por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



terça-feira, 4 de junho de 2013

A conquista do sul - José do Vale Pinheiro Feitosa

Contando a bacia do Rio da Prata, dos Pampas, do Chaco, parte da bacia do Amazonas e a bacia do Orinoco pela costa do Atlântico, os Espanhóis na América do Sul herdaram toda a costa do Pacífico ou seja a metade do continente. Na verdade os portugueses levaram uma vantagem relativa quando 8,5 milhões de quilômetros quadrados dos 17,8 quilômetros quadrados da América do Sul lhes pertenceu. Isso considerando os aproximados 200 mil quilômetros quadrados ocupados pela Inglaterra, Holanda e França no que se chamou Guianas.

A conquista espanhola dos territórios do Pacífico, incluindo o vasto interior pela Cordilheira dos Andes e até grandes trechos do território do Amazonas e toda a bacia do Orinoco tem um centro galvanizador. Foi, como no México, a conquista dos Incas, do ouro e da prata do Peru. Uma conquista tão poderoso que causou uma enorme inflação na Europa de então e estando na raiz de grandes fomes e de uma crise camponesa sem igual.

A expressão institucional do domínio do Pacífico é o Vice-Reinado do Peru. Alías, a cidade de Lima tem umas das mais belas Praças de Armas das Américas no estilo antigo dos espanhóis. No botim das riquezas do Incas entre Pizarro e Diego de Almagro este se rebela e, tomando conhecimento de que riquezas maiores existiriam ao sul, atravessa os Andes desde Cuzco, perde grande parte de sua tropa por hipotermia durante a travessia e chega ao vale do Capiapó onde acontece a Guerra do Arauco com os nativos e, sendo Almagro perdedor, retorna ao Peru para continuar a disputa com Pizarro. Isso aconteceu em 1536, mas a historiagrafia chilena considera a sua descoberta como tendo ocorrido em 1520 pelo português Fernão Dias de Magalhães na sua famosa circunavegação da terra.

Mas a história das Américas não é a história da conquista do mercantilismo pura e simples. Ela é a dinâmica que transforma os camponeses europeus e os nativos americanos num caldo cultural do mercantilismo e sua empresa mercantil que se capitaliza através da exportação de produtos minerais e agropecuário com seus derivados. Nem os espanhóis eram este ser único como ainda não é hoje. O centro do reinado era Castelha, mas a Galícia, a Catalunha e até os belicosos Bascos não são um único cultural. Assim os nativos do Chile.

Como havia Castelha na Península Ibérica a rivalizar com os Portugueses, no Chile os valorosos Mapuches eram o núcleo de expressão frente à força cultural dos Incas ao norte. Incas que dominaram os Aimaras, os Atacamenses (do Atacama) entre outros. Por isso que a cultura de resistência chilena e peruana quando precisa avocar sua alma americana fala num grande personagem chamado Túpac Yupanqui como símbolo das lutas políticas de agora. Os Túpac eram os imperadores Incas.

Em 1540 Pedro de Valdívia atravessa o Atacama, evita a rota da cordilheira feita por Almagro e começa a guerrear com os nativos seguindo numa conquista rumo ao sul, fundando cidades (na verdades pequenos fortes com agrupamento humano mínimo) e vai até ao sul. Funda cidades como La Serena, Concepción, La Imperial, Valdívia entre outras. Isso durou treze anos, quando em 1553 os Mapuches se rebelaram, retomaram seu território e mataram Pedro de Valdívia. Fica na rebelião dos povos oprimidos à força, a enaltação da memória de duas lideranças Mapuches: Lautaro e Caupolicán.

Os espanhóis destacaram para combater os Mapuches um fidalgo com nome florido: Garcia Hurtado de Mendonza y Manriquez. Este tomou um tombo fenomenal dos Mapuches e resolveu-se com a herança do vice-reinado do Peru. E foi aí que um espírito além das amarras do conservadorismo a serviço da empresa mercantil enxergou depois do pragmatismo da exploração e ouviu a humanidade nascida das franjas ricas da costa chilena: a alma dos Mapuches.

Era um poeta-soldado, que conseguia enxergar além da ponta ensanguentada de sua lança, que se chamava Alonso de Ercilla y Zúniga e escreveu a primeira poesia épica americana chamada La Araucana. No livro Dom Quixote de La Mancha, Cervantes escreve que La Araucana era, então, uma das maiores poesias em verso heroico castelhano. 

