por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 27 de maio de 2013

  PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insetos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.


de “Paroles” (1945)

 JACQUES PRÉVERT (Neuilly-sur-Seine, 1900 - Omonville-la-Petite, 1977) foi, entre outros ofícios, poeta, argumentista de filmes, letrista de canções populares, tendo-se popularizado nestas duas artes ainda antes de ser conhecido como poeta. O seu primeiro livro de versos foi um sucesso de vendas e um fracasso de crítica, em 1945 "Paroles", foi criticado por ter uma linguagem direta e simples. Continuou como poeta sendo sucesso de público e fracasso para os  críticos, acusado de não ter sofisticação.

Poemas do livro "Poemas de Jacques Prévert", 2000, tradução de Silviano Santiago.

domingo, 26 de maio de 2013

Paredes da memória





 Encontrei, mexendo em velhos papéis, folhetos e cartazes de algumas das minhas primeiras participações em shows em São Paulo, nos anos 70. Trabalhar com Tom Zé e com o Papa Poluição: uma escola.

Sivuca

Severino Dias de Oliveira, mais conhecido como Sivuca, (Itabaiana, 26 de maio de 1930João Pessoa, 14 de dezembro de 2006) foi um dos maiores artistas do Nordeste do Brasil do século XX, responsável por revelar a amplitude e a diversidade da sanfona nordestina no cenário mundial da música. Exímio executante da sanfona, multi-instrumentista, maestro, arranjador, compositor, orquestrador e cantor.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

FHC - LOBO QUERENDO SE PASSAR POR OVELHA


Com a aproximação das eleições presidenciais de 2014, os partidos começam a promover seus arranjos e buscar argumentos na tentativa de chamar a atenção do eleitorado, o que é normal em qualquer democracia.  O eleitor, no entanto, deve ficar atento com possíveis armadilhas para não cair em “contos de vigário”. Vimos recentemente pela imprensa, preparativos de um partido político se organizando para lançar seu candidato ao palácio do Planalto no próximo ano.  Certamente confiando na pouca memória dos brasileiros e na falta de um discurso mais consistente, seus líderes tentam “ressuscitar” Fernando Henrique Cardoso depois de tê-lo escondido em todas as campanhas posteriores ao término do seu governo.  Na verdade, a administração de FHC, fora a condução do Plano Real e a Lei de responsabilidade fiscal, não deixou marcas, foi um verdadeiro desastre para o Brasil. Um índice representa bem o que foi a era FHC. Quando assumiu, em 1998, o Brasil era a 8ª  economia do mundo. Ao passar a faixa presidencial para Lula, em 2002, o país havia caído para o 13º lugar. Além deste indicador, outras comparações dão a medida do desastre:
Indicador                                            FHC – 2002                                         Lula – 2010
  1. PIB                                                        R$ 2.598 bilhões                              R$ 4.248 bi – preços de 2012% PIB
  2. em cada governo               19,2%                                                   37,1%
  3. Taxa de juros                   24,90%                                                10,90%
  4. Inflação (IPCA)                12,53%                                                5,90%
  5. Salário Mínimo                     R$ 200,00                                            R$ 510,00
  6. Empregos criados      5.016.672                                            14.725.039
  7. Reservas Internacionais         US$ 35 bilhões                                 US$ 289 bilhões
  8. Taxa de desemprego    12,9%                                                   4,7%
A tônica do discurso tucano é o fortalecimento da economia brasileira durante sua gestão. Os números acima mostram exatamente o contrário. Eles querem dar a impressão que estabilidade de preço significa fortalecimento. A economia se fortalece com crescimento que na era deles foi pífio. Basta lembrar que o Brasil quebrou três vezes, não teve força para resistir a crises no México, na Malásia e na Rússia, países periféricos.  Em 2008, o país sofreu impactos de crises na Europa e EUA com reflexos bem menores.
Caso reste alguma dúvida aos leitores quanto à dimensão de FHC, basta ver o filme no site abaixo para perceber como foi inexpressivo:

 Louco não é o homem que perdeu a razão. Louco é o homem que perdeu tudo menos a razão.

Gilbert Chesterton

Alegria!

Recebi de um amigo querido um presente precioso: 
Os filhos dos dias, de Eduardo Galeano.

