por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Mazurkiewicz que se foi, deixando Mazuquiebe sobre a terra - José do Vale Pinheiro Feitosa


Ladislao Mazurkiewicz nasceu como todos. Expulso do útero materno no ano de 1945. Na província de Maldonado, numa cidade à beira de um mar de sal e o rio da Prata: Piriápolis. Na direção de Punta Del Este, quando se vem de Montevideo. Era o tempo dos rebanhos gordos que fizeram a riqueza do cone sul. A Europa faminta pela guerra tornou as fazendas planas dos pampas em minas de ouro.

Mazurkiewicz cresceu na contramão da maioria. Tornou-se uma das maiores barreiras ao chute dos pés na bola. Com as mãos, saltos olímpicos em busca da bola e um senso infinitesimal de tempo para compreender a trajetória do chute. Um dos maiores goleiros da história.

Aos 67 anos de vida, não é quase nada, mas é muito para esse nosso corpo frágil e rapidamente perecível. Juntou seu porte extraordinário no gol ao mito de um dos mais espetaculares times de futebol da América do Sul: o Peñarol. Que recebeu esse nome de um sujeito que morava na região onde os operários organizaram o time. Era um italiano com sobrenome Pignarolo que evoluiu para Peñarol.

Hoje, quando Mazurkiewicz entrou na ordem do necrológio jornalístico, aqui na terra dos tupiniquins, o resumo do goleiro será os dribles e as bobeiras dele diante de Pelé. Como se tudo sobre Mazurkiewicz se resumisse a ser driblado por Pelé. Essa é uma revelação terrível sobre como os meios de comunicação são parciais e funcionando como mera sonoridade do mesmo a ecoar-se.

Mas eu conheci alguém que assim não pensaria. Era mineiro de corpo e alma e se tornara fã do goleiro pela grandeza que dera ao Atlético Mineiro. O conheci na Favela do Escondidinho, onde trabalhei como médico por dez anos. Fizera uma homenagem ao goleiro pondo no filho mais velho do nome de Mazuquiebe.  

Mazuquiebe, pelo tempo, já deve ser pai de crianças e hoje deve pensar no goleiro Uruguaio. Um encontro no sentido exato das esferas externas: entre Mazurkiewicz e Mazuquiebe. E isso sem necessitar dos dribles de Pelé.  

Vale a pena conferir!

Do Núcleo Guel Arraes, "Doce de Mãe", foi o que vi de bom, na programação de fim de ano. Quem perdeu, tente achar!

