por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
segunda-feira, 6 de julho de 2015
domingo, 5 de julho de 2015
quinta-feira, 2 de julho de 2015
O prisma
J. Flávio Vieira
Na Sexta-feira última, a Suprema
Corte dos Estados Unidos legalizou o Casamento entre pessoas do mesmo sexo. Na
prática, os cinquenta estados federados , agora, não mais poderão se negar a
consolidar uniões com base apenas na heterossexualidade. A questão do
Matrimônio Gay se arrastava há muitos e muitos anos. Desde 1996, havia Lei
Federal, emitida pelo então presidente Bill Clinton, que proibia esse tipo de união. A partir daí, no entanto,
vários estados americanos foram, pouco a pouco , com base em suas Constituições
Estaduais, quebrando o veto da Lei de Clinton e emitindo licenças para
casamento. Quando da votação histórica , já trinta e seis estados tinham
avançado neste sentido, restando apenas quatorze que ainda se mantinham irredutíveis. Na última sexta feira, por fim,
os juízes da Suprema Corte tiveram que decidir se os Estados americanos tinham
ou não a obrigação constitucional de emitir as licenças de casamento para
casais do mesmo sexo e, mais, reconhecer as uniões feitas nos outros estados da
federação. Finalmente, depois de uma longa queda de braços, a bandeira
multicolorida terminou hasteada festivamente nos mais recônditos locais dos EUA.
A decisão da Suprema Corte, é bom que se entenda, não só permite um ato
simbólico de casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas estende os benefícios
sociais e pensões públicas aos parceiros dessas uniões.
A
decisão do último fim de semana já nem parece tão polêmica aqui no Brasil. Nos
últimos anos, a questão, entre nós, já parece totalmente sobrepujada. Nossos
tribunais já têm clara orientação de proceder aos enlaces independentemente de
sexo. Aos poucos , como é de se esperar, as solenidades vão ficando perfeitamente
naturais. Quem hoje ainda lembra da polêmica questão do Divórcio, que acalentou
fervorosas discussões no Brasil nos Anos 70 ? Hoje é um ato tão simples e
corriqueiro como o matrimônio. A Libertação dos Escravos movimentou toda a
Sociedade Brasileira no final do Século XIX em times a favor e contra. Hoje
tentamos, todos, nos esquecer daquela violência institucionalizada. Como
sempre, as Lei vêm sempre a reboque do curso natural dos comportamentos e
costumes.
Talvez
o mais chocante na decisão da Suprema Corte more na constatação de como um país de primeiro mundo como os EUA, a
mais importante Economia do planeta, tenha demorado tanto para tomar uma
decisão tão importante e libertária. Como um país tão avançado e aparentemente
liberal nos seus costumes permaneceu cego durante tanto tempo ? Como fechar os
olhos para a realidade cristalina à nossa frente? A família deixou de ser
aquele idílico núcleo de pai-mãe-filhos. Hoje as possibilidades são infinitas :
mãe-mãe-filhos, pai-pai-filhos, avó-avó-filhos-netos, mãe-sozinha, pai-sozinho,
mãe-doador de sêmen-filhos, pai-mãe-barriga de aluguel-filhos, doador de
sêmen-barriga de aluguel-filhos-pai adotivo ... Como compreender, assim, que um
casal de gays, vivendo muitos e muitos
anos juntos, construindo todo um patrimônio a quatro mãos, com a simples
separação do casal, uma parte seja totalmente prejudicada, sem qualquer
intervenção possível do Estado ? E em caso de morte de um dos cônjuges, onde estará a justiça para fazer o viúvo/viúva
herdeiro, com direito à pensão do seu parceiro ? Qualquer um dia nós pode
carregar sua carga de preconceitos, suas pessoais interpretações religiosas, mas
o Estado deve ser um juiz totalmente imune a quaisquer tipos de preconceitos e,
mais que tudo, laico.
O
utilitarista Stuart Mill dizia, com propriedade, que apenas uma coisa
justificaria a criação de uma Lei: impedir que minha liberdade fira a liberdade
dos outros. A justiça , assim, não tem jurisdição sobre o banheiro, a alcova, os hábitos de vida, os
desejos de qualquer cidadão desse planeta. A ninguém deve interessa o caminho
que qualquer um tome, com quem cruze na sua viagem, desde que não se atropele
ninguém no percurso : cada um de nós
determina o sentido e a direção da própria vida. O Estado deve apenas estar, a
todo instante, do nosso lado, nos
amparando e auxiliando no itinerário. Em tempos de tamanha
violência, de tanto individualismo, que o Amor floresça como rosa, como lírio,
como cacto !
De
qualquer maneira, a sentença da Suprema Corte traz consigo um simbolismo imperecível.
Os grilhões do conservadorismo terminam sempre quebrados pela gazua da
modernidade. Desde sexta-feira última, o mundo ficou mais respirável. Ante a
luz ofuscante do passado opressivo insinuou-se o prisma do novo e refez-se o
milagre da refração com o Arco-Íris pintando o mundo de esperança.
Crato, 02/07/15
quarta-feira, 1 de julho de 2015
O "CONTADOR DE HISTÓRIAS" - Demóstenes Ribeiro (*)
Ele estava na fila de
emprego e, apesar dos seus cabelos brancos, o reconheci de imediato. Preto e
baixinho, mas ainda esbelto e musculoso como o conheci na infância. Lembrei do
tempo em que ele recolhia o lixo da cidade, numa carroça puxada a burro,
encantava a meninada com estórias fantasiosas e tirava cocos de onde ninguém
tinha coragem.
Ao anoitecer,
deslumbrava a gente com a saga do pavão misterioso, as desventuras de Camões e
as travessuras picantes de Bocage. Outras vezes, era a aparição do monstro
Labatut, o tempo do rei e do império.
Para ter mais
veracidade, suas estórias eram herança de família, contadas pelo tetravô,
escravo alforriado, que conheceu D. João VI e participou de beija-mãos no Paço
Imperial. O monarca seria um tipo afrescalhado, imundo e medroso de trovoadas.
