por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Valei-me, Meu São Luiz !


Matozinho sempre foi antenada com as novidades mundo afora. Nos primórdios da sua história, elas chegavam através dos tropeiros e caixeiros-viajantes. Eles eram esperados na cidade ansiosamente e traziam consigo não só suas quinquilharias, mas também  a moda e  costumes da capital. Nesta época a Vila ligava-se ao mundo por trilhas varadas apenas por animais de carga. Com o tempo, foram melhorando os meios de transporte e os caminhoneiros receberam a missão que um dia  tinha pertencido aos tropeiros. Os Caixeiros  investiram-se de ares de nobreza e passaram a ser chamados de viajantes e depois Representantes Comerciais. Com a melhoria do transporte e, mais tarde, a chegada da TV, as novidades do consumo aportaram em Matorzinho quase que de forma imediata, sem nenhum delay. Um outro fator importantíssimo na modernização dos costumes da Vila : o retorno de matozenses que fugindo da seca haviam emigrado para o Sudeste. Passada a fase de euforia, quando o concreto armado caía por fim nas suas cabeças, voltavam para sua cidade natal, geralmente contando vantagem, cagando goma, com a língua trôpega: cravejada de chiados, de  “uais” e de “carambas”.
                                   Nesses dias,  aportou em Matorzinho, vindo de “Sum Paulo”, um desses filhos pródigos :  Sonisvaldo Coité. Trabalhara no  Sudeste numa infinidade de empregos, até ter se especializado , finalmente, como garçon. Migrou daí para uma Pizzaria, onde terminou por se firmar como Pizzarollo, um dos mais consagrados da capital paulista, segundo sua própria avaliação.  Fizera um acordo com a firma e recebeu uma graninha boa, proporcional aos mais de dez anos que trabalhou por lá na beira do forno. Vaval , este era o apelido carinhoso que nosso pizzarollo já não reconhecia, trazia consigo já a determinação de se estabelecer no comércio da sua cidade natal : vou botar a primeira Pizzaria de toda Grande Matorzinho , vaticinou ainda no ônibus, nosso Coité. Mal  desembarcou ,com sua indumentária esdrúxula : botas, gorro do Corinthians, casacão de frio e um tênis paraguaio espalhafatoso; Vaval encetou os preparativos para sua empreitada. Sobe rua, desce rua, terminou escolhendo o ponto que lhe parecia perfeito.  
                                   João do Bozó havia sido proprietário de uma Bodega próximo à praça da Vila que findou evoluindo naturalmente para um mercadinho e, agora, ostentava o vistoso nome de : “Supermercado Santa Genoveva”. Há alguns meses, Bozó providenciara um “puxado” lateral no prédio, pensando numa ampliação futura das instalações. A idéia empacara e  o espaço estava até então inutilizado. Vaval negociou então o aluguel e encetou os preparativos para a instalação daquela que seria a pioneira em massas  em toda região. Antes da reforma, já abriu o letreiro no frontispício, em letras gigantes : “Sonny´s Trattoria” e, para que o povo não ficasse pensando que ali se vendiam  tratores,  logo abaixo explicava : “Pizzas”.  Como era de se esperar,  o povo acorreu célere em busca da novidade de Coité e o empreendimento  se mostrou um sucesso.  Até porque nosso empresário entendeu rapidamente que precisava adaptar a novidade aos costumes locais. Os sabores tiveram que ser acrescentados dos quitutes matozenses e aí surgiram as pizzas de macunzá, de panelada,de manzape,  de sarapatel e de sarrabulho. Às tubaínas , também, foi preciso acrescer algumas bebidas tradicionais como Gingibirra , Aluá e garapa de cana. Tirante estas necessárias adaptações, nada foi mais preciso corrigir para que a “Trattoria” se transformasse num dos empreendimentos de maior sucesso naquele cafundó do Judas. Vaval , inclusive, estava sonhando em levar filiais para Bertioga e Serrinha do Nicodemos. E quem sabe, no futuro, vender franquias da “Sonny´s” para todo país. Tudo ia tão bem!  Mas, como diz o velho Giba: “ pobre só tem as coisas até Deus descobrir, aí toma tudo de volta”.
                                   Algumas questões certamente contribuíram para a tragédia que um dia desabou sobre a “Trattoria”. Primeiro,  a proximidade com o Supermercado de Bozó. Era lá que Vaval se abastecia e por ali não existia prazo de validade de produtos: enquanto o tapuru não comesse toda a carne e o gorgulho esfarelasse todo feijão, negociava-se. Mas o ponto crítico de tudo, certamente, foi a introdução no cardápio, da famosa Pizza de Buchada de Bode. O lançamento do novo produto foi feito com alarde e , no domingo, a “Trattoria”, de repente, viu-se apinhada de gente, pronta a degustar a novidade, apresentada naquele dia com preço promocional. A metade da vila obedeceu aos chamados de Vaval e degustou a nova iguaria ,de difícil conservação, sofregamente, acrescida de maionese caseira ( uma outra novidade perigosa trazida pelo pizzarollo). O certo é que a maionese serviu de estopim e fez explodir a bomba de bactérias da buchada de Vaval.
                                   Em poucas minutos, viram-se todos acometidos de uma caganeira universal e fenomenal. Faltou moita ao redor de duas léguas da pizzaria. Folhas e sabugos eram disputados à tapa. O velho Antonio Sitó que usava calças presas em suspensórios, só nesse dia, gastou mais de cinco : baixando e levantando os elásticos. Negrinho ,mal saía da moita,  já pegava novamente a fila. D. Filismina, uma velhinha esguia, fina que só assovio de sagüi , simplesmente desapareceu. De tanto ir ao mato encontraram apenas o molhado no chão e o filho dela, ajoelhado ante a poça , chorava inconsolado : Mãe dissolveu! Mãe dissolveu !   A família de Juca Caçote estava com o velho de vela na mão, empanzinado há mais de quinze dias. Quando souberam da catástrofe, correram na pizzaria e trouxeram um pedacinho da pizza de buchada e fizeram Caçote , in extremis, engolir. De repente, ouviu-se um murmurejo na barriga do velho e ele começou a se contorcer como se estivesse com  dores de parto. O  barulho tomou forças de trovão e , subitamente, ele gritou :
                                   ---“Valei-me, meu São Luiz !” 
                                   Ouviu-se um tiro seco,  como de um canhão no  quartel. Foi um destroço: esgotou-se a fossa, o homem desentupiu e sarou.

