por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O sapoti do padre Lauro


Era um beco estreito, angustiado entre muros de casas que se estendiam, ao comprido : poucas portas ousavam desembocar naquela curta vielazinha, sem jardins, sem quintais visíveis, sem pomares alcançáveis. Mera e exígua ponte a unir, meio a contra gosto, a exuberância da Praça da Sé , à voluptuosidade pouco sinuosa da Rua das Laranjeiras. À noite, então, o opressivo e cúmplice aconchego do beco – sem olhos perscrutadores de portas e janelas --- como que convidava os casais para os afetos proibidos, os encontros escusos e outras necessidades igualmente incontroláveis e prementes. Ainda sem energia elétrica , o beco era quase uma contravenção arquitetônica, uma fuga à cansativa linearidade geométrica das avenidas vizinhas, um portal de acesso a outras dimensões e outras realidades. Uma quebra àquela fina e eternamente cultivada hipocrisia estampada na sociedade que desfilava imperial na praça, orava sem convicção na Igreja da Sé e se deliciava nas comerciais ruas que oprimiam o bequinho de todos os lados. Muro contra muro , tijolo em vis-à-vis a tijolo e cal, calçadas estreitas e calçamento irregular, o beco não tinha maiores atrativos: aprestava-se o passo rápido para, como num canal de parto, fugir do angustiante trajeto. A insípida paisagem, o desértico e insulso percurso, no entanto, quebrava-se tragicamente, quando já se divisava a Rua das Laranjeiras. Ali, na lateral do casarão do Padre Lauro Pita, um sapotizeiro frondoso varava impetuosamente a altura do muro e da casa e esparramava seus galhos por sobre o beco, como um pinto fendendo a casca do ovo, em busca de luz.

O verde permanente das folhas imprimia uma cor especial à mesmice repetitiva da aquarela do beco, dividida entre o branco da cal dos muros e o cinza dos paralelepípedos. Em tempos de safra do sapoti, então, o beco se transformava. Os pássaros entoavam loas à delícia dos frutos gigantes e dulcíssimos. Os morcegos à noite empreendiam vôos rasantes em torno dos galhos, como uma esquadria da fumaça em dia de festa. E embaixo, a algazarra dos meninos das ruas próximas, de água na boca, esperando, pacientemente, a queda dos frutos mais maduros, tentando alcançá-los ainda no ar, antes que a gravidade os fizesse, num som surdo e grave, se espedaçarem no chão. Na janela , o padre ainda resmungava : um pouco pelo bulício das crianças, um tanto pelo desconforto de perceber que a árvore plantada no quintal terminasse por dar frutos no pomar alheio.

Hoje os meninos cresceram, o beco iluminado já não é mais o mesmo: perdeu seus mistérios e seus fantasmas. O casarão e o sapotizeiro foram mastigados pelos dentes inexoráveis dos minutos e das horas. E o padre silente, já não resmunga. Mas mesmo assim, os meninos, espalhados pelo mundo, enfrentando a cruciante travessia de outros becos, ainda param e olham para cima esperando a queda possível, mas incerta do sapoti . Sabem que ele pende agora de outras árvores , mas ainda mantém o inesquecível sabor daquele fruto da infância e que precisa ser pego antes que a gravidade da vida o faça se esparramar, inutilmente, na calçada estreita .


J. Flávio Vieira

GeOmEtRiA



  ANTES DE EUCLIDES
QUANDO O CÁLCULO ERA UMA PEDRA
O ESQUADRO ERA UMA FORQUILHA
O CIRCULO ERA UM QUADRADO DESGASTADO
 E O QUADRADO ERA UM CIRCULO ACHATADO

Eulisses do Crato
....

"QUANDO DUAS COISAS SÃO IGUAIS A UMA TERCEIRA
É PORQUE AS TRÊS SÃO IGUAIS"
Euclides de Alexandria (360 a.C - 295 a.C.)

Olvidei os advinhos
a eles não dou ouvidos.
Mundo novo há de vir
Há os que crêem no porvir
E na Lei dos merecidos...

Eu, porém, vivo sem pressa
O labor do dia certo
Vejo o fim, no que começa
Sinto que um dia desperto

Vejo o pó que cobre a estrada,
O vento que nela passa,
Apaga minha passada.

Uma fruta sob o sol,
Amadurece o meu dia.

Uma vela empurra o Mar...

Quem conjuga o verbo Amar?


