por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

BentoXVI: Crise e exaustão conservadora




Dinheiro, poder e sabotagens. Corrupção, espionagem, escândalos sexuais.
A presença ostensiva desses ingredientes de filme B no noticiário do Vaticano ganhou notável regularidade nos últimos tempos.

A frequência e a intensidade anunciavam algo nem sempre inteligível ao mundo exterior: o acirramento da disputa sucessória de Bento XVI nos bastidores da Santa Sé.
Desta vez, mais que nunca, a fumaça que anunciará o ‘habemus papam’ refletirá o desfecho de uma fritura política de vida ou morte entre grupos radicais de direita na alta burocracia católica.

Mais que as razões de saúde, existiriam razões de Estado que teriam levado Bento XVI a anunciar a renúncia de seu papado, nesta 2ª feira.

A verdade é que a direita formada pelos grupos ‘Opus Dei’ (de forte presença em fileiras do tucanato paulista), ‘Legionários’ e ‘Comunhão e Libertação’ (este último ligado ao berlusconismo) já havia precipitado fim do seu papado nos bastidores do Vaticano.
Sua desistência oficializa a entrega de um comando de que já não dispunha.
Devorado pelos grupos que inicialmente tentou vocalizar e controlar, Bento XVI jogou a toalha.

O gesto evidencia a exaustão histórica de uma burocracia planetária, incapaz de escrutinar democraticamente suas divergências. E cada vez mais afunilada pela disputa de poder entre cepas direitistas, cuja real distinção resume-se ao calibre das armas disponíveis na guerra de posições. Ironicamente, Ratzinger foi a expressão brilhante e implacável dessa engrenagem comprometida.

Quadro ecumênico da teologia, inicialmente um simpatizante das elaborações reformistas de pensadores como Hans Küng (leia seu perfil elaborado por José Luís Fiori, nesta pág.), Joseph Ratzinger escolheu o corrimão da direita para galgar os degraus do poder interno no Vaticano.

Estabeleceu-se entre o intelectual promissor e a beligerância conservadora uma endogamia de propósito específico: exterminar as ideias marxistas dentro do catolicismo.
Em meados dos anos 70/80 ele consolidaria essa comunhão emprestando seu vigor intelectual para se transformar em uma espécie de Joseph McCarty da fé.
Foi assim que exerceu o comando da temível Congregação para a Doutrina da Fé.

À frente desse sucedâneo da Santa Inquisição, Ratzinger foi diretamente responsável pelo desmonte da Teologia da Libertação. O teólogo brasileiro Leonardo Boff, um dos intelectuais mais prestigiados desse grupo, dentro e fora da igreja, esteve entre as suas presas. Advertido, punido e desautorizado, seus textos foram interditados e proscritos. Por ordem direta do futuro papa. Antes de assumir o cargo supremo da hierarquia, Ratzinger ‘entregou o serviço’ cobrado pelo conservadorismo.

Tornou-se mais uma peça da alavanca movida por gigantescas massas de forças que decretariam a supremacia dos livres mercados nos anos 80; a derrota do Estado do Bem Estar Social; o fim do comunismo e a ascensão dos governos neoliberais em todo o planeta.

Não bastava conquistar Estados, capturar bancos centrais, agências reguladoras e mercados financeiros. Era necessário colonizar corações e mentes para a nova era.
Sob a inspiração de Ratzinger, seu antecessor João Paulo II liquidou a rede de dioceses progressistas no Brasil, por exemplo. As pastorais católicas de forte presença no movimento de massas foram emasculadas em sua agenda ‘profana’. A capilaridade das comunidades eclesiais de base da igreja foi tangida de volta ao catecismo convencional.
Ratzinger recebeu o Anel do Pescador em 2005, no apogeu do ciclo histórico que ajudou a implantar.

Durou pouco. Três anos depois, em setembro de 2008, o fastígio das finanças e do conservadorismo sofreria um abalo do qual não mais se recuperou.

Avulta desde então a imensa máquina de desumanidade que o Vaticano ajudou a lubrificar neste ciclo (como já havia feito em outros também).
Fome, exclusão social, desolação juvenil não são mais ecos de um mundo distante. Formam a realidade cotidiana no quintal do Vaticano, em uma Europa conflagrada e para a qual a Igreja Católica não tem nada a dizer. Sua tentativa de dar uma dimensão terrena ao credo conservador perdeu aderência em todos os sentidos com o agigantamento de uma crise social esmagadora.

