sua vida. A medicina! Percebendo ou não, ao exaltar sua própria profissão acabava quase sempre em diagnosticar as demais profissões como um câncer social. A sociedade em sua visão era dividida tão somente em duas espécies: Os médicos, e os frustrados que não conseguiram sê-lo.
    Percebendo a voz já trôpega do marido Clarisse moderava-o:
    - Amor já está bom.
    Tentava não fazê-lo parar de beber, pois isso já era impossível, mas apenas diminuir suas doses. Por vezes, sem que o mesmo percebesse, adicionava cargas de gelo, na esperança de enfraquecer o destilado. Nesta mesma noite, voltavam para casa em sua 4x 4, com mais três amigos no banco de trás. Dois médicos e o delegado de plantão. O carro aumentava de velocidade e os olhares se cruzavam de medo dentro do veículo.
    - Não é melhor diminuir doutor?
    Ele, formado em medicina, especialista em estradas carroçais receitava:
    - Sei o que estou fazendo “homi”. É o doutor quem está aqui. Confie!

    Cinco minutos depois o carro capotara, nada de grave aconteceu, apenas Clarisse que sentia uma dor na perna. Todos saíram no carro e apressadamente a viram ensanguentada em seus membros inferiores. Um caco enorme de vidro dilacerara sua veia femural. O sangue corria frouxo, largo, vibrante feito um mar. Ele tentou agir. As mãos trêmulas e mal trinadas não foram firmes o bastante. Os únicos gestos que estavam de fato habilitadas a fazer era o segurar de copos, os acenos, os apertos de mãos. A morte foi certa. Sentado ao lado do corpo, via-se o “doutorzinho” refletido no caco de vidro entre manchas.
    A lua jazia morna no céu. A dor era sua única espectadora. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

"FRUSTRAÇÃO" ILIMITADA - José Nilton Mariano Saraiva


A grande frustração de Sérgio Moro é que, mesmo dispondo de um aparato tecnológico de fazer inveja à CIA e ao FBI, e após quatro anos revirando a vida de Lula para cima e para baixo, ele e seus inúmeros auxiliares-procuradores não conseguiram achar uma ínfima prova capaz de confirmar as convicções e achismos que sustentaram durante todo o processo. Então, o jeito foi condená-lo por “ato de ofício indeterminado” (“a culpabilidade do réu NÃO está escrita, NÃO é clara, evidente ou aparente. Mas eu o condeno por atos de ofício indeterminados” - Juiz Sergio Moro na sentença a Luiz Inácio da Silva).
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Aliás, não se pode olvidar que a esculhambação jurídica hoje vigente no país se deve aos prolixos, preguiçosos e pernósticos integrantes do Supremo Tribunal Federal, já que deixaram Moro e seus procuradores pisotear a Constituição Federal ao seu bel prazer, em “N” oportunidades, a fim de satisfazer seu desejo insano de não só inviabilizar a candidatura vitoriosa de Lula da Silva, assim como encarcerá-lo o mais rápido possível. Foi, sem dúvida, o tipo de “perseguição implacável”, ignorada covardemente por uma mídia parcial e desonesta.

Cumprida a tarefa, sem nenhum pudor o “pagamento” foi feito logo após a eleição de um medíocre para a Presidência da República, que o nomeou Ministro de Estado. E como o chefe (Presidente da República) não passa de um banana, não tenhamos dúvidas que Sérgio Moro já há de tê-lo convencido a nomeá-lo para o Supremo Tribunal Federal, onde ficará à vontade, já que, como um simples juiz de piso, conseguiu não só bater de frente com os seus integrantes, assim como determinar a própria agenda daquela Corte (outrora Maior do país). Ou até – por que não – concorrer à Presidente da República.

Fato é que, se alguém tinha alguma dúvida sobre a condição de “preso político” de Lula (perseguido implacavelmente por Sérgio Moro), hoje isso ficou evidente, quando, desrespeitando mais uma vez a Lei e exarando um ódio visceral pela ex-Presidente, aquele juiz proibiu que o mesmo comparecesse ao enterro do irmão.