(se soubesse, lhe diria).

A gente leva dessa vida... a vida que se leva” Marta Medeiros

A gente leva dessa vida... a vida que se leva” 
Vende-se Tudo – texto de Martha Medeiros
No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos. O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:
- Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.
Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.
Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante. Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas.
Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu. No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.
Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material.
Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo.
Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar. Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida.
Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile.
Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio. Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.
Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde.
Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza:
"só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir,"é melhor refletir e começar a trabalhar o DESAPEGO JÁ!
Não são as coisas que possuímos ou compramos que representam riqueza, plenitudee felicidade.
São os momentos especiais que não tem preço, as pessoas que estão próximas da gente e que nos amam, a saúde, os amigos que escolhemos, a nossa paz de espírito.
Felicidade não é o destino e sim a viagem.

De ângela Lôbo para Zé Flávio

Para ele, os versos de Cecília Meireles:

"Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo."

Felicidade sempre!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Desnorteio - Por Socorro Moreira







Tempo passando em tela
Com nuances nunca vistas
Esse giro que me traz de volta
Fundo musical inesquecível
Presenças novas e antigas

Chegaram com as chuvas
Corrente frio na barriga
Fiquei sem prumo pra colher os versos
Na terra , bandeja , cachos de emoções
Oferecidas

A vida é milagre
Sem mágicas
Sons soltos no éter
Unem-se em falas
Escrevo complexos de vida
Nova canção
Olhar maduro sobre o já vivido
Olhar infantil
No presente, arrisco...
Umas esperanças sem esperas
No porvir, se ligam

Éramos loucos
Salgados de mar
Bocas molhadas de desejo
Mesmo assim
Deixávamos passar
O carro, o comboio,
E o mês de dezembro.

Segurei convites descentes
A indecência estava na recusa
Na vitalidade de abraçar
Sonhos impossíveis

Imantados
Sinto a flecha , destino ferido
Enfim, Eros voltou...
De asas curadas
Sem Psique, sem Afrodite

15 de dezembro: dia de Miguel Arraes



A carreira política de Miguel
Arraes começou em 1948

Cearense que fez carreira política em Pernambuco, Miguel Arraes de Alencar foi um dos maiores expoentes da esquerda brasileira. Formado em direito, Miguel Arraes foi deputado estadual, federal e governador de Pernambuco por três vezes. Em seu primeiro mandato como governador, foi deposto pelos militares e teve de se exilar na Argélia em 1965, de onde somente retornou para o Brasil 14 anos depois, beneficiado pela Lei da Anistia.

A sua carreira política começou em 1948, quando foi nomeado secretário da Fazenda de Pernambuco pelo então governador Barbosa Lima Sobrinho. Dois anos depois, foi eleito deputado estadual suplente pelo PSB (Partido Social Democrático) e, em 1950, tomou posse na Prefeitura de Recife, após vencer as eleições municipais.

Em 1961, um ano antes de vencer o governo estadual pela primeira vez, Miguel Arraes ficou viúvo de Célia de Souza Leão, sua primeira mulher, com quem teve oito filhos. No dia 7 de outubro de 62, já um político muito popular em todo o Brasil, foi eleito governador de Pernambuco. No mesmo ano, casou-se com Maria Madalena Fiúza, com quem teve dois filhos.

Mitificado em praticamente todo o interior de Pernambuco, onde sempre foi considerado defensor intransigente dos pobres, Miguel Arraes foi deposto no dia 1º de abril de 1964, após anunciar publicamente que não renunciaria ao cargo de governador. Preso, foi levado para a ilha de Fernando de Noronha, onde permaneceu quase um ano, antes do exílio.

No dia 15 de setembro de 1979, aconteceu o retorno triunfal de Miguel Arraes ao Brasil. Ao desembarcar em Recife, foi carregado por uma multidão pelas principais ruas da capital pernambucana. Em 1982, foi eleito deputado federal pelo PMDB pernambucano e apoiou o ex-senador Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. No ano seguinte, pela segunda vez, Arraes venceu as eleições para o governo pernambucano, derrotando José Múcio Monteiro. Em 94, retornou ao poder pela terceira vez, ganhando a eleição de Gustavo Krause, que à época era do PFL, assim como José Múcio Monteiro.