O intelectual da ortodoxia termina seu ciclo deixando como legado um catolicismo apequenado; um imenso poder autodestrutivo embutido no canibalismo das falanges adversárias dentro da direita católica. E uma legião de almas penadas a migrar de um catolicismo etéreo para outras profissões de fé não menos conservadoras, mas legitimadas em seu pragmatismo pela eutanásia da espiritualidade social irradiada do Vaticano.

Na Igreja, o "vale-tudo" pelo poder


Dos 265 papas listados pela história oficial em quase dois mil anos, apenas quatro renunciaram: Bento IX (1045), Gregório VI (1046), Celestino V (1294) e Gregório XII (1415). E sequer eles foram precedentes comparáveis. Gregório XII, papa de Roma, foi forçado pelos cardeais a abdicar, enquanto os antipapas concorrentes João XXIII de Pisa (que não se confunda com o papa do mesmo título do século XX) e Bento XIII de Advinhão eram depostos, para por fim ao Grande Cisma do Ocidente e reunificar a Igreja. Bento IX renunciou para “vender” o cargo a Gregório VI que, por sua vez, foi “renunciado” à força pela maioria de seus bispos, com apoio do imperador Henrique III. Celestino V, um eremita respeitado como homem santo em Roma, foi eleito papa contra a vontade ao “ameaçar com a ira divina” o colégio de cardeais que se reunia havia dois anos sem chegar a um consenso. Em cinco meses no cargo mostrou-se completamente incompetente. “Aconselhado” pelo cardeal Benedetto Gaetani a abdicar, decretou o artigo do Código Canônico usado agora por Bento XVI. Gaetani elegeu-se papa Bonifácio VIII e por recear a influência do ex-papa, “mandou prender” o idoso Celestino, que morreu após dez meses de prisão. Bonifácio ficou quase nove anos no trono, mas se desentendeu com Felipe IV da França, quando este quis taxar a Igreja. Após se declarar superior aos reis e excomungar Felipe, foi capturado por tropas francesas que o “intimaram” a renunciar. Ao recusar, foi espancado e morreu três dias depois. Após a morte, sofreu a humilhação de ser destinado ao oitavo círculo do Inferno de Dante Alighieri, seu inimigo político, ao lado de Celestino V e Nicolau III.
Bento XVI
Sua renúncia evidenciou a incapacidade de controlar o conluio de interesses empresariais, políticos e clericais que ajudou a alimentar e hoje travam as tentativas de reforma tanto do Vaticano quanto da Itália – a corrupção secreta que viceja à sombra de qualquer autoritarismo. Provavelmente, será sucedido por um europeu igualmente conservador e intransigente para com os pecados da massa, mas mais tolerante para com os da Cúria, que manterá a Igreja no caminho firme, reto e seguro da decadência. 
(transcrito da revista Carta Capital)





Ilusões são geminadas com as esperanças.
 Invisíveis moram no céu.
 O olhar espreita estrelas tentando lê-las.
 E quando o céu é cego?
E quando o sol só vislumbra o tédio?
Quem sabe aconteça uma tarde de alegria?
Quem sabe um sonho surpreenda o sono?
No avesso da tristeza, o desejo de  ser feliz inexiste.
Cansaço das esperas.
Ressaca do encontro.
Preparamos a festa e choramos a despedida da orquestra.
O dia amanheceu e anoiteceu chuvoso.
Tempo úmido; telefone mudo; coração frio.
Na ordem prática da vida, resta sobreviver, até qualquer dia.

socorro moreira

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Entala-Gato



    “Como é possível esperar que  a humanidade             ouça                                                conselhos,se nem sequer ouve as advertências.”
Jonathan Swift