"O livro tem o formato de um calendário.
A cada dia nasce uma história.
Porque somos feitos de átomos, mas também de histórias."

Estou no mês de janeiro/2013.Pretendo atualizar meu diário de leituras e postagens,estimulada por este livro.
Obrigada, amigo!
Simplesmente, adorei!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Condicionado



“E, aquele
Que n
ão morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
N
ão foi marcado. Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.”
Manoel de Barros

                                   Raimundo Arruda Sobrinho, um velhinho simpático de 74 anos, viveu os últimos vinte anos, como morador de rua, no canteiro central da avenida Pedroso Morais,  na Zona Oeste de São Paulo. Nascera no Tocantins , filho de um vaqueiro, viera tentar a sorte na capital paulista, ainda rapazinho , após   ser reprovado na segunda série ginasial. Como todo migrante, meteu-se nas mais variadas profissões,  desde  jardineiro a  vendedor de livros velhos,inclusive com passagens em hospitais psiquiátricos Tentou a vida ainda como migrante ilegal no Paraguai, na Argentina e no Uruguai . Até 1978 já computava mais de quatorze endereços, quando , definitivamente, fez da rua seu bangalô. Em 1993, por fim, adotou o canteiro central da avenida Pedroso Morais, como seu lar. Barba longa e desgrenhada, higiene precária, roupas em frangalhos.   Ali, na dura selva urbana,  conviveu com a fauna típica do submundo brasileiro : esmoleres, bêbados, prostitutas, bandidos, traficantes, descuidistas, menores abandonados e adolescentes delinquentes  de classe média jogando o  seu  esporte preferido : churrasco de mendigo.
                                  
A história de Raimundo não é tão diferente da de outros tantos desafortunados da sorte que, órfãos de família , de emprego, de amigos e de amparo social, terminam por sujar, incomodamente,  a paisagem das grandes metrópoles. Moram numa outra dimensão , como se prematuramente tivessem morrido e , agora, invisíveis, vagassem como zumbis pelas praças e pelas ruas. Alguns fatos específicos, no entanto, diferenciam a vida de Arruda e que terminaram por fazer com que a história, estranhamente,  findasse com final feliz. Raimundo, sem mais nem porque, começou a escrever, quase que continuamente, aquilo que ele denominou de minipáginas. Redigia e ia oferecendo aos transeuntes que por ali passavam, em retribuição a alguma esmola por eles oferecida. Algumas, no entanto, colecionou cuidadosamente em  caderninhos, preparados com papel de embrulho. Escrevia a qualquer hora,  nada o atrapalhava, nem mesmo o barulho dos carros que freneticamente cruzavam ao derredor. Se chovia, enfurnava-se num plástico e continuava seu mister , sentado numa lata de dezoito litros. Utilizava um pseudônimo : “O Condicionado”. Condicionado a viver ao relento, a lutar diuturnamente contra as feras da floresta urbana, a sobreviver entre trapos e migalhas.
                                    Recentemente,  Shalla Monteiro, com o aguçado fato dos publicitários,  interessou-se pela história de Raimundo e por seus escritos, e terminou conseguindo localizar um irmão dele em Goiânia. O irmão, com muito esforço, conseguiu tirá-lo da rua e lhe proporcionar uma moradia digna, com o precioso calor da família. Arruda já se acostumara àquela jaula e temia sair da selva onde já aprendera a viver ou  sobreviver aos lobos e aos abutres.
                                   A poesia de Raimundo é caótica e  fragmentária. Uma extensão da sua vida : um mosaico de cacos e estilhaços de momentos .  Literariamente não parece carregar grande valor . Rescende, no entanto, um imenso peso humanístico e artístico. A Arte para ele foi redentora. Sobrinho, como uma Sherezade moderna, foi escrevendo, por mais de vinte anos,  suas histórias para não ser trucidado pelo Sultão que se chamava , agora,  Miséria. Linha após linha, página após página foi desfiando  suas mais de 7300 noites.  Ele é uma espécie de Arthur Bispo do Rosário da Literatura. Diante de um mundo cruel e hostil, criou um universo poético paralelo e para lá se mudou. Viveu e sobreviveu literalmente da sua Arte por muitos e muitos anos. Residiu nos seus abismos mais abissais  e conviveu promiscuamente com todos os seus fantasmas, talvez tenha sido por isso mesmo que a Poesia  se lhe tenha oferecido voluptuosamente como uma fêmea no cio.