E a rainha, Carlota Joaquina, feia e maluca, lhe enchia de chifres, embora
também não tomasse banho.
Então lembrei-me de uma
eleição acirradíssima, onde a UDN, controlando o juiz e o delegado, impediu a
oposição de instalar auto-falante em qualquer prédio da cidade. A proibição, no
entanto, esqueceu os coqueiros e ele foi chamado para colocar o transmissor no
ponto mais alto da cidade. Com o aparelho e fios amarrados à cintura, escalou o
coqueiro e instalou o equipamento. Assim, sem infringir a lei e deixando os
adversários estupefatos, a “Voz do Cariri” entrou no ar e conduziu o PSD para a
vitória.
Depois, já na
meia-idade, ele se aproximou da Igreja. Sonhava ser da “Irmandade do
Santíssimo” e participou de procissões. Num “Corpus Christi”, vestiu um terno
branco usado e folgado, porem com boa figura sob a opa vermelha da irmandade. À
frente do palio, contrito, mas desajeitado, destoava dos irmãos ao conduzir o
castiçal e a vela inclinados, quando deveriam estar na vertical. Ao ver a cena,
dona Lídia, na calçada, não perdoou o gritou: “apruma a vara, Zé” ! A procissão
inteira interrompeu “...queremos Deus, que é o nosso rei...” e caiu na
gargalhada. Monsenhor Feitosa, zangado, por pouco não excomungou todo o mundo e
derrubou a custódia.
Por fim, as lembranças
pararam, bati em seu ombro e perguntei: e aí, ainda contando estórias ? - “Que
nada” respondeu sexagenário e triste, sem a vivacidade de outrora. – “Com a
terceirização, fui jogado na rua. Minha esperança agora é esse emprego de
coveiro, aqui no cemitério. Parece que vai dar certo. Afinal, eu entendo de
lixo e o que não falta em minha vida é alma penada”.
(*) Demóstenes Ribeiro (médico
cardiologista, filho de Missão Velha e atualmente radicado em Fortaleza, em
plena atividade)
terça-feira, 30 de junho de 2015
Tem um grande hotel em teu mundo ? - José do Vale Pinheiro Feitosa
Um ambiente muito diferente de tudo que é conhecimento do mundo. Escadas que se sucedem com outras escadas de um andar acima do outro. E apenas sabia que as escadas iam do chão ao sótão. Em cada andar tantas portas, entradas uma após as outras e dentro delas vidas que se multiplicavam em adereços, livros, discos, uma escova para dentes, um pente para cabelos. E ninguém era da família, parente ou aderente.
Um Grande Hotel, numa esquina para a Praça Siqueira Campos, na rua que vai para o Cine Moderno é um portal mágico entre séculos. No mundo do ambiente rural, sem luz elétrica, com água de cacimba, um paiol de milho, estrado levantado de queijos, o silêncio dos automotores, mas o grito do pavão. Um Grande Hotel é, de fato, uma abertura da Aida de Verdi para o interior fabuloso do mundo Egípcio, de um Etíope que cobiçava tal civilização.
Lá morava o professor de Português que corrigia estas falas, os sujeitos e seus predicados. Morou um sujeito dos Inhamuns, saíra do sertão, fora para o Rio de Janeiro, viveu mais de 30 anos naquela cidade e voltou, como os elefantes para morrer em volta de seu lago africano. Tal sujeito dormia e dormia, acordava pelas onze horas e logo comia seu almoço numa bacia carregada de misturas alimentares. O resto do tempo, entre o Grande Hotel e longas conversas com gentes que andam pelas ruas do Crato em busca de conversa como sopro de vida.
O circo chegou na cidade. Isso no tempo que um circo era tão grande que um shopping, destes que sucedem os mitos arquitetônicos da identidade urbana, não chegavam aos seus pés. Eram muito mais variados, animais selvagens, daqueles que só as fitas de cinema fotografaram, palhaços, dramas, trapézios, equilibristas, dançarinas e bandas. Mas o maior de tudo, a multidão que se acotovelava para adquirir uma entrada do espetáculo.
Pois foi na porta do Grande Hotel que a mulher do circo, uma bailarina de seus 16 anos, linda de doer, um sorriso de derreter, um corpo de acender, cabelos em coque que prometiam a enxurrada de todas as paixões. E do Grande Hotel saiu um filete de amor que, feito os versos de Marti, postos na Guatanamera, encantaram mais que o mar, tão imenso a prometer eternidade.
Mas do meu mundo do prédio do Grande Hotel, Edifício Figueira Teles escorre pela Rua Dr. João Pessoa uma permanência que não necessita de substrato para viver. Saindo do número 114, era lá que a cidade me dava um endereço, passava, com algum dinheiro no bolso, na porta da Livraria Católica que conhecia como a palma da mão. Em seguida, estava em frente às portas da loja elegante de Ernani Silva, que além de tudo honrava o centro da cidade, morando num sobrado sobre o próprio negócio. A casa de Dr. Elísio, corpulento homem entre a medicina e seu belíssimo sítio com engenho d´água. Mais alguns passos e encontrava o Deputado Filemon Teles, cabelos brancos de neve, bengala, uma vivacidade de velho político conservador, adonado da vida política da cidade.
Qual o quê? Era na esquina do Grande Hotel, bem no bico com vista plena para exuberância da praça que o menino caia nos braços da urbe luminosa. Um bar, mesa com pés de ferro fundido, tampo de uma pedra branca, cadeiras confortáveis, balcão com mostruário de vidros, o barulho de um refrigerador de picolé e sorvete, azulejos, quadros pendurados nas paredes e móveis de madeira que subiam cheios de vendas acima do balcão.
Nesse bar, sob a vida do Grande Hotel, uma bomboneira de vidro, arredondada e compartimentada, giratória, cheia de sonhos de crianças. A cada pequeno giro os papeis chamativos dos bombons faiscavam nos olhos e mourejavam a boca. Eram tantas as possibilidades que só a cidade pode. O exercício era girar para ver antes de apontar o dedo para o desejo sobre todos outros desejos já conhecidos.