                                   Passados os dias, as coisas foram voltando ao normal, em Matozinho. Tirante D. Filismina, não houve baixas. Apenas o  velho Sinfrônio Arnaud preocupava. Há mais de quinze dias permanecia em casa, cabisbaixo e capiongo. Fora acometido da fininha em grandes proporções, mas aparentemente já recobrara as forças. A família preocupou-se com o velho. Vaval e Bozó, então, resolveram fazer-lhe uma visita. Encontraram-no recluso e tristonho , num canto do quarto escuro. Só com muito esforço conseguiram arrancar dele uma explicação. O velho foi enfático, estava bem, não mais sentira nada, mas estava com uma pulga detrás da orelha.
                                   --- O que está acontecendo, Coronel, o Senhor tá doente ainda?
                                   --- Não, seu Vaval, estive quase com  passagem na mão, mas já sarei.
                                   --- Mas por que anda tão triste, tão jururu ? –pergunta Bozó.
                                   --- Meu filho,  é que passei mais de três dias cagando sem o cu saber. Aí peguei aqui a matutar:  com um fiofó ignorante desses, que nem dá notícia do que tá saindo, se pode lá confiar num diabos desses, rapaz !
                                   --- Confiar como, coronel ? Quis saber Vaval.
                                   --- Se inventar de entrar alguma coisa, um fiofó analfabeto desses, será que o miserável vai  dar-se conta ?


J. Flávio Vieira

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pingo de Fortaleza - Uma chuva de musicalidade comprometida




Compositor, músico, brincante, pesquisador  e produtor cultural Pingo de Fortaleza é um artista  que nasceu um ano antes do Golpe Militar e que se envolveu com a música  e com outras linguagens artísticas na adolescência. Recebe esse pseudônimo por ter nascido prematuro. Com uma grandeza de olhar ele destaca que definir o que é  popular e  contemporâneo  está cada fez mais é difícil e perigoso usar estas compartimentações no campo da cultura e da arte. 


Alexandre Lucas – Quem é Pingo de Fortaleza?

Pingo de Fortaleza - João Wanderley Roberto Militão, nascido prematuro em Fortaleza no dia 08 de fevereiro de 1963, músico desde a adolescência e um eterno apaixonado pela arte da vida e pelas artes.

Alexandre Lucas – Fale da sua trajetória?

Pingo de Fortaleza - Comecei ainda menino tocando violão no bairro José Walter e em seguida junto aos amigos da ETFCE onde cursei meu segundo grau, depois fui cursar música na UECE e neste tempo já havia me envolvido com parceiros do teatro e da poesia. Ali no universo do movimento estudantil do inicio da década de 1980 fiz minhas primeiras apresentações e meus primeiros espetáculos individuais. Depois gravei meu primeiro LP em 1986 e nunca mais parei de produzir e seguir nesta viagem musical.

Alexandre Lucas – Como se deu sua relação com a música?

Pingo de Fortaleza - De forma natural, recebendo informações de todas as formas e linguagens e se fortaleceu na adolescência com a audição das músicas do Pessoal do Ceará.




Alexandre Lucas – você é autor do livro Maracatu Az de Ouro – 70 anos de memórias, loas e batuques. O que representa a publicação deste livro para o Maracatu Cearense?