Identificado como um soldado, Alonso Ercilla era na verdade de descendência fidalga, sendo seu pai um jurisconsulto e o avô um senhor feudal. A mãe pertencia à nobreza e era dama de companhia da rainha. Além de uma grande aprendizado formal, Ercilla viajou por toda a Europa e pelas possessões espanholas. Acompanhou o príncipe Espanhol quando este foi a Bruxelas tomar conta do ducado de Brabante. Estava em Londres acompanhante o príncipe Felipe quando este foi casar-se com a herdeira inglesa e ali se tomou conhecimento da resistência dos Mapuches em Arauco. Foi então que o poeta embarcou para o Chile. Tinha, na ocasião, 21 anos de idade.

Alonso participou de sete batalhas com os Mapuches e, inclusive, participou da conquista do estreito de Magalhães. Junto a dez soldados atravessou o arquipélago de Aneudbox numa pequena barcaça e entrou de terra adentro onde numa árvore escreveu esta quadra:

Aqui chegou, onde outro não há chegado,
Don Alonso de Ercilla, que o primeiro
Em um pequeno barco deslastrado,
Com apenas dez, passou o desaguadeiro,
No ano cinquenta e oito entrado,
Sobre mil quinhentos por Fevereiro,
Às duas da tarde, ao fim do dia,
Retornando ao encontro da companhia.

E eis um trecho do espírito Mapuche nos versos de Alonso:

Chile, fértil província e assinalada
na região Antártica famosa,
de remotas nações respeitada
por forte, principal e poderosa
a gente que produz é tão granada,
tão soberba, galharda e belicosa
que não há sido por rei jamais regida,
nem à estrangeiro domínio submetida. 

A "omissão" do poeta - José Nilton Mariano Saraiva



Segundo Caetano Veloso, um dos nossos grandes poeta/compositores, “a praça Castro Alves é do povo, como o céu do avião”. Pecou por omissão, o distinto, ao deixar de incluir em seu verso (talvez porque não desse rima) que a “praia” também o é.
Fato é que, em sendo um espaço dos mais requisitados, a “beira-mar” se nos apresenta como aquele ambiente eminentemente democrático, onde convivem pacificamente pessoas de todas as tribos, raças e credos, independentemente das idiossincrasias.
Pois não é que, aqui em Fortaleza, o recém-empossado prefeito da cidade, embora fã incondicional do Caetano Veloso partiu pra radicalização ao proibir terminantemente que determinados grupos de pessoas que se exercitavam nas diversas praias da cidade continuassem a fazê-lo. 
Segundo um dos seus assessores, S. Excia., embora médico e, conseqüentemente, sabedor dos benefícios da atividade física para o ser humano, teria chegado a sugerir que estaria em curso uma tal “ocupação” e privatização progressiva do espaço público, o que representaria um perigo iminente.
E agora, José ???

Por José Carlos Brandão


ENIGMA

A memória teima
por desvendar esse
existir repleto
de espinhos secretos

ferindo a consciência
de dores silentes
que nem poesia
nem matéria fria

desvenda mais que
o trivial e
o já sabido antes

no primeiro instante
quando foi feita a treva
com a luz desta gleba.

(1972)
Procuro poesia nos quatro cantos da casa.Ela ,intimidada, fica na grama do jardim pastorando passarinhos.Preciso das rosas...- já tenho o cheiro de mato.
Junho, sem dúvidas, é o mês mais gostoso do ano.Ar-condicionado que só depende da luz das estrelas.
Estou morando num pedaço do céu - meu céu é modesto!
Meu coração está encharcado de águas salgadas, mas sinto no ar, o cheiro doce das frutas do Lameiro.
Um dia luminoso e de muita paz para todos!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A costa litorânea que é um país - José do Vale Pinheiro Feitosa

Começarei hoje uma série de postagens sobre o que é hoje a menina dos olhos do modelo liberal na América Latina: o Chile. Esta é a primeira e a última se auto-explicará. 

A Grécia, na ponta dos Bálcãs  é uma costa dadivosa para o comércio do Mediterrâneo e sua navegação a juntar o Oriente e o Ocidente. A Inglaterra uma ilha na costa do Atlântico foi uma armada a engolir povos em razão da expansão mercanto-capitalista deste oceano. A natureza desta presença histórica é a navegação como rota de expansão de produção e cultura.