Uma perfeita cor transparente do vermelho com mistura de azul, um solferino de sedução. Impresso um casal, ele vestido com um fraque preto e ela com vestido longo amarelo, dançando aberto como asas em evolução de vôo. Em seguida, um papel alumínio, hoje tão comum, mas, então, um brilho de prata no olhar. Finalmente a terra dos sonhos, com mais da metade em formato de globo e no outro lado um pólo achatado. Tinha este cosmo uma crosta de chocolate puro. Abaixo do chocolate um biscoito crocante, aerado como os waffles. No centro deste mundo de sabor, o núcleo era um mistério doce, com lembranças de castanhas.
E disseram que o Grande Hotel irá abaixo para dar vida a mais uma rua Miguel Lima Verde mutilada ou quem sabe arremedada. E dos escombros, surgirá, como um fênix banal, sem qualquer vida nova, sem simpatia, qualquer identidade, o palco do faz de conta de um Shopping, em inglês mesmo, pois é deste tipo de suicídio que a inapetência urbana vive.
No final quem lembrará do Crato?
Mas um bombom SONHO DE VALSA ninguém me rouba.
José do Vale
*José do Vale Pinheiro Feitosa – nascido na cidade de Crato, Ceará, em dezembro de 1948, morando no Rio de Janeiro há 34 anos. Médico do Ministério da Saúde. Publicou o Romance Paracuru em 2003, assina matérias em alguns blogs e jornais. Em literatura agita crônicas, contos, poesia e ensaios de temas variados. Gosta de pintar e tem alguns trabalhos de escultura.
"CAVALO PARAGUAIO" - José Nilton Mariano Saraiva
Teoricamente,
os brasileiros se acostumaram a tratar pejorativamente os paraguaios, em razão,
principalmente, da existência de uma zona franca de livre comércio numa
cidadezinha paraguaia (Cidad Del Este) vizinha à nossa Foz do Iguaçu, onde os
produtos comercializados são de procedência duvidosa (falsificados), daí o
preço pra lá de convidativo.
Mais tarde e
por via oblíqua, e já na base da gozação, nas competições de “turfe” realizadas
no Rio de Janeiro, quando o animal teoricamente tido como favorito fracassava, de
pronto recebia a alcunha de “cavalo paraguaio”, a fim de expressar o NÃO SER
verdadeiro, ou o SER de qualidade duvidosa, falso.
Posteriormente,
citada expressão difundiu-se por outros segmentos do cotidiano tupiniquim,
dentre os quais o futebol. Assim, quando um determinado time inicia uma
competição com todo o gás e, paulatinamente, começa a “descer a ladeira” rumo à
rabeira, convencionou-se tratar-se de um “cavalo paraguaio”.
A reflexão procura
mostrar que a nossa seleção de futebol não mais que de repente resolveu incorporar
o “espírito da coisa”. Tornamo-nos, sim senhores, um “cavalo paraguaio”, apesar
de alguns experts relutarem em admitir. Tanto é verdade que, no decorrer da recente
partida de futebol em que a seleção paraguaia “genérica” (a nossa) findou por
ser merecidamente desclassificada pela seleção paraguaia “original” (a deles),
o locutor global passou o tempo todo conjecturando sobre a próxima fase da
competição (Copa América), quando nos defrontaríamos com a já classificada
seleção argentina; ou seja, aquele jogo com o Paraguai já estava ganho com
facilidade e, portanto, não deveríamos alimentar maiores preocupações,
guardando-as para o confronto com os “hermanos” portenhos, aí, sim, um jogo de
arrebentar, um jogo de alto nível e, enfim, onde existia a real chance ou
possibilidade de chegarmos à final da tradicional competição.
Além do que, passando,
como passaríamos, pelos paraguaios, os dois jogos seguintes (semifinal e final)
serviriam para que a punição merecidamente imposta ao jogador Neimar cai-cai
fosse “paga” e, assim, nas eliminatórias para a próxima Copa do Mundo o jogador
pudesse atuar desde o princípio. Deu no que deu.
Perdemos (sem jogar
nada) e nem da Copa das Confederações, a ser realizada na Rússia,
participaremos (coisa nunca antes acontecida, desde os seus primórdios). Além
do que, dúvidas começam a surgir sobre se teremos condições de ultrapassar as
eliminatórias a fim de participar da próxima Copa do Mundo de 2018, também na
Rússia.
É que os adversários já
não se assustam com o futebol brasileiro, que se metamorfoseou num sofrível, banal
e simplório “cavalo paraguaio”. É o preço que vamos ter que pagar em razão da
mídia esportiva endeusar jogadores da estirpe de um Neimar cai-cai que,
milionário em razão do futebol, não está nem aí para o que possa ocorrer com a
seleção brasileira.
Alguém tem dúvida ???
"DOAÇÕES"
DOAÇÕES DAS CINCO
PRINCIPAIS EMPREITEIRAS DO PAÍS ( OAS, UTC, ODEBRECHT, QUEIROZ GALVÃO E ANDRADE
GUTIERREZ ) AOS QUATRO PRINCIPAIS PARTIDOS POLÍTICOS DO PAÍS (PSDB, PMDB, PT E
PSB), NO ANO DE 2014:
01) – PSDB – R$ 65,7 milhões (ou 37,0%)
02) – PMDB – R$ 34,4
milhões (ou 19,4%)
03) – PT – R$ 58,1
milhões (ou 32,8%)
04) – PSB – R$ 19,4
milhões (ou 10,8%)
TOTAL – R$ 177,6
milhões (ou 100,0%)
E AGORA, AÉCIO ???
DELAÇÃO
DE RICARDO PESSOA, DA UTC
A
delação (de Ricardo Pessoa, presidente da UTC) divulgada afirma que a eleição
de Dilma drenou R$ 7,5 milhões dos cofres da UTC. Pelo menos aqui Aécio Neves
ganhou da adversária. Sua campanha agasalhou R$ 8,7 milhões do empreendedor
preocupado com a marcha do capitalismo. Interessante: no total, suas doações
declaradas aos tucanos foram maiores do que o dinheiro para o PT, inclusive em
São Paulo.