Ou seja, além de parcial e desonesto, Moro nos mostrou não ter um mínimo de “humanismo”, condição “sine qua non” de um magistrado.

Em resumo, tivéssemos uma Suprema Corte digna do nome, quem deveria se achar atrás das grades hoje seria o juiz Sérgio Moro, pelas diversas atrocidades cometidas durante a “perseguição implacável” ao maior presidente que o Brasil já teve, Lula da Silva, a quem ele jamais igualar-se-á. Por uma simples razão: foi e é um juiz que trafega à margem da lei (contando com o beneplácito do STF).



domingo, 13 de janeiro de 2019

A "RODOVIÁRIA" DO CRATO - José Nilton Mariano Saraiva


O “componente político” sempre foi, é e será peça primordial para que qualquer urbe “decole” em termos de independência econômica e desenvolvimento social.

Assim, mesmo sob o fogo cruzado de alguns “idiotas de plantão” (e eles estão em toda parte, sempre), durante anos sempre advogamos, aqui neste espaço, que a falta do “componente político” fatalmente levaria o Crato a tornar-se uma cidade-fantasma, cidade-dormitório, cidade “ex-isso-ex-aquilo”.

E mais: que a tal “Região Metropolitana do Cariri” não passava de uma grande fraude, um grotesco embuste, porquanto o objetivo sempre foi privilegiar uma única cidade, ao tempo em que “migalhas” seriam distribuídas com as demais.

Como resposta, os citados “idiotas de plantão” sacaram de um bordão tão cretino quanto irresponsável: que éramos “um só povo, uma só Nação Cariri” e, portanto, não deveríamos nos preocupar com o “privilegiamento” de uma única cidade, porquanto os benefícios se espraiariam pelas demais. Deu no que deu. Enterraram o Crato e o lacraram hermeticamente.

Ou alguém se arrisca a negar que, hoje, lamentavelmente, perdemos o bonde da história ??? E pior: sem qualquer chance de reversão ou retorno, porquanto as grandes “obras estruturantes” (aeroporto, hospital, instituição federais e por aí vai) foram todas implantadas na “cidade-polo”, condenando-nos a vagar em sua orbita.  

E o retrato emblemático e pujante da derrocada do Crato, ou daquilo em que transformaram a cidade nos últimos 40 anos (sua própria população) é o Terminal Rodoviário Wilson Roriz, vulgarmente conhecido por “rodoviária”, outrora orgulho de todos nós.

Concluída na administração do então prefeito Pedro Felício Cavalcante (o último grande gestor que tivemos), em meados da década de 1970, por falta de manutenção e cuidados está   superada, decadente, isolada, sitiada e até mesmo abandonada por sua população (particularmente, experimentamos um misto de vergonha e tristeza de mostrar “aquilo” a qualquer um “rodoviário de primeira viagem” que por lá aporte)..

E como já atingimos a “casa do sem jeito”, seria o caso do atual prefeito da cidade mirar em obras pontuais, valendo-se do fato do atual Governador do Ceará ser um cratense (e com quem conviveu durante anos na Assembleia Legislativa), para mostrar-lhe da necessidade urgente de se construir uma nova Rodoviária no Crato, que pelo menos não nos envergonhe tanto.

Arregace as mangas e compre essa briga, prefeito.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

TUDO POR UM FILHO... "DOUTOR" - José Nilton Mariano Saraiva


Desde tempos imemoriais, principalmente no seio de famílias menos favorecidas do interiorzão brabo desse Brasil varonil, o desejo acalentado e inconteste de pais e mães sempre foi o de... “formar um filho doutor” (aqui entendido como o graduar-se em Medicina).

Para tanto, e evidentemente que sem entender da profundidade do tema, muitos pais implicitamente incorriam na famosa “escolha de Sofia” (aquele lance em que, literalmente, haveria de se “sacrificar” um ou mais dos rebentos, em favorecimento do “escolhido dos deuses” ou o “premiado”; no caso, por absoluta carência de recursos necessários à contemplação de mais de um).