Ao tentar a reeleição em 98, Miguel Arraes foi derrotado por Jarbas Vasconcelos, que era do PMDB, seu ex-aliado. Antes, em 1990, deixou o PMDB e filiou-se ao PSB (Partido Socialista Brasileiro). Em 2002, o ex-governador disputou pela última vez um cargo público e se elegeu deputado federal por Pernambuco. Quando morreu, no dia 13 de agosto de 2005, de infecção generalizada, Miguel Arraes era presidente nacional do PSB. O parlamentar ficou internado durante 57 dias na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Esperança. O seu velório, realizado no Palácio das Princesas, sede do governo de Pernambuco, reuniu políticos de todas as tendências. Entre eles, estava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Fumante por 72 anos, Miguel Arraes foi hospitalizado no dia 17 de julho de 2005, inicialmente com suspeita de dengue. No hospital, o ex-governador apresentou problemas cardíacos e renais e foi submetido a uma traqueoscopia e duas cirurgias para conter hemorragias no duodeno e no pulmão esquerdo. Submetido a vários tratamentos, não resistiu e morreu no dia 13 de agosto de 2005, sendo enterrado em Recife.

wikipédia

O Brasil não esquece um político sério. O Brasil sente falta de Miguel Arraes !


Compromisso com o desconhecido - por Socorro Moreira


Essa liberdade

da qual não abro mão

Me depara contigo

sempre que me afasto.


Essa alma que nunca foi tua

É vadia, mas vive cega

tateando a tua ...


Lágrimas não vertidas

Ficam invertidas no fundo do nada

Fertilizam canteiros

em qualquer das praças

- Flores que alimentam formigas ...

Nos olhos do meu canto.


O perdão ,se foi feito pra gente pedir ,

nunca aprendi ...

Leio em todas as placas do invisível...

Que o amor resiste !


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Hoje foi um dia

De rosas e velas
De rezas e prosas.
Senti-me orfã
Senti-me viva.

A compreensão da vida está para a morte

Assim como

A compreensão do amor está para a vida.

Agora , nesse quase fim do dia ,

nem choro nem vela ...

Apenas uma tristeza amarga

com relação à morte que me espera.

Morrer é perder a consciência humana,

e ganhar a consciência eterna ?

Morrer é viver a inconsciência !

É ficar em tudo e

em todos pontos do universo.

Um foco maior nos atrairá

Um foco menor mantém a esperança

de reencontro e iluminação ...

"Os pecadores" permanecem em trânsito !

socorro moreira


Ele é mil  pra infinitos.
Médico, escritor, amante das artes e amigo dos artistas; inteligência aguçada nos faz  viajar por cidades reais com personagens lendários x cidades imaginárias com personagens reais.
È um Esopo moderno, um filósofo com dose de humor finíssimo, um crítico humanizado, um poeta da maior qualidade. Ele é Zé Flávio!
Semana que precede  o seu aniversário,  já festejo, acendendo todas as lâmpadas da amizade, do carinho e agradecimento.

-Zé Flávio nos enche de vida!

PIFE-PAFE...



O meu pife é um aboio
Pra chamar os passarinhos
Ele serve como apoio
Pra consolar os bichinhos
E assim eu me consolo
Criando meu próprio solo
Sem perturbar os vizinhos
 
Ulisses (Crato-CE.)


E o PSDB não era o guardião da moralidade ?

TRE de Roraima cassa mandato do governador e de vice

Do UOL Notícias, em São Paulo

  • José de Anchieta Júnior, governador de Roraima

    José de Anchieta Júnior, governador de Roraima

O TRE de Roraima cassou, por maioria, os mandatos do governador Anchieta Junior (PSDB) e seu vice, Chico Rodrigues por arrecadação ou gastos ilícitos de campanha. O julgamento encerrou em torno das 19h30 desta terça-feira (13).

A decisão será publicada nesta quinta-feira (15) no Diário da Justiça Eletrônico. Após a publicação, inicia-se o prazo de três dias para interposição de recursos. O Tribunal decidiu ainda que o governador e seu vice permanecem no cargo até o julgamento de eventuais recursos.

O MPE (Ministério Público Eleitoral) alega que os representados efetuaram gastos ilícitos e adquiriram 45 mil camisetas amarelas no valor de R$ 247.500, cujo objetivo era a distribuição aos eleitores de Roraima.

O ministério acusa ainda os políticos de terem efetuado movimentação financeira ilícita com despesas com pessoal no valor de R$ 5.521.455 e pagamento de colaboradores, em espécie, em desacordo com a legislação eleitoral.