Pingo de Fortaleza - Tenho mantido um envolvimento com o universo da cultura do maracatu do Ceará desde 1990 quando criei a canção Maculelê, acho que o livro traduz um pouco todo o meu aprendizado neste segmento e revela através da história do Maracatu Az de Ouro que ainda precisamos de muitos registros para reconhecer profundamente à rica e significativa presença do maracatu na cidade de Fortaleza.

Alexandre Lucas – Além de pesquisador, você é brincante de Maracatu. Isso possibilitou um olhar diferenciado para produção do seu livro?

Pingo de Fortaleza - Ser brincante me deu mais felicidade em conseguir produzir este trabalho, pois vivo este universo e procuro recriá-lo sempre.

Alexandre Lucas – você é um dos fundadores do Maracatu Solar. Como vem sendo desenvolvido esse trabalho?

Pingo de Fortaleza - O Maracatu SOLAR é um Programa de Formação Cultural Continuada da ONG SOLAR (ONG criada por mim e alguns parceiros em 2005) e de certa forma essa atividade deu mais visibilidade e articulação a SOLAR e também nos possibilitou uma prática mais livre desta manifestação.

Alexandre Lucas – Você agrega na sua musicalidade o popular e o contemporâneo?

Pingo de Fortaleza - Em minha arte agrego sempre aquilo que me vem de inspiração e atualmente tenho usado pouco essas nomeclaturas, por compreender que todas os gêneros estão de certa forma conjugados e que está cada fez mais é difícil e perigoso usar estas compartimentações no campo da cultura e da arte.

Alexandre Lucas – Como você ver a relação em entre arte e política?

Pingo de Fortaleza - Acho que no campo filosófico a arte é parte integrante das relações humanas na sociedade, portanto qualquer fazer artístico é uma ação política, contudo não me refiro à política de estado ou governo.

Alexandre Lucas – Quais os seus próximos trabalhos.

Pingo de Fortaleza - Depois dos cds Prata 950 (2009), Ressonância Instrumental (2010) e Axé de Luz(2011), pretendo lançar um novo livro sobre os universo rítmico do maracatu do Ceará e estou trabalhando num projeto intitulado "Pérolas do Centauro - 40 Anos da Música Cearense e 30 Anos da Musicalidade de Pingo de Fortaleza (1972-2012, Compositores e Intérpretes)

"Consignados" - José Nilton Mariano Saraiva

De acordo com o divulgado pelo Deputado Heitor Férrer, o arrecadado ( SÓ EM “COMISSÕES” ) pela empresa Promus, de propriedade do senhor Luis Antonio Valadares, genro do Chefe da Casa Civil do Governo do Estado, senhor Arialdo Pinho, no período de novembro/2009 a começo de 2012 (cerca de 27 meses), bateu em estratosféricos R$ 101.500.000,00 (cento e hum milhões e quinhentos mil reais). É uma montanha de dinheiro, aqui, na China ou no Haiti.
Assim, uma simplória e prosaica operação aritmética – R$ 101.500.000,00 / 27 - (meses) nos dá como resultado final o valor de R$ 3.759.260,00 (“comissão” mensal ao longo dos 27 meses) ou R$ 125.308,64 (faturamento diário no mesmo período) ou ainda R$ 5.221,20 (faturamento por hora). Não, você não leu errado: em CADA UMA MÍSERA HORA, no decorrer de 27 meses (incluindo sábados, domingos e feriados), a empresa do senhor Valadares arrecadou – SÓ DE “COMISSÃO” - o corresponde a 8,39 salários mínimos (hoje em R$ 622,00).
Apesar dos números impressionantes, o Governador do Estado, Cid Gomes (certamente que orientado pelo irmão Ciro Gomes, ex-empregado do senhor Arialdo Pinho) já “decretou” que não houve qualquer “tráfico de influência” do sogro (atual poderoso Chefe da Casa Civil) em benefício do genro querido.
Como a tendência, lamentavelmente, é o assunto esfriar ou arrefecer (ou passar por um providencial “esquecimento”) por parte dos meios de comunicação, espera-se que pelo menos o Ministério Público Federal não deixe pedra sobre pedra e vá fundo na investigação, visando debelar a fedentina que exala dos corredores e salas   que abrigam a cúpula do Governo Estadual.
De outra parte, matreiramente, a empresa Promus, querendo desviar o foco da questão principal, (se houve ou não tráfico de influência e o porquê dos juros exorbitantes cobrados) saiu com uma extensa e risível matéria paga nos principais jornais de Fortaleza, desafiando o Deputado Estadual Heitor Ferrer a abrir mão da sua imunidade parlamentar, sem, contudo, apresentar quaisquer provas que sirvam para descredenciar as denúncias levantadas pelo parlamentar ou, sequer, dispondo-se a abrir mão do seu sigilo bancário.

As plantas da varanda
Amanheceram dançantes
Ordenam que eu relaxe
E traga-lhes flores do campo
Horas que se arrastam...
Meu coração em sobressalto
Solfeja uma canção...