E
mais: pagou ministros do TCU, deu mesada para o filho do presidente do mesmo
tribunal, comprou o PT, comprou o PSDB, comprou o PSB, comprou o PR, comprou o
PMDB e ainda deu R$ 20 milhões para o ex-presidente Collor.
E
agora, Aécio ???
segunda-feira, 29 de junho de 2015
A PEDRA A SOLIDIFICAR-SE COMO CROSTA DA REALIDADE FLUIDA - José do Vale Pinheiro Feitosa
Fogos alargando a noção de distância ressoam desde a praia.
É o dia de São Pedro, uma procissão católica em face do pescador. Frágeis seres
da terra a balançar nas ondas afogáveis onde as jangadas furam o espaço como
uma flecha indígena.
São Pedro o pescador. Tão simples na escala hierarquizada das
tribos de Israel. Ali a tecer as malhas da rede de pesca. Na margem onde
termina o sólido e começa o líquido.
Alguém como nós. Lutando pela vida. Trabalhando e criando
margem onde os mercadores engordam. Engordam em moedas. Dinheiro que representa
o poder de quem o detém sobre o trabalho de Pedro o Pescador.
Sobre José o carpinteiro. Sobre Madalena e seu corpo de
hematomas a pedradas. E Pedro é isso. Um ser como os simples da terra. Temeroso
da fúria armada dos que transformam trabalho em dinheiro e com esta unção de
poder afoga a fé de Pedro.
E por três vezes negou o que vinha apostolando apenas por
terror à espada. E mais uma vez demonstrou o quanto preservou sua integridade
física abdicando da palavra. Das ideias. Da divulgação pelas terras dos senhores
do sínodo hebreu e das hostes romanas.
E, no entanto, foi este desvio dos enormes obstáculos.
Aquele que temeu. Que se acovardou afrontando-se com a ferida do ferro frio. Foi
ele, que ao centro do Império migrou e, no coração dele, foi pedra para se
erguer a vontade de muitos.
Todos frágeis como ele. Como nós diante destas instituições
pervertidas, poderosas, insanas que carreiam ilusões e fazem da terra e sua
natureza essencial objeto das pedradas a Madalena. Somos Pedro.
É só esperar. Somos alicerce a substituir a ruína imoral do
capitalismo. A embriaguez desta segurança baseada em moedas. Moedas.
Todas elas enfileiradas numa corrente de faz de conta. Com
elos se rompendo por todos os lugares e momentos. As podres moedas que não
passam de uma falsidade ideológica sobre os resultados do trabalho de todos.
Pedro o Pescador. A pedra que se solidificou como crosta da
terra.
domingo, 28 de junho de 2015
TRAMA INSANA - Valdemar Menezes
Analistas
políticos enxergam sinais de uma trama insana para retirar o ex-presidente Lula
da vida política nacional, através do impedimento de sua candidatura em 2018. O
que faltaria é encontrar a fórmula mais adequada para dar um mínimo de verniz
legal à manobra, sem deixar expostas as motivações verdadeiras. Não seria por
outra razão a campanha massiva de destruição da imagem de Lula, bem como a
pressão do sistema para que ele seja enquadrado na Operação Lava Jato, levado à
prisão e assim ter sua postulação inviabilizada pela Lei da Ficha Limpa.
Quer se
goste dele, ou não, Lula é o maior líder de massas do Brasil (isso apesar 30
anos de massacre midiático movido a preconceito e prejulgamentos). Só os cegos
não veriam que ele tem sido o fator de moderação dos embates entre classes
sociais antagônicas, numa sociedade cuja desigualdade escandalosa poderia
fazê-la explodir a qualquer hora. Pode-se dizer que, sem Lula, possivelmente o
Brasil estaria entregue a radicalizações piores ou similares a de países
vizinhos, que não puderam contar com um líder de massas moderado como ele, nem
com um partido de ampla inserção social, comprometido com a institucionalidade
democrática, como o PT (apesar de ter cometidos erros indesculpáveis).
Os “aprendizes
de feiticeiro” podem até ter êxito em suas articulações, mas não sem o risco de
- cedo ou tarde – desencadearem a convulsão social, com grandes probabilidades
de um confronto selvagem entre o andar de cima e o de baixo, quando não mais
existiria o fator de moderação representado por uma liderança popular moderada.
Para o escritor Fernando Veríssimo, a classe dominante brasileira odeia
qualquer sigla que defenda a diminuição de seus privilégios. Brinca,
irresponsavelmente, com a possibilidade de um Brasil convulsionado pelo ódio e
a violência, visto que nenhuma força representativa do sistema dominante tem o
que oferecer aos que querem ter um lugar ao sol e não mais aceitam voltar para
a senzala.
sábado, 27 de junho de 2015
"FHC" - José Nilton Mariano Saraiva
“FHC” – José Nilton Mariano
Saraiva
A notória “má fé” da mídia
tupiniquim em relação ao ex-presidente Lula da Silva (extensiva ao PT, ou até
por isso mesmo) é algo incontestável e digna de masturbações sociológicas.
Talvez porque tenham receio que ele volte em 2018 para mais uma vitória
acachapante sobre a “tucanalhada”, a determinação é, desde já, tentar “baldear
o coreto”, criar “factoides” os mais diversos, mentir despudoradamente, chegar
às raias da insensatez.
Como agora, quando um
desconhecido advogado, useiro e vezeiro em impetrar o instrumento jurídico
conhecido por habeas corpus, sem que os envolvidos sejam consultados, resolveu por
conta própria que deveria “defender preventivamente” o ex-presidente contra uma
possível prisão, por conta dessa onda do “Lava-Jato”. Sem tirar nem por, esta,
resumidamente, a versão correta sobre o surgimento do FHC (fajuto habeas
corpus) em favor de Lula da Silva (que o repudiou, ao tomar conhecimento).
Foi o bastante para que a
desonesta oposição ao governo, irmanada com a mídia corrupta, repercutissem nos
jornalões e nas redes sociais uma versão abjeta e irresponsável sobre,
porquanto dando a entender que o ex-presidente houvera impetrado pessoalmente o
tal habeas corpus, com receio de ser detido.