A América do Sul tem 17,8 milhões de quilômetros quadrados e quatro quintos de seu território fica abaixo da linha do Equador. No princípio dos tempos era um só corpo continental junto com a África, a península Arábica, a Índia e a Austrália. O pedaço que formou a América do Sul se compunha de três massas: o escudo brasileiro, o escudo patagônico e o escudo guiano.

Foi muito tumultuada a separação deste corpo continental original com dobramentos e formação de sedimentos nos primeiros tempos e finalmente o grande dobramento dos Andes junto com a regressão dos mares na face Atlântica. A América do Sul é um conjunto de três estruturas: as planícies, os planaltos e a cordilheira dos Andes.

Há uma diferença enorme entre a costa do Pacífico e a costa do Atlântico. O litoral do Atlântico em geral é baixo, de fraco declive no terreno, terreno arenoso com depósitos fluviais e tem uma larga plataforma continental como terras mais baixas inundadas pelo oceano. Além de tudo é rico em acidentes geográficos como baias, golfos, penínsulas, saídas de grandes rios inclusive de grandes deltas.

Já o Pacífico é um contraste entre escarpas e grandes profundidades marinhas. Tem a moldura alta dos Andes e não tem plataforma continental. Não é tão rica em acidentes geográficos destacando-se alguns golfos e uma península, além da imensidão de ilhas e arquipélagos assim como a Terra do Fogo separada do continente pelo estreito de Magalhães.

A Atlântico tem 16 mil quilômetros de extensão em sua costa e o Pacífico tem 9 mil quilômetros. Destes 9 mil quilômetros do Pacífico, quase a metade pertence ao Chile: são 4.265 quilômetros. Porém é um país formado por uma faixa de terra com esta extensão toda e uma média de largura de 180 quilômetros, sendo a máxima de 349 quilômetros em Antofagasta e a mínima em 15 quilômetros em Puerto Natales bem no final sul do país.

É o Chile uma típica costa marinha, um país defendido a oeste pela Cordilheira dos Andes, ao sul pelos glaciares e a norte pelas terras conquistadas à Bolívia num dos desertos mais secos do mundo. A marinha é uma essência do seu domínio, mas os povos foram domados a ferro e fogo pelos exércitos que participaram de algumas guerras, inclusive a chamada guerra do Pacífico de 1879 e 1883 que deram ao Chile territórios conquistados ao Peru, como a Província de Tarapacá e à Bolívia, no caso a Província de Antofagasta que deixou a Bolívia sem saída para o mar.

E como sempre a raiz da guerra era o papel de protetorado que faziam as recém libertas repúblicas sul americanas aos capitais ingleses aplicados na exploração mineral dos nitratos, o guano e o salitre, no Deserto de Atacama. Até hoje a Bolívia reivindica um respiro para o Pacífico e isso é um conflito latente neste extenso litoral chileno.
    
Enfim o Chile tomou o Peru, solapou o litoral da Bolívia e os EUA começaram seu proselitismo com mediador do conflito e da paz entre as três nações com a conquista chilena de territórios que ainda fazem a história da nações latino americanas em suas mazelas e sofrimentos. Nestes episódios os EUA começavam sua marcha imperial em substituição à Inglaterra e neste episódio o Chile como uma costa por domínio. 

domingo, 2 de junho de 2013

Tenha misericórdia !



Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)”
Manuel Bandeira

                                               Manuel Bandeira, na sua “Evocação ao Recife”, já demonstrara toda sua preocupação com o crescente risco de perda do patrimônio poético das cidades. Aos poucos , as ruas e logradouros vão sendo dilapidados pela substituição inconseqüente e burocrática do seus nomes , por meros critérios políticos. Onde estão hoje, aqui em Crato, as ruas da Saudade, das Laranjeiras, das Flores, a Formosa, a do Fogo, da Pedra Lavrada e a Rua Grande ?  Seguindo a  premonição do nosso poeta pernambucano, foram amputadas dos seus dulcíssimos nomes , batizados um dia pela doce língua do povo , sapecando-se-lhes epítetos sem nenhuma relação causal com a história da cidade como:  João Pessoa e Senador Pompeu. A homenagem, que em geral, tem a intenção de perpetuar a memória dessas figuras , funciona ao contrário, quase como uma íntima vingança do povo ao acinte : tornam-se nomes apenas, ninguém sabe quem foram e que importância política um dia tiveram. Como todas as coisas na face da terra caminham, inexoravelmente, para o esquecimento amplo, total e irrestrito.
                                               Muitas vezes, no entanto , a revolta ao acinte é mais pronta e violenta. Meses atrás, um bêbado, no Seminário, cheio das meropéias e , consequentemente, das razões, começou a gritar, no meio da rua, contra aquilo que lhe parecia um abuso: a substituição do nome da Rua da Misericórdia pelo  de Diógenes Frazão.  
                                               --- Mas era só o que tava faltando,  mesmo ! Meu pai nasceu aqui nessa rua que sempre foi da Misericórdia. Minha mãe casada veio morar na rua da Misericórdia ! Eu e todos meus irmãos nascemos na Rua da Misericórdia! Quem diabos foi esse corno do Diógenes Frazão ? Quem conheceu esse filho da puta por aqui ?  Diógenes Frazão é uma porra ! Diógenes Frazão é a puta que pariu !
                                               Como sempre, nosso pau-d´água ligou a matraca e não parava mais de falar e nem conseguia mudar o assunto. Mudavam apenas os palavrões contra o pobre do Diógenes Frazão que não tinha nenhuma culpa pelo ato da Câmara Municipal. Havia sido Major da Guarda Nacional e fora proprietário da  aprazível Bebida Nova que, graças a Deus, ao menos até ali não tinha perdido o seu bonito nome original. A cantilena seguiu rua abaixo e ele, cheio do quequéu , nem percebeu a aproximação de uma viatura do Ronda do Quarteirão. Ouvindo tamanha balbúrdia, desceram do carro e abordaram o desordeiro. Ele resolveu recolher os impropérios dirigidos a Diógenes, dirigindo-os , agora, diretamente para os soldados e o pau comeu no centro. Apesar do nome da rua, os samangos não tiveram misericórdia. Deram uns conselhos de cassetetes e o levaram em cana. Soltaram-no no outro dia, numa ressaca dupla : a da peia e a da cana.
                                               Consta que nosso bebinho voltou manso, ainda com a cara inchada dos conselhos . Tardizinha resolveu ir --- santo, santo --- para a novena de São José. Assistiu a toda  missa concentradíssimo, como se estivesse na Capela Sistina. Na hora da “Salve Rainha” , orou com toda convicção :
                               -- “ Salve Rainha...”
                               No próximo verso, no entanto, demonstrou , claramente, como tinham sido importantes os ensinamentos aplicados pelo Ronda:
                               --“ Mãe de... Mãe de ...”
                               Lembrando ainda claramente do peso dos cassetetes, mostrou-se atualizado e, ao invés de “Mãe de Misericórdia”, corrigiu prontamente :
                               -- Mãe de Diógenes Frazão... 

J. Flávio Vieira

"Vergonha" - José Nilton Mariano Saraiva

Por paradoxal, os próprios integrantes da cúpula de Poder Judiciário estimulam os mortais comuns a – ao raiar de cada dia - desconfiarem que, ao contrário do que ditam os manuais e a nossa Carta Maior, a Justiça não é igual para todos (passa longe disso); que existe, sim, de maneira sorrateira e disfarçada, entre quatro paredes, tratamento diferenciado e privilegiado para aquele segmento social incrustado no topo da pirâmide social: os detentores do vil metal.
Tanto é que, agora mesmo, após quatro meses, tempo julgado (por eles) suficiente para que a poeira baixasse e os ânimos serenassem, os integrantes do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiram (a troco mesmo de quê ???) libertar os responsáveis pela morte dos 242 jovens que sucumbiram tragicamente envenenados numa boite da cidade de Santa Maria/RS, sob o estapafúrdio argumento de que não representam nenhum perigo para a sociedade.
É inconcebível que se ignore o sofrimento e a dor de tantas famílias vitimadas pela insensibilidade de uma meia dúzia de inescrupulosos empresários, ávidos pelo lucro a qualquer preço; é inaceitável que alguém que assume a responsabilidade de matar (sim, ao usar material inadequado, porquanto altamente tóxico), seja posto em liberdade de uma hora para outra, como se nada houvesse acontecido.
Estamos falando da morte de 242 jovens; estamos falando do sofrimento atroz de 242 famílias; estamos falando de sonhos alimentados durante anos e abruptamente interrompidos; estamos falando, enfim, de seres humanos. 