A última acusação refere-se a utilização da empresa de transporte de valores Transvig para movimentação de R$ 800 mil que não foram recolhidos diretamente ao Banco do Brasil, mas ao Comitê do PSDB.

O OUTONO NA MINHA VIDA- Rosa Guerrera



Sempre gostei de viver e saborear de corpo e alma as estações da vida . Foi bom e positivo ter sabido colher flores primaverís , plantar rosas ,vivenciar amores, alimentar com todas as forças do meu Eu os momentos que os verdes anos espalharam nos mais diversos caminhos que trilhei.
Mas...pouco a pouco quase sem que eu pressentisse o calor do verão se aproximou com nuances mais coloridas e apaixonantes e eu comecei a rever os verdes sonhos como imágens apagadas onde raramente usei a razão .
E passos mais maduros foram me conduzindo a um caminhar mais prudência e sensatez.
E nessa nova etapa de vida aprendi a analisar melhor, sentir melhor , ser mais reservada , saber esperar a época da colheita e muitas vezes até me preocupei com a chegada do outono, ou com a chamada estação das rugas e dos cabelos brancos .
Mas inexoravelmente um dia ela chegou! ...
E hoje deitada nessa paisagem de outono que a vida me presenteou eu observo como cresceu o meu aprendizado e como é imensa a liberdade que possuo, sem mais grilhões ou restrições aos meus passos.
E olhando para trás vejo o quanto mudei!
O encantamento das outras estações foi na verdade apenas um pequeno exercício e uma preparação para uma maturidade sem mais portas abertas ás fantasias.
E é nessa estação outono que agora vivo , que sei existir muito mais garra dentro de mim, muito mais alicerce nos meus sonhos e menos pressa para sonhar ,porque tudo que ambiciono hoje eu o faço consciente , sem ultrapassar meu potencial , isenta de falsas e imaginárias expectativas , mas direcionada para aquele “ todo um sempre”.
E tudo ao meu redor se reveste agora de eterno , mesmo que dure apenas uma gota d’água , mas vivido com tamanha força que eu não temo mais a aproximação do inverno nem a destruição do amanhã ..
Nada é mais capaz de me abalar ! Já não temo a indiferença, o egoísmo , a decepção , os que me rejeitam , me ferem , me excluem ou tentam abalar minhas convicções.
Essa é a passagem do outono na minha vida .
A idade da liberdade de escolha, dos acertos, das novas qualidades , das verdadeiras descobertas , sem dúvidas, sem interrogações ...mas com a certeza de conquistas verdadeiras ...onde a mente não acompanha o envelhecimento do corpo ,mas aprimora cada vez mais o companheirismo entre a razão e o coração.

Tarde no Recife - Joaquim Cardozo



Tarde no Recife.
Da ponta Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Máxime.
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um carreto gritando — alerta!
Algazarra, Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem
[dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas
[do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.

Boas Festas de Assis Valente - José do Vale Pinheiro Feitosa


Existe algo mais esperançoso do que uma festa que comemora o nascimento? Provavelmente existam de mais alegria, mais explosão de sentimentos. Mas a festa do nascimento é a festa da permanência, da renovação, do futuro.

De qualquer modo é uma festa para cima. Não sei por qual motivo festas para cima, e por isso mesmo têm músicas específicas delas, costumam trazer certo clima imerso no geral de uma nostalgia até mesmo de certa tristeza.

Existem marcinhas de carnaval que são verdadeiro adeus, mais comemoram a quarta feira de cinzas do que a evolução momesca. Um dos aspectos mais incidentes nestas marcinhas era a fugacidade do encontro, aquele amor de dia de carnaval e que depois sumia no ruído da galeria.

As músicas de Natal, além de comemorativas, são inerentemente melancólicas. Evocam passado remoto, um mundo que já não existe mais. Mesmo que o objeto revele em os presentes, há um bucolismo de desamparo, naqueles telhados cobertos de neve e a chaminé isolada na noite fria, a pulsar a fumaça da solidão humana.

De todas as músicas de natal a que mais me toca em nostalgia é a Boas Festas de Assis Valente. E isso foi um sentimento que nasceu da música mesmo, nada teve com a história do fim trágico desse grande compositor de Senhor do Bonfim na Bahia.

Boas Festas, cantado na voz de Carlos Galhardo, mas o Orlando Silva a gravou, além de inúmeros outros cantores, inclusive uma bela e moderna interpretação de Maria Bethânia. Na voz de Carlos Gargalho a música se espalhava pelas rádios do Crato nos desvãos da minha querida Batateira.