J. Flávio Vieira

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Por Eurípedes Reis

O DIA DAS MÃES

Não sei quem disse, mas falou com muita razão: “Aquela imagem que se tinha da mãe como mulher inteiramente voltada para os afazeres domésticos, que colocava o contentamento dos filhos acima dos seus interesses particulares e sua satisfação pessoal tem se transformado muito”. Realmente mudou.

A Martha Medeiros uma vez escreveu:
"Mãe foi mãe, mas há muito tempo. Agora mãe é jogadora de basquete, é top-model, é atriz, é superstar. Mãe, além disso, é pediatra, cozinheira, lavadeira, psicóloga, motorista. Também é política, tirana, ditadora, às vezes não tem outro jeito. Mãe é pai. Sustenta a casa, fuma charuto e esta jogando um bolão. Mãe é irmã: empresta as roupas, vai ao show de rock e disputa namorado com a filha. Mãe é avó: pode ter um neto da mesma idade que o filho do segundo casamento. Mãe é deputada, é sem-terra, é destaque em escola de samba, é guarda de trânsito, é campeã de paddle. Mãe FOI mãe. Agora é mãe TAMBÉM."
Gosto muito do que escreve a Martha. A verdade é que, nos dias de hoje, a mulher, além de todas as suas atividades, é mãe também. A mulher conquistou a sua liberdade e vem defendendo uma posição de destaque e igualdade em todos os setores da vida.
Tenho observado, a partir das minhas filhas ,que a mulher vem se realizando profissionalmente e ampliando seus horizontes. Entretanto, apesar de todas as responsabilidades que assumiu e se encarrega com muito brilhantismo, ela também é mãe.
E ser mãe, é estabelecer essa relação mágica quando a mulher se responsabiliza por outra vida, não importa em que condições, repetindo sempre novamente o milagre que originou toda a história da humanidade. Se tantas coisas fundamentais mudaram, o amor de que a criança necessita, não mudou. Apenas agora pode e deve ser mais consciente porque apoiado nos novos conhecimentos trazidos pelo desenvolvimento humano. Hoje a mãe sabe a importância do seu amor para a saúde do filho. Se antes tudo era quase intuitivo e automático, agora a ciência lhe desvendou a grandeza do seu papel, como geradora de seres saudáveis e felizes.
Ser mãe é muito mais do que falaram os poetas, e tudo o que eles disseram, também. A mulher - mãe moderna - tem de lutar, trabalhar em casa e fora, e aprendeu não só usar a coragem da resignação e sim, o que é muito mais difícil, a coragem da ação. Ela toma, sem medo, o futuro em suas mãos e o molda dia-a-dia.

O "poder pelo poder" - José Nilton Mariano Saraiva


Depois de “bater de frente” com integrantes do próprio Poder Judiciário, ao colocar em dúvida a honestidade de propósito de alguns deles (estariam criando novos tribunais sem que houvesse necessidade, mas tão somente objetivando auferir dividendos), agora o “Joaquimzão” Barbosa (Presidente do Supremo) direcionou sua metralhadora giratória para o Poder Legislativo, ao peremptoriamente verbalizar uma verdade cristalina, mas que, embora  todos tivéssemos conhecimento, nunca nos foi dada a oportunidade de expô-la: que os nossos partidos políticos são de “mentirinha”, que no meio político (Congresso Nacional) vige a filosofia do “poder pelo poder”, que inexiste qualquer consistência programático-ideológica por parte dos seus integrantes e, enfim, que legislam em causa própria, sem preocupar-se com os destinos do país.  
Por conta de tais declarações, o “bafafá” tá feio lá em Brasília, com os políticos se fazendo de ofendidos, posando de vítimas, reclamando da deselegância do Ministro e de uma presumível interferência do Judiciário no Legislativo e por aí vai.
Agora, aqui prá nós, cearenses, o retrato emblemático do que disse “Joaquimzão” Barbosa está contido no currículo do falastrão senhor Ciro Gomes, que já foi filiado à  Arena (1979-1980); PDS (1980-1983); PMDB (1983-1988); PSDB (1988-1996): PPS (1996-2003); e PSB (a partir de 2003).
A pergunta é: o que tais agremiações têm a ver entre si ??? Onde a consistência programático-ideológica de tamanha salada de siglas ??? Cadê a coerência do senhor Ciro Gomes ???
Portanto, ponto pro “Joaquimzão”.