                        No último Carnaval, enquanto foliões, no Brasil inteiro, entregavam-se às batalhas de confetes e serpentinas, aconteceu, no Espírito Santo, uma cena emblemática dos anos em que vivemos. A aposentada Judith Kosken ,de setenta e nove anos ,  foi trancada ,pela neta, dentro de sua casa e mantida, em cárcere privado, sem alimentos, até a quarta-feira de cinzas. Vizinhos ouviram os gritos desesperados da velhinha, avisaram à polícia e ela, por fim, foi libertada da prisão domiciliar. A neta saíra com a namorada na sexta-feira para curtir o Carnaval em outra cidade. As agruras de D. Judith não pararam por aí : atendida em um hospital, passou mais dois dias morando no carro da polícia, pois os agentes, simplesmente, não conseguiam encontrar uma instituição que a acolhesse. O fato pode parecer um caso isolado, destes que periodicamente servem para alimentar o noticiário morno dos jornais. Esconde no seu ventre, no entanto, um monstro que vem sendo gestado nas últimas décadas e está pronto a coroar e espalhar brasa Brasil afora.
                   No início do Século XX, apenas 25% da população brasileira tinha mais de 60 anos. Nos primórdios do Século XXI , 65 % dos homens e 78% das mulheres alcançaram este patamar. Em 2009 ,o Brasil, que é um país jovem, tinha a sexta população de idosos do mundo, alguma coisa em torno de 22 milhões de pessoas, ou seja: um em cada 13 brasileiros será idoso em 2020 e ,em 2040,  um terço da população estará nesta faixa etária. A esperança de vida do brasileiro, hoje, beira os 75 anos, em média;  na década de oitenta,  era de 63 anos. Junte-se a este quadro,  uma diminuição abrupta da taxa de fertilidade, que pelo andar da carruagem deverá levar ao decréscimo progressivo da população  a partir de 2062 e perceberemos que o futuro do Brasil é o passado. A grande bomba começa a ficar com o estopim aceso e curto. O país não está minimamente preparado para acolher a crescente população de idosos. Quem haverá de cuidar deles quando vierem as limitações próprias dos anos ? Não temos geriatras suficientes; não dispomos de  cuidadores treinados no volume que a demanda exige; não possuímos instituições que os acolham. O antigo pacto de gerações, em que os pais cuidavam dos filhos e estes dos pais, quebrou-se por inteiro: os filhos são poucos e a modernidade exige demais deles. Nosso Sistema de Saúde também não está capacitado para atender as doenças próprias da maturidade: as demências, as fraturas, os acidentes vasculares cerebrais, o câncer que tende a aumentar nas faixas etárias mais elevadas. Não bastasse isso, vivendo mais a população, o INSS deverá desembolsar as aposentadorias por mais tempo e, por outro lado, nascendo poucos brasileiros,  a previdência arrecada menos e o desequilíbrio da balança é inevitável. Nas gerações passadas,  a família cuidava dos anciãos e os abrigos eram deixados para os indigentes. Hoje, nem mel, nem cabaça !
                   As angústias porque passou D. Judith no Carnaval são freqüentes em todo o Brasil e tenderão a se agravar. Não é muito diferente do que vem acontecendo no resto do mundo, só que nos países desenvolvidos as mudanças foram mais paulatinas e houve mais tempo para   adaptação à nova realidade. Um dado positivo nesta nova cara da população brasileira é que os idosos estão muito mais ativos, organizam-se, viajam, produzem e muitos e muitos são arrimo de família, geralmente com renda média superior aos chefes de família mais jovens. O Brasil precisa, no entanto, enfrentar rapidamente esta nova face mais enrugada que o país vai tomando, sob pena de aprofundarem-se enormemente seus problemas sociais que já não são poucos.
                            O escritor irlandês e  setecentista , Jonathan Swift (1667-1745) escreveu uma sátira em 1729 : “Uma modesta proposta para preven ir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República”. Nela propõe, como solução da pobreza infantil, que havendo provas de que a carne das crianças  é tenra e gostosa, elas possam ser vendidas assadas aos ricos, resolvendo assim o problema culinário dos mais abastados, econômicos dos mais pobres e o impasse político da Nação que já não suporta carregar tantos rebentos produzidos pelos mais desfavorecidos. Pois bem, se o Brasil não deseja enfrentar o outro extremo da questão que é a proliferação dos idosos e seus achaques, visto-me de Swift e trago também uma modesta proposta. Chegando à idade avançada, quando começarem a trazer mais problemas que soluções, os idosos poderiam ser levados a uma instituição e submetidos à eutanásia. Sua carne, já pouco tenra, poderia ser tratada como carne de sol ou de charque  e depois, juntada à farinha e produzida uma paçoca. Esta iguaria seria servida aos favelados e aos pobres nordestinos vítimas da seca. Assim resolveríamos muitos impasses: primeiro, diminuiríamos a população idosa e seu fardo à sociedade; depois, somaríamos o nada na escala social ao nada na escala etária e desta soma poderia resultar algum total; depois, unindo a carne dos velhos à farinha, havendo qualquer indigestão , o governo poderia botar a culpa na farinha; além de tudo, estaríamos contribuindo para melhorar a fome do Nordeste o que tem sido sempre uma enorme preocupação para os estados do Sul e Sudeste.  De minha parte, ofereço minha fuçura, daqui mais uns poucos anos, a quem interessar possa, mesmo sabendo que a carne já é de terceira, mas, quem sabe,  misturada com uma farinhazinha de mandioca , acredito que ainda dá um bom entala-gato.