E como à época vigia o conceito de que “onde come um, comem dez” e o tal “controle da natalidade” era uma miríade distante (assim como a televisão ainda não havia chegado pra entreter os velhos), o “fazer” filhos era a regra em uma família paupérrima, até mesmo objetivando uma futura e decisiva “ajuda” da meninada na labuta diária pela subsistência (excetuando-se, como explicitado antes e restou provado à posteriori, aquele a quem se destinaria o “olimpo”).

Mas aí, em muitas oportunidades, o próprio rebento “premiado”, depois de ralar muito e ser aprovado no mais concorrido dos vestibulares (Medicina), depois de seis anos de dedicação “full time”, depois de comer o pão que o diabo amassou, visando tornar realidade o sonho dos pais, não mais que de repente “descobre” não ter “vocação para a coisa” e que havia, sim, um meio mais fácil de “se fazer na vida”: o ingresso na “corrupta” atividade política.

Assim, e lamentavelmente (devido à carência de profissionais numa área ainda tão  prioritária) muitos dos que se formaram “Doutor” à custa do esforço sobre-humano dos pais, nunca fizeram um simples curativo, sequer manipularam uma seringa, jamais prescreveram qualquer medicação a algum paciente e, enfim, se mudaram de mala e cuia para o “eldorado” mafioso da política. E, para tanto, aí sim, passaram a usar e abusar da “patente de doutor” a fim de “abrir portas”.

Adstringindo-se à nossa praia (o Ceará) dos dias atuais, além de na capital e interior termos “doutores” no exercício do cargo de prefeito, sem que nunca tenham exercitado a “atividade-fim” da formação acadêmica, pululam nos parlamentos estaduais e federais um outro tanto que adotaram o mesmo “script”.

E assim, o sonho dos pais, acalentado durante anos e anos, jaz esquecido e deixado pra trás, por obra e graça dos encantos e da facilidade que a atividade política oferece de “se fazer na vida” rapidamente, mesmo que por métodos heterodoxos. Definitivamente, os tempos são outros.

Alfim, há que se destacar, sob pena de não o fazendo injustiçá-los, que os “vocacionados” para o mister, aqueles que realmente “vestiram a camisa” desde o ingresso na faculdade e até a pós-formatura, são, sim, dignos e merecedores de encômios e de reconhecimento público pelo verdadeiro “sacerdócio” no dia-a-dia de uma atividade estressante e sofrida. Afinal, além de não os frustrarem, se mantiveram fiéis ao sonho dos pais de um dia… “formar um filho doutor”.

Poderão, mais à frente, após passados na “casca do alho” de uma larga experiência no “laboratório da vida” (o exercício diário da Medicina, principalmente junto a comunidades carentes), ingressar na arena política objetivando melhorar a vida dos menos favorecidos, aos quais acompanharam “pari passu”, diuturnamente.




sábado, 17 de novembro de 2018

MÉDICOS DE CUBA (Ricardo Gondim Freire)

“Mastigadinho” pra explicar para os que tem dificuldade e que não entendem o que é o socialismo: em Cuba, a medicina NÃO É uma profissão liberal. Não tem médico trabalhando por conta própria, não tem médico abrindo clínica, não tem médico em hospital particular. Todo hospital cubano é PÚBLICO, é DE GRAÇA, e TODOS os médicos cubanos são FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS.

Portanto, o Brasil não paga "salário" aos médicos cubanos. Não existe essa porra de "pagar salário integral" que o Bolsonaro diz. O Brasil paga uma MENSALIDADE à Organização Panamericana de Saúde, um órgão transnacional que media a permanência dos médicos cubanos aqui, pra que aqui eles sigam trabalhando. A OPAS recebe essa quantia do governo brasileiro, repassa para o Ministério da Saúde Pública de Cuba, do qual TODOS os médicos são funcionários, e daí uma parte desse monte vira imposto, e uma parte compõe o pagamento dos médicos.