Parece tão perto do ontem
Parece tão longe das construções
Que entremearam vidas...

socorro moreira

Na Rádio Azul



terça-feira, 24 de abril de 2012

Carybé - Emerson Monteiro


Hector Julio Páride Bernabó, conhecido por Carybé, foi um artista plástico argentino que viveu na Bahia, marcando presença com trabalhos de desenhista, ilustrador de livros, pintor, escultor, gravador, nome expressivo da arte baiana do seéulo XX, ligado à elite que assinalou fase marcante e trouxe fama internacional ao ricopanorama cultural da Boa Terra.
Conheci  Carybé nos inícios dos anos 70, ao desenvolver um programa do Banco do Brasil para divulgação do Cheque Ouro junto  aos artistas e intelectuais. Abri sua conta no banco e cuidei do acompanhamento desse novo cliente. Sempre que precisava de resolver algum assunto na agência, ele subia ao terceiro andar, indo me encontrar na Secretaria da Gerência.
Tipo alto, magro, de tez clara, olhos acesos, roupas folgadas de características irreverentes, por vezes manchadas de tinta ou cimento, isto quando produzia o célebre painel que existe na confluência da Avenida Sete com a Rua Chile, em frente à Praca Castro Alves. Usava sandálias japonesas ou andava de pés descalços, alegre, simpático; merecia dos baianos afetivo carinho e continuado respeito; amigo de Jorge Amado, de quem ilustrou o livro Gabriela, Cravo e Canela; de Floriano Teixeira, Mário Cravo Júnior , Dorival Caymmi, doseleto clã no qual fulgurava nos encontros da boemia consagrada de seu tempo.
Já no Cariri, época do Navegarte, em Crato, na década de 90, eu visitei exposição do artista, promovida pelo País atrravés da Fundação Banco do Brasil, com desenhos retratanto os costumes e pessoas representativos do povo da Bahia, com destaque para as dancas, a música, a religiosidade, a capoeira, a pesca e as mulatas, fixação constante da obra de Carybé, nas imagens pitorescas com que perenizou a vida comunitária rica em cores e movimentos, tema bem próprioao talento dos gênios de seu porte.
Assim, paro e revejo de memória a produção eclética de Hector Barnabó, Carybé, argentino de nascimento e baiano de coração, um marco indelével das belas artes no Brasil da segunda metade do séculoque passou.

Por socorro moreira


Existia um teclado imaginário
Uma voz aveludada
Cantarolando canções de amor
Que eu já sonhara

Existia um viver intenso
Num pequeno espaço
Onde uma vitrola de brinquedo
Era um convite ao enlace...

Paulinho da Viola implicava
Em lindos versos
Numa música que obrigava
entregar aos céus
Sorrisos de felicidade
Entre cerejas e luar
Bebíamos a madrugada.

Faltava algo?
Algo parecia incompleto?
Quem entende os desígnios da alma?
- Faltava um tempo paralelo
Para um fechamento no final dos tempos

Final?
Hoje é recomeço...
Os olhos saem da opacidade,
E se rendem...
Fazendo a teia da mulher rendeira
Quando o amor volta e se achega pro seu lado.




Nota!

Amigos queridos,

Vou ficar afastada por uns  dias. Volto em breve e com  saudades. Aqui faço a alegria do meu dia a dia.
Solicito aos colaboradores que não descuidem da manutenção deste nosso cantinho.

UM GRANDE ABRAÇO, E ATÉ  A VOLTA!

Por Socorro Moreira - Faz de conta...



Que hoje é um dia qualquer da minha vida
foi recortado do passado
ou chegou do futuro, ainda novinho

Faz de conta que o meu presente é esse dia
E nele eu reponho a poesia, o verde, a minha alegria.

Faz de conta que você contracena comigo
Que sorri, e me fala num carinho.

Faz de conta que contigo sou fada sem varinha
Que tu és mago com cajado, e lanterninha
Que a água está gelada, que a fonte de mim
É você quem mina e mima!

Pára um só minuto...
Abraça-me com todos os beijos que eu perdi
Como certo dia,
em que eu vi teus olhos,
e nem versos , fiz!

Hoje malhei em ferro frio
viajei na maionese
conversei fiado
passeei no futuro
reencontrei o passado

O presente foi longo
mas não vi resultados
vou dormir sem
escrever nas estrelas,
colhendo na lua
um verso extraviado.

Hoje pairou uma dúvida ...
Mas, que importa ,
se às vezes sonho errado?

Amanhã eu acerto o passo
reforço a cura
de uma inquietação
que virou paz !