Estados "produtores" ??? - José Nilton Mariano Saraiva

Particularmente, entendemos que a chancela de “produtor” de petróleo só deveria ser obtida quando da extração do valioso mineral no próprio solo, no momento em que o mesmo fosse “arrancado” do ventre da terra firme, evidentemente que dentro dos limites geográficos que demarcam qualquer ente federativo (estado, cidade ou território), como o são, por exemplo, aqui no Brasil, o Amazonas, a Bahia e o Rio Grande do Norte (estes, sim, na nossa concepção, verdadeiros “produtores”).
Já o produto/riqueza obtido nos cafundós e profundezas do Oceano, dada a inexistência de qualquer delimitação geográfica (e até mesmo porque o “marzão” é uno e indivisível), pertenceria à União, a toda sua população e, pois, sem essa de privatizar ao estado A ou estado B.
Pois bem, é nas profundezas do Oceano Atlântico e bem distante da sua costa (mas dentro do limite das 200 milhas internacionalmente estabelecidas), que começa a ser estruturado o futuro do Brasil. É que com a descoberta das fabulosas jazidas do “pre-sal”, o país tende a alçar vôo rumo à condição de potencia econômica mundial, dentro de pouco tempo. Não que vá ocorrer de uma hora pra outra (embora já se obtenha petróleo de tais jazidas), porquanto as dificuldades serão colossais, os investimentos para obter tal “passaporte” serão de larga escala, assim como necessitaremos buscar parcerias que viabilizem tão acalentado sonho. Mas, que vamos chegar lá, dúvidas não tenham.
Mas, como a descoberta representa muito, mas muito dinheiro mesmo, grana pra se recolher diuturnamente por anos a fio, eis que surge a primeira grande polemica: embora uma gota sequer do petróleo seja extraída do seu solo, mas, sim, a milhas de distância da costa, determinados estados da federação (Rio de Janeiro e Espírito Santo) “inventaram” que o Oceano lhes pertence, por se situar de frente para a parte continental onde ficam encravados e, daí, seriam os estados “produtores” de petróleo e, conseqüentemente, beneficiários privilegiados dos generosos royalties propiciados pela arrecadação do que for extraído.  Os demais entes federativos que se explodam, que procurem viabilizar-se com recursos outros.
Só que a lei nº 9.478, de 6 de agosto d 1997, capítulo V, Seção I, artigo 21, é muita clara:
“Todos os direitos de exploração e produção de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos em território nacional, nele compreendidos a parte terrestre, O MAR TERRITORIAL, a plataforma continental e a zona econômica exclusiva, PERTENCEM À UNIÃO, cabendo sua administração à ANP, ressalvadas as competências de outros órgãos e entidades expressamente estabelecidas em lei. (Redação dada pela Lei nº 12.351, de 2010)”.
Assim, resta evidenciado que a questão dos “royalties” deverá ir parar nos tribunais superiores (cuja maioria dos integrantes não são confiáveis, já que claramente influenciáveis pela componente político), mas o que se espera é que haja seriedade, prudência e razoabilidade na hora de decidir, a fim que não se penalize e se cometa uma tremenda injustiça para com a maioria dos estados (25) da federação; e isso só será possível se houver a determinação para que os recursos gerados pelo petróleo extraído do fundo do Oceano sejam rateados equitativamente entre todos os entes federados.
Já agora, no primeiro “round” da luta, os 25 estados interessados na questão foram severamente castigados, porquanto o Congresso Nacional deixou-se quedar pela balbúrdia provocada propositadamente pelos abusados parlamentares dos dois estados autodenominados “produtores”, ao deixar de examinar o “veto” à decisão presidencial equivocada que privilegia apenas 02 estados.
Vamos à luta.

Homenagem às crianças que somos!


Atriz e poetisa brasileira

 
 
 
 
Débora Duarte

Fada Safada
 
Eu vos convoco, monstros adormecidos, 
E também os congelados,
Duendes, mudos e mutilados,
Esqueletos dos túmulos não selados,
Pro meu circo, pro meu grito 
Pros meus fados
 
 
 

 
Há qualquer coisa errada, entravada, com a tua semente
Ela recusa terra, não quer água
Só tropeça e rola entre soluços estéreis.
 
 
Eu queria tanto estar sem jeito
Mas tudo vai ser tão igual
Você insiste e eu me deito
Tudo mal, meu bem, mas tudo bem mal
 
 
 

 
 
Era uma vez um homem especial
Equilibrava no seu quotidiano um elefante e uma borboleta!
Um sólido voador
Um sonhador arraigado
Um homem que amava lento
 
 
Fico te olhando
Entre espanto e medo
Me irrito e enterneço ante tua dependência passiva
Você ainda não me olha
Já grita na minha barriga, me transforma
E observo no meu corpo
Me pergunto se já reclamas mais espaço
No meu pescoço um laço
Não quero te tratar como um prêmio
Nem te oferecer em sacrifício
Nem  te fazer produto de um vício de amor
Quando mais te pressinto é na insônia, na taquicardia
Quase te ouço respirar
Transpiro, louca tento te adivinhar
Pulsas no meu sangue como um peixe pula no mar
Te desejo
Tenho medo do poder de te matar
Teu grito acorda as noites que se embaralham nos nós das redes
Puxo feroz contra as marés
A ver se te agarro duas estrelas
Te ofereço... Te enfeito os pés
 
Só 
o
apartamento
da
frente
é
amigo.
Porque 
está vazio
e
apagado.
 
 
 
Vem meu mouro
Derruba meu muro e me molha
Me tomba! Me tenta!
Me tudo
Que eu não sou capaz.
 
