por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 23 de maio de 2011

NOVALIS


“Quando a chave de toda a creatura
seja mais do que número e figura,
e quando esses que beijam com os lábios,
e os cantores, sejam mais que os sábios,
e quando o mundo inteiro, intenso, vibre
devolvido ao viver da vida livre,
e quando luz e sombra, sempre unidas,
celebrem núpcias íntimas, luzidas,
quando em lendas e líricas canções
escreverem a história das nações,
então, a palavra misteriosa
destruirá toda a essência mentirosa.”

NOVALIS
in “Henrique de Hofterdingen”
(trad. de Mário Cesariny)

AQUARELA- POR SOCORRO MOREIRA




todos os eus conscientes
se encaminham para o encontro
dos eus desconhecidos.

um afim, em potencial
é sempre um pedaço da gente
que se descortina...

do nós conosco
do vós convosco
dos eus
com nossos eus superiores


enquanto isso,
o caminho é construído
cheio de surpresas boas
cheio de percalços
que marcam


e se não fosse
a paixão,
os bens inexplicáveis,
as emoções,
sinalizadas pela nossa sensibilidade...?

a vida seria desbotada
vazia estrada...
sem terra, sem água,
sem sol, sem ar,
sem verdes folhagens...


e em tudo isso,
as cores primárias,
se movimentam,
pra compor uma aquarela sonora,
onde tudo vira instrumento,
pincel,
na mão da criatura,
que também é criador !

PERDAS - POR SOCORRO MOREIRA


Poucos sabem ser " deixados "
Cristo,Buda, outros...
Livres do material
Dos egos centrismos ...

Um dia me encontrei num canto,
Ferida , sem poder voar,nem mesmo caminhar

Estava totalmente exposta aos elementos

Hpoje  sou  meu projeto, objeto e objetivo
Verbo da minha oração 
Mercê da pontuação divina...
Fortalecida !

SÍLVO CALDAS - por Norma Hauer


O CABOCLINHO QUERIDO

Assim o denominou César Ladeira, quando de seu reingresso na Rádio Mayrink Veiga em 1933. Reingresso porque lá já atuara no início de sua carreira em 1927.
Seu nome Sílvio Narciso de Nascimento Caldas ou simplesmente SÍLVIO CALDAS.
Sílvio Caldas nasceu em 23 de maio de 1908, aqui no bairro de São Cristóvão, portanto, há exatamente 103 anos.
No ano de seu Centenário (2008) Sílvio merecia o que não teve: muitas homenagens pelo muito que enriqueceu nosso cancioneiro, não somente como cantor, mas também como compositor.

Ao lado de Francisco Alves, Orlando Silva e Carlos Galhardo foi considerado um dos quatro grandes do tempo áureo do rádio no Brasil. Dos 4 Foi o que mais viveu, tendo falecido em fevereiro de 1998, dois meses antes da data em que completaria 90 anos.

Sílvio Caldas, filho de um afinador de piano, pode se dizer que já nasceu dentro do meio musical. Aos cinco anos já se apresentava,. cantando, em festinhas infantis, sendo muito requisitado. E desfilava no carnaval , levado pelos integrantes do Clube de São Cristóvão.
Entre um canto e outro, aprendeu o ofício de mecânico de automóveis e transferiu-se, em 1924, para São Paulo, onde exerceu essa profissão. Mas o que lhe falava mais alto era a música. Assim em 1927, regressando ao Rio foi levado por um ator teatral conhecido como Milonguita à Radio Mayrink Veiga, onde atuou mediante o pagamento de cachê, durante esse ano, tendo se transferido para a pioneira Rádio Sociedade no ano seguinte.

Simultaneamente com suas apresentações no rádio, continuava sua tarefa de mecânico, até que em 1930 veio sua grande chance de gravar. Foi uma música que não fez qualquer sucesso, mas que lhe abriu as portas para as gravações. Nesse mesmo ano gravou duas composições de Sinhô: ”Recordar é Viver” e “Amor e Poeta”, acompanhado ao piano por Henrique Vogeler, um nome conceituado na época.

Ainda em 1930 atuou ao lado de Margarida Max, na revista “Brasil do Amor”, onde também se iniciava, como compositor e pianista , o futuro autor de “Aquarela do Brasil”: Ari Barroso.
Sílvio cantou, de Ari, o