J. Flávio Vieira

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
José Saramago

Uma história do passado...

PAULO  MAIA DE MENEZES
                                                 “Nunca mais você mata um irmão de um homem”
                                               (Pedro Maia).

Por Fernando Maia da Nóbrega

1 - SÚMULA
Nome:                  Paulo  Maia de Menezes
Filiação:               Aristides Ferreira de Menezes
         Ana Leopoldina Maia
Nascimento:         1879 - Crato-Ce (01)
Morte:                  09 de junho de 1914 – Juazeiro do Norte-Ce
Causa Mortis:      Assassinato
Motivo:               Vingança
Acusados:          Nazário Landim (mandante), Mané Chiquinha                                        (executor).

2- ANTECEDENTES
 A morte trágica de Paulo Maia, também alcunhado de Paulo Aires, ocorrida em Juazeiro do Norte no ano de 1914, teve como fonte motivadora um acontecimento havido muitos anos antes do seu nascimento, na cidade do Crato em 1856 , e que se desdobrou ao longo de 72 anos. Essa é a história de um tempo em que muitas vezes a herança deixada era um rastro de sangue...
O século XIX caracterizou-se no Cariri por profundas crises sociais e políticas, imprimindo uma marca de violência que se alastrou, além dele, por três décadas da centúria seguinte. De início, a “Revolução de 1817” frutificou sérias inimizades entre os políticos e líderes cratenses, tendo alguns sido presos enviados para calabouços na Bahia. Em seguida veio a “Revolução do Equador” em 1824 onde muitos morreram entre eles Tristão de Alencar Araripe, membro de importante família da região. A “Guerra do Pinto” em 1832 fez florescer antigas desavenças cujo desfecho foi, anos depois, a execução do chefe Joaquim Pinto Madeira. Culminando com essas conturbações sociais, surgiu a “Revolução de Juazeiro” em 1914.
E foi justamente em um desses acontecimentos sociais tão em voga, que se gestou a futura morte de Paulo Maia. No dia 08 de setembro de 1856, às três horas da tarde, se processava, dentro da igreja Matriz de Nossa Senhora da  Penha, na cidade do Crato, as eleições para as câmaras municipais e juiz de paz. O clima emocional estava quente e pesado, posto que em Barbalha dias antes ocorreram cenas de violência durante a apuração dos votos. No Crato, duas facções do Partido  Conservador disputavam com o Partido Liberal os cargos disponíveis. Determinado momento, surgiu uma discórdia entre os grupos rivais gerando uma briga generalizada entre os participantes. Dr. Jaguaribe, presidente da eleição, pede a interferência do corpo policial do município com o intuito de apaziguar os querelantes. Com a chegada dos militares, sob o comando de José Ferreira de Menezes os ânimos se exaltaram mais ainda havendo uma troca de tiros de ambas as partes, vindo a falecer o coronel José Gonçalves Landim. (02). O crime emocionou todo o Cariri a ponto do Vigário Geral Forâneo Tomaz Pompeu de Sousa Brasil excomungar o Padre Manuel Joaquim Aires do Nascimento, Pároco da Freguesia, bem como o delegado e dois soldados. (03)
Com o passar dos anos, um dos filhos do delegado José Ferreira de Menezes, de nome Aristides, tornou-se um dos mais influentes políticos cratenses no final do século XIX, exercendo vários cargos públicos de destaques, chegando a ocupar as funções de promotor, deputado provincial pela região e candidato a senador da república. (03) Ressalte-se que Aristides Ferreira de Menezes casara-se com Ana Leopoldina Maia, filha do renomado Coronel Mainha, um dos maiores políticos cratenses do século XIX. Partidário do prefeito local , Coronel Belém de Figueiredo, Aristides sofreu grande revés quando em 1904, Antonio Luiz Alves Pequeno tomou a prefeitura a “manu militari” e passou a perseguir ferozmente seus adversários por meio da montagem de uma violenta guarda municipal.
Investido na função de delegado e comandante da Guarda Municipal do Crato, Nazário Landim cometeu toda espécie de arbitrariedade possível. E em sendo neto do Coronel José Gonçalves Landim, morto na igreja em 1856, ressuscitou a velha discórdia entre as famílias. Certa feita, em meados de 1904, encontra-se numa esquina com o velho e respeitável Coronel Aristides e o agride a socos, pontapés, empurrões e lhe bate com a vareta da espingarda por várias vezes. Segundo sua lógica, vingava assim a morte de seu avô numa pessoa que à época tinha somente quatro anos.
Essa atitude inconseqüente viria a gerar outra de igual teor. Paulo Maia, filho de Aristides, inconformado com a agressão sofrida pelo seu genitor agiu rapidamente em represália: ao se encontrar com o delegado aplicou-lhe violenta surra, prostrando-o desfalecido por terra. Os cronistas narram que ao ser preso e interrogado pelo juiz, houve o seguinte diálogo:
-"Moço, que parentesco tem com o delegado Nazário”? Perguntou o juiz.
- “Ele é meu avô!” Respondeu com firmeza Paulo Maia.
“Mas... seu avô?” Contesta o Juiz.
- “Se ele é de sua idade mais ou menos, talvez seja mais moço, como explicar isso”?
-"Se ele bateu em meu pai, se deu em meu pai, certamente que é pai dele; e sendo pai dele, é meu avô.” Foi a resposta (04).
 3- A MORTE
 É certo que após o desentendimento com Nazário e cumprir prisão por mais de um ano, Paulo Maia foi residir em Juazeiro. Além deste motivo outros contribuíram sua para ida: era primo do Padre Cícero e sua mulher, Aurora Adélia, era parenta de José André de Figueiredo, um dos líderes políticos da vila. Além do mais, cuidaria das terras do sítio Muquém, naquele município, pertencentes a seu pai. Pouco a pouco Paulo Maia foi-se inserindo na vida político-social de sua nova terra.
Em 1910 Juazeiro já se consolidava como um lugarejo em constante desenvolvimento graças à presença do Padre Cícero Romão Batista e a repercussão dos milagres ocorridos em 1889. Com uma população expressiva, sendo alvo de romarias freqüentes e de um comercio se expandindo constantemente, a vila clamava pela sua emancipação política. Objetivando chamar a atenção das autoridades, Padre Cícero, Floro Bartolomeu, Padre Alencar Peixoto, Joaquim André e tantos outros, pregaram a desobediência civil ao povo ao propor que “(...) não se pagaria mais impostos ao Crato” (05) Tal movimento culminou com uma passeata realizada no dia 07 de setembro de 1910, pelas ruas de Juazeiro, em prol da independência da vila. À frente de todos, Paulo Maia conduzia uma bandeira verde-amarela com os dizeres “Viva a Independência!” (06).
Eis que em 1913 irrompe a chamada “Sedição de Juazeiro” com o objetivo de depor o governador do estado, Major Franco Rabelo. Para concretizar esse intento, Dr.Floro armou um expressivo contingente de bandidos e cangaceiros, recrutando os mais afamados pistoleiros de Pajeú das Flores, Paraíba, entre eles, Zé Pinheiro, Senhorzinho, Antonio Godê, Mané Chiquinha, Côco Seco e Quintino Feitosa. Para as funções de subdelegado foi nomeado o Major Nazário Landim (07), “indivíduo de péssima conduta” (08).
Nos idos de 1913/14 imperou no nosso Estado completa selvageria. No Cariri, principalmente, um número incalculável de crimes foram praticados, com a conivência das autoridades, sem nunca ter sido tomadas as providências legais cabíveis. Após o término do movimento sedicioso de Juazeiro em março de 1914, a cidade ficou totalmente lotada de facínoras remanescentes da guerra. Bandidos de alta periculosidade, sem trabalho,  perambulavam pelas ruas bebendo, fazendo confusões, provocando brigas e matando pessoas.
Como a ociosidade é a mãe de todos os vícios, Mané Chiquinha lembrou a Nazário Landim que seu desafeto, Paulo Maia, andava impune na cidade. Não obstante as ponderações iniciais, o subdelegado contrata o pistoleiro por 100 contos de réis e uma mula. (09) Xavier de Oliveira insinua, nas entrelinhas, que um crime envolvendo uma pessoa de prestígio como Paulo Maia tinha que haver o consentimento do chefe, no caso, presumo eu, Dr.Floro Bartolomeu. (09). Há alguma razão para se aceitar a tese, posto que tanto o Coronel Aristides, pai de Paulo, quanto o cunhado Joaquim Inácio Figueiredo faziam oposição ao Médico e ao Padre Cícero. (10)
Paulo Maia residia numa casa, hoje demolida, localizada à Rua do Brejo, em frente à Matriz de Juazeiro. Na noite de 09 de junho de 1914, enquanto conversava com o vizinho Doroteu Sobreira, foi avisado por este que parecia haver alguém escondido no matagal à frente da casa. Paulo Maia não levou à sério a observação do amigo e continuou conversando alegremente. Mané Chiquinha, aproveitando a escuridão da noite, escondido entre o pasto de bamburral, mirou a carabina modelo 1908, dormiu na pontaria e disparou um certeiro tiro que varou o peito da vítima indefesa.
 4-            VINGANÇA
 Após o assassinato de Paulo Maia, Mané Chiquinha enfronhou-se pela Serra do Araripe e vivia em lugar incerto e não sabido. Porém, em decorrência da determinação do Governador do Estado, Benjamim Barroso, em eliminar de vez o banditismo no Ceará, convocou ao palácio o Coronel Medeiros e deu-lhe uma ordem seca: ”Você vai ao Cariri e outras cidades do sertão. Não poupe bandidos. Execute-os sumariamente.” (11). A mesma incumbência foi dada pelo Governador ao Tenente Peregrino Montenegro quando o nomeou delegado de Campos Sales: “Soube que é homem disposto. Liquide todo criminoso nato.” (12). Seguindo as determinações recebidas, perseguindo a bandidos na Serra do Araripe, o Tenente Peregrino executa sumariamente os cangaceiros Bimbão, Caxeado, Pedro Paulo e Mané Chiquinha. (13).
Quanto ao autor intelectual, Nazário Landim, este achou mais prudente se afastar da região e por muito tempo não se soube de seu paradeiro. Há certa probabilidade que tenha se refugiado na cidade de São João do Rio do Peixe, hoje Antenor Navarro, na Paraíba, local onde seu primo e conselheiro Quinco Vasques fugindo de uma briga em Lavras da Mangabeira, viveu sob a proteção do Padre Joaquim Cirilo Sá. (14)
Após 72 anos dos fatos ocorridos na Matriz de Nossa Senhora da Penha e 14 da morte de Paulo Maia, Nazário Landim apareceu às caladas da noite, no Crato, com o intuito de pegar o trem em rumo a Missão Velha onde viviam seus parentes. Enquanto aguardava o passar das horas para o embarque, entrou em um quiosque, ao lado da estação ferroviária, onde os passageiros tomavam café,fumavam,conversavam, à espera da partida do trem. Nesse ínterim, foi reconhecido por um padeiro que incontinentemente correu até a casa de Pedro Maia, irmão de Paulo, bateu à porta e falou:
- “Seu Pedro, quanto o senhor paga pelas alvíssaras?”.
- “O que você quiser. O que foi?” Retorquiu Pedro (015).
-“ Nazário Landim está aqui no Crato. Na estação de trem.” Respondeu o padeiro.
Era início da madrugada do dia 28 de julho de 1928. Pedro Maia, também conhecido por Pedro Aires dirigiu-se à cidade de Juazeiro do Norte e foi ao encontro dos dois filhos homens de Paulo Maia, Zezé e Odilon, e lhes falou:
“- O homem que matou seu pai está no Crato. Se querem vingar a morte dele a hora é essa.”
 Em companhia dos jovens, Pedro se dirigiu à estação ferroviária do Crato. Entregando um revólver à Zezé, o mais velho, apontou o Nazário e disse:
-“É aquele o homem. Vá lá e mate-o!”.
Consta que Zezé titubeou. É verdade que teve medo de executar a tarefa. Vendo a indecisão do sobrinho, Pedro Maia falou ríspido:
- “Vejam como é que se mata um homem!”.
Secamente se dirigiu ao encontro de Nazário e para certificar-se que era ele mesmo, embora o conhecesse, indagou:
- “Com quem tenho o prazer de falar?”.
Pressentido o desfecho macabro daquele encontro, pálido e afásico respondeu:
 -“Com Nazário, seu criado.”.
“- Eu sou irmão de Paulo Maia. Levante-se para morrer. Você nunca mais mata um irmão de um homem!”
Surpreso, Nazário não se levantou. Nisso, Pedro Maia desfechou alguns tiros quase à queima roupa. Nazário caiu emborcado na mesa do bar e exalou seu último suspiro.
Encerrava-se assim  drasticamente uma desavença costurada por tanto tempo. Durante 72 anos, vidas foram ceifadas em nome de um tempo e costumes que queira Deus não se repitam nunca mais.
 NOTAS
 01 - Os dados sobre a descendência, nascimento e morte de Paulo Maia  encontra-se no artigo de Bruno de Menezes “Uma Parcela da Família Menezes do Cariri”, revista       Itaytera nº. 5, página 177 -  Crato-Ce. 1959.
02 – Irineu Pinheiro, Efemérides do Cariri pág.142. Imprensa Oficial do Ceará.          Fortaleza 1963.
“1856, 8 de setembro – Eleições na matriz do Crato para juiz de paz e  membros   da câmara municipal. Morreu o eleitor José Gonçalves    Landim, pelo Partido    Liberal, baleado na igreja pela força pública comandada pelo delegado local que  era conservador (...)”.
Joaryvar Macedo in O Império do Bacamarte, pág.25. Edição UFC.        Fortaleza    1992 afirma: “Acontecimento sangrento, de bastante repercussão, se deu em 1856,   aos 8 de  setembro. Por ocasião de eleições de membros da   câmara   municipal e juízes de  paz, no recinto da Matriz de  Nossa Senhora  da Penha, no Crato, a força pública   promoveu violentíssimo  ataque aos  eleitores, visando o Partido Liberal. Da     agressão,    comandada  pelo próprio delegado substituto em exercício, José Ferreira de Menezes,  resultaram na morte do tenente-coronel José Gonçalves  Landim e  ferimentos em várias pessoas (...)”.

03 – Guilherme Chambly Studart (Barão de Stuart) & Newton Jacques Studart –    Dicionário Biobibliográfico Cearense 2ª edição,  pág.305/306. Tipografia          Progresso 1980. Aborda sobre a vida    do     deputado Aristides        Ferreira de Menezes.
  04 – Guilherme Chambly Studart. O.Cpág. 306.
 05-     Amália Xavier de Oliveira – O Padre Cícero que eu conheci.        Pág.133 Rio de          janeiro 1969
“(...) o padre Cícero incentivou o povo de não mais pagar imposto ao     Município   de Crato, desta vez, sem complacência.”
06 –  Idem, ibidem.
“Paulo Maia, ardoroso revolucionário, conduzia à frente a bandeira        verde-amarela, com os dizeres ‘VIVA A NOSSA    INDEPENDÊNCIA’”.
 07 – Joaryvar Macedo. Temas Históricos Regionais. Nota na pág.47.   Secretaria de          Cultura e Desporto. Fortaleza 1986.
 08 -   Joaryvar Macedo. Império do Bacamarte pág.72. Edição UFC.    Fortaleza-Ce          1992:
“Indivíduo de péssima conduta, o major Nazário Landim fruíra,  entretanto, da          confiança do coronel Antonio Luís, que o investiu  nas funções de subdelegado    de polícia do importante município  de Juazeiro.”
 09-           Antonio Xavier de Oliveira, Beatos e Cangaceiros pág.17 Rio de Janeiro. O autor deixa aberta a possibilidade do assassinato de Paulo Maia ter   sido do conhecimento de Dr.Floro ou do coronel Antonio Alves  Pequeno, este último,   inimigo político de Aristides Ferreira de       Menezes,    pai de Paulo. De pronto, o autor elimina a hipótese   do envolvimento do padre Cícero:
         “(...) Em geral, no Sertão, os cangaceiros só cometem um    crime, quando teem as   costas quentes,isto é quando teem patrão  forte e de cima na política. (...) (um  coronel, ou um doutor, nunca  um padre)” (sic).
 10 –  Ralph Della Cava. Milagre em Joaseiro pág. 151. Paz e Terra. Rio  de Janeiro          1977, apud inéditos de Aires de Menezes.
“(...) não se tornando inimigos do padre Cícero”... ficaram afastados...    Aristides          Ferreira de Menezes, o velho João da Rocha, Pedro    Jacintho da Rocha, Cel.Coimbra, Joaquim Inácio de Figueiredo.         (...) (sic)
 11 – Abelardo Montenegro. Fanáticos e Cangaceiros pág.pág.268.  Ed.Henrique ta          Galeno. Fortaleza 1973. Apud entrevista do Sr. Antonio Botelho Filho, presente          que estava na hora da   recomendação do governador.
12 – Abelardo Montenegro, o.c.pág.269. Informações prestadas ao autor    pelo próprio Peregrino Montenegro.
 13 –  Abelardo Montenegro. O.c.ibidem.
 14 –  Joaryvar Macedo, Império do Bacamarte pág.119, esclarece onde o coronel         Quinco Vasques se refugia da polícia:
(...) Quinco Vasques (...) se refugia sob a proteção Joaquim Cirilo de      Sá, o célebre padre Sá do antigo São João do Rio do Peixe, hoje     Antenor Navarro, Paraíba       (...)”.
         Por essa razão somos levados a crer que Nazário Landim após o assassinato de Paulo Maia tenha se refugiado em Antenor Navarro.
 15 -   Os detalhes da vingança perpetrada por Pedro Aires nos     foi     transmitida por          Odilon Figueiredo,filho de Paulo Maia,  presente na hora do assassinato. É fidedigno e tem exatidão   o diálogo,   posto que do conhecimento de todos e por   uma  testemunha do caso,  o português Ângelo de Almeida que narrou os   acontecimentos a    meu pai Antonio Adil da Nóbrega.

BIBLIOGRAFIA.
 Della Cava, Ralph. Milagre em joaseiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra,       1976.
 Macedo, Joaryvar. Temas históricos regionais. Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desportos, 1986.
 Macedo, Joaryvar. Império do bacamarte. Fortaleza, Universidade  Federal do Ceará, 1990. 
 Montenegro, Abelardo. Fanáticos e cangaceiros. Fortaleza. Editora  Henriqueta Galeno, 1973.
 Revista Ytaytera, Crato. Instituto Cultural do Cariri, 1959.
Oliveira, Antonio X. Beatos e cangaceiros. Rio de Janeiro
 Oliveira, Amália X. O padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro,  1969.
Studart, Guilherme C. & Studart, Newton J. Fortaleza, Tipografia Progresso, 1980.
 O autor é juazeirense, escritor com vários textos publicados. A partir desta postagem será iniciada uma série de trabalhos de sua autoria.
* Sou bisneta de Aristides Ferreira de Menezes e Ana leopoldina Maia  de Meneses ( filha do Cel Mainha).
Infinitas vezes escutei a versão da minha avó materna, Ana Amélia Menezes Moreira, casada com Alfredo Moreira Maia.Os dois eram primos.
Desconhecia  maiores detalhes até esta data.
Este fato impressionou-me, desde a tenra infância.
Felizmente tudo passa , mas a história deixa o seu registro. 

Socorro Moreira

Assunto: Fw: BBB 13 (Luis Fernando Verissímo).
Para:



Luis Fernando Veríssimo

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço.. A nova edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo.
Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros? todos na mesma casa, a casa dos ?heróis?, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE.
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um zoológico humano divertido?. Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo dia.
Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, Ongs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o ?escolhido? receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a ?entender o comportamento humano?. Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$ $$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores).
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa?, ir ao cinema?. , estudar? , ouvir boa música?, cuidar das flores e jardins? , telefonar para um amigo? ,·visitar os avós? , pescar?, brincar com as crianças? , namorar? ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.


Por Luis Fernando Veríssimo


Devia ser proibido
devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido estar
do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido...

(Alice Ruiz)
. Foi casada com o também poeta Paulo Leminski