 
Vê se não fica aí parado, 
Me olhando com raiva num canto
Me culpando pela tua falta de aprumo!
Odeio este teu jeito de sentar
Como quem está de saída
 
 
Procurei este amor (como a gente procura um avião no céu)
Um ronco forte dentro do peito
Estranho, este pássaro metálico
Que faz seu ninho aqui embaixo !
Mais perto da morte quando desce do que quando levanta !
Tudo tão perto da explosão, do inflamável (delícia!)
E quanta inveja arde nos meus olhos submissos:
a) tua liberdade tão leve;
b) estrelas que regem tua navegação;
Você, tão habituado ao espaço total, 
De repente esbarra no meu seio,
Tromba na minha barriga,
Se choca no meu cheiro de carne.
Sou a montanha imprevista
Que te fere o nariz,
E te acolhe numa clareira de grama molhada.
O que eu quero é te agarrar
(Sprunft!)
 
 
 
 
Ages em meus sentidos, de manso como com as flores
Dá-me espinhos para que eu possa furar
A distância que entre nós se instala
 
 
É no colo de Apolo
Que acordo
Sempre ! Todas as manhãs
Se amando, a gente é um solo
E o sol cozinha maçãs
 
 
 

 
Sinto medo de estar viva
Na tua ausência de noite
Pressinto o tempo pesado
O silêncio implacável
Fragilidade como ser
Como se eu fosse uma bomba
O terror
A certeza de que meu peito explode
Se você não chega hábil
E me desarma a tempo, a contento
E a gente festeja com uma gargalhada !
Você me invade, me embriaga
Eu soluço agradecida
Agarrada no teu peito, respirando teu pescoço
A morte amortecida.
Não dorme agora, faz esse esforço
Beija com fogo esta tua frágil adormecida
 
 

 
Um susto de homem me atropelou
Que surpresa !
Tinha no peito um ninho
Gosto de canela e vinho
E eu tive até pudor!
Príncipe encantado tarado
Mais calor que um reator.
Profético trepântico,
Libertou minha envergia
Foi em cósmica orgia
Que a gente namorou
 
 
Ai! Essa fada é safada
Quando afaga, afoga
Maga do tesão
Nem em Deus acredita, Deusa maldita
Tua sina ela dita, tua rendição
Ela é à-toa, tua perdição
Vem, pomba-gira
Pira tua ira
Me vira em tua ação
Amada maga, safada fada
Afoga afaga
Sou teu cão
 
 

 
 
 
Irrompe o homem
Rompe o hímen
Irroga o vassalo a sua alteza
Mas ela mente, ela mente, ela mente
Tontos, soltos, suados
Ela partida, ele chegado
Unidos carrasco e vítima num instante de morte
Ela grunhe, urge que ele aja
Que se arrebate,
Não se dilua lento o tempo e o desgaste
Histérica mártir, no transpasse alagada
Clama a rainha - Chispas! Chicote de fitas!
Um susto, um murro, alucinada
No veludo carmim-real desfalece esquecida
Como uma mancha roxa de vinho
Como um guardanapo dobrado
 
 
 

O lucro feito
Do xucro peito
É sempre ou nunca, ignorância
Atento
Há tempo
Há tanto
E tento
Tremo mula estaco
Pressinto presença
Meus sentidos aguardam teus passos...
 
 
 
Quisera que meu cansaço não perturbasse o silêncio deste mundo
que não acordasse as rosas sonadas e me deixasse ouvir o
prelúdio que toca o orvalho tangendo pétalas dormidas...
quisera ser pura para ser rosa e estar desperta
quem sabe assim eu pudesse encontrar-te imóvel
à minha espera ?
E se não viesses, que eu ficasse eternamente terra para
que me sentisse capaz de gerar-te um dia!
Ai! que meu sonho não grite tão alto e não deixe secar a terra
onde virias como minha invenção...
uma planta nunca tocada... nunca vista... de fortes raízes em mim! 
 
Amigo que chega cansado de andar,
Eu estou cansada de não partir
Me dá um abraço ?

o papel
a caneta
o impulso
?
?
inferno!
as  palavras fugiram.
 
