por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 22 de julho de 2015

"OSKAR SCHINDLER": O Alemão Herói Israelense - José Nilton Mariano Saraiva

Pobre, porém carismático, desenvolto, audacioso, envolvente e, essencialmente “bicão”, o empresário alemão Oskar Schindler tinha uma verdadeira obsessão (ou objetivo maior de vida): “juntar dinheiro, muito dinheiro”, a fim de usufruir os prazeres da vida. E a oportunidade perfeita para isso se lhe apresentou com a deflagração da Segunda Grande Guerra Mundial, quando, antevendo benefícios futuros, radicou-se na Polônia e, na base de “muita conversa e gentilezas mil”, ardilosamente aproximou-se dos principais líderes regionais do exército alemão e, traficando influência, conseguiu financiamento pra abrir uma “fábrica de panelas”, com mercado garantido pelos “novos amigos”, usando para tanto a mão de obra barata dos miseráveis judeus moradores do Gueto de Cracóvia.

Com o acirramento do confronto, o alto comando alemão em Berlim exacerbou em termos de violência, ordenando a execução sumária de todos os judeus que, a critério de cada ocupante de chefia, fossem considerados “não produtivos” (especialmente idosos, crianças e doentes de qualquer idade); na Polônia, muitos foram encaminhados para uma espécie de “ante-sala da morte”, o campo de concentração de Plaszow (inclusive os empregados da fábrica de Schindler).

Valendo-se das amizades com os integrantes da cúpula alemã, Schindler mostrou-lhes a dificuldade que enfrentaria pra manter o negócio, do prejuízo que teria por falta de mão-de-obra “especializada”, e, especialmente, do iminente “fechamento da torneira” (cessação das propinas destinadas aos graduados alemães) em razão do “stop” no faturamento, findando por convencê-los a liberar os presos durante o dia; à noite, voltavam pra dormir no campo de concentração (uma espécie de regime semi-aberto, como o vigente hoje no Brasil pra certos “privilegiados”).

No entanto, as coisas ficaram ainda mais negras para os alemães quando os russos, tal qual um rolo compressor incontrolável, avançaram através dos territórios dominados pelos germânicos. A ordem de Berlim, então, foi desativar às pressas alguns dos campos de concentração (Plaszow estava na agenda), via eliminação incontinente dos seus moradores, livrando, como sempre, tão somente os fortes, que pudessem empreender uma longa travessia na neve, rumo a outras unidades mais afastadas, onde mais cedo ou mais tarde também seriam descartados. 

E aí aflorou a “sensibilidade” do alemão Oskar Schindler. Testemunha ocular e diuturno dos abusos e barbaridades perpetradas por seus conterrâneos contra aquela gente humilde e sofrida, à qual findara por se afeiçoar no convívio diário, “escancarou o cofre”, pegou até o último centavo da imensa fortuna que houvera amealhado (pra “usufruir os prazeres da vida”, lembremo-nos), corrompeu o “novo chefe alemão” de plantão e “comprou” a liberdade de cerca de mil e duzentas pessoas, devidamente relacionadas em diversas laudas de papel, naquela que posteriormente ficou mundialmente conhecida como a “lista de Schindler”.

Transportou-os para a sua cidade natal - Brinnlitz – onde “inventou” uma fábrica de “projéteis pra armas militares” (na realidade, apenas para mantê-los ocupados, já que sem nenhum “know-how” na atividade); tanto que, em off, dizia claramente que se sentiria... “terrivelmente frustrado se algum daqueles projéteis servisse pra matar alguém”.

Com o fim da Guerra e a vitória dos aliados, o alemão Schindler teve que fugir e acabou se livrando de ser preso em razão de portar um documento subscrito por aqueles 1.200 judeus que salvara, onde atestavam a grandiosidade do que ele havia feito. 

Alfim e no crepúsculo da vida Schindler teve que ser ajudado pelos seus Schindlerjudes (“Judeus de Schindler") – aqueles cujas vidas ele salvou durante a guerra. 
Em 1963 Schindler recebeu a designação de “Justos entre as nações” concedida pelo governo de Israel. Morreu em 09 de Outubro de 1974 e posteriormente teve o corpo transladado da Alemanha para Jerusalém e enterrado no Monte Sião sendo o único membro do partido nazista a merecer tamanha honraria. Ainda hoje é tido como um “herói israelense”.

Uma particularidade marcante: certamente que visando estabelecer uma espécie de “simbiose” com a “negritude” que foi o aterrorizante período nazista, o filme de aproximadamente 03 horas de duração foi rodado em “preto-e-branco” e, só nos últimos 5/10 minutos, nas cenas em que alguns dos antigos componentes da “Lista de Schindler” (ainda vivos em Israel), prestam-lhe uma comovida homenagem, ao depositar um pequeno pedaço de pedra sobre o seu mausoléu, na tela repentinamente afloram as cores, o colorido, a vida, enfim, como a anunciar que os tempos são outros.

Sem dúvida, um filme tocante, sensível, de balançar e mexer com a estrutura de qualquer ser humano  (A Lista de Schindler).




terça-feira, 21 de julho de 2015

"FLORES RARAS" - O FILME - José Nilton Mariano Saraiva

“Flores Raras” (baseado em fatos reais) é a tal prova cabal de que nós, brasileiros, já conseguimos, sim, produzir com extrema competência, filmes adultos, sérios e - mais importante - de qualidade indiscutível.

Produzido e dirigido pelo consagrado Luiz Carlos Barreto (em parceria com a esposa) e tendo no papel principal uma Glória Pires madura e simplesmente exuberante, trata da intensa e sofrida relação homossexual entre a arquiteta carioca Lota de Macedo Soares (Glória Pires), uma das responsáveis pela construção do Aterro do Flamengo, no Rio, e a poetisa americana Elisabeth Bishop. 

É que esta, buscando fugir do estresse do dia-a-dia de Nova Iorque, decide aceitar o convite de uma contemporânea de faculdade (que se mudara para o Brasil), para conhecer o Rio de Janeiro. Extremamente tímida, introvertida e recatada, em aqui chegando se surpreende ao notar que a ex-colega “vivia” com uma outra mulher, Lota Macedo.

Despachada, autoritária e mandona, Lota Macedo não fazia nenhuma questão em esconder sua atração por pessoas do mesmo sexo. E a paixão por Elisabeth foi instantânea, como que a adivinhar que por detrás daquela timidez, introversão e recato excessivos se escondia um autentico “vulcão” prestes a entrar em atividade. E não deu outra: na primeira saída a sós (por ela provocada) e num recanto paradisíaco (Teresópolis), um inesperado beijo na boca e... deu-se a erupção... fiat lux.

Daí pra frente a paixão só cresceu, ao ponto do ciúme da ex-amante ter que ser debelado com a adoção de uma criança e a abertura definitiva e sem rodeios do jogo: sim, a bola da vez, agora, era Elisabeth (que com ela passou a dividir a cama).

Viveram intensamente a paixão e cresceram profissionalmente em suas respectivas atividades (Elisabeth chegou a ganhar o concorrido prêmio Pulitzer, por um poema que lá atrás houvera dedicado a Lota) até que deu-se a “fadiga do material”: convidada para lecionar numa faculdade americana, Elisabeth resolve aceitar, mesmo com a não concordância e o protesto veemente da companheira (que chega a lhe oferecer mundos e fundos, tal o medo de perde-la).

Acostumada a mandar, desmandar e jamais ser questionada, com a viagem da companheira à sua revelia, Lota Macedo acusa o golpe: entra em um penoso processo depressivo, alimentado pela saudade, daí o consumo excessivo de álcool e drogas. Suas cartas não têm resposta, simplesmente porque a ex, que fora rejeitada, não as encaminha. A degradação é visível e impressionante (que maquiador fabuloso).

Após certo tempo, ao tomar conhecimento, por acaso, do estado crítico da ex, Elisabeth (já com outra amante, uma aluna bem mais nova) se manda de lá pra cá, a fim de socorrê-la; e aí, novamente juntas, as duas descobrem que “não dá mais liga”, alguma coisa se perdera pelo caminho, o sonho acabara, esvaíra-se, escafedera-se.

Alfim, por não admitir o fracasso, e visando livrar-se daquele calvário que já lhe atormentara excessivamente, Lota Macedo põe fim à própria vida ao ingerir um generoso coquetel de medicamentos com whisky. Mesmo condoída e consciente de ter sido responsável por aquele ato extremo, Elisabeth volta para os braços da amante americana.

Resumindo: independentemente dos preconceitos que decerto hão de surgir, um filme adulto, sério e que merece ser visto com extremada atenção. E com um adendo: é brasileiro, sim, com locação na sua maior parte em Teresópolis, contando com uma atipicidade: os diálogos em inglês e legendado em português. 




segunda-feira, 20 de julho de 2015

O "PIANISTA" DE VARSÓVIA - José Nilton Mariano Saraiva


Com a invasão da Polônia pelos nazistas, os judeus poloneses foram segregados no “Gueto de Varsóvia”, onde enfrentaram a fome, o frio, o abandono, a tortura e humilhações de toda ordem, levando-os a um corrosivo processo de aniquilação físico-psíquico-moral. A esperança de que os aliados logo chegassem para por fim àquele diuturno martírio foi paulatinamente arrefecida, ante o sadismo, a carnificina e à seqüência de horrores praticada pelos alemães.
Para que lições fossem extraídas daquele momento dantesco, Roman Polonski, ex “morador” do tal gueto (de onde milagrosamente conseguiu fugir), houve por bem legar à posteridade um “testemunho-reconstitutivo” daquela época, ao produzir o monumental filme “O Pianista” onde, sem fugir dos horrores vivenciados pelos poloneses, centra a narrativa numa tradicional família classe média (pai, mãe, dois irmãos e duas irmãs).

À trama.

Após a invasão da Polônia pelos alemães, literalmente forçados a tomarem um trem que os levará para uma tal de “higienização” (em verdade, para o campo de extermínio de Treblinka) milhares de polacos, a família Szpilman entre eles, é o próprio retrato da impotência e do desespero.  Wladyslaw Szpilman, um dos irmãos, famoso pianista da Rádio de Varsóvia, no último momento, mesmo à revelia, é posto de lado por um policial polonês amigo de infância. E vê, desesperado, pai e irmãos irem ao encontro da morte. 

E aí aumenta o seu martírio. Sozinho no mundo, desempregado, sem eira e nem beira, sendo obrigado a carregar a “prova” da inferioridade da raça judaica (uma faixa no braço com a Estrela de Davi), Szpilman torna-se um morto-vivo a zanzar entre escombros e cadáveres.  Recolhido ao “Gueto de Varsóvia” e obrigado a trabalhar numa unidade alemã, toma conhecimento e se engaja na formação de um grupo de resistência aos alemães. Antes que sejam descobertos e dizimados, Szpilman, com a ajuda de conterrâneos não judeus consegue fugir do gueto e é “escondido” no mais improvável dos abrigos: um apartamento localizado exatamente no “coração da toca do leão” (em frente a um Hospital alemão e vizinho da sede da Polícia nazista). Da janela, assiste ao impiedoso massacre e à aniquilação do gueto onde habitara. Com a passagem do tempo, finda sendo descoberto por uma vizinha alemã; doente e desnutrido, foge e volta a zanzar pelas ruas.

Mas o destino de Szpilman apronta-lhe uma surpresa: à procura de comida no que sobrou de uma suntuosa mansão, é descoberto pelo solitário capitão alemão Wilm Hosenfeld que, surpreendentemente cordato, lhe interroga amistosamente. Ao sabê-lo “pianista” profissional, desconfiado coloca-o frente a um piano que, sem nenhum arranhão, escapara das bombas nazistas e pede-lhe que... "toque". E aí, Szilpman, mesmo com sede e faminto, parece entender ser aquele o seu “passaporte para a sobrevivência”, sua senha para a vida: e extraindo do âmago da alma uma força descomunal até então desconhecida, sob o olhar abismado do requintado oficial alemão mostra toda a sua maestria e competência no manejo do teclado do nobre instrumento (são exatos quatro minutos - uma eternidade numa projeção cinematográfica - de uma verdadeira aula de como se tocar piano).

Visivelmente sensibilizado, o capitão alemão não só NÃO O DENUNCIA, como o orienta a resistir um pouco mais, a manter-se escondido, já que os russos se encontravam às portas da cidade e os alemães teriam que bater em retirada. Pra eles, alemães, a guerra acabara. Oferece-lhe o próprio casaco para amainar o frio e volta outras vezes trazendo-lhe comida e pondo-o a par do desfecho do confronto.

Com a retomada da Polônia pelo exército russo, Szpilman finalmente sai da toca e quase se dá mal por se achar “embrulhado” no casaco do “amigo” alemão. Feito os esclarecimentos, é reconhecido como um polonês e saudado efusivamente por ter sobrevivido ao extermínio nazista.

Após tudo normalizado, volta à Rádio de Varsóvia e retoma sua verdadeira identidade de... “PIANISTA”. Morreu em Varsóvia em 2000, sem que antes tenha conseguido “PAGAR” uma dívida tanto antiga como eterna: conseguiu que o "amigo" alemão, capitão Wilm Hosenfeld, que lhe salvou a vida, fosse postumamente honrado... pelo poloneses.

Um filmão, filmaço, obra de arte, ou qualquer outra definição que lhe seja mais apropriada.

sábado, 18 de julho de 2015

Vida transformada pela... "música" - José Nilton Mariano Saraiva

O “click” do destravamento da estranha coleira mecânica (e sua posterior remoção do pescoço) representava a senha para que aquele aparentemente tímido e frágil ser humano se transmutasse numa fera ensandecida, capaz de aniquilar quem encontrasse à frente. Na verdade, desde a meninice o pacato e “desligado” Danny (Jet Li) que experimentara precocemente a orfandade, fora exaustivamente treinado e programado (por um suposto “tio”) com um objetivo específico: nas arenas da vida, tornar-se uma potente arma de guerra, autentico matador profissional, capaz de trucidar o adversário em segundos, em troca de algum dinheiro. Ao final de cada combate, dinheiro no bolso do “empresário” e o retorno à jaula que lhe servia de moradia, à comida racionada e às humilhações de sempre. Um cachorro vadio e desprezível, na completa acepção do termo.

Mas quando, em razão de um grave acidente (e a presumível morte do seu “tutor-tio”), o “encoleirado” Danny se vê sozinho no mundo, perambulando sem rumo pelas ruas, repentinamente é atraído pelo som de um piano; e aí ele conhece Sam (Morgan Freeman) que, apesar de cego, é um exímio afinador do instrumento.

Desprovido da visão, mas dono de uma apurada acuidade extra-sensorial, Sam detectara a presença de Danny no ambiente, estimulara-o a aproximar-se, pedira sua ajuda no manuseio de algumas teclas do piano e, ao final da conversa que fizera questão de provocar, convencido de que tratava de alguém de boa índole (mas sozinho no mundo, sem eira e nem beira), convidara-o para ir morar em sua casa. Lá, o encontro com Victória, enteada de Sam, aluna-concludente de um dos mais respeitáveis conservatórios de música (piano) dos Estados Unidos.

Pacientemente, os dois deixam que Danny aos poucos se liberte dos seus medos e apreensões, das suas angústias e temores e finde por integrar-ser à “nova família”, até porque, segundo ouviria de Sam a posteriori, “as famílias devem permanecer unidas”; e assim, aos poucos, acompanhado por Sam ou Victória, Danny começa a descobrir os prazeres da vida, em coisas e situações aparentemente banais ao mortal-comum: tomar um sorvete e saber que é gelado, ir a um supermercado e detectar quando uma fruta se acha madura e, até, que um beijo na face, lhe dado por Victória em forma de saudação, é “molhado” e “gostoso”. Definitivamente, aquela era a “sua família”.

De outra parte, os ensaios de Victória ao piano, em pleno recinto familiar, além de deixá-lo embevecido e extasiado, repentinamente o levam de volta ao passado e, via fragmentos memoriais, imagens começam a “pintar no pedaço”. E aí ele obtém a resposta do “porquê” da sua atração pelo piano: sua mãe fora pianista. Ajudado por Sam e Victória (através de um “retrato” que guardara e pesquisas posteriores), descobre não só a identidade materna, mas que fora uma pianista consagrada e famosa.

Nisso, numa prosaica visita a um supermercado, eis que Danny é reconhecido por um dos comparsas do “tio” (que ele julgara morto e que o transformara num autentico animal); descobre, então, que o próprio havia sobrevivido ao acidente e se vê “convidado” a comparecer à sua presença, imediatamente (sob a ameaça de que, não o fazendo, descobririam seu endereço e seus atuais protetores sofreriam as conseqüências).

Volta, contrariado; e é obrigado a recolocar a coleira e, mesmo afirmando não mais querer matar ninguém, é jogado numa arena onde cinco profissionais, usando instrumentos contundentes, começam um autentico “massacre”; por instinto de sobrevivência, a “fera” ressurge em todo o seu esplendor e fúria e assim Danny acaba com todos eles. Foge e, ferido, arquejante e cambaleante procura o abrigo de Sam e Victória, até porque “as famílias devem permanecer unidas”.

Em pouco tempo e com surpresa, descobre que os velhos amigos (o “tio” à frente), já haviam descoberto seu “esconderijo” e, agora, subiam os lances de escada dispostos a trucidar com todos eles.

Após colocar Sam e Victória num local presumivelmente seguro, dá-se a última batalha: um a um os comparsas são abatidos, impiedosamente, só restando o “tio”; já caído ao chão após uma luta sangrenta, incitando-o a que ele (Danny) mostre ser o que realmente é - “só um assassino vulgar” – provoca-o mais ainda ao afirmar que sua mãe fora uma prostituta que lhe servira sexualmente em ocasiões diversas; e aí repentinamente, em feedback Danny revive a cena em que o “tio” matara sua mãe, à queima roupa, com um tiro na cabeça.

Ainda assim, naquele momento crucial, o humano se sobressai, a fera sucumbe aparentemente de forma inexorável e Danny terminantemente se recusa a assassiná-lo; não, ele não é “aquilo”. Pressentindo o perigo, o cego Sam sai do esconderijo e na base da pura intuição acaba com o marginal, ao acertá-lo com um vaso de plantas, na cabeça.

Cena final: no conservatório, ao receber seu diploma de melhor pianista, Victória, ao ser convidada pra mostrar suas habilidades, toma do microfone e anuncia que a música a ser executada é dedicada a alguém muito especial que se encontra na platéia e por quem tem muito apreço; alguém cuja vida transformou-se quando encontrou a música.

Haja coração. Um filmão  (Cão de Briga) !!!





sexta-feira, 17 de julho de 2015

"Sayonara" - José Nilton Mariano Saraiva

Se você, aí do outro lado da telinha, ainda não sabe, a palavra japonesa “Sayonara” significa “adeus” e serviu pra titular um dos grandes filmes românticos já rodados (vencedor de três Oscar’s). Tanto que naquela oportunidade a imprensa foi pródiga em elogios, destacando: “Um gigante entre os filmes” (The Film Daily), “Um filme de beleza e sensibilidade” (Variety), “Uma encantadora história de amor; um dos melhores filmes do ano” (Los Angeles Mirror News).

No filme, Marlon Brando (numa atuação soberba), interpreta o Major Lloyd Gruver, herói da Força Aérea americana, envolvido na guerra com a Coréia, e que repentinamente, após pousar, vindo de mais uma batalha aérea, toma conhecimento da sua transferência para a Base Militar Americana, no Japão; é que o futuro sogro (General Webster, comandante da base) já lá se encontra com toda a família e, temendo pela vida do futuro genro, parece pretender “agilizar” a união da filha com o “major-herói”. Como os militares americanos eram terminantemente proibidos de se relacionar com as mulheres orientais, e o Major Gruver (Brando) um dos mais ardorosos defensores de tal (pre)conceito, o caminho praticamente estava pavimentado.

As coisas começam a mudar quando o Major é convidado pelo amicíssimo recruta Joe Kelly (seu subordinado e a quem não podia faltar), para ser padrinho do seu casamento... com uma japonesa, numa cerimônia simples em pleno recinto da Embaixada americana, lá no Japão (por tal atitude, posteriormente foi advertido pelo futuro sogro).

Enquanto no convívio diário com a noiva as coisas começam a “azedar” em razão das diferenças só agora descobertas, a função burocrática, à qual não estava acostumado, começa a lhe “encher o saco” (e a paciência). 

Pra espairecer, e como não tinha mesmo nada pra fazer, ele aceita o convite de um colega pra visitar na cidade vizinha a cerimônia de “passagem” por uma trilha, rumo ao teatro, das jovens mulheres componentes do balé feminino mais famoso do Japão, o Matsubayashi. E foi aí que o “cupido o flechou”, ao colocá-lo à frente da beleza suave e ao mesmo tempo estonteante de Hana-Ogi, a principal estrela da companhia. Tentou chamar-lhe a atenção, sem sucesso, mesmo envergando a vistosa e bela farda militar (as mulheres japonesas eram também proibidas de se relacionar com os americanos). Assistiu ao espetáculo no teatro, voltou nos dias seguintes e, sempre do mesmo posto de observação (na "passagem"), tentava pelo menos conseguir algum olhar piedoso de Hana-Ogi. Nadica de nada. Já cansado e desestimulado com tanto desprezo, resolve observa-la de um outro ponto. E aí, a surpresa. Enquanto dava autógrafos aos fãs, Hana-Ogi timidamente levanta a vista e dirige seu olhar para onde ele sempre ficava; não o encontrando, permite-se um giro de 180 graus com a cabeça, à sua procura.
Xeque-mate (sim, havia esperança).

Através da esposa japonesa do amigo Joe Kelly, consegue marcar um encontro secreto com Hana-Ogi (na casa do recruta); na oportunidade, fala, fala, fala e ela, bela e angelical, sem pronunciar um pio, uma única palavra. Visivelmente encabulado, ele lhe diz que não sabe mais o que fazer e, só então, ela “abre o verbo”: que seus pais foram mortos pelos americanos, que ela mesma fora criada com a quase obrigação de detestar os americanos, mas que, agora (que bela surpresa)... estava apaixonada por ele, um americano. E a partir de então passam a se encontrar às escondidas e viver intensamente aquela paixão explosiva.

Com o suicídio do recruta Joe Kelly e a esposa (grávida), em razão da sua remoção ex-offício para os Estados Unidos (desacompanhado da mulher), o Major Gruver “chuta o pau da barraca”: acaba o noivado com a filha do General, lhe diz da sua intenção de também casar com uma japonesa e recrimina aquele preconceito absurdo (do qual ele era um dos defensores, lembremo-nos); de pronto é ameaçado de expulsão da Aeronáutica pelo ex-quase-futuro sogro (que ainda teve o dissabor de ver a filha, ex-noiva do Major, sair de casa anunciando que iria viver com o afeminado principal dançarino de um dos balés do Japão). 

Para não prejudica-lo, Hana-Ogi foge para uma outra cidade, sem comunicar-lhe, deixando-o ensandecido. Ao descobrir onde ela se acha, vai ao seu encontro e, após o espetáculo, no camarim, lhe diz que renuncia a tudo por ela e, principalmente, que está para ser aprovada uma Lei americana acabando com tudo aquilo; lhe dá um prazo de alguns minutos para que decida se topa ou não ir com ele para a América, naquele mesmo dia. Retira-se e, do lado de fora, cercado pelos principais integrantes da mídia nipônica, aguarda ansioso que ela apareça. Tensão, expectativa... 

No último segundo, Hana-Ogi surge risonha, belíssima e esplendorosa e corre para os seus braços; quando os repórteres e jornalistas pedem pra o Major Gruver deixar alguma mensagem ao povo japonês (já que literalmente "raptando" sua principal estrela), sucintamente ele responde: “diga-lhes que eu lhes disse... SAYONARA”. The End.

Nota 1000. Um "filmaço"



Noite de lançamento do livro de Dona Magdalena Arraes, no ICC do Crato- 16.07.2015


Com profundo sentimento de admiração tive a honra de estar presente ao lançamento deste livro que desvenda a saga de uma guerreira Cearense ao lado da legendária figura de homem público e transformador que foi Dr. Miguel Arraes de Alencar .

Nilo Sérgio Monteiro




foto by Maria Monteiro

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O Voo Oblíquo de Marilu

J. Flávio Vieira

                                              
O retorno de Marilu , algo inesperado, causou um reboliço danado no Sítio Bréa. Tinha sido uma das primeiras moças a sair dali,  para trabalhar na cidade grande. Ainda adolescente, meio rebelde, andou brigando com a família, por conta de uns namoros fora dos padrões breenses  e, aumentando o conflito, preferiu , de comum acordo com os pais, partir para um voo solo em Matozinho. Marilu tinha lá seus dezoito aninhos e carregava consigo aqueles arroubos típicos da idade. Bonitinha, atirada, arranjou um emprego de doméstica na casa do Coronel Anfrízio Arnaud. Trabalharia durante o dia e , à noite, estudaria no Colégio Municipal Pedro Cangati.  Mais de três anos já se tinham escorrido,  quando a notícia da volta da filha pródiga espalhou-se pela Bréa. As colegas de Marilu se alvoroçaram. Tinham-na como um ídolo e aquele regresso imprevisto trazia junto uma fatia de desilusão. Mundo aberto à frente, todas as amigas carregavam consigo a possibilidade de um dia plainarem  igual a Marilu. O aparente fracasso dela, assim, esparramava uma certa frustração na alma de todas. O que teria acontecido ? Seria o mundo lá fora tão inóspito ?
                                   Na primeira oportunidade, procuraram Marilu. Queriam matar a curiosidade e, também, saber as novidades da cidade grande que só recebiam pelo Rádio. Muitas sonhavam em varar o mundo, seus sonhos dourados de adolescente não cabiam nas fronteiras opressivas daqueles cafundós.  O aparente fracasso da desbravadora , de alguma maneira, as angustiava . O que tinha dado errado na travessia de Marilu ?  Conversa vai, conversa vem, após quebrar-se o gelo que a ausência terminou por acumular, a entrevista transformou-se num papo de comadres, como nos velhos tempos.
                                   A desbravadora contou detalhadamente a vida em Matozinho. Havia um visível deslumbramento em cada detalhe que ia explanando. Guardadas as devidas proporções, para quem o universo se resumia à Bréa,  Matozinho investia-se de ares de metrópole. Marilu contou que trabalhava duro durante o dia, ia à Escola à noite e voltava ali por volta das dez horas. Nos fins de semana ia à missa e frequentava a praça da matriz. Algumas vezes foi a alguns sambas numa palhoça que foi inaugurada perto do açude do Sabugo. Fez amizades com algumas colegas de classe, já desarnadas e metidas na vida boêmia. Através delas,  tomou conhecimento de uma Buate de nome Arupemba , recém inaugurada. Lá se tocava uma musicazinha mais antiga, à media luz. A clientela masculina era basicamente de goiabões que dançavam animadamente com as meninas e pagavam tudo. Marilu, então, começou a fugir de casa, depois que os patrões pegavam no sono e voltava de manhãzinha, antes que Anfrízio metesse dos pés e pedisse o café. Tudo ia bem, até que um belo dia o patrão teve uma crise de asma à noite, procuraram , de urgência, a funcionária pra fazer um chá de camomila e cadê? Lugar mais limpo ! Descoberta a mutreta, Marilu teria sido peremptoriamente demitida.
                                   Transcrevemos aqui um pequeno fragmento da entrevista daquele dia fatídico que marcou o retorno de Marilu após a expulsão do Paraíso.
                                   --- Marilu, Matozinho é muito grande ?
                                   --- Marr menino !  Aquilo é um despautério, dá uma trinta Bréa encangada uma na outra...
                                   ---  Por que diabo é que te expulsaram da Casa do Coronel ?
                                   --- Eu tava fugindo de noite pra ir  me divertir na Boite Arupemba!
                                   --- Buate ? Que diabo é Buate , Marilu ?
                                   --- É assim como um Cabaré, mas  metido a besta. A gente dança com um monte de velho estribado. Eles pagam tudo ! Mas é lugar de respeito, nada de escandelo por lá !
                                   ---  E depois ? Nada de putaria ?
                                   --- Depois a gente ia com os velho prum tal de Moté.
                                   --- Moté ? Que bicho é esse, Marilu ?
                                   --- É assim um albiente que tem umas cama redonda, uma luz vermelha...  
                                   --- E o que vocês iam fazer lá com os velho ?
                                   --- Chegando lá, eles tiravam a roupa e nós também. E ficava ali naquele esfrega , esfrega... Depois eles até davam um dinheirinho pra gente ...
                                   ---- Esfrega, esfrega ? Nada  de vuco-vuco ?
                                   --- Não, os velhos eram muito respeitadores. Eles só pediam pra gente fazer capitão no pênis deles ...
                                   --- Pênis, Marilu ? Pênis ? Que bicho dos seiscentos é esse  ?

                                   --- Acho que pênis é o apelido do cacete de velho. É  igualzinho a uma rola, só que é mole, mole...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Escutando o barulho que vem lá do porão! - José do Vale Pinheiro Feitosa

Ota Benga.

Enjaulado no Jardim Zoológico de Nova York. Junto com macacos. Exposto à visitação pública. Andando pelo bosque do Zoológico e perseguido por uma multidão curiosa. Que, por vezes, lhes dava rasteiras apenas para se divertir.

Fora aprisionado na sua tribo de origem. Pigmeus. No meio das florestas tropicais da África. E transportado a Nova York sob o manto da hegemonia branca, que incrivelmente se tomava ares de ciência. Usando até mesmo a teoria da Evolução das Espécies de Darwin.

Segundo este preconceito travestido em ciência, ali, enjaulado, estava o elo perdido entre o macaco e o humano. E no “cavalo de pau” mirabolante das ideias que devastam a desumanidade estavam figuras destacadas da sociedade americana, mesmo nortistas, que diziam: ser os negros uma espécie diferente, “uma raça degradada e degenerada”.

Grupos de igrejas evangélicas negras, por dentro do mesmo cristianismo branco e europeu, mas com especificidade política em superação de suas condições sociais protestou contra o enjaulamento de Ota Benga. Isso abriu um grande debate entre a mídia reacionária do país e estes setores.

Durante meses prevaleceu o “direito” dos diretores do museu de enjaular o pigmeu junto aos macacos. Mas a opinião pública virou, inclusive porque até mesmo setores do sul racista ironizaram a vestal Nova York e o jovem foi entregue para adoção por um orfanato da igreja cristã negra.

Finalmente Ota foi entregue a uma família na Virgínia, no interior, onde brincou com as crianças. Aprendeu inglês. A religiosidade deles. Ensinou coisas às crianças. Foi se desenvolvendo nos preceitos da “civilização americana cristã”.

À proporção que foi chegando à adolescência, era uma criança pigmeia quando fora aprisionado, Ota foi sendo tomado por um profundo banzo. Uma fossa de nostalgia que apenas terminou com uma bala no coração, dentro de um galpão cinza e degradado que ficava no outro lado da rua onde morava.

Toda esta miséria humana formada por vestais do pensamento humano. Que se tomam de poderes para demonstrar olhos de fogo e pelos seus dedos lançarem raios destruidores do desamor ao outro. A loucura que transforma seres humanos em bonecos de retalhos.

Retalhos de ideias incoerentes e contraditórias. Apenas balas raivosas que, por vezes, resultam em adolescentes que fulminam os outros com armas de fogo.   

Porque estamos falando dos nossos pensamentos, palavras e atos. Todos exposto em público nesta rede de comunicação interpessoal. E para um país com predomínio de cristãos, com frequência figuras que junta fé com preconceitos, dogmas com copos de fel e jamais compreenderam sequer o que diz o Novo Testamento.

São personagens mais do mundo amorfo de uma confusão do que propriamente compreensivos cristão das palavras de Paulo: “Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine”.

São personagens perplexas diante do Papa Francisco, que disse aos repórteres que levava consigo a escultura do Padre Espinal (assassinado pela direita boliviana) da foice e martelo com o cristo em cima. Levava e compreendeu a escultura como o espírito de uma época a teologia da libertação.

E mais do que as pedras que se imaginam irremovíveis disse o Papa Francisco ao se referir às suas declarações: “Às veze, vêm notícias que tomam uma frase e ainda fora do contexto. Sim, eu não tenho medo, simplesmente digo: olhem para o contexto! Se eu erro, com um pouco de vergonha, peço desculpas e vou em frente.


Finalmente um papa Humano. Que admite o erro, se desculpa, mas não desiste de seguir em frente.   

Sobre poesia contemporânea, com ênfase no caso brasileiro

Postado por Lorena Miranda


Cartas a Um Jovem Poeta é a compilação das dez cartas que Rainer Maria Rilke endereçou, no período de 1903 a 1908, a um jovem aspirante a poeta. Nelas Rilke discute a natureza da poesia e daquele que dela se ocupa, entre outras reflexões sempre agudas, serenas, cuidadosas, sobre os mais variados temas.

Mas passemos de uma vez ao fato interessante: o livro se tornou, contemporaneamente, em verdadeira Bíblia do poeta wannabe. Cansei de ver e ouvir seus trechos serem utilizados para fundamentar as inclinações literárias de meus companheiros de geração. Sobretudo a idéia expressa no trecho a seguir:

Pergunta se seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os a outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem – usando da licença que me deu de aconselhá-lo –, peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer nesse momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila da sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?”. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa sua vida de acordo com essa necessidade.


Assinalemos, antes de tudo, a razoabilidade do trecho. A lição é simples e digna: que não se pronuncie aquele cuja contribuição não se impuser como necessidade, oferecendo-se ao invés como coisa supérflua, fruto de vaidade ou tédio ou o que for. Para Rilke, o poeta sabe fazer essa distinção, como é possível saber que se desafina ao cantarolar uma música, ou que não se é bem-vindo num determinado ambiente.

Se é realmente possível sabê-lo, ainda assim é preciso notar a sutileza da noção em jogo e a conseqüente dificuldade da tarefa de abarcá-la. Há cem anos, quando Rilke teceu suas considerações, “voltar-se para si mesmo” ainda não tinha o significado viciado que tem hoje, quando a tendência espontânea geral é ler frase ao pé da letra como “ignorar tudo que não seja meu umbigo, seguir meus instintos primevos e deplorar toda e qualquer exterioridade” – ao passo em Rilke tinha em mente, pelo contrário, o colocar-se em perspectiva para buscar sua genuína vocação. Ele se permite o uso de termos metafóricos, por vezes um tanto vagos, porque nem sequer lhe passa pela cabeça que “escavar dentro de si mesmo” possa prescindir de uma consideração profunda dos arredores em que o ser se encontra, único meio de localizar-se com a devida precisão. (O próprio tom fraterno, jamais perdendo de vista a existência concreta de seu interlocutor, empregado por Rilke em Cartas a Um Jovem Poeta já bastaria para demonstrar que a apologia da solidão presente no livro jamais contradiz e em verdade depende da noção de alteridade somente por meio da qual um sujeito, em sua solidão, pode chegar ao conhecimento de si mesmo.)

Mas o contemporâneo aprendiz de poeta, ao invés de uma reflexão honesta sobre seu papel – sua vocação – enquanto escritor, vê nas palavras de Rilke a confirmação do que ele (o aprendiz) sempre sentiu ser a verdade sobre si mesmo e sobre o mundo: só ele próprio tem existência concreta e às favas que vá o mundo.

Essa atitude redunda no desdém dos poetas contemporâneos pela tradição em torno da qual se consolidou o gênero poético e no pouco estudo que dedicam aos únicos mestres possíveis a todos que se desejem continuadores de tal arte. O poeta contemporâneo se basta a si mesmo, ou assim se pretende. Nenhuma erudição é páreo para sua escrita automática, único modo de captar a “fugacidade e imponderabilidade” de seu ser e sua existência.

Porém errôneo seria dizer que tudo isso se dá consciente ou voluntariamente; que essa coisa amorfa chamada poesia contemporânea, sobretudo a brasileira, erige seu programa em torno da negação da tradição e da prática do automatismo. Não; não se pode falar disso senão com respeito à primeira metade do século vinte, quando eclodiu e enraizou-se culturalmente o movimento modernista. Nós, literatos do século vinte e um, estamos sem rumo há pelo menos cinqüenta anos e nada seria mais risível do que atribuir um “programa” a nosso desnorteamento. Nos determina a pura e simples política da idiotização generalizada, que se edifica sobre as bases sólidas dos quinze anos de acefalização em que consiste a vida escolar do brasileiro. De modo que o bom poeta o qual, contra a corrente e se valendo de seus próprios recursos, consiga suspender a cabeça para fora dessa água causticante – encontra apenas o silêncio gélido da falta de leitores. Vá lá que uns ou outros, sobreviventes como ele, venham a apreciá-lo; ainda assim, para um poeta produzindo no Brasil nos dias de hoje, é precisamente utópico sonhar com um grande alcance para suas obras. Ou seja, ele pode até fomentar a revitalização de sua cultura a longo prazo, mas deve estar certo de que não viverá para colher os frutos últimos desse processo.

É verdade também que o desprezo pela tradição poética nem sempre se dá no nível do discurso. O que se vê no mais das vezes é um puro e simples despreparo intelectual, que produz no protoartista um embasbacamento paralisante diante de qualquer poema de Camões, estabelecendo léguas de distância entre o aprendiz de poeta e o que lhe parece um cânone inalcançável. Os brasileiros hoje não temos, para início de conversa, qualquer noção de ritmo, de musicalidade poética. O uso de métrica na escrita é tão estranho à forma de nosso pensamento quanto cores para alguém que tivesse morado a vida toda num iglu na Antártida. Qualquer farmacêutico há cento e cinqüenta anos seria capaz de compor um sonetinho duro, desses bem bobos, fórmula pronta. Mas os poetas de hoje (esqueçamos, em absoluto, os farmacêuticos) continuam prestando favores ao Concretismo de cinqüenta anos atrás e ao poema-pílula que era muito interessante em 1922 – apenas porque ambos, embora em teoria representem a epítome do tecnicismo, a hipérbole da poesia condensada, oferecem uma máscara fácil aos que se queiram passar por muito inteligentes sem ter em verdade o que dizer (nas palavras de Rilke, sem terem a vocação de qualquer coisa dizer).

Trata-se, com efeito, da convergência de diversos fatores culminando no que se pode sem medo chamar de ausência de cultura poética no Brasil. (Tendo a acreditar que alguns desses fatores sejam mais ou menos universais e se apliquem à situação da poesia no Ocidente como um todo – não faço a menor idéia do que se passa em culturas mais exóticas –, porém me furto a afirmar qualquer coisa nesse âmbito maior, pois me falta conhecimento de causa específico; e, principalmente, é possível que a cena em países mais desenvolvidos seja muito superior à do Brasil, no mínimo em virtude de uma educação mais decente, tanto de base quanto superior.) O primeiro desses fatores foi o estabelecimento de uma nova noção de poesia, de uma nova dicção poética – aquela inaugurada pelo Modernismo e desde então esgarçada até sua sublimação para além da literatura, com o poema pulverizando-se para fora do papel, reduzido a seus átomos e lançado ao espaço sideral, transformado em vacas de plástico pelas ruas de São Paulo e apresentações em formato Flash e Power Point.

Essa mudança no modo de se abordar a poesia a partir do início do século vinte já surgiu como uma tentativa de se abarcar a novidade – notadamente, a velocidade – da vida moderna, cujo símbolo são as grandes metrópoles globalizadas. Porém o que se chamava de “a ágil modernidade” do pós-Primeira Guerra, se comparado com o mundo em que vivemos hoje, provavelmente evidenciará mais diferenças entre ambos do que entre o Modernismo e o passado que ele tentava refutar. E no entanto nós gostamos de nos chamar pós-modernos, assinalando nossa filiação a um movimento que já não nos diz respeito, e vivemos até hoje a desfiar o novelo desgastado de uma época cujas soluções estéticas já não respondem pelo que somos.

Em suma, a liberdade poética instaurada pelo Modernismo, associada à pouca educação do brasileiro contemporâneo (e me refiro inclusive ao brasileiro universitário, ao aprendiz de poeta), em cujo espírito se reproduzem aquelas noções de doce complacência em relação a si mesmo e grande preguiça quanto ao que está fora dele, gerou um monstro desfigurado, um arremedo de expressão artística inteiramente prescindível àquilo que seria o fim mais nobre da poesia dentro de um dado contexto social: dar voz simbólica e distintiva aos traços desse contexto, localizando-o no tempo, desenvolvendo sua consciência de si próprio.

Tenha-se o Desconstrutivismo como método de análise da realidade e o individualismo fazendo-se confundir com individualidade numa cultura de analfabetos funcionais e eis a genealogia da poesia contemporânea brasileira. Só Deus sabe em que medida é consciente a concatenação entre políticas públicas visando apenas a derreter nossos cérebros e a onda de discursos vazios que as universidades despejam sobre o imaginário coletivo – o fato é que tudo tem convergido perfeitamente para a paralisação de qualquer capacidade crítica e esforço de autoconsciência de nosso país, como um barquinho cujos remadores trabalhassem em sentidos contrários, fazendo-o girar sem sair do lugar.

Há pouco mais de cinqüenta anos, o poeta João Cabral de Melo Neto já alertava para os riscos do que se poderia chamar de falta de responsabilidade ou de consciência do poeta com relação a seu ambiente sócio-cultural. Não que Cabral exigisse do poeta um posicionamento político ou crítica social vazada em arte; seu argumento se desenvolve no sentido de que cabe ao artista pesquisar as formas de expressão mais adequadas ao seu próprio tempo, do contrário seu trabalho resultará inútil, indiferente (e para Cabral as soluções poéticas propostas por seus contemporâneos não passavam de paliativos preguiçosos à verdadeira pesquisa existencial inerente à composição de poesia). Não se trata – reitero – de rejeitar a “arte pela arte”. O que ocorre é ser variável, ao longo do tempo, aquilo a que se pode chamar de “a demanda estética da realidade”. Pode-se argumentar, por exemplo, que os dias atuais já estão saturados da dualidade “arte social” versus “abstracionismo porra louca”; que alternativas a essas correntes estéticas existem, ainda que nossa auto-estima de sobreviventes pós-apocalípticos amputados nos faça duvidar de termos forças para um retorno, digamos, à poesia narrativa, de formas determinadas, difícil de compor pois dependente da apropriação de um modelo milenar, cujo aprendizado só pode ser feito pelo estudo longo e cansativo de sua tradição. Ou seja, talvez o que se deva fazer para resgatar a poesia contemporânea do limbo em que se encontra seja reeducar formalmente os novos poetas, desfazer o legado modernista-desconstrucionista em suas consciências, reequipá-los com os instrumentos milenares de composição poética, já de todo extirpados do seu bojo de conhecimentos – e então quem sabe comecemos a ouvir vozes atuais, vozes de poetas que nos representem, que nos deem a ver a nós mesmos. É a essa preocupação com a manutenção da eficácia cultural da poesia, indiferente por meio de qual solução estética se dê, que João Cabral de Melo Neto chama seus contemporâneos.

Em texto intitulado Da Função Moderna da Poesia (1954), ele descreve do seguinte modo o tipo de poesia que é alvo de sua crítica:

A necessidade de exprimir objetiva ou subjetivamente a vida moderna levou a um certo tipo especializado de aprofundamento formal da poesia, à descoberta de novos processos, à renovação de processos antigos. Afirmá-lo não significa dizer que cada poeta de hoje é um poeta mais rico. Pelo contrário: esse aprofundamento deu-se por meio de uma como desintegração do conjunto da arte poética, em que cada autor, circunscrevendo-se a um setor determinado, levou-o às suas últimas conseqüências. A arte poética tornou-se, em abstrato, mais rica, mas nenhum poeta até agora se revelou capaz de usá-la, em concreto, na sua totalidade.

(...) O poeta moderno, que vive no individualismo mais exacerbado, sacrifica ao bem da expressão a intenção de se comunicar. (...) O alvo desse caçador não é o animal que ele vê passar correndo. Ele atira a flecha de seu poema sem direção definida, com a obscura esperança de que uma caça qualquer aconteça achar-se na sua trajetória.

(...) Tudo o que os poetas contemporâneos obtiveram foi o chamado “poema” moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer tipo de mensagem que o seu autor pretenda enviar. Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma consideração acerca de sua possível função social de comunicação. O poeta contemporâneo chegou até ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter cogitado do assunto.


Como não podemos dizer que nosso processo poético, desde João Cabral, tem evoluído, resta-nos apagar nossos garranchos, jogar fora nossos cadernos de esboços, e começar do zero lá de onde tais severas e sóbrias palavras foram pronunciadas.

Este é um artigo pessimista, para cujos fins não interessa enfatizar as parcas reservas de esperança que nos restam, ou os casos excepcionais de poetas verdadeiros – poucos, muito poucos – vistos pelo Brasil nos últimos cinqüenta anos. A inclinação poética existirá enquanto houver homens, e está na estrutura da natureza que, entre todos, n’alguns esta inclinação resulte em traço preponderante, impelindo-os à tradução simbólica da realidade nisso que conhecemos por linguagem poética. Nada garante, entretanto (e, em verdade, os nossos tempos dão perigoso atestado disso), que um povo não possa enveredar por caminhos antinaturais, destruindo-se; que a poesia num homem não se possa perverter em loucura, que o simbolismo, em vez da luz, não possa ser posto a serviço das trevas.

Fonte: http://blogadhominem.blogspot.com.br

terça-feira, 14 de julho de 2015

OS SINOS DOBRARAM NO CRATO - Por José Almino Pinheiro

A torre da Igreja São Vicente Ferrer do Crato sempre foi um dos lugares que me fascinavam, com três belos sinos, grandes, afinados, importados de não sei onde. Eu era um dos coroinhas da igreja. A escala das nossas obrigações, escrita pelo Padre Frederico, era organizada de tal forma que era compreensível para todos. Estavam lá discriminadas as funções, as horas e os dias da semana que cada um deveria exercer; previa inclusive os coroinhas reservas, caso alguém faltasse. Para as Missas da madrugada (6 horas da manhã) os coroinhas precisavam da autorização dos pais, não podia perder aula. Algumas das obrigações: tocar os sinos, ajudar na missa, balançar o turíbulo, carregar o incenso, segurar a patena na hora da comunhão, nos batizados ajudar no andamento da cerimônia e as vezes anotando as informações para a certidão de batismo, ajudar o sacristão a fechar a igreja, etc.
Na torre o toque de chamada para as missas era simples: três coroinhas executavam a operação de puxar as cordas para mover os sinos, os badalos ficavam soltos, quanto maior o impulso maior a pancada do badalo na borda interna do sino e em consequência maior a intensidade do som. Para avisar os fieis da hora da missa, eram necessários três toques de 2 minutos, o primeiro às 17:30h, o segundo às 17:45h com os 3 sinos tocando simultaneamente, no terceiro toque às 18:00h, apenas tocava o sino grande. No último toque os fieis já deviam estar dentro da igreja, o padre já no altar, esperava o último badalar do sino para então começar a cerimônia. Para nossa alegria o padre não admitia atrasos, todos os dias os coroinhas levavam para a torre um grande despertador com marcas de tinta vermelha no mostrador indicando o momento dos toques. Por pura molecagem, às vezes antecipávamos em alguns minutos o último toque, só para ver os fieis correndo para chegar na igreja a tempo e também observar a impaciência do padre em terminar de vestir os paramentos para depois, já a postos no altar, repreender em voz alta os que chegavam atrasados. Confesso que nos dava uma estranha sensação de poder, por alguns minutos, o início da celebração da Missa dependendo da vontade de alguns coroinhas.
Havia bastante liberdade no universo dos coroinhas da Igreja São Vicente; para nós um dos poucos tabus era o toque fúnebre. Esse dever de anunciar a morte e o respectivo enterro do cristão não fazia parte dos nossos pensamentos, era coisa muito séria, sobrenatural. Mas no dia da morte de uma viúva que morava no alto da matança, era preciso tocar o aviso fúnebre. O principal critério de consideração do padre Frederico não era o da posição social e sim o comportamento exemplar que cada cristão deveria ter. A defunta tinha ficado viúva muito nova e para criar os cinco filhos teve que passar a vida toda trabalhando como costureira, e ainda arranjava tempo para ser boa paroquiana, portanto merecia a atenção da Igreja. Como o Sr. João, sacristão e tocador oficial e conhecedor dos toques ficou enfermo, o padre teve que improvisar e convocou três coroinhas que estavam por perto para cumprir a missão. Para nós, as vítimas, o padre preparou em uma folha de papel uma espécie de partitura com as explicações de como os sinos deveriam tocar. Era o toque fúnebre feminino, e, se não me engano, consistia em sequências regulares de toque duplos, começando do sino menor para o maior.

Na torre os sinos ficavam em andares diferentes, o menor no andar mais alto, o toque era feito com o sino imóvel com a batida do badalo puxado por uma curta corda, de forma que mal dava para os coroinhas conversarem entre si. Era um momento pesaroso e monótono. Depois de algum tempo, para quebrar a monotonia começamos a exercitar, sem saber, alguns fundamentos da física: a prática da balística e queda livre dos corpos, jogando lá de cima da torre mísseis em direção a incautos transeuntes que ousavam passar sob as janelas da torre. Esgotadas as munições ao nosso redor, era necessário procurá-las em outros lugares da torre. As munições consistiam em cocô ressecado de pombos, andorinhas e provavelmente de morcegos. No entusiasmo dessa batalha a partitura do padre ficou em segundo plano, pois não mais se respeitou as sequências nem o tempo das batidas dos sinos, no afã de encontrar munição, cada um tocava seu sino do jeito que dava, era uma espécie de novo e animado batuque fúnebre. O toque diferente, chamou a atenção dos paroquianos que ficaram curiosos em saber que autoridade tão importante tinha morrido para merecer tal toque. Talvez a mãe de algum padre ou mesmo um bispo alemão. O enterro da viúva foi um sucesso. Uma multidão acompanhou o enterro, muitos queriam saber quem era o homenageado daquele toque especial. De cima da torre, pelas frestas das janelas observamos quando passou o enterro, liderando o cortejo estava impassível o padre Frederico. Ao passar pela igreja rumo ao cemitério, tive a sensação que o padre deu uma forte olhadela para a torre, e por precaução e em legítima defesa das nossas orelhas, passamos alguns dias sem aparecer na igreja.                

"DELAÇÃO" x "CORRUPÇÃO" - José Nilton Mariano Saraiva

Embora essa tal de “delação premiada” seja uma espécie de instrumento jurídico permissível e de uso recorrente nos tribunais da vida, mormente agora no âmbito da operação Lava Jato, se nos dispusermos a analisa-la com frieza, profundidade e isenção, paradoxalmente, ao fim e ao cabo, a conclusão é que ela assemelhar-se-á (por linhas tortas ou oblíquas, como queiram) àquilo que a fez ser usada: a “corrupção”.

Afinal, se a “corrupção” empiricamente nada mais é que a oferta (por parte de quem tem “bala na agulha”) a agentes mafiosos, de um “premio” (suborno) a fim de se conseguir um determinado objetivo (no caso da operação Lava Jato, o de vencer uma milionária licitação, por exemplo) na “delação premiada” (e a denominação por si só já é bem sugestiva) o objetivo “temporal” (aqui a novidade) da autoridade constituída é o de, através de detenções arbitrárias (porquanto sem provas factuais) e posteriores escutas ilegais (via grampos não autorizados) é o de, repetimos, constranger, literalmente matar pelo cansaço e ao fim, “corromper” o presumível “corruptor-original”, através da oferta de um “premio” (diminuição da pena) contanto esteja este disposto  a “entregar de bandeja” outros integrantes do esquema mafioso (uma espécie de forçação de barra, com recompensa garantida).

A vingar tal reflexão, teríamos, então, duas distintas e conflitantes espécies de “corrupção”: a corrupção “ilegal”, patrocinada por empresários de alto coturno, cuja mola-mestra seria se beneficiar, através da entrega de “prêmios” (propina) a quem se disponha a vender a alma, de sorte que o retorno seja geométrico e garantido; e, na outra ponta, a corrupção (teoricamente) “legal”, patrocinada pela “autoridade constituída” (o Estado) via “delação premiada”, visando condenar sem provas, aqui com o sério agravante de se ofertar credibilidade à palavra de notórios bandidos (já que inexistem provas que corroborem aos depoimentos prestados).  

E o perigo mora exatamente aí, conforme se pode constatar pelo argumento usado pela ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber no julgamento de José Dirceu:  “Não tenho provas para condenar Dirceu, mas a literatura me permite fazê-lo”.