"Ah mas são 11 mil reais e o médico ganha só 4". Claro, porque esta porra NÃO é salário deles. Desses 11 mil reais, a maior parte é imposto, que volta pra Cuba pra bancar inclusive UNIVERSIDADE, formação de mais estudantes de medicina. Lá ninguém paga mensalidade, não existe faculdade Estácio de Sá em Cuba!

O Bolsonaro não tava tentando melhorar nada pros médicos (até porque ele caga solenemente pra eles), ele estava tentando aplicar a lógica de trabalho capitalista a um funcionário de um governo socialista. Fazer os médicos cubanos abandonarem o país que os formou, alimentou, ensinou, tudo DE GRAÇA, e ao qual eles servem, em troca de trabalhar aqui como funcionário brasileiro. É óbvio que isso não ia dar certo, é óbvio que não seria aceito, nem pelo governo nem pelos profissionais, que continuam não sendo empregados do Brasil, mas do ministério da saúde CUBANO.

O percentual que fica com o governo é pra reinvestir na formação de novos médicos , e não pra “COMER GENTE”! Da pra entender?



terça-feira, 13 de novembro de 2018

RESSACA ELEITORAL - José Nilton Mariano Saraiva


O velho axioma nos ensina que a arrogância e a soberba não levam a lugar algum. Essa a principal lição que se poderia extrair ao final das eleições presidenciais recém-findas, com o chororô interminável e recorrente do senhor Ciro Gomes, pela terceira vez rejeitado pela maioria da população brasileira (obteve raquíticos 12,47% dos votos válidos, no primeiro turno, cerca de duas vezes e meia menos que o segundo colocado - 29,28%).

A propósito, não se deve olvidar que, lá atrás, muito lá atrás (conforme ele mesmo confirmou agora), fora convidado para figurar como vice na chapa que seria encabeçada pelo então líder das pesquisas, Lula da Silva, preso em Curitiba, mas recorrendo da sentença.

Mas, como já àquela altura era quase certo que a candidatura Lula da Silva seria inviabilizada pelo conluio imoral e desonesto do juiz Sérgio Moro, Supremo Tribunal Federal e alto comando das Forças Armadas (o próprio comandante do Exército confirmou agora que exerceu pressão sobre o Supremo Tribunal Federal para que não concedesse o habeas corpus a Lula da Silva), a tendência natural seria que Ciro Gomes assumisse a “cabeça-de-chapa”, contando com o apoio irrestrito de um “cabo eleitoral” do peso e porte de Lula da Silva (mamão com açúcar, faca na manteiga, mole mole).

Mas, aí falou mais alto a já conhecida arrogância e soberba de Ciro Gomes, ao imaginar que, como candidato de um partido de aluguel, PDT (como tantos outros pelos quais transitou) conseguiria fazer com que o PT abdicasse de seu passado  de luta e, por consequência, de  uma candidatura própria, para apoiá-lo, em nome de uma suposta “aliança das esquerdas”.

E aí, muito embora experiente e passado na casca-do-alho, Ciro Gomes literalmente pisou feio na bola. Afinal, o racional e lógico, naquela oportunidade, seria que subisse no “cavalo selado” que praticamente parou à sua porta pedindo pra ser montado e daí cavalgasse para o abraço (certamente teria feito cabelo, barba e bigode).

Como não o fez, o PT decidiu-se por Fernando Haddad, que com apenas ínfimos 20 dias de campanha (mas com o apoio de Lula da Silva) conseguiu passar tranquilamente para o segundo turno.

Assim, depois da mancada homérica, só restou a Ciro Gomes acenar para os políticos de quinta categoria do tal “centrão” e outros partidos pigmeus, que o renegaram, preferindo abraçar o insosso Alckmin (que também não ganhou nada com isso).

Fato é que, inexoravelmente derrotado (por erro de estratégia), Ciro Gomes praticamente ajudou, sim, a eleger Bolsonaro, ao se omitir no segundo turno e se mandar para férias na Europa, em plena efervescência do embate final.