Longe da cidade, mas perto da vida. A música tem um peso do irrealizado, da impossível felicidade que não veio pelas mãos de Papai Noel.

Depois quando num momento especial da família, Maria Gisélia Pinheiro Feitosa já não andava pela calçada da frente da casa, esta música virou uma dor maior que sua nostalgia.

Mas não resta dúvida que a tristeza já estava nesta canção antes mesmo deste vazio de mãe.

Meu unicórnio azul sobre o brilho de uma música de Silvio Rodriguez - José do Vale Pinheiro Feitosa





Ligue o som e leia o texto.


Se de perdidos falasse,
Embarcaria todo um porto,
Uma floresta em fumaça,
Toda colheita da temporada,
Escaparia-me.

Se de achados contasse,
Uma monção d´água desabaria,
O Simum em tempestade de pó,
Toda a nevasca na encosta,
Soterraria-me.

Minhas perdas,
Meus achados,
Meus valores,
Minhas posses,
Meu eu.

Nem pessoa,
Nem objeto,
Achados e perdidos,
Uma portinhola identificada:
Serviços públicos.

Aperto um botão,
Fiat lux,
Revolto a torneira,
Aqua vasis,
Afago meu peito,
Achados e perdidos.

Quatro câmaras,
Duas válvulas,
Na ponta pesco,
Meus achados e perdidos,
Um cor azul.

Um coração de anil.
Postado por José do Vale Pinheiro Feitosa às 22:43 1 comentários
Boas Festas de Assis Valente - José do Vale Pinheiro Feitosa
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Me gustas cuando callas - Pablo Neruda




Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

ESPÍRITO NATALINO - por Ulisses Germano



UMA QUINTA

SE EXISTE ALGO MAIOR
QUE A TAL FELICIDADE 
EU DESEJO PRA VOCÊ
O MELHOR DA LEALDADE
É SER FIEL SEM SABER

UMA QUADRA

OS AMIGOS QUE SÃO POUCOS
PARA MIM É MULTIDÃO
OS SÁBIOS TAMBÉM SÃO LOUCOS
POR EXESSO DE PAIXÃO

UMA TERÇA

VEJA SÓ COMO É QUE É
NO NATAL TODAS AS ARMAS
VÃO BATER O CATOLÉ

UMA DUAS

CONHECI UM DITO CUJO
CUJO NOME ERA NINGUÉM


UMA UMA

O SILÊNCIO TAMBÉM TOCA


Ulisses Germano
Crato-CE.




Por Rosa Guerrera



Hoje lembrei a Bahia
num lembrar morno, gostoso...
Num lembrar que em versos ouso
um poema lhe cantar.

Cantar o céu e o mar,
as ladeiras, as Igrejas,
o Pelourinho, as pelejas
dos que morreram a lutar. .

Essa Bahia que canta
também seu canto ao turista
e num abraço convida
o visitante a sonhar!
Cidade do Elevador,
dos museus,da capoeira,
de baianas bem faceiras...
nas noites lindas, o luar !

O Bonfim de mil milagres,
o Mercado, as barracas,
as velas brancas deitadas
cochilando a beira mar!

Lembrei dentro da saudade
as velhas negras baianas
que a terra se ufana
do acarajé a cheirar...

Ah Bahia hoje te penso
num sonho mais realidade...
Salvador vem no meu peito
transformado em saudade!
Saudade que lá ficou
numa praia ou numa esquina,
numa ladeira,na Sé ,
talvez numa noite fria,
Quem sabe num tabuleiro da preta Joana ou Maria ...
O certo é que é saudade
De Salvador ... da Bahia !


( Com um abraço da Rosa )

Por José do Vale Pinheiro Feitosa


Se aqui dissesse da grande saudade que tenho da paisagem do sítio em que nasci. Sua vida arcaica, suas histórias que pareciam uma ampulheta: o tempo corre, mas vejo simultaneamente o gargalo por onde ele escorre, o monte de seu passado se formando e o futuro acima ao curso do presente.

Ampulheta é o instrumento por excelências desta filosofia que perdura, mantém-se como uma saudade imensa daquele Crato que tão vivo me sufoca o respirar. A ampulheta que nega todas as categorias desta banalidade moderna, fugaz, que parece esquecer numa dormência de velhice a ameaçar-lhes a juventude. A ampulheta é algo impressionante. Basta que se inverta sua base para que imediatamente o passado acumulado se torne o futuro escorrendo para o presente a formar o passado.