Daqui a pouco
quando o dia amanhecer
eu te acho
em meus guardados !


socorro moreira

Meu coração é um deserto, mapeado por oásis insondáveis.
Um dia você chegou...
Chegou num verso, e assentou a rima do meu lado.
Ainda vivo esse encanto, aos pedaços.
Nem foi preciso beijar um sapo...
 Ele se transmuta em todos os personagens
idealizados pela incompletude da minha alma.
Fique quietinho...
Não escape pela porta dos fundos...
A porta da entrada está selada !

socorro moreira

Amar Verbo Incondicional- José do Vale Pinheiro Feitosa





eu amo teu olhos baços,

não como lembrança do brilho de outrora,

amo as luzes finas,

penumbras que traduzem detalhes,

pupilas que escondem universos,

pálpebras pregueadas de resguardos,

amo teu olhar lento,

penetrando o irrevelado,

e assim me deixa leve,

leve de palavras não ditas.

como amo tuas rugas universais,

cada trajeto de tuas veias tortas,

as vigas musculares de tuas mãos,

as manchas solares de teu corpo,

amo a trajetória no tempo,

a longa espera dos espaços,

amo a delicadeza de tua pele frágil,

cada detalhe da superfície de teu mundo,

este mundo ao qual gravito.


amo teus cabelos opacos,

a rebeldia dos fios esquecidos da cor,

cada mecha que diz até aqui vivi,

o modo displicente que parece pouco,

quando na verdade foram muitos anos,

e tantos que parecem evocativo sésamo,

sobre os ombros como se nunca houvesse fim.

amo tua coragem de viver,

pois a beleza não é estética plástica,

é um pouco de forma, um tanto conteúdo,

como uma fera que teima sobreviver,

uma criança que se deita no colo para sonhar,





amo tua virtude de envelhecer,

sendo outra a cada passo e a mesma no horizonte,


amo teu ardor de viver,

pois a beleza não é grade de juventude,

ela é o que meus olhos amam,

como amo teu olhos baços,

tuas rugas universais,

teus cabelos opacos,


subterfúgio para amar tua coragem.


brilham na mesma direção

olhos que se cruzam ?
Uma é bela
a outra é lua !
Energia amorosa
que se espalha
envolve caras
invade corações
Até os mais distantes !
Acho que vou morrer me apaixonando
Embora a minha paixão tenha mudado de cor...
É prata , querendo ser ouro !

socorro moreira

Na Rádio Azul


Pássaro na Vidraça - por Everardo Norões




súbita pulsação
na vidraça
luz
na lágrima parada
entre espaços
onde tudo se dissolve
(ínfima poeira
nas Galaxias)
uma
vertiginosa lor
explodida
dntro
de si
mesma

Saudade
Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo

em dicionários antigos e poeirentos

e noutros livros onde não achei o sentido

desta doce palavra de perfis ambíguos.



Dizem que azuis são as montanhas como ela,

que nela se obscurecem os amores longínquos,

e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)

a nomeia num tremor de cabelos e mãos.



Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,

seu segredo se evade, sua doçura me obceca

como uma mariposa de estranho e fino corpo

sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.



Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado

desta palavra branca que se evade como um peixe?

Não... e me treme na boca seu tremor delicado...

Saudade...




Pablo Neruda, in "Crepusculário"


Tradução de Rui Lage

Por Socorro Moreira






E o espinho disse pra flor:
De ti aspiro o perfume,
a sombra da tua cor
Existo porque te protejo
Sou teu ponto fálico
Sou teu amor!
Se te amar
Marca-me de solidão
Aquieto minha alma
No vazio da tua mão !


Olhos atentos te descobrem
E não adiantam todas as voltas
As meias, as teias...
Nem o decote, que decora
Lá fora a lua some,
engolida por um dia.
Adormeço dos meus olhos,
E sinto que estou sozinha!

Poema de Adélia Prado


Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.


O texto acima foi extraído do livro “Poesia Reunida”, Editora Siciliano – São Paulo, 1991, pág.99.

segunda-feira, 23 de abril de 2012



Amizade não respira burocracia
Amizade não escolhe nem hora nem dia
Amizade é leal, é legal e faz bem
Faz o bem sem dizer a quem fez
Fez e faz tudo que pode, tudo que é capaz
Amizade é amiga, não alimenta intriga
Amizade é de graça, é semeada na praça
Amizade é surda para a crítica barata
Amizade nos ampara diante da fera
Amizade não tem medo de ser sincera
e avisa do perigo que rodeia seu amigo
Amizade é pão, amizade é trigo
Amizade é cimento que garante a construção
Amizade é fermento que faz bem ao coração
Amizade é a primeira forma de amor
Amizade é o barro do santo no andor
Amizade é o copo d'água na hora da sede
Amizade é o retrato no branco da parede
Amizade não tem preço e faz a prece
pra o amigo receber sempre tudo que merece
Amizade é o unguento que alivia
Amizade fortalece com o tempo
Amizade compartilha sua sorte
Amizade multiplica pães e peixes
e não se acaba com a morte