Hoje, na ressaca da refrega eleitoral, matreiro e oportunista, e aproveitando o momento difícil da esquerda (como um todo), a “diversão-fúnebre” de Ciro Gomes é desancar do PT e de Lula da Silva, ao sugerir uma grande frente de esquerda já visando as eleições de 2022, evidentemente que com ele comandando e figurando como “cabeça-de-chapa”.

Proscrita desde já, uma possível candidatura do PT, por conta da repentina aversão do messiânico adepto do “bloco do eu sozinho” (Ciro Gomes). 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O QUE NOS ESPERA


QUI, 08/11/2018 - 23:59
ATUALIZADO EM 09/11/2018 - 06:55
 * Uma referência não muito sútil ao filme O Exército de Brancaleone
Talvez o exemplo histórico mais próximo seja o da Torre de Babel. São grupos de pessoas de várias procedências preparando-se para tomar o poder. Ou “O Rato que Ruge”, que conta a tomada de Nova York por um pequeno país, que tinha apenas a pretensão de ser derrotado para ser auxiliado, mas encontrou Nova York em blackout.
Só dentre os “olavetes” (discípulos do filósofo Olavo de Carvalho) há quase dez grupos independentes entre si, que mal se conhecem. Tem mais tendências que os trotskista dos anos 70.
Há os seguidores do padre Paulo Ricardo, reacionário de mão cheia, que juntou uma legião de padres para apoiar a campanha de Bolsonaro.  Há olavetes que detestam evangélicos e olavetes que detestam católicos. O segundo grupo segue evangelicamente os ensinamentos do mestre, que os proíbe criticar o Papa, mas os estimula a desancar a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). São os mais ideológicos, acreditam piamente no liberalismo amplo e irrestrito e no destino manifesto de Bolsonaro, de ser um Donald Trump tropical.
Aliás, para o grupo, é Deus no céu, Olavo na terra, e Trump no mundo. Deu um trabalhão para o general Heleno convencer o pessoal que não bastava pensar como Trump para agir como Trump: era necessário dispor de um exército como o dos EUA e uma economia como a norte-americana para invadir outroS países. E parem com essa bobagem de pensar em invadir a Venezuela!
Pararam.
Vão ser os primeiros a serem engolidos pela real polítik. No início tinham a ilusão de que, pelo fato de Olavo ter fornecido os três grandes motes da campanha – o kit gay, a Venezuela e a liberação das armas – ele seria o grande ideólogo de Bolsonaro. Mas o capitão está mais para os ecos de Olavo – tipo Lobão e Danilo Gentile – que para formulações mais complexas.
Há os youtubers, é claro. E uma profusão de deputados recém-eleitos sem a menor informação sobre o que significa o trabalho parlamentar. Ninguém conhece ninguém. Dia desses, em uma das reuniões dos grupos de trabalho, passou um senhor de terno e gravata e imediatamente vários recém-eleitos pediram que trouxesse água. Não era garçom, mas um deputado bolsonariano.
A única bandeira que os une é a do antipetismo e os gritos de guerra de manter Lula preso ou eliminado. Não há consenso nem mesmo no campo das ideias reacionárias. Por exemplo, como fazer com evangélicos que defendem aborto? Tem que tirar. Mas como?
O único grupo articulado é o dos militares da infraestrutura, comandados pelo general da reserva Oswaldo Ferreira, com a cabeça desenvolvimentista de Ernesto Geisel. Eles têm acesso direto e irrestrito a Bolsonaro e já se constituem em um facho de racionalidade em meio ao caos.
Se fortalecerão mais ainda depois que caiu a ficha de Bolsonaro – e da legião estrangeira que o cerca - sobre o enorme erro de entregar o Ministério da Justiça de porteira fechada para o juiz Sérgio Moro. Especialmente depois que seu modelo, Donald Trump, demitiu sumariamente o Procurador Geral de Justiça, por não concordar com suas ações. Bolsonaro criou um Ministro indemissivel. O que acontecerá quando ele quiser colocar na cadeia algum aliado estratégico de Bolsonaro? Bolsonaro colocou no cargo mais estratégico do governo um Ministro indemissível. E houve quem saudasse o convite como um lance de genialidade de Bolsonaro.
O exemplo de Trump, desde o início atacado pela justiça e pela mídia, consolidou em algumas alas de olavetes a crítica à Lava Jato e ao partido da justiça.