 
Venham todos! Corram! Mas andem! Venham ver a incrível Árvore-mão.
Não percam a chance de serem cumprimentados por uma árvore.
De ganhar autógrafo florestal. De ver como ela mostra bonitinho
como dois e dois são cinco. Meus senhores, notem que, além de Árvore-
mão - atenção, muita atenção -, trata-se também de 
uma roleta mágica. Se cada vez que ela se fechar você conseguir
adivinhar o que ela vai estar segurando quando se abrir, o
senhor leva pra casa, sem contratos nem despesas.
Mas vamos, senhores, sejam corajosos, impetuosos, subam por
esta escada e venham conhecer a única árvore que usa relógio,
que dá bom-dia, que faz que sim, que faz que não. Comprem seus
ingressos; subam, venham. Não percam a chance de ter uma foto
do seu filhinho com uma árvore que dá adeusinho.
  
 
 
 

Juro que é por necessidade, meu mestre!
A mão amada já não aquece
Eu só me salvo por amar as palavras
Com a mais direta, direi ao mais amado
A mais guardada solução

Jornal da Poesia 
 

Por Emerson Monteiro

Indiferença

Emerson Monteiro

O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença. Érico Veríssimo

Ali perante o derradeiro dia do ano, em plena Rua Senador Pompeu, área movimentada do comércio, na segunda-feira 31. Deitado, descontraído, traído da sorte, senhor dormia a sono solto. Senhor da terceira idade, nome conquistado nas tradições culturais recentes. Tez morena fechada, barba longa branca amarelecida no tempo, cabelos da mesma cor e porte digno repousava carnes e ossos. Enquanto nós as pessoas da atualidade seguíamos, ligadas nos afazeres, nas atividades corriqueiras, inadiáveis, intermináveis do tempo.
E ele no seu canto das dez às onze da manhã radiante, adormecido, trajes rotos, chinela tosca nos pés, quadro sereno de quem dorme todas as necessidades dos anos sucessivos que cruzou na indigência, pose solene dos que ensinam a ser humano. Fruto das gerações nacionais, peça descartável jamais utilizada na máquina infalível do sistema, virara sucata ainda no original daquela gente abandonado à vaidade dos irmãos da raça, no distante planeta na Via Láctea sombria, às vésperas do Ano Novo.

Olhei, sim, olhei meio assustado, pois contara da cena qual acontecimento corriqueiro, raiava às bordas da normalidade, vez que aceitamos bem violências assim todo momento. No entanto, por dentro, nas áreas desconfortáveis da consciência algo reclamou forte do jeito espontâneo de vermos tais retratos que refletem a humanidade atirada na nossa cara a vista descoberta.

Quantos e tantos momentos semelhantes repetem velhas fórmulas da imprudência social que viraram ocorrências vulgares com tamanha facilidade que quase zeramos o direito de nos abismar perante os dramas coletivos. Indivíduos que padecem que sejam outros que padeçam, porquanto desgraça de muitos, consolo é... Dizer popular.

Porém aquele instantâneo demonstra a institucionalização da inconsciência geral dos séculos perdidos, resultante dos milhões de discursos demagógicos ditos a massas impotentes, mostrados a céu aberto na plena hora festiva das comunidades animadas no lucro.

Consigo e só, aquele cidadão silencioso adormecia também, calado, inútil, vidas inteiras de apatia, desamor, inércia, displicência que se acumularam nas ruas, nos becos, nas sarjetas, praças, anonimato da impassibilidade, sinal de abandono e egoísmo público.

Testemunho do quanto ainda existe de estradas pela frente, na história dos catadores de sonhos, grito monumental rasgara os céus nesse início de jornada da Terra em torno do Sol para mais outro período nos calendários da Eternidade. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Réveillon na Praia de Copacabana - José do Vale Pinheiro Feitosa


Tudo ordem na grande narrativa e anarquia nas vontades de cada um. Ônibus apinhados de gente. Automóveis entre o pé no acelerador e a brusca freada. Luzes. A árvore de natal da Lagoa muda num ciclo de luzes a roubar atenção. A orla da Lagoa com as pessoas em marcha para a faixa do litoral.