Os Pavôs e seus Filhetos


Zé Ramalho, em uma música famosa, criou uma denominação no mínimo curiosa: “Avohai”. Segundo ele um misto de pai e avô. A canção brotou de uma “viagem” do artista, numa das ruas de Olinda, aí pelos anos 70. Há certamente um quê de visionário neste delírio psicodélico do Zé. A partir daí , como por encanto, multiplicaram-se os Avohai´s. É que a revolução sexual, desencadeada mundialmente nos libertários e fulgurantes anos 60 , só aportou em terras brasileiras nas décadas subseqüentes. Aí começaram a se multiplicar os filhos desta liberdade, nascidos de pais adolescentes, em meio aos dourados sonhos juvenis e que acabaram por ser criados e educados pelos avós. Claro que , de alguma maneira , o aparecimento imprevisto destes bebês sobrecarregou toda uma geração que já imaginava ter cumprido o seu dever com os próprios rebentos, mas por outro lado encantaram e deram vida estes guris a pessoas que muitas vezes se consideravam inúteis e incapazes . De repente viram suas vidas florescerem com a chegada buliçosa dos netos.

Nos dias atuais, esta geração, que poderíamos chamar de “filhetos” ( uma mistura de filhos e netos), já cresceu o suficiente para ter a certeza absoluta de que o mundo lhe pertence, no que não está em absoluto errada.. O problema talvez diga respeito à porqueira de mundo que herdaram. A violência campeia por todo o país; as drogas anteriormente utilizadas com uma certa aura ritualística hoje se banalizaram e atapetam os noticiários de tragédias; o suicídio entre adolescentes aumentou para proporções inimagináveis; o aproveitamento escolar parece uma lástima. Talvez hoje se devesse mudar a denominação de “Avohai” para “Pavô” , tamanho o medo que vem assolando os pais e avós com o destino de seus descendentes. Os meninos nos parecem hoje totalmente perdidos : estudam pouco; suas festinhas começam depois da meia noite; quase não lêem um livro qualquer que seja; têm iniciação sexual geralmente com os primeiros namorados; parecem-nos extremamente irresponsáveis e inseguros; quase na sua maioria fazem-se muito pouco espiritualizados e a droga lhes é uma palavra bastante corriqueira e pouco tenebrosa. Além de tudo muitas vezes mostram poucas perspectivas de crescimento intelectual e profissional. Até mesmo o sonho de independência das gerações anteriores, eles não mais os têm: se pudessem jamais sairiam de casa. No casamento já não juram até que a morte os separe, mas até que a primeira briga os aparte. Separados retornam para “casa paterna , seu primeiro e virginal abrigo” , geralmente com os filhos a tiracolo.

O primeiro ímpeto dos “Pavôs” leva à conclusão mais óbvia: as velhas gerações foram mais bem educadas e seus guris aparentavam bem mais resolução e desenvoltura e bem menos vícios acachapantes. Diz-se, também, à boca miúda : estudávamos mais e tínhamos mais gana de mudar o planeta. Esta postura, no final das contas, não traz embutida nenhuma novidade, ela se repete em moto-contínuo de geração a geração. Os novos hábitos vêem-se com reserva, os novos costumes interpretam-se de forma bastante crítica. Com a mesma intensidade que os adolescentes confrontam as antigas verdades, os mais velhos torcem o nariz para as novas formas de pensar e ver o mundo. Mas afinal as deformidades tão facilmente apontadas nos “filhetos” têm ou não fundamento ?

Vamos por partes. Em primeiro lugar eles herdaram um mundo construído pelas gerações que lhes antecederam e tiveram que rapidamente se adaptar à triste herança que lhes legamos. A violência generalizada os tornou inseguros bem além da insegurança normal da idade e os prende mais fortemente ao ninho dos pais. Lêem e estudam menos na visão tradicional destes dois verbos, pois hoje têm uma infinidade de meios de obterem o conhecimento fora das páginas dos livros : a TV, o computador, a Internet, o telefone, o vide-cassete. Com o bombardeio incessante dos meios de comunicação ligam-se mais à imagem do que à palavra. O mundo que lhes legamos, por outro lado, lhes tolhe as perspectivas de um crescimento interior : a todo momento a geração dos “Avohai´s” lhes prega a verdade material : a felicidade está no consumo, é mais importante calçar um tênis Nike do que degustar Sêneca. A religiosidade dos novos foi em muito tolhida pelos “Pavôs”, cientes de que uma das formas de liberdade era a da escolha de credo e de que ninguém tinha o direito de impingir isto às crianças. A liberdade sexual também herdaram do grito libertário dos hippies dos anos 60 , o “Fica” faz-se apenas uma remasterização do antigo “sarro” ou “Casquinha”. O embevecimento no uso de drogas alucinógenas veio, certamente, da mesma fonte dos hippies e beats. Foram, também os “Avohai´s” que lhes deram aulas sobre a dissolubilidade do casamento que acaba sendo uma busca de felicidade comum( mesmo que efêmera) e não uma condenação às galés perpétuas. Talvez muitos deles não lutem por um crescimento profissional por vias mais retas porque a todo instante têm exemplo de que para chegar no éden do consumo existem veredas mais curtas: os pistolões, as maracutaias , a corrupção, a sonegação, o baba-ovismo. Estas aulas todas lhes ministraram as gerações anteriores, através da concreta arma do exemplo.