Como a Internet é uma via de multi-mãos,
não tardou para que os apressadinhos de plantão fossem literalmente desmoralizados
e tivessem que se penitenciar (embora tardiamente, já que houvera ganhado o mundo)
pela deslavada mentira divulgada. Confira abaixo.
Sem querer, querendo
“Nenhum desses cuidados primários foi tomado pela redação da Folha de S.Paulo, na quinta-feira (25/6), ao
noticiar, em sua edição digital, que o ex-presidente Lula da Silva havia
ingressado com pedido de habeas corpus preventivo, na Justiça do Paraná, para
não ser preso como acusado na Operação Lava-Jato. A notícia original foi publicada às 11h25. Cinco minutos depois, uma
nota colocada apressadamente dizia: “ERRAMOS – Não foi Lula que pediu habeas
corpus preventivo; ação foi de consultor sem ligação com o ex-presidente”. A
pequena nota corretiva foi substituída muito tempo depois, às 15h07, por um outro
“ERRAMOS”, que informava: “Versão anterior da reportagem ‘Habeas corpus
preventivo pede que Lula não seja preso na Lava Jato’ informou incorretamente
que o pedido de habeas corpus havia sido feito pelo ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva” (ver aqui). O título, o texto e a
chamada na home page do
portal foram corrigidos, mas a versão original já corria pelas redes sociais, impulsionada por uma equipe a serviço do
senador Ronaldo Caiado (DEM-GO). Mesmo com os sucessivos atentados ao bom
jornalismo que fazem a rotina da imprensa brasileira, difícil acreditar que a
redação da Folha de S. Paulo tenha
cometido um mero erro técnico, uma “barrigada”. Foi mais do que incompetência: foi resultado de um empenho do jornal em
criminalizar o ex-presidente da República, no rastro de um processo que começa
a incomodar alguns dos mais renomados juristas do país, por uma sucessão de
decisões tidas como arbitrárias. O viés condenatório da Folha pode
ser percebido na versão atualizada às 15h32 de quinta-feira, na qual se lê que “segundo o Instituto Lula, qualquer cidadão
pode impetrar o habeas corpus”. O correto e honesto seria dizer,
simplesmente, que “o pedido de habeas
corpus pode ser feito em nome de terceiros por qualquer cidadão”, como saiu
na edição de papel na sexta-feira (26/6) – porque essa é a norma legal, não a
“opinião” do Instituto Lula.
As trapalhadas que se seguiram apenas
aumentaram a repercussão da notícia – e para muitos cidadãos fica a impressão
de que Lula da Silva está na iminência de ser colocado na cadeia – o que não é
verdade, porque ele nem sequer é investigado. Os
outros jornais alimentam essa versão ao publicar textos ambíguos – por exemplo,
o Estado de S. Paulo diz
que Lula “nega que seja o autor do pedido” – frase que não se justifica depois
que o impetrante do habeas corpus admitiu ter agido por conta própria. O episódio dá razão aos impertinentes que
chamam aquele jornal de “FALHA DE SÃO PAULO”.
**********************
Alfim, e a fim de dissipar quaisquer dúvidas, em nota oficial o
juiz da Lava Jato, Sérgio Moro (que está, sim, doido pra pegar o ex-presidente),
houve por bem se pronunciar: “A fim
de afastar polêmicas desnecessárias, informa-se, por oportuno, que não existe,
perante este Juízo, qualquer investigação em curso relativamente a conduta do
Exmo. ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva”.
Particularmente,
entendemos que, como a porteira foi aberta, o risco é que a Justiça do Paraná
de repente se veja sufocada de habeas corpus preventivos impetrados por milhares
e milhares de pessoas que, a partir do governo Lula da Silva se descobriram vivas,
se descobriram existir, se descobriram cidadãos do mundo.
Alguém duvida ???
sexta-feira, 26 de junho de 2015
A Columbia explode na Rua do Amparo
Golvino Cetrônio acreditou, piamente, nos pés do padre, que
aquela cláusula de Eternidade , escrita sorrateiramente no seu contrato
nupcial, era perfeitamente factível. O
carrinho de rolimã do seu desejo havia derrapado nas curvas sinuosas de
Abertiza, uma morena com trinta palmos de frente e uns noventa de fundo. Os
amigos todos até lhe alertaram que aquilo era terra demais para seu caminhãozinho,
mas Golvino fincou pé:
---
Mulher e prejuízo só servem grandes ! Se
não der pra carregar a terra toda de uma vez, levo nem que seja em trinta
viagens !
O
certo é que Cetrônio aceitou a empreita, até mesmo porque descobriu, ali junto do altar, que tinha até à morte
para transportar aquela montanha de terra que o destino acabava de lhe
ofertar. O caminhãozinho três quartos de
Golvino aguentou firme o transporte por mais de trinta anos. Depois disso,
começou a ficar ronceiro, a saltar de marcha, a encharcar , até bater o pino.
Descobriu, então, que seria impossível
cumprir o trato. Abertiza que já era enorme , dobrou de volume e, a montanha
que recebera um dia para carreto, se transformara num Everest. Resolveu
dissolver o combinemos feito um dia no
pé do vigário, as cláusulas tinham se transformado em clausuras. Pensou que
desfazer o acordo seria tão fácil como assinar aquele livro grande do Cartório
. Qual nada! Só então percebeu a
necessidade de tantas testemunhas. Teve que vender os teréns e pagar a
indenização a D. Abertiza.
Golvino,
apesar de depenado, imaginou que fizera um bom negócio. Saíra mais leve no
bolso, mas também na alma. Beirava os
cinquenta, aquela idade em que já não existem mais tantos cartuchos na
cartucheira e muitas das balas restantes
ainda são de festim. Sem freio de mão, o
caminhãozinho de Cedrônio saiu dispinguelado, ladeira abaixo. Atropelou boa
parte das amigas de Abertiza, as colegas de trabalho da “Sapataria Pé
Lustroso” e as clientes mais atiradas. Construiu
, pouco a pouco, um harém particular. Com o passar do tempo, no entanto,
começou a enfastiar de tanta liberdade. Os relacionamentos, todos superficiais,
de lingeries nas cadeiras e não no guarda-roupas, já não preenchiam o vazio da sua alma. Todo mundo precisa de
alguém com quem possa contar além da cama redonda do Motel.