Somos litorâneos e prisioneiros das luzes. Os bares do bairro, não tão distante da orla, todos fechados. É na beira mar que o grande encontro se dará. E quando se chega ao Corte do Cantagalo, aquela fenda aberta na pedra para a passagem entre Copacabana e a Lagoa Rodrigo de Freitas, dois rios de gente fluem em ambos os lados da rua.

Desemboca na Miguel Lemos e já vai tomando o leito da rua, naquela altura os ônibus e táxis ainda permitidos estão deixando de passar. Apenas passagens eventuais. E a massa formada por todos nós é tributária caudalosa do mar de gente na Avenida Atlântica. No encontro de gente e mar.

Tantas luzes. Os apartamentos dos prédios da orla cheios de luzes e apinhados de corpos humanos. Nas salas, nos quartos, passeando nos cômodos um através o outro, de vez em quando se aproximando da janela para se admirar do povo lá embaixo, como se povo não fossem.

Policiais. Ambulantes. Gente carregando garrafas de espumantes. Ambulâncias. Defesa Civil. Corpo de Bombeiros. Os trabalhadores que servem à multidão desocupada. Restaurantes. Bares. Bufês. Barracas da Praia. Gente trepada onde a vista é mais alta. O grosso da gente concentrado perto dos telões do show. A maior parte nas areias até o encontro das marés. Muita gente dentro da água.

As barcas de fogos na penumbra, amadurecendo os ovos de luzes. Navio do tamanho de um Shopping Center. Vários navios tomados de luzes. Iates. Luzes de helicópteros piscando. Subimos ao nono andar de um apartamento na orla, esquina da Sá Ferreira. Da varada uma vista ensurdecedora, uma escuta colorida e música, danças, bebidas e comidinhas.

Quando a meia noite se aproxima, as cabeças com alguns graus acima da lucidez, de repente os fogos disparam, uma música suave no sistema de som é abafada pelos gritos de dois milhões de gente. Que não apenas se abraçam, mas, sobretudo se extasiam com o espetáculo de luzes coloridas, de explosões, de efeitos. Do imensamente grande sobre os seus olhares.

Quando tudo cessa, o fôlego se recompõe um tanto quanto tomado de fumaça. Uma nuvem cinza se manifesta na iluminação da praia. O olfato de pólvora toma conta da ambiência de seis quilômetros e os milhões de pessoas. Os olhares ainda bambos de luz e cor retornam ao interior do apartamento onde um grupo privilegiado de 65 pessoas retorna às bebidas, danças e comidinhas. Aí é que chega a ocasião da lentilha.

Um olhar para baixo o mar de gente começa a escoar pelas ruas vicinais. Rios que escoam o mar ao invés de enchê-lo. Aqueles rios de gente. Um rio que se encanta com as margens de efeitos das luzes dos fogos, mas na verdade quer tão pouco. Tão pouco revelado por ser infinitamente maior a vontade de encontrar-se com seus semelhantes do que as soluções materiais. Isso é a humanidade. Precisa tão pouco em realização material.

Aquele rio de gente é na essência uma subjetividade que pulsa entre si e nós. Quando tomarem conta de que a subjetividade é maior que a psicologia social do consumismo a gente se reconhecerá surpresa por tanto tempo que não o fizera. 

Primeiro dia de um novo ano.
Frutas doces pra neutralizar as amarguras.
Viagem sentimental pelos meandros do coração... Preenchidos ou não.
A passagem do ano foi solidária e solitária. Não senti o cheiro das pessoas, mas vi o fulgor das luzes de Copacabana.
Meu quarto é meu sacrário. Um convite ao sono plácido, aos sonhos de final feliz, aos encontros telepáticos.
A vida está sempre por um fio, que vai perdendo o elástico; uma chama  tênue,que vai ficando baixinha.
Não existe resignação na serenidade, e sim, certa alegria e determinação, instalada para animar os bons propósitos de 2013.
Bom dia , boa sorte!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Sofia!