Antes de criticá-los e tecer previsões sombrias sobre seu destino é imprescindível lembrar que eles apenas estão inseridos num outro mundo cheio de avanços fenomenais e deformidades terríveis e esta ordem de coisas eles a herdaram . Talvez, apenas, se encontrem atônitos e embasbacados sem saber bem o que farão com tamanha batata quente nas mãos. Tomara que , com a força transformadora da juventude, consigam corrigir os rumos da humanidade e fazer deste planeta um lugar mais justo, mais solidário e mais respirável. Se não conseguirem este intento, ao menos terão o direito de pôr a culpa na próxima geração, exatamente como têm feito os seus “Pavôs” .

J. Flávio Vieira


Peluso: destempero na despedida (transcrição)

Na quinta-feira 19, o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ser presidido pelo ministro Carlos Ayres Britto, que completará 70 anos de idade em novembro e terá de deixar as funções, salvo se, até lá, for aprovada a apelidada “emenda da bengala”. Essa emenda-constitucional muda o regramento ao passar para 75 anos a idade limite de aposentadoria compulsória aos servidores públicos.
Fora o grande preparo jurídico, Britto tem marcado a sua trajetória na Corte pela ponderação, equilíbrio e independência. E não terá dificuldade em colocar uma pá de cal no mal estar criado pelo seu antecessor, Cesar Peluso, que se comportou, na véspera de deixar a presidência do STF, de forma destemperada, para dizer o menos.
Peluso atacou, pesadamente e sem razão, a presidenta Dilma Roussef que, diante de uma explosiva crise econômico-financeira internacional, não reajustou os vencimentos dos magistrados e, por tabela, o de todas as carreiras jurídicas assemelhadas. Ou seja, evitou o conhecido “efeito cascata”.
À suprema magistrada da Nação, por não ter contentado o bolso das togas, Peluso atribuiu violação à Constituição e descumprimento de decisão do Supremo. O ministro, que cai na compulsória em setembro próximo e poderá ficar no caso de vingar a emenda da bengala,  criticou também o colega Joaquim Barbosa, a sua vice no Conselho Nacional de Justiça, Eliana Calmon, e o senador Francisco Dornelles, responsável pelo arquivamento de projeto de emenda Constitucional (PEC) fundado em proposta de Peluso de aceleração de processos.
O ex-presidente do STF atribuiu insegurança ao colega pelo fato de o próprio Barbosa achar que chegou ao Supremo não por méritos, mas pela cor da pele. Sobre Calmon, disse não ter contribuído em nada, tendo sido uma espécie de Operação Mãos Limpas italianas, que não condenou ninguém. Calmon, até agora, não lhe respondeu e até poderia lembrar que, ao contrário da sua afirmação, ganhou dele todos os embates. Ao contrário de Peluso, abriu as portas para acabar com o corporativismo assegurador de impunidade a magistrados com desvios de conduta e tornou os tribunais mais transparentes. Quanto à Operação Mãos Limpas, Peluso esqueceu, dentre outras,  da condenação definitiva de Betino Craxi, primeiro-ministro italiano obrigado a fugir para a Tunísia para evitar a prisão.
Quanto a Dorneles, o ministro olvidou do vetusto princípio da separação dos poderes. Não bastasse, ouviu de Barbosa um juízo negativo: “se acha e não sabe perder”.
O STF, depois da trágica gestão de Gilmar Mendes, viveu na presidência de Peluso tempos de defesa corporativa. Mas com o mérito de apagar a imagem, deixada por Mendes, de agradar a grupos formados por potentes e poderosos. Peluso deu transparência ao STF e não deixou fora de pauta feitos sobre questões de interesse social relevante.
Walter Maierovitch é jurista e professor, foi desembargador no TJ-SP

GASTÃO LAMOUNIER- Norma Hauer




Ele nasceu no dia 22 de abril de 1893, em São Paulo, recebendo o nome de Gastão Marques Lamounier ou apenas GASTÃO LAMOUNIER, como ficou conhecido.

Muito jovem veio para o Rio , aqui se encontrando com Mário Rossi (que viera de Petrópolis) com quem compôs “...E O Destino Desfolhou”, gravação original de Carlos Galhardo.

Mas quem lançou essa valsa, em estúdio, foi Albenzio Perrone, que ficou aborrecido por Gastão dá-la a Carlos Galhardo para gravar..

Compôs várias outras valsas que se tornaram famosas e continuam a ser lembradas em muitas serestas, entre as quais, "Arrependimento", com Olegário Mariano; "Suave poema de amor", com Mário Rossi e "Há um segredo em teus cabelos", com Osvaldo Santiago.