Eis que
Golvino percebeu que o caminhãozinho andava em círculos e tornara ao mesmo
ponto onde um dia começara. Precisava de alguém para dividir as angústias e os
prazeres, até porque, a balança, com a idade, tendia a pesar mais no primeiro
prato. A retomada da Bastilha não
parecia tarefa fácil. Lembrou do velório do casamento anterior e sentiu
calafrios. Ia começar tudo de novo ? Como suportar a putrefação do
relacionamento e suas incontáveis exumações ? Além de tudo, como encontrar a
noiva ideal ? As da sua geração estavam fora de prazo de validade e as mocinhas
traziam seu frescor, mas junto viriam as
Bandas de Forró, os Cantores Sertanejos, as Baladas, as Paredões. Além de
tudo, tinha a quase impossibilidade de
degustar sozinho o banquete e aquele risco
de ficar a testa como casca de jaca.
Pensou,
então, nas namoradas antigas, aqueles que vieram antes do casamento. Nunca, na
vida, a paixão arde com aquele furor da adolescência. Talvez porque o tanque de
combustível esteja cheio, pela tampa. Ademais, aqueles namoros , em geral,
ficaram pelo caminho, longe das vias de fato, deixando um gostinho de
quero-mais inalcançável. E foi aí que, um dia, posou-lhe na consciência, como
um pássaro, a imagem de Sinharinha. Linda, meiga, delicada, tinha sido uma das
suas paixões de Colégio. Tímido, se acercara, tentara , por diversas vezes, um
namoro, um romance, sem qualquer sucesso. Depois, a vida os afastara. Soube que
havia casado com um comerciante importante do Recife e para lá se mudara. Nunca
mais seus caminhos se haviam cruzado. Comentou um dia com os amigos a doce lembrança
e eles falaram de um artifício modernoso
: as Redes Sociais. Precisou da ajuda
dos universitários para adentrar na nova tecnologia. Analfabeto digital ,
diante de teclas e botões, parece mosca em Centro Cirúrgico. Caqueando PC´s e Facebook, deu com o perfil
de Sinharinha. Lá estava diante de uma
foto antiga, com aquele mesmo fascínio que um dia o tocara. Dizia-se novamente
solteira e viu algumas fotos de dois filhos, já taludos e seguindo voo próprio.
Golvino fez também uma página e encimou-a com uma foto dos tempos de colégio.
Armada a arapuca, a partir daí, fez
contato e terminaram em conversas longas
in box. Soube que se separara do
comerciante há uns cinco anos e que, há pouco, se aposentara como professora do
estado. As conversas foram se tornando quase que diárias e evoluíram para
telefonemas. Por fim, Golvino combinou para se encontrarem em Recife, no
Carnaval.
Chegou
na Veneza Brasileira, no sábado de Zé
Pereira, em meio ao frevo solto pelas ruas . Acertara o encontro defronte à Bodega do
Velho, em Olinda, à tarde, na Rua do
Amparo. Para facilitar a identificação Sinharinha prometeu ir de Colombina
e Golvino, já no clima, disse, pedindo licença a Noel, se fantasiaria de Pierrô Apaixonado. Cetrônio nem conseguiu pregar os
olhos pela ansiedade. Na hora de vestir a roupa, no entanto, apareceu um
primeiro probleminha. Levara uma fantasia de muitos anos atrás e, simplesmente,
não entrou naquele corpo antes de bengala e hoje tendendo mais a barril. Chateou-se um pouco, mas , com
ajuda de um primo, resolveu o impasse. Emprestaram-lhe uma longa e
psicodélica cabeleira de Caboclo de Lança . Completou o adereço com
a indefectível rosa nos lábios e os óculos escuros. Chegando lá , imaginou,
daria alguma desculpa esfarrapada e,
certamente, a simples troca do figurino não atrapalharia o script.
Partiu
para Olinda com o coração saltando mais que o ônibus nos seus solavancos. Subiu
a Ladeira da Boa Hora, seguiu a Rua do Amparo e, ao se aproximar da Bodega
do Velho, já percebeu, ao longe, a sua
Colombina. À medida que a distância diminuía, no entanto, um sobressalto lhe
foi invadindo o espírito. Aquela era Sinharinha ? Balofa, bochechuda, cabelos
grisalhos, no rosto não pés-de-galinha, mas todo o galinheiro? Que acontecera com a menina que um dia
conhecera ? Caíra de um avião? Sobrevivera a Colombina à explosão da Columbia ?
Por sua vez, Sinharinha, algo enfastiada, vendo a passagem do Caboclo de Lança,
pensou consigo:
---
Meu Deus ! Será que Golvino não chega ! Anda aparecendo cada assombração nessa
Rua do Amparo ! Isso não é um Caboclo de Lança, mas um Caboclo de Pança ! Xô
Satanás !
Golvino
ainda pensou em se identificar. De
repente , gelou ! O que ela vai pensar de mim ? Vai ter a mesma decepção ? Era
melhor ficar a lembrança dos tempos
passados, pensou nosso Pierrô , agora mais decepcionado que apaixonado. Que fiquem o
Golvino e a Sinharinha do perfil da Rede Social ! Preferiu seguir em frente, como um filho que
resolve não comparecer ao velório do pai, para manter na memória um retrato
vívido e fulgente , ao invés da máscara mortuária.
J. Flávio Vieira
segunda-feira, 22 de junho de 2015
SIM! - José do Vale Pinheiro Feitosa
Não!
Não é a arrogância da fé através da igreja. Esta pesada
edificação plena de verdades últimas e anátemas àqueles que não se humilham aos
pés dos seus longos mantos.
Não foram as agressões apenas porque referência de uma
religião sincrética de forte veio africano. Sequer se trata da guerra
religiosa.