Se aqui dissesse da grande saudade que tenho do Sítio Batateira e da cidade do Crato o quê pensariam do natal? Desta festa do alvorecer? Dos dias até que se conte o ano novo? Desta renovação que liga o presente ao futuro? Saudade não rima com natal, mas a minha é mesmo desta cidade, não apenas da idade, mas de toda a festividade que é milenar e se traduz na mesma (como é da natureza da saudade) eternidade de um menino que se diz Deus.

SIVUCA


Severino Dias de Oliveira, mais conhecido como Sivuca, (Itabaiana, 26 de maio de 1930 — João Pessoa, 14 de dezembro de 2006) foi um dos maiores artistas do Nordeste do Brasil do século XX, responsável por revelar a amplitude e a diversidade da sanfona nordestina no cenário mundial da música. Exímio executante da sanfona, multi-instrumentista, maestro, arranjador, compositor, orquestrador e cantor.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"A Privataria Tucana" - Vídeo

Vale a pena conferir !!!




Dezembros...-Por Socorro Moreira




O passado é repassado
Revivo fora de cena
Sensações na lembrança...
Sem a dor do esquecimento!

O presente é vazio
Conta, reconta, apaga, cria!

O amor é doedeiro?
-Um bem sem cura
Se findasse, se eternizaria!

Amor sem explicação?
Claro que elas existem
Reunidas numa só verdade:
Somos humanos!
Tolamente apaixonados pela vida...
Aquela vivida e
Aquele porvir...
Com mistérios!

Gosto dos dezembros
Aqueles com meus pais e irmãos pequenos
Aqueles com avós, tios e primos
_ hoje, todos longe do Nós!

Gosto deste dezembro
Com filhos, netas, e tantos amigos
Gosto de Dona Almina
Alminha linda
Tão nossa, tão minha!

Gosto de esperar o sono
Rascunhando o que não penso...
Apenas sinto!

Pereço neste dilema:
Durmo junto de um poema ou
Acordo poesia?


Na Rádio Azul , uma música linda, e quase esquecida...

Sonho E Saudade
Tito Madi

Tantos sonhos eu tive
E eu sonhei com você
Foram sonhos tão tristes
Que eu sonhei com você
A saudade povoa os meus sonhos
Sofre o meu coração
A tristeza me surge nas noites
Tudo é solidão
Mas na realidade
Você também é assim
Vive eterna saudade
Dá desgostos pra mim
E então, eu pergunto porque´
Sem motivo e razão, a sofrer
Este meu coração
Gosta tanto de você
Gosta tanto de você
Tanto, tanto de você

"A Privataria Tucana" - José Nilton Mariano Saraiva

Só pra “abrir o apetite”, um breve e “inocente” trecho do livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior (baseado em documentos de conhecimento da Justiça), já esgotado em todas as livrarias (sugerimos, a quem se interessar, solicitar à Editora FNAC – www.fnac.com.br). Como se poderá observar, o PIG (partido da imprensa golpista), “lavou a burra” (e ainda tem alguns coitados – ou seriam ignorantes - que ignoram tamanho assalto).
Convém atentar, ainda, que num outro trecho temos o depoimento sobre a “participação cearense” (família Jereissati), corrompendo com dinheiro grosso, além, é claro, de FHC, Serra e sua filhota querida, Mendonça de Barros e por aí vai.
*******************
Trecho do livro:
“Mas por que a mídia defendia – e continua defendendo – tanto a privataria tucana? Simples, porque enquanto publicava editoriais aos quais FHC e Mendonção se referiram naquelas gravações, tratava de fazer bons negócios com o que estava sendo vendido a preço de banana.
Veja a seguir, leitor, cada negócio que esses barões da mídia tão zelosos com o dinheiro público fizeram na época da privataria tucana enquanto a defendiam sem informar aos seus leitores que tinham interesse direto no que estava sendo doado pelo governo ao setor privado.
A família Mesquita, do Estadão, saiu do processo de privatização como sócia da empresa de telefonia celular BCP (atualmente, Claro) na região Metropolina de São Paulo. O Grupo OESP (Estadão) ficou com 6% do consórcio, o Banco Safra com 44%, a Bell South (EUA) com 44% e o grupo Splice com 6%.
Já a família Frias, dona da Folha de São Paulo, aproveitou a liquidação da privataria para adquirir opção de compra de 5% do consórcio Avantel Comunicações – Air Touch (EUA) 25% e grupo Stelar mais 25% -, que ficou com 50% da telefonia paulistana, tendo a construtora Camargo Correa comprado mais 25% e o Unibanco os 25% restantes.
Finalmente, a família Marinho. Mergulhou fundo na Globopar, empresa de participações formada para adquirir parte da privataria, tendo comprado 40% do consórcio TT2, que disputava a telefonia celular nas áreas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, ficando o resto com a americana ATT, que comprou 37%, com o Bradesco, que comprou 20%, e com a italiana Stet, que se contentou com 3%.”