Muitas das batatadas, Bolsonaro deve aos seus gurus internéticos. Já as correções nas declarações estapafúrdias, os fachos de racionalidade – como voltar atrás na questão do Mercosul, do Meio Ambiente ou da embaixada em Jerusalém – são atribuídas aos conselhos dos militares.
Dia desses, no entanto, houve a maior saia justa. O general Oswaldo fez uma longa explanação sobre a necessidade de investimentos nos diversos modais, o ferroviário, o rodoviário, o portuário, o fluvial. Quando ousou dizer o óbvio – nos locais em que não houver investimento privado, será necessário aportar investimento público – foi apartado pelo príncipe Luiz Phillippe de Orleans e Bragança, que teve um chilique, acusando-o de estar sendo influenciado por ideias comunistas.
Partiu dos militares a sugestão de criar uma Casa Civil da Infraestrutura, sob o comando do general Oswaldo, diretamente ligada à Presidência, para coordenar os Ministérios dos Transportes, Minas e Energia e Telecomunicações.
Um ponto de convergência geral, aliás, é a constatação de que o astronauta Marcos Cesar Pontes – nomeado Ministro da Ciência e Tecnologia – é alienígena que vive no mundo da lua. No início, impressionou pelo domínio do inglês. Depois, caiu a ficha que o inglês servia apenas para o astronauta dizer tolices em duas línguas.
Outra decepção foi com o superministro da Economia Paulo Guedes.
No início, os olavetes, os militares, os youtubers, todos apostavam na genialidade de Guedes. Agora,  passaram a vê-lo como um trapalhão. Primeiro, quando foi afrontar o presidente do Senado, Eunício de Oliveira, demonstrando ignorância em relação ao be-a-bá do orçamento: o orçamento de um ano é aprovado no ano anterior. Ou seja, o primeiro orçamento de Bolsonaro depende da atual composição do Congresso. Por isso não é de bom alvitre afrontar o presidente do Senado.
Depois, quando falou que o Banco do Brasil seria comprado pelo Bank foi America. Guedes não tinha a menor ideia de que um dos aliados mais influentes de apoio a Bolsonaro, o pessoal que garantiu o financiamento privado de campanha por todo o país  – o agronegócio – não vive sem o Banco do Brasil.
Depois que Guedes passou a se desdizer tanto quanto o capitão, as diversas alas bolsonarianas desiludiram-se. Os olavetes deram-se conta da terrível realidade de que o capitão não é  muito letrado nem intuitivo. Não é um um ideológico racional, formulador. Foram, então,  atrás da mediação dos filhos, até cair na real de que os filhos só sabiam mesmo detonar aliados pelo Twitter. Foi o que ocorreu com o infeliz que se apresentou como marqueteiro de Bolsonaro, foi desmentido pelo filho, demitido da equipe de transição e, como bom marqueteiro, anunciou que deixava a equipe para se dedicar a trabalhos voluntários na equipe que o dispensou.
Balaços pelo Twitter é o de menos. Internamente, há uma guerra de dossiês. Basta alguém sugerir um nome para o governo para meia hora depois aparecer um dossiê contra o candidato, em geral apresentando pelo vice-presidente, general Mourão.
Foi um dossiê que derrubou a candidatura a vice do príncipe de Orleans e Bragança, um sujeito ultraconservador, mas de pensamento articulado – que fez a cabeça de Bolsonaro com a brilhante constatação de que o início do fim do país foi a Constituição de 1988. Ah, e o golpe da Proclamação da República.
A candidatura do príncipe soçobrou devido a questões pessoais menores que, em nenhum outro ambiente, seriam motivo para vetos. O que menos pesou foi o fato de, na juventude, ele ter sido skinhead.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O "BLOCO DO EU SOZINHO" - José Nilton Mariano Saraiva


 Já que não obteve os votos necessários para a batalha final, se realmente tivesse mesmo um mínimo de apreço pela democracia, e ante a ameaça real desta sucumbir ante um ultradireitista, Ciro Gomes deveria ter posto em prática seu recorrente discurso contra  o perigo da ascensão do “fascismo” por essas bandas, dando apoio àquele que se habilitou para ser o “anti” (Fernando Haddad). Isso seria o natural, o lógico, o racional, o óbvio.