Não foi a concorrência por adeptos que pagam dízimo. Como
também não se trata desta fé cega que se resume aos gritos histéricos de salmos,
apenas ruídos verbalizados.
Não lembre as fogueiras da inquisição. Assim como os
malfeitos dos puritanos a atropelar todo aquele que não segue suas regras.
Sim.
Lembre-se o apedrejamento de uma criança de onze anos.
Uma criança de onze anos.
Onze anos.
Uma criança.
Assim como teu corpo.
Tua dignidade.
Tu.
domingo, 21 de junho de 2015
Soneto pra minha Cidade
Em seu fértil ventre eu não fui gerada
Mas logo cedo, você me adotou
Como sua filha,sinto-me amada,
Você há muito que me cativou.
Mas logo cedo, você me adotou
Como sua filha,sinto-me amada,
Você há muito que me cativou.
Crato, querida tão hospitaleira
De brava gente que sabe lutar
Pedacinho de terra Brasileira
Que sabe conjugar o verbo amar;
De brava gente que sabe lutar
Pedacinho de terra Brasileira
Que sabe conjugar o verbo amar;
Amo você, Crato, minha cidade
Sou-lhe grata pela felicidade
Que sempre preencheu os dias meus
Sou-lhe grata pela felicidade
Que sempre preencheu os dias meus
Você pra mim é a Terra mais bonita
O tique taque que seu coração palpita
É o reflexo das bênçãos de DEUS!
O tique taque que seu coração palpita
É o reflexo das bênçãos de DEUS!
sábado, 20 de junho de 2015
RECORDAR É VIVER ??? - José Nilton Mariano Saraiva
Prá você, aí do outro lado da telinha, que tá surpreso com
MAIS UMA palhaçada patrocinada pelo jogador Neimar-cai-cai, no último jogo do
Brasil na atual Copa América, permitimo-nos transcrever o artigo que postamos
aqui mesmo, em 14.07.2014 (portanto quase um ano atrás) após a extravagante
derrota do Brasil para a Alemanha, na Copa do Mundo de Futebol, e que trata sobre
o dito cujo (Neimar-cai-cai):
...”No mais (e nisso ninguém fala), tivemos também a derrota
da mídia brasileira. É que, antes de se preocupar com os adversários do Brasil
propriamente, a atenção maior foi, antes e durante a Copa (e até agora, após)
tentar incutir da mente dos torcedores que a seleção tinha um novo “LÍDER”
capaz de guiá-la ao Olimpo, levá-la aos píncaros da glória, guindá-la ao
panteão dos heróis imortais: o tal Neimar-cai-cai, que é apenas um bom jogador
e não esse fenômeno que propagam.
Ora, amigos, “LIDERANÇA” não se encontra disponível nas
prateleiras das bodegas da vida do interiorzão brabo, nas gôndolas dos grandes
supermercados das capitais ou nas bancas das feiras-livres da periferia;
“LIDERANÇA” não se compra, não se impõe, não se transfere e nem se atribui via
decreto, bilhete, norma, portaria ou coisa que o valha. “LIDERENÇA” é algo
natural, de berço, carismática, única, personalíssima. E disso o tal Neimar-cai-cai
é desprovido, do dedão do pé à cabeleira moicana.
Assim, nada mais hipócrita que a recorrente imagem da TV
mostrando no túnel de acesso ao gramado o tal Neimar-cai-cai abraçando um a um
os colegas, antes de cada partida, ao tempo em que o narrador global destacava
sua forte “LIDERANÇA” ante os demais; nada mais cafona do que a imagem dos
jogadores entrando em campo para uma semifinal de Copa do Mundo usando “bonés”
personalizados, saudando o tal Neimar-cai-cai (fora do jogo, por contusão);
nada mais ridículo que exibir, durante o canto do Hino Nacional, a camisa do
tal Neimar-cai-cai, como se fora ele um “herói” já falecido, a quem todos
devêssemos reverência (passa longe, bem longe disso). Deu no que deu.”
Agora, e voltando à atualidade:
quem quiser saber das imoralidades, mutretas e falcatruas do mundo futebolístico,
não pode deixar de ler o livro “O Lado Sujo do Futebol-A trama de propinas,
negociatas e traições que abalou o esporte mais popular do mundo” (editora
Planeta do Brasil, 2014, 382 páginas) onde... “os autores desmontam uma intricada
rede de corrupção, que envolve grandes multinacionais, emissoras de televisão,
empresários, clubes, políticos e jogadores”.
Lá, por exemplo, tomamos
conhecimento que “NIKE”, patrocinadora da seleção brasileira de futebol,
indicava quais os integrantes que deveriam compor a comissão técnica da seleção
e, posteriormente, quais os jogadores que deveriam ser convocados por essa mesma
comissão, os adversários que enfrentaríamos e por aí vai; também, em conluio com
a CBF-televisão, que os jogos se realizassem em horários “apropriados” (quase meia-noite);
chegou, inclusive, a impor ao comando técnico da seleção a escalação do Ronaldo
Gordo Nazário, na final da Copa do Mundo da França, mesmo e apesar de dopado
por analgésicos e protegido por coletes ortopédicos que literalmente o
mantinham de pé; lá temos, também, todos os detalhes (inclusive valores e
cópias de documentos) da transação-fraudulenta entre o então presidente do Barcelona,
Sandro Rosell (representante da “NIKE”) e o pai do Neimar-cai-cai, visando sua
transferência para o clube catalão (hoje questionada pelas justiças espanhola e
brasileira); lembremo-nos que à época a imprensa brasileira considerou o “papai-Neimar”
um autentico “mago das finanças” devido à esperteza demonstrada na transação. Deu no que deu.
Enfim, lamentavelmente temos
que aceitar que os desonestos dirigentes do futebol brasileiro e seus jogadores não estão nem aí para com
a antiga paixão nacional, e que o transformaram num antro de corrupção e safadeza,
onde uns poucos se beneficiam com muito.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
O Profeta Apoquetílico
J. Flávio Vieira
Robledo Ipueira terminou eleito, em
Matozinho, com uma votação recorde. O poder político até então se alternava
entre dois grupos acirradamente inimigos : Os Cangatis e os Carrapatos.