 
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"Sofia!": Sofia, quando teu olhar sorria e tua boa se entregava à avó, o mundo não era mais inocente. O mundo já tinha de tudo que na vida encontras. Mas posso dizer que teu mundo tinha o encanto da decência. De uma família decente. Desde antes dos teus bisavós, até teus pais, com uma feliz passagem por esta avó. Que te mostra aqui. Uma avó que de vez em quando analisa o tempo passado só para que não percebamos a imensa quantidade de tempo novo que ela inventa. E quem inventa tempo como ela, é criadora de vida, de aconchego, de solidariedade ao outro. Que existe não para promover inveja, mas para espelhar as nuances da vida. Não vou vangloriar a avó que tens. Vou louvar você por inventado esta avó. Você ainda não me conhece, Desejo-lhe um fazer de anos vindouros do melhor que possa para você e para os outros. Sempre pensando e refazendo tudo que achar necessário. Quem refaz porque acha necessário, é livre para viver. Abraços José do Vale

50, 05, 80, 08 - José Nilton Mariano Saraiva

Quando JK, um dos maiores presidentes do Brasil, materializando uma promessa de campanha se decidiu pela relocalização/transferência da capital federal, do Rio de Janeiro para o planalto central do Brasil, a virgem e inóspita região do cerrado goianense serviu de abrigo para a “terra prometida”; e, assim, sob o comando de Oscar Niemayer, vimos surgir - vapt-vupt - a moderna Brasília e suas arrojadas linhas arquitetônicas pra lá de revolucionárias. De pronto, objetivando expressar a dinamicidade e a incrível transformação daquela área em tão pouco tempo, competentemente a turma do marketing do Governo Federal houve por bem cunhar a expressão “Brasília - 50 anos em 05”  (ou seja, aquilo que em condições normais só seria feito em 50 anos acabou sendo feito em apenas 05 ).
No Crato, dos dias atuais, a coisa funcionou exatamente em sentido inverso: após uma administração caótica, cuja característica maior foi o desgastante confronto frontal do prefeito da cidade com o Governador do Estado (daí o abandono a que a cidade foi relegada pelo Chefe do poder executivo estadual) o senhor Prefeito sai rotulado com o sinônimo de incompetência e improdutividade (daí despedir-se  melancolicamente do poder), já que deixando atrás de si um rastro de decepção e frustração. Tanto é que, além de não ter conseguido sequer eleger o sucessor (apesar da caneta na mão - e até por isso mesmo), foi oficialmente notificado/acusado pelo Tribunal de Contas dos Municípios de “improbidade administrativa”, mercê do “possível” desvio de generosas verbas públicas para atividades outras, desconhecidas dos órgãos competentes (assim, a tendência é que mui provavelmente terá que devolver aos cofres públicos, mais cedo ou mais tarde, a parte da grana para a qual não existe comprovação de uso adequado).
Fato é que, em razão do descomunal estrago propiciado na gestão que agora chega à fase crepuscular, é fácil constatar que o Crato, que já apresentava evidentes sintomas de decadência, perdeu nos últimos 08 anos muito daquilo que há bastante tempo detinha (Sesi, Sebrae, Escola do São José e por aí vai) ao tempo em que deixou de ganhar, por omissão ou falta de prestígio, empreendimentos de porte e que todos consideravam como certeza absoluta: o Campus da UFC, a Escola Técnica Federal, Aeroporto, Hospital e muito mais. Hoje, poder-se-ia até afirmar que o quadro propiciado pela enxurrada que inundou a cidade meses atrás poderia ser apresentado à posteridade como o emblemático retrato da própria administração municipal: um caos.
Temos, então, duas posições antagônicas, diametralmente opostas: se para caracterizar o estupendo e célere progresso de Brasília cunhou-se a expressão “50 ANOS EM 05”, no Crato o mais apropriado seria afirmar que a cidade regrediu ”80 ANOS EM 08” (ou alguém tem dúvida de que a cidade experimentou um desgastante, penoso e angustiante processo de desconstrução, desfazimento e retrocesso nesse tempo ???).
Agora, nesse derradeiro dia do ano de 2012 e no momento em que todos desejam a todos um ano de 2013 repleto de prosperidade e paz, só nos resta ficar na torcida para que o novo  e jovem mandatário da cidade (um empresário privado de sucesso, mas sem qualquer experiência no gerenciamento da coisa pública), consiga fazer com que no Crato a “roda volte a girar”.
Na oportunidade – para não dizer que não falamos de flores – expressamos aos conterrâneos o nosso ardente sentimento de que as coisas mudarão pra melhor na vida de todos nós, sofredores cratenses.
Aleluia, aleluia, aleluia !!!
Minhas noras: Carla e Linea
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Gosto dessa coisa de fim de ano de todo mundo dizendo feliz ano novo, paz, saúde, prosperidade. É um espalhar de positividade e afetos. É uma vibração benéfica para todos e que se irradia para o planeta. Vamos espalhar alegria e afeto.
FELIZ 2013 PARA TODOS NÓS DO AZUL SONHADO! TODOS NÓS DO PLANETA AZUL!