"Responsabilidade" - José Nilton Mariano Saraiva


Definitivamente, quem se dispõe a expor de forma cristalina e didática suas idéias em algum instrumento de domínio público (blogs, jornais, revistas, etc) há de ter em mente a tremenda “responsabilidade” contida no bojo de tal atitude, porquanto aceitando compulsoriamente tanto o bônus como o ônus do “conjunto da obra”.
Tanto é que, até como forma de se prevenir ou resguardar, no “caput” de cada um desses instrumentos os responsáveis colocam a observação pertinente: os conceitos e opiniões emitidos são de responsabilidade única e exclusiva do autor da cada postagem.
Claro que, como cada cabeça é um mundo, bem como em razão da miscelânea de estilos redacionais, haverá sempre e sempre espaço para discordâncias, mumunhas, embates, contradições, e por aí vai. 
Afinal, difícil acreditar que a preferência de um se constitua unanimidade num universo tão vasto (lembremo-nos que, segundo Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra), tendo em vista que, enquanto “fulano” é contundente e afirmativo em sua explanação, “sicrano” usa e abusa de “sabonete” o tempo inteiro, tornando-se escorregadio por excelência; enquanto uns não têm qualquer receio ou temor em se expor, outros primam pela precaução excessiva (que poderia ser catalogado por medo ou conveniência).  Temos, então, a tal “liberdade de expressão”, garantida pela nossa Constituição Federal.
A reflexão acima é só para reafirmar que assumimos conscientemente o desiderato, sem jamais ter em mente agradar ou desagradar a A ou B. Apenas colocamos nossa visão particular, individual e intransferível do mundo e, conseqüentemente, nos responsabilizamos por cada palavra posta. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Encontro reunirá pipeiros no Crato



O mês de maio é sempre propicio para a brincadeira de pipas na cidade do Crato (CE).  Esse ano, a comunidade do Gesso realizará evento denominado de  “Pipada no Gesso” que visa reunir crianças e adultos na brincadeira que teve origem com os chineses há cerca de 3000 anos.  

A pipa também conhecida como papagaio,  pandorga ou raia fez parte da infância de várias gerações. No Crato, o Campinho dos Meninos do Gesso é um dos locais tradicionais para a prática da brincadeira.

Segundo os organizadores,  a Pipada não tem caráter competitivo e visa fortalecer a ocupação criativa da comunidade no campinho dos Meninos do Gesso que já vem sendo ocupada com outras atividades como jogos de futebol, brincadeiras de bila, pião, malhação dos Judas e Dia das Crianças.  

A Pipada será um evento aberto e colaborativo, aonde as pessoas não precisarão fazer inscrições, basta levar sua pipa e brincar. No local haverá oficina de produção de pipas e registros fotográficos.

O evento conta com a parceria do Coletivo Camaradas, Blog do Alexandre Lucas, Projeto Nova Vida, Programa Nacional de Interferência Ambiental – PIA  e a Comunidade do Gesso.

Serviço:
Pipada no Gesso
Dia: 26/05/2013
Horário: 8h00 (manhã)
Local: Campinho dos Meninos do Gesso    
Colabore com doação de materiais: Linhas, Papel Seda, Sacos Plásticos e cola. Informações: 96616516.       