Só que, com Ciro Gomes, a coisa não funciona bem assim, certamente devido à longa convivência com o seu padrinho político Tasso Jereissati (a quem espetacularmente findou traindo).  E por uma razão simplória: como bom aluno que é, a “criatura” findou por assimilar pari-passu o modus operandi do “criador”, em termos de arrogância, prepotência e autocracia coronelística.

Para comprovar, basta uma rápida olhadela para o seu extenso “prontuário-político”, onde constata-se ter aderido a incríveis sete (07) agremiações partidárias em seus 36 anos na política: PDS, PMDB, PSDB, PPS, PSB, PROS e PDT, algumas das quais sem qualquer identidade ideológico-programática com a outra (ou seja, por pura conveniência pessoal).

E que delas se desligava em razão dos seus dirigentes não permitirem que “tomasse de conta” da agremiação (à época, houve discussões com os Novaes, aqui de Fortaleza, com Roberto Freire e com o falecido Eduardo Campos, de Pernambuco). Já com relação ao PROS, por exemplo, circulam notícias que teria pago R$ 4,0 milhões para se apossar do partido.

Frio e calculista, ao aproximar-se de Lula da Silva já objetivava obter seu apoio para uma possível candidatura à Presidência da República, mais à frente, mesmo sem integrar os quadros do PT.

Como, após reeleito, Lula da Silva frustrou seu desejo ao optar por Dilma Rousseff à sua sucessão, arranjou espaço em horário nobre nos principais noticiosos de diversos canais televisivos e tratou de desancar da candidata petista, mesmo que para tanto tenha tido que tecer loas ao adversário e arquirrival José Serra (à época, a entrega da “coordenação de campanha” de Dilma, no Nordeste, foi o bastante para acalmá-lo).

Em partidos de aluguel, concorreu em duas oportunidades à Presidência da República, tendo como “vice” figuras às quais não guardava identidade, mas que lhes eram convenientes eleitoralmente: Roberto Freire e o tal Paulinho da Força, mas ainda assim nunca conseguiu ter votos suficientes para sequer passar para o segundo turno.

Agora, na eleição recém-finda, foi convidado a concorrer como vice na chapa de Lula da Silva, mas a prepotência e arrogância falaram mais alto, já que só aceitaria entrar na disputa na condição de “cabeça-de-chapa” (ou seja, Lula da Silva e o PT deveriam se submeter aos seus caprichos e vontades, olvidando todo um passado de luta). Se tivesse tido a humildade de aceitar, com o impedimento de Lula teria ocupado o lugar que acabou sendo entregue a Fernando Haddad e, enfim, poderia ter chegado lá.

Como fracassou mais uma vez, foi lamber suas feridas fora do país, durante o segundo turno da eleição, negando-se a combater o candidato fascista e, potencialmente, ajudando-o a eleger-se, ao soprar no ouvido do irmão ventríloquo todo o ódio e frustração que dele se apossou e que foi verbalizado em reunião do próprio PT (depoimento que foi usado à vontade pelo  candidato fascista, a partir de então).

Hoje, em sua própria “página oficial” no facebook  (https://www.facebook.com/cirogomesoficial), centenas e centenas de pessoas o rotulam de traidor, frouxo e covarde, e de ter contribuído decisivamente para a eleição do candidato-fascista (em sua página oficial, repita-se).

Em troca, Ciro Gomes responsabiliza o PT e Lula da Silva pelo desastre da ascensão do fascismo no Brasil, e já dá a entender que só participará de uma grande frente democrática em 2022 se o colocarem como “cabeça-de-chapa” e, claro, com o PT fora.

Se não, continuará messianicamente a desfilar no “bloco do eu sozinho”.