 

AUGURI! - José do Vale Pinheiro Feitosa


Saudações por mais um ano. Pelo que chega. Que significa tratar do futuro. Sobre a forma de desejo que é muito mais do que uma subjetividade. É ponto de cruz do acontecido e deste acontecendo. Que se diga não é um mero acontecer: é uma ação humana para que assim seja.

Ao saudar a todos por 2013 não apenas imagino as forças imponderáveis da natureza ou do destino se assim preferirmos. Imagino as iniciativas, as tramas, as ações humanas que por isso mesmo se tornam projeções daquilo que pensamos, que imaginamos, mas na verdade, a priori, já estamos realizando.

Saúdo a grande renda de bilros que a nossa sociedade constrói na história. Por vezes redefinindo o desenho do papelão, repondo os espinhos, cuidando dos bilros, com as mãos ágeis a compor uma imagem que traduz a todos. Desde o sorriso do momento ao ar grave dos tempos.

Saúdo os nossos roedores, comedores, chupadores, de macaúba. Que respeitam o tronco da palma e, pacientes, aguardam que os cocos se desprendam dos cachos. E um especial abraço para os sitiantes do nosso espaço, os trabalhadores das nossas terras, os operários, vendedores, comerciantes, industriais da nossa vida e do nosso futuro.

Uma varanda no amanhecer, uma paisagem de serra e vale, um verde que brilha no cento da caatinga, as águas cristalinas da fonte e um céu que não é puro azul. Como somos de fazer, o céu se apinha de criações brancas, cinzas e por vezes pretas precipitações que até chegam a levar nossas construções inseguras.

Ao nosso Cariri, ao querido Crato, no pedaço de chão que alguém fez para sonhar, qual rosto tenha este sítio, este espaço, este canto, qual quintal sobre ou não para se ter sombras e pedaços inteiros de sol claro, que afinal somos equatoriais. E na falta de uma sacada que seja neste apartamento domiciliar, que os largos e praças repitam a nossa alma paciência.

Que espera a macaúba e o piqui se soltarem dos galhos para então saboreá-los, de tantos modos diferentes. O piqui se impregna no olfato e o liga de tal modo ao gosto que basta ferver na panela para uma fome descomunal se apresentar. E a macaúba, com nossos dentes amarelos e a amêndoa interior que solta o óleo do sabor, é a sobrevivência no bilro que faz a renda da vida.

A todas essas coisas pelas quais levantamos a voz como um Italiano no fim de ano: AUGURI!     

Colaboração de Altina Siebra


Feliz 2013!


Passagem de Ano é sempre uma noite especial.
As pessoas festam, rezam, fazem reflexões, apostam na sorte, enchem-se de esperanças,se fortalecem para que, na contabilidade das perdas e danos, consigam segurar seus potes de mel, num saldo de alegrias.
Hoje, o banho será mais demorado, a casa mais limpa, papeis expurgados, abraços e sorrisos em multiplicidade. Somos todos noivos de um momento novo. Somos todos noivos de um ano que prepara bombas e bolas de assopro. Aposto na PAZ. Ela nos trará o mais!
Dinheiro, saúde, amor, sucesso...?
- Como bem disse Bastinha, que venha mais poesia!

domingo, 30 de dezembro de 2012

Sobre descargas - José do Vale Pinheiro Feitosa


Estou repetindo o que li: quando Henry Kissinger visitou a China, perguntou ao chefe de Estado o que achava da Revolução Francesa e aquele respondeu que fazia muito pouco tempo que havia ocorrido para se fazer uma avaliação mais correta. A China é uma organização de governo milenar e o tempo de sua cultura mais largo e aprofundando em termos de história humana.