Em 1929, convidado pelo cantor Albenzio Perrone, ingressou na Rádio Educadora onde permaneceu por mais de dez anos, chegando a ser diretor artístico, além de criar o "Programa Lamounier", no qual atuaram inúmeros nomes da música popular brasileira.

O mesmo Albenzio Perrone gravou em 1939 as valsas "A vigília da Lâmpada” e "Lição de amor".

“A VIGÍLIA DA LAMPADA”

Meu amor eu confesso que não posso

Reviver o romance que viveu

O alegre apartamento que foi nosso

E agora, vazio, é apenas meu.



Sinto esmagar-me uma saudade estranha

Nesta noite de insônia e de tristeza,

Em que, fielmente, apenas me acompanha

O abajour que deixaste sobre a mesa.

Há uma penumbra, mística de prece,

A luz do abajour pouco ilumina

Meu abajour, de seda, ele parece

A saia de uma louca bailarina



E à sombra do abajour, macia e doce

Recordo, tristemente, o nosso amor

Vendo a lâmpada a arder, como se fosse,

Meu coração ardendo em teu louvor.



. Em 1945, o "Programa Lamounier" passou a ser apresentado na Rádio Nacional e posteriormente na Rádio Clube do Brasil.

Sua valsa “Há um Segredo em Teus Cabelos” recebeu letra de Oswaldo Santiago e se transformou em um “jingle” para um produto de nome “Juventude Alexandre”.

Sílvio Caldas gostou da música e gravou-a, tendo na outra face do disco a valsa, também de Gastão Lamounier “Só Nós Dois”.


HÁ UM SEGREDO EM TEU CABELOS

“Em teus cabelos de seda,

Que perfume, que aroma sutil.

Dos sonhos pela alameda,

Bailam flores, num baile gentil

Há um segredo cantando,

Trescalando uma essência de flor.

Onde vibram ardejos, desejos.

Misteriosos eflúvios de amor.”

O “jingle” terminava e o “Speaker” (como os locutores eram conhecidos na época) anunciava a Juventude Alexandre.afirmando que o produto deixava o cabelo “trescalando uma essência de flor”.

Gastão Lamounier faleceu em 28 de janeiro de 1984, aos 91 anos.

Norma

AURORA MIRANDA- Norma Hauer



UMA AURORA EM SEU CREPÚSCULO


Ela nasceu no dia 20 de abril de 1915 e, em plenas festas natalinas, ela despediu-se, sem mesmo esperar Papai Noel.. Quem sabe ele a levaria para encantar as crianças de outras paisagens? Ou mesmo se transformasse naquela Aurora Boreal tão amada em terras gélidas?

Ela foi grande, tão grande quanto sua irmã famosa, mas esta, mais exuberante, mais ousada, quase a ofuscou.

André Filho, que já lhe dera para gravar um bonito "Bibelô", ao compor sua
“Cidade Maravilhosa", deu-a para que ela tivesse a primazia de gravar aquele que, anos mais tarde, se tornaria o Hino de nossa Cidade, ainda maravilhosa e que deveria estar triste com sua partida.

Mas, em plenas festas de fim de ano, poucos referendaram sua memória, poucos ilustraram sua partida, pouco destaque lhe deu a Imprensa. Não deve ser fácil ter uma irmã famosa.

Foram, ela e sua irmã Carmem, as primeiras "Cantoras do rádio"..

Nós somos as cantoras do rádio
Levamos
a vida a cantar...
De noite, embalamos teu sono
De manhã, nós vamos te acordar
Nós somos as cantoras do rádio
Nossas canções, cruzando o espaço azul
Vão reunindo num grande abraço
Corações de Norte a Sul!

Canto pelos espaços afora
Vou semeando cantigas
Dando alegria a quem chora
Bum, bum, bum...
Canto, pois sei que a minha canção
Vai dissipar a tristeza
Que mora no teu coração!

Canto para te ver mais contente
Pois a ventura dos outros
É a alegria da gente
Bum, bum, bum...
Canto e sou feliz só assim
Agora peço que cantes
Um pouquinho para mim!

Antes de o rádio abrir-lhes as portas para a fama, os cantores populares apresentavam-se em teatros, circos, feiras e qualquer lugar onde houvesse público para aplaudí-los.


O rádio levou-os para as casas desse público e ali, Aurora Miranda desabrochou com sua voz afinada, bonita, parecida com a de sua irmã, mas com personalidade própria.


Ela também esteve em Hollywood; com as figuras de Walter Disney (Zé Carioca à
frente) foi a atriz principal de "Você Já Foi à Bahia?", "dançando" com Pato Donald e companhia.

Ela viveu 90 anos, nascida que foi em 1915. No mês de abril (dia 20), sob o signo de Áries, que abre o ano zodiacal.

Faleceu no mês de dezembro de 2005 (dia 23), mês que fecha o calendário oficial.

Duas datas que ficarão na lembrança de quantos a amaram e com ela cruzaram sua
vida terrena.


[Norma Hauer]