OS MAIORES BRIGÕES: entidades mais acionadas na Justiça


1 – INSS
2 – Caixa Econômica Federal
3 – Fazenda Nacional
4 – União
5 – Banco do Brasil S. A.
6 – Estado do Rio Grande do Sul
7 – Bradesco
8 – Itaú
9 – Brasil Telecom
10 – FINASA

O Conselho Nacional de Justiça divulga, desde março, a relação das entidades com maior quantidade de ações na justiça. Os campeões de reclamação são os listados acima, cabendo o primeiro lugar ao INSS. Entre os 100 maiores, 34 são Instituições financeiras. No item bancos, os maiorais são: CEF (2º), BB (5º), Bradesco (7º), Itaú (8º), FINASA (10º), Santander (13º), ABN Amro Real (14º), HSBC (16º), Nossa Caixa (18º) e Unibanco (19º).
Empresas de Saúde e Seguradoras também gostam de espertezas: a Itaú Seguros aparece em 37º lugar, a UNIMED em 41º e a Bradesco Vida e Previdência está em 64º lugar.
Por setor, o maior litigante é o Governo Federal, com 38% das ações. Colado a ele, empatado com outros 38%, estão os Bancos. Em terceiro lugar, bem abaixo dos líderes, está o setor de telefonia, com 8% das demandas judiciais.

CORDEL NATALINO - por Ulisses Germano


CORDEL NATALINO
(Ulisses Germano)
Dedicado a todos que acreditam na vida apesar de tudo!


Pra todo mundo do mundo
O amor há de reinar
A paz de um só segundo
Faz a vida melhorar
No Natal que se aproxima
Todos vão olhar pra cima
E ver o sonho reinar


Não importa a utopia
Bom mesmo é ter na lembrança
Que a tristeza e a alegria
Estão postas na balança
E que o caminho do meio
É seguir sem ter receio
De ter fé e esperança


A verdade absoluta
Quem a tem é mentiroso
Já que a vida é uma luta
Entre a calma e o alvoroço
O jeito é respirar fundo
E viver cada segundo
Como um ser vitorioso


Veja só o quanto é raro
Nascer como um ser humano!
Ter uma mente e um faro
Pra intuir sem ter engano
É no caminho da venta
Que a gente segue e inventa
A alegria do outro ano


Sendo assim, vou renovar
Desejando pra vocês
Que o amor entre no ar
perfumando cada mes
A casa do inquilino
Onde o espirito natalino
Será a bola da vez

Ulisses Germano 
Crato-CE.

Este Natal - Carlos Drumond de Andrade


Este Natal

Carlos Drummond de Andrade


— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.

E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.

(14-12-1966)


Texto extraído do livro "
Caminhos de João Brandão", José Olympio Editora


ADÉLIA PRADO
Clareira

Seria tão bom, como já foi,
as comadres se visitarem nos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
pitando e rapando a goela. Os meninos,
farejando e mijando com os cachorros.
Houve esta vida ou inventei?
Eu gosto de metafísica, só pra depois
pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
falar as falas certas: a de Lurdes casou,
a das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
as santas missões vêm aí, vigiai e orai
que a vida é breve.
Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
pra eu sobreviver. 


(Gosto de Adélia como gosto das minhas comadres e dos meus compadres, que me visitam e trocamos notícias, ouvimos música, vemos um filme... e depois partimos, cada um para sua vida inventada, vamos bordar nossas toalhas e esperar que anoiteça só pra olhar para as estrelas)

O arroz integral - Emerson Monteiro

Ninguém sabe o valor de um livro bom antes de começar a ler. Assim também acontece em relação aos alimentos. Ninguém sabe a riqueza e o prazer de um alimento sem antes conhecê-lo à mesa. O arroz integral se encaixa bem nesse conceito. Além do seu excepcional valor nutritivo, quando bem mastigado revelará sabor jamais previsto aos que desconhecem a importância das suas qualidades.