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A tortuosa estrada do sonho



                                                                                    
                      Ali estava bem na sua frente e era um deslumbramento. Parara ofegante e atônito, como um menino que balbucia as primeiras palavras de amor para a namorada. Saíra com a inglória missão de comprar um presente para o aniversário do filho, esta difícil e impalpável arte de calçar  a matéria no sonho alheio. De repente, diante dos seus olhos, como se pronunciasse o abracadabra ou o abre-te-sésamo, aparece o objeto de todos os desejos da sua já distante  infância.                                                                                                                             
                                    Fora pirralho pobre e desde cedo precisara aprender a inventar os seus próprios brinquedos. A duras penas , aprendera a fazer o pião com um tronco de goiabeira e um prego; o “triângulo”, mais simples , o precedera, quando entortou a extremidade de um arame e afiou a outra ponta numa pedra de amolar facas. Depois viera o caminhão, doce enlevo da sua meninice, que fabricara desfazendo uma velha caixa de madeira e dela construiria todos os módulos: a boléia, a carroceria, as rodas ( a mais difícil tarefa) e até os amortecedores --  feitos das aspas metálicas que recobriam a caixa e que davam ao carrinho um discreto molejo, tão importante para as manobras mais radicais. As bolas de gude   (  de aço ,as preferidas) eram conseguidas dos mecânicos da redondeza, que as tiravam de rolamentos “gripados”. Depois vieram os carrinhos de rolimã , os patinetes construídos com tábuas e rolamentos, que eram o terror do sono de todos os vizinhos Fez-se clone  de Ícaro ,também , montando   “pipas” com papel celofane, pedaços de madeira e “grude de goma”. Os “papagaios”, ao serem empinados, como que alçavam aos céus o dourado enleio da sua  infância ( enleio que um dia se perdeu no espaço,  ao ser cortado pelo brusco cerol da adolescência).                                                                                                                   .                                                                                                    
                                          Uma vez , pisando na sombra do pai, tinha tido um encantamento igual ao de hoje : diante de si um ônibus feito artesanalmente, de quase meio metro, com inúmeras cadeiras no seu interior , as laterais fabricadas de lata e pintadas, onde se lia, em letras transversais: “Viação Cometa”. Lembra, como se fora ontem,  atanazara tanto o pai para comprar aquela maravilha,  que terminou por ganhar o mais comum presente do seu tempo: uma surra monumental.
                                  Hoje, no entanto,  se sentia o mais feliz homem do mundo: podia dar ao filho o mais almejado presente da sua vida de guri. Comprou-o, trêmulo, como se tivesse voltado  trinta anos .  Cerrou os olhos um pouco, enquanto o vendedor lhe trazia o troco, e se viu apenas de calção listrado, com barbante na mão,  à guisa de volante,  e dirigindo cuidadosamente aquele ônibus que por tantos e tantos anos foi o cometa de todos os seus desejos. O tilintar do troco no balcão o fez viajar , num átimo, três décadas de volta. Tomou do embrulho valioso e partiu célere para casa, na expectativa de ver ,nos olhos do filho,  a felicidade que poderia ter brilhado nas suas próprias retinas tantos anos atrás...
                              Mal abre a porta, berra, ofegante :
                   ---Filho, olha o presente de aniversário que eu trouxe pra você!
                              O menino corre e rasga o invólucro, vorazmente, sem nenhum critério artístico. De repente emerge do papel picotado , o ônibus reluzente. O filho , porém, não reluz como o ônibus,  o olha sem entusiasmo e pergunta, sem graça:
                   ---- Pai, o que é que ele faz, hein? Tem controle remoto, anda sozinho?
                             O pai, triste,surpreso,  ainda pensou em explicar que aquele carrinho fazia tudo: andava sozinho, corria, subia ladeiras e rampas, até voava e tinha controle remoto sim: A imaginação. Mas já não adiantava, o guri, hipnotizado,   agora fixava seu pensamento  apenas no videogame e o sonho de infância do pai estava ali jogado no chão em total desamparo --- um ônibus que capotara , perdera em algum lugar a sua força lúdica,  e era agora um  veículo  enferrujado,  obsoleto , sem rumo claro e sem destino previsível.

J. Flávio Vieira

segunda-feira, 13 de maio de 2013

VIOLETA ARRAES HOMENAGEADA NO RIO DE JANEIRO

Em reconhecimento à luta que Violeta Arraes, em vida, desenvolveu em prol dos Direitos Humanos, e pelo apoio dado na Europa a perseguidos pelo regime instalado no Brasil em 1964, o Departamento de Mulheres do PSB do Estado do Rio de Janeiro criou a Medalha Violeta Arraes a ser concedida a personalidades que tenham se destacado no mesmo campo das batalhas por ela travadas. A primeira agraciada será a Deputada eleita por São Paulo, Luiza Erundina. A cerimônia de entrega será no próximo dia 27.05.13