Durante as escaramuças iniciais da Revolução Francesa no que seria o Parlamento, ou Terceiro Estado, em suas reuniões quem se sentava à esquerda se unia em torno de mudanças no Governo, no Estado e na Sociedade e quem se sentava à direita, membros do clero e da nobreza, se uniam em conservação dos mesmos. Daí surgida a dicotomia esquerda e direita, progressistas e conservadores.

No início dos anos noventa, embalados com a queda da União Soviética e com a possibilidade de uma política mundial unipolar centrada nos EUA, a direita, ou conservadores, ou neoliberais, teve base para expandir o discurso do fim da história. Cessada toda a assimetria ideológica, agora seria uma estrada traçada pelas forças vivas do mercado. Historicamente isso significa a vigência de uma lei e de uma ordem única bem ao gosto daqueles que se reuniam à direita.

Mesmo com a crise do modelo neoliberal, que em economia significa essencialmente financeirização e desregulamentação, os conservadores continuam com horror à possibilidade de que exista quem pense de outro modo. Quem, aliás, pense porque vive a necessidade de viver e viver é um misto de bem-estar espiritual e suprimento de suas necessidades materiais essenciais (o que seja isso uma vez que muda tanto).

Os efeitos da Revolução Francesa, como disse o líder Chinês, continuam, historicamente duzentos ou trezentos anos é muito pouco para a história. Direita e Esquerda estão na pauta do debate não apenas em palavras. Não é possível apertar a descarga da divergência e jogar tudo na rede sanitária. Refugiar-se num tempo inexistente é a existência no vácuo, logo preenchido pelo mais recôndito que lhe existe na alma.

Quando não se pensa igual a mim isso revela o quanto de diferença há na visão de mundo. Mas precisamos qualificar onde permanecem as diferenças e, no meu entender, só existe um elo comum: a Constituição Federal. Assegurando o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos. E onde se encontram as diferenças ao chocar os ovos da serpente?

Na solução que funda todo aquele exercício constitucional. “Na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica de controvérsias...” E tomemos por base um fio de fronteira entre ser e não ser: constituímos um “Estado de Direito Democrático” fundamentado na “soberania, na cidadania, na dignidade humana, nos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e no pluralismo político.” E, claro, “todo poder emana do povo, que o exerce por meio do seus representantes eleitos direta ou indiretamente nos termos desta Constituição.”

Com todo este “conservadorismo” a me tomar o penúltimo dia do ano me reporto à chocadeira dos ovos da serpente. Mesmo sabendo que nos extremos a gema do ovo gerará a serpente do braço vingador, que envenenará todo o exercício constitucional pretendido. 

Patrick Dimon, na noite cratense



Ao vivo, todo artista emana novo brilho.
Ontem deixei a toca e fui pro Tênis Clube com filhos, noras, irmã, cunhado. Assistimos Patrick Dimon. acompanhado pela banda de Hugo Linard. Deliciamo-nos com a voz de Leninha, Jr.Rivadave e Patrick .
A banda está bem composta. Perfeita para alegrar qualquer baile, em grande estilo.
Lindo repertório! Noite feliz!
Impossível não dançar soltamente, e com todos, a canção popular: "Volare".
 "Roberta" foi a chave para uma sequência de músicas que animavam bailes, praças, e inspiravam serenatas, nos anos 60. Não senitmos saudades. O sentimento antigo era novo em folha, como a noite de ontem, que nos deixou em estado de graça.
Ainda bem que festa é uma pausa. Precisamos cumprir devoções, obrigações, e ficar no silêncio do descanso. Esquecemos o fatalismo da morte. Celebramos com "Champagne", a vida!
RECEITA DE ANO NOVO
Carlos Drummond de Andrade
 Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.