Na década de 70, em face de sérios problemas na saúde, estudei alimentação oriental, com ênfase na Macrobiótica Zen, dieta japonesa que se espalhara pelo mundo após a Segunda Guerra, trazida do Japão pelos ocidentais.


A Macrobiótica prioriza o arroz integral dentre os alimentos utilizados pelos seres humanos. Dotado de propriedades curativas, semelhante a outros cereais integrais, predomina à mesa dos orientais, sobretudo chineses, japoneses, vietnamitas, impondo formas e usos inclusive na medicina chinesa. Segundo a cultura tradicional desses povos, o arroz integral possui composição suficiente de alimentar o organismo durante meses seguidos, oferecendo base nutricional capaz de curar graves enfermidades, aumentando a imunidade e evitando males degenerativos.


De acordo com as informações dos estudiosos, quem utiliza esse produto diariamente se nutre de maneira mais saudável. Após analises de dados recolhidos entre 25 mil crianças e adultos, nos anos de 1999 a 2004, pesquisadores americanos consignaram que entre os apreciadores desse cereal não havia carência de nutrientes essenciais para o organismo, como ácido fólico, potássio e outras vitaminas do complexo B, segundo o site saúde.abril.com.br.


Além da oferta de bons resultados nutricionais, a utilização do arroz integral mantém o peso corporal enquanto reduzirá gradativamente gorduras abdominais acumuladas, isto sem consequências paralelas.

A diferença de arroz integral em face do arroz branco leva em conta a preservação da membrana externa que envolve seu conteúdo. A película que reveste o grão do arroz integral é rica em hidratos de carbono, óleos, proteínas, vitaminas: A, B1, B2, B6, B12, niacina, ácido nicótico, ácido pantatênico, provitaminas C, E, e minerais em grande quantidade. Quando é retirada a película, a grande maioria destes componentes/nutrientes se perde. (
http://pt.petitchef.com).

De tal modo possui o arroz integral riquezas e propriedades que as pessoas devem conhecer mais a seu respeito, visando sobremodo eficiência alimentar e uso aperfeiçoado de conceitos da cultura humana para resultados salutares eficientes.


Há duas, três décadas, só as lojas especializadas ofereciam o produto, quando agora em qualquer supermercado existe para compra.



"A dor do amor"- Mote da Ângela Lôbo



Se você não conhece a dor
E não deseja sofrer,
Amigo, não se permita
Experimentar o amor.
 
Ângela Lôbo




O amor que nos inebria
sacode,mexe e revitaliza,
prefiro viver esse sofrer
e sentir algo que me "alcooliza"

Liduína Belchior


Se pudesse escolher
eu nunca desistiria
amava sem sentir dor
vivia em pleno amor

socorro moreira


O amor dói, mas é bom,
e sofrer é prazeroso
dá pra nossa vida o tom
e o ritmo delicioso!


Bastinha Job

E o desafio continua ...


Chove sem parar
E eu procurando um cheiro de chuva que não há
O dia parece que não acorda
Fica enrolado noutro céu
As pessoas não chegam, nem saem
É assim no interior...
É assim num coração de aposentada

Sinto falta do sol
Quando a chuva vira cortina da minha janela

Que a nossa luz interior
Ilumine este dia de dezembro
- Único em nossas vidas!

socorro moreira

foto da internet





Explicação de Poesia Sem Ninguém Pedir

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

Adélia Prado



Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado


Por Adélia Prado


Moça na cama

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom
. Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no topor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

Os versos acima, publicados inicialmente no livro "O Coração Disparado", foram extraídos de "Adélia Prado - Poesia Reunida", Editora Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 175.


Adélia Prado




Adélia Luzia Prado Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935) é uma escritora brasileira. Os textos retratam o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características o estilo único.

Segundo Carlos Drummond de Andrade, "Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis". A escritora também é referência constante na obra de Rubem Alves.

Professora por formação, exerceu o magistério durante 24 anos, até que a carreira de escritora tornou-se a atividade central.

Em termos de literatura brasileira, o surgimento da escritora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa; por isso sendo considerada como a que encontrou um equilíbrio entre o feminino e o feminismo, movimento cujos conflitos não aparecem nos textos.