De início, ninguém imaginou que a regra pudesse ser um dia estilhaçada. Robledo
nem matozense era. Chegara por ali há pouco mais de dez anos e se meteu no ramo
de mandioca, produzindo farinha, goma e beiju. Os negócios prosperaram ,
impulsionados por seguidos anos de invernos fartos. De conversa fácil e
traquejo no ofício, Ipueira construiu muitos amigos. Toda Matozinho, no
entanto, olhou com ceticismo sua candidatura a prefeito da cidade. Parecia
fadada congenitamente ao fracasso. Depois de tantos e tantos anos de
alternância dos mesmo lobos guarás de sempre, no entanto, os desgastes se vão
tornando insuportáveis. A candidatura de Robledo apareceu, assim, como uma
novidade tanto que, rapidamente , os Cangatis e Carrapatos se uniram pela
primeira vez na história e apresentaram uma chapa concorrente a Ipueira, tendo
como candidato Ronivaldo Cangati e , como vice, Garibaldo Carrapato. Se
vencedores, claro, rapidamente brigariam, mas o intuito era tirar a
possibilidade de um terceiro vir a dividir o bolo político.
Teria
sido, uns cinco antes do período
eleitoral, que por ali aportou um beato
de barbas longas e níveas como leite mugido. Vestia-se com roupas
de saco , sandálias currulepes. Trazia aquele ar de quem não tomou o gardenal
todo : Olhos aboticados e cabelos
desgrenhados. Instalou-se, numa palhoça, numa área próxima à subida da Serra da
Jurumenha. Chamava-se Apurinã , tinha voz pausada e cavernosa e vivia, em seus
sermões, relembrando grandes catástrofes bíblicas e ameaçando os pecadores com
as labaredas do inferno e as sete pragas do Egito. O povo, carinhosamente, o
chamava de Pai Nanã. Aos poucos, o beato foi acumulando seguidores,
principalmente, quando, um belo dia, anunciou o final dos tempos. O mundo acabaria
no dia 28 de Outubro de 1999 de um grande terremoto, seguido de explosões vulcânicas, fogo e,
finalmente, os mares invadiriam as terras num novo dilúvio. Pai Nanã tivera essa visão , num sonho, em que
a Virgem lhe aparecera e alertara: O criador, cansado de tantos pecados da
humanidade, resolvera deletar o mundo e, talvez, começar de novo tudo, após um
upgrade.
O
povo de Matozinho, cansado do mesmismo , empurrou a única porta que viu à frente para fugir daquela enrascada.
Robledo terminou eleito com quase 70% dos votos. Assumiu o governo em 1995,
para a alegria de todos, transportando um caminhão de esperanças. Votação tão
expressiva carregava consigo uma enorme responsabilidade, eram inúmeras as demandas da cidade, após tantos e tantos
anos de “venha a nós e nada a vosso reino”. Rapidamente, no entanto, o povo de Matozinho
descobriu que tinha trocado égua por biroba. Robledo não possuía qualquer tino
administrativo. Envolveu-se com secretários piores que ele. Varava o terceiro ano
do mandato e não se contava uma obra só de relevância no município. Postos de
Saúde fechados, Escolas sem merenda escolar, ruas esburacadas. Ipueira andava
escondido, despachava cada dia em um local diferente, temendo as cobranças. Daí terá vindo talvez seu apelido : ” Robledo Manipueira”.
O
último ano do mandato do nosso edil coincidiu com a terrível profecia de Pai
Nanã. Vendo a cidade devastada, os matozenses descobriram outras razões para
acreditar no fim do mundo. Os dias que antecederam o fatídico 28 de outubro
daquele 1999 foram de intensa agitação na cidade. Todos carregavam um ar de
desespero, como se estivessem perpetrando seus últimos atos . Pai Nanã, uma
semana antes, conclamou todos a subirem para Serra da Jurumenha. Acreditava que
lá em cima, talvez, houvesse ainda alguma chance de escapar do fogo e da
inundação.
Matozinho
praticamente esvaziou naqueles dias que antecederam à previsão terrível de Pai
Nanã. Uma multidão de maltrapilhos se acotovelava em cima da Serra, esperando
as horas finais. Choravam, rezavam, se abraçavam. Pai Nanã exortava a todos pedirem
perdão dos seus pecados e exercerem entre si milagre libertário do perdão. O Dia 28 amanheceu trazendo, já nos seus primeiros raios, claros
sinais do apocalipse vindouro. Uma chuva persistente, com trovões de estalo que
simulavam os tremores de terra previstos para logo mais. O clima entre os fiéis era de gado indo para o
matadouro. À tarde, porém, a chuva cessou e o céu se abriu. As horas se
passaram sem mais atropelos. Quando o dia 29 por fim chegou, sem que nada
tivesse acontecido, trouxe, junto, uma
mescla de alívio e desapontamento. Pai Nanã , desconfiado, tentava entender
onde teria errado na interpretação da profecia. Começaram todos a descer a
serra. Pela trilha íngreme da descida iam se aproximando de uma Matozinho arrasada, suja, triste e esburacada e, pior,
sem vivalma. De repente, Jojó Fubuia que resolvera , pelo sim, pelo não,
providenciar seu próprio dilúvio etílico, com a voz tropa como se sofrera um
ramo, virou-se para Pai Nanã e disse, olhando para Matozinho que se aproximava
:
--- Pai Nanã, fique triste não,
homem de Deus , sua profecia tava certa! Você só errou a forma do acabamento do
mundo. Num era de fogo nem água não !
--
Como assim ? -- Quis saber, um Nanã cabisbaixo.
O
mundo se acabou foi de veneno, Pai Nanã! De veneno !
---
Veneno ? Que veneno ? Você tá é bêbado, seu Jojó !
Jojó,
então, como um profeta apocalíptico ou apoquetílico , lascou :
---
Manipueira, Pai Nanã ! Manipueira foi que acabou o mundo !
Crato, 19/06/15
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