Daí, uma única palavra para definir isso tudo: “vergonha”. “Vergonha” de um Judiciário corrupto e imoral, capaz de proteger assassinos confessos.

sábado, 1 de junho de 2013



Continuo amando meus amigos e as madrugadas.
 Tudo está silencioso. Meu coração falante ficou rouco. Pouso o meu olhar nas teclas. Meus dedos pensam; não escrevem.
 Amanhã é sábado, e eu preciso aguar um jardim.
Essa nova janela é bem mais bela... Ganhei rede na varanda, mas estou sempre com a mão na massa.
O quarto do meu filho está arrumado. Espero com paciência o seu cheiro de cigarro.
 Junho começa com a imagem de Santo Antonio. Terminará com São Pedro nos entregando as chaves de novos enredos. Aguardo boas surpresas. Estou cansada de pensar/resolver...
 Quero divagar, e observar um chuvisco de poesia.

socorro moreira

sexta-feira, 31 de maio de 2013

DEPUTADA ERUDINA FALA SOBRE VIOLETA ARRAES

Muito me honra e comove ser a primeira mulher a receber a Medalha Violeta Arraes de Direitos Humanos, criada pela Secretaria Estadual de Mulheres do PSB do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que o Prêmio Zuzu Angel – II Edição é conferido, pela mesma Secretaria, às bravas mulheres do grupo Tortura Nunca Mais. A elas nossos cumprimentos e gratidão pela dedicação na defesa dos Direitos Humanos.
Ao ser informada pela companheira Regina Flores, Secretária da Mulher, sobre a escolha do meu nome para receber a Medalha Violeta Arraes, pensei sobre o significado da homenagem e conclui que não é era a mim que devia ser prestada, mas, sim, à própria Violeta , inspiradora da criação deste Prêmio. É a ela, pois, a quem devemos e queremos homenagear nesta noite de festa, com toda solenidade que se possa imprimir a este ato.
Com certeza, tudo o que de mais relevante eu possa destacar da trajetória de vida dessa mulher extraordinária, já deve ser de pleno conhecimento dos que estão presentes aqui e de tantos mais que a conheceram pessoalmente ou através dos rastos luminosos que ela foi deixando atrás de si ao longo de sua rica e fascinante existência.
No entanto, o reconhecimento e a celebração pública da grandeza e dignidade de uma pessoa, cuja vida privada se confunde com a vida pública, nunca é demais, visto que confirmam o que já se sabe sobre ela; ao mesmo tempo conferem realidade aos feitos extraordinários de sua vida, iluminando-os. É o que queremos fazer neste momento, reconhecer e celebrar a vida e a obra de Violeta Arraes que marcaram indelevelmente seu tempo e sua geração.
Violeta dedicou inteiramente sua vida às lutas pelos direitos humanos e na defesa da democracia; lutas essas que ela travou sem fronteiras, com muita coragem e determinação e no limite máximo de sua generosidade.
Cearense do Araripe, veio ao mundo em 5 de maio de 1926 e foi uma das figuras mais atuantes e influentes nos meios acadêmicos da sua época, projetando-se publicamente dentro e fora do Brasil por sua presença ativa no mundo da cultura e das artes e pelo seu engajamento político.
Em Recife, Violeta foi ativista do movimento de educação de base; atuou no Movimento de Cultura Popular, junto com o educador Paulo Freire, e colaborou com D. Hélder Câmara, enquanto membro do Secretariado Nacional da Ação Católica e integrante da Juventude Universitária Católica (JUC), de onde se originaram grupos de ação política que combateram o golpe de 64 e resistiram à ditadura civil-militar; por isso foram duramente perseguidos e dizimados.
Ligada ao Cinema Novo e ao meio artístico e cultural pernambucano, no período em que junto com o marido Pierre Maurice Gervaiseau, economista e militante socialista, Violeta colaborou com a ação política do seu irmão, o então governador de Pernambuco, Miguel Arraes, deposto e preso em 1º de abril de 1964, no golpe militar. Ambos foram presos quando chegavam à sede do Arcebispado para visitar D. Hélder Câmara no dia em que ele assumia como bispo de Recife e Olinda. Quatro meses depois, ela e sua família foram expulsos do Brasil e se exilaram na França onde, a partir de então, passaram a viver.
O castigo do exílio que os algozes da ditadura lhe aplicaram, não conseguiu fazer com que Violeta arrefecesse o ânimo, nem abdicasse de seus sonhos e da utopia socialista que iluminaram e deram sentido à sua vida. Esta é uma marca da sua origem nordestina, região onde se forjam homens e mulheres fortes que não se dobram diante das agruras da seca e do sol inclemente do semiárido, nem menos se vergam sob a opressão covarde de um regime de força que dominou pelas armas durante longos e tenebrosos vinte e um anos de ditadura e de graves violações aos direitos humanos em nosso país.
Na França, já graduada em sociologia, cursou pós-graduação em psicologia para poder ajudar, como psicoterapeuta, a muitos exilados brasileiros traumatizados com a tortura a que foram submetidos. Por sua generosidade e dedicação no acolhimento aos exilados políticos na França, ficou conhecida como a “Rosa de Paris”.
Como integrante da Frente Brasileira de Informações, naquele país europeu, Violeta, segundo testemunho de ex-exilados, foi fundamental para a denúncia dos crimes contra os direitos humanos cometidos pela ditadura militar e, como estava acima das divisões entre partidos e grupos políticos, conseguia aglutinar todos e a todos ajudava a suportar as terríveis agruras do exílio. Sua casa em Paris se transformou em uma referência para artistas e intelectuais perseguidos pelo regime militar. Também estendeu sua ajuda aos exilados chilenos, após o golpe de Pinochet, e ao movimento anticolonialista em Angola, Moçambique e Guiné Bissau.
Com a aprovação da Lei da Anistia em agosto de 1979, Violeta retornou ao Brasil, mas foi convidada a trabalhar como adida ao projeto França-Brasil, na embaixada brasileira em Paris. De 1984 a 1986, ela se dedicou a elaborar e desenvolver o projeto, realizando vários eventos relevantes, destacando-se, entre outros, a Exposição de Arte Popular Brasileira, no Museu de Arte Moderna. Em 1988, a convite do então governador Tasso Jereissati, assumiu a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará e, em 1996, foi nomeada reitora da Universidade Regional do Cariri, na cidade do Crato, cargo que exerceu até 2003. Viveu os últimos anos de sua rica existência na cidade do Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 2008. No entanto, Violeta continua viva, não só nas nossas mentes e nos nossos corações, mas sobretudo no exemplo que deixou, exemplo de coragem e de fidelidade absoluta ao seu compromisso com os direitos humanos e com a democracia.
Para que a história de uma pessoa se revele em toda sua inteireza, é preciso que seja projetada no espaço público, sobretudo se for mulher, e, como tal, historicamente condenada a viver submersa na invisibilidade da vida privada, por determinação de uma cultura machista e patriarcal ainda hoje dominante na nossa sociedade. Violeta Arraes é uma mulher que rompeu com esse padrão e protagonizou os acontecimentos mais importantes e cruciais da vida nacional, com desdobramentos para além de nossas fronteiras.
Vale destacar, ainda, o simbolismo e o significado da Medalha Violeta Arraes de Direitos Humanos que projeta, no espaço público, a figura gigantesca dessa mulher excepcional. Esta homenagem é prestada num momento decisivo para a história e a democracia brasileira. Ocorre exatamente no momento em que, após longos e aflitivos anos de espera, o Estado e a sociedade civil brasileira buscam resgatar a memória e desvelar a verdade histórica sobre os crimes de lesa humanidade cometidos durante a ditadura militar, e apontar os responsáveis por eles, para que não fiquem impunes. Trata-se, portanto, de fazer justiça, mas para isso é preciso dar nova interpretação à Lei da Anistia que, absurdamente, anistiou vítimas e algozes.
Se viva ainda estivesse, não tenhamos dúvidas de que Violeta estaria na linha de frente deste embate entre o passado, que quer ser esquecido, e o presente que grita, em dores de parto, para que a Verdade se revele por inteiro e se faça justiça aos que, como Violeta Arraes, pagaram com prisão, tortura, assassinato, desaparecimento forçado e exílio a incipiente democracia que temos hoje. Precisamos, de uma vez por todas, passar a limpo essa vergonhosa página da nossa história, e como diz a ex-presidente do Chile, Michele Bachelet, “a ferida só sara se for lavada”. É este o momento. A hora chegou, não a deixemos escapar.
Por fim, agradeço de coração a honra de me conferirem esta Medalha que me servirá de escudo e de estímulo para continuar a luta de Violeta Arraes, e de tantos outros, na defesa intransigente dos Direitos Humanos e na luta sem trégua por Verdade, Justiça e plena Democracia.
Obrigada a todos e todas.
Rio de Janeiro, 27 de maio de 2013

Dep. Luiza Erundina de Sousa

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Colaboração de Vera Barbosa




"Todas as manhãs ela deixa os sonhos na cama, acorda e põe sua roupa de viver. Todas as manhãs ela caminha vagarosamente para pegar o ônibus que a levará para lugar nenhum, para ver ninguém. E todas as manhãs ela imagina como serão as tardes, já sabendo a resposta, finge ser feliz assim todas as manhãs. E todas as manhãs ela espera pela noite, ela espera assim para voltar para seu quarto, e ser triste. É quando ela sente que está assim completa. Completamente triste, mas completa. E quando vai pra baixo das cobertas quentes e sente que começa a sonhar, é quando ela sorri . Assim pra ninguém. Mas pra ela mesma. E viver vale a pena."

terça-feira, 28 de maio de 2013

"Santa"... pode ??? - José Nilton Mariano Saraiva

Tendo o próprio homem como ator principal, de uns tempos até aqui a questão relativa ao meio ambiente tem assumido proporções outrora inimagináveis, por conta do acelerado processo de degradação que atravessa o planeta Terra. Houve, poderíamos assim considerar, como que um despertar para a gravidade do problema, porquanto influenciaria na própria sobrevivência da raça humana. 
Partindo-se de tal pressuposto, eis que, não mais que de repente, a tal “camada de ozônio” se tornou tema obrigatório em reuniões de cúpula, em ambientes festivos, no boteco da esquina, em salões de beleza, nos estádios de futebol e, enfim, onde se façam presentes duas ou mais pessoas. Tanto é que, quem se arrisca a subtrair uma simples folha de uma árvore já passa a ser olhado com desconfiança, quando não repreendido pelo grave “crime” cometido. 
A coisa chegou a tal ponto que, embora todos reconheçam ser a energia elétrica vital ao desenvolvimento de qualquer grande nação, construir uma usina hidroelétrica em uma área de floresta (que precise ter uma ínfima área inundada, para a formação do respectivo lago que moverá suas turbinas), tornou-se tarefa das mais problemáticas (vide as dificuldades postas por ambientalistas brasileiros, em razão da decisão do Governo Federal de aproveitar os caudalosos e perenes rios da região amazônica a fim de erguer duas ou mais usinas que irão aumentar a nossa produção de energia e, conseqüentemente, alavancar de vez o nosso desenvolvimento). Sob a alegativa de que tal construção irá provocar o “desequilíbrio” do meio ambiente, pugnam os reclamantes pela suspensão da obra, mesmo que isso implique na condenação do país a, literalmente, não enxergar o próprio futuro.
O arrazoado acima é só pra lembrar que, aqui em Fortaleza, numa área bastante valorizada, em plena Av. 13 de Maio, no ainda aprazível Bairro de Fátima, se localiza uma igreja (das mais concorridas) que homenageia Nossa Senhora de Fátima: a Igreja de Fátima. Em frente à mesma, do outro lado da avenida, uma pracinha agradável é “point” obrigatório de coopistas, fiéis da santa, transeuntes à espera do transporte e, enfim, trata-se de logradouro dos mais movimentados da cidade.

Pois bem, não é que de repente, sem que ninguém esperasse, no centro da praça e de frente para a Igreja, resolveram construir uma imensa estátua da “santa” (deve ter uns 15/20 metros) muito bem trabalhada e que se tornou espécie de atração turística. Só que, por pressa ou excesso de entusiasmo, não atentaram que duas imensas, antigas e frondosas árvores se punham exatamente em frente à estátua, obstando sua visão, por quem, por exemplo, saía da Igreja ou simplesmente trafegava pela Av. 13 de Maio. E então, sem choro nem vela ou ranger de dentes, puseram-nas a pique, sem maiores delongas. Se houve ou não autorização para tal, ninguém sabe, mas a pergunta que se impõe, é: se o mortal comum, governos, instituições e por aí vai, não podem mexer uma folha de uma árvore qualquer, sob pena de está cometendo um crime grave, por qual razão só a “santa” pode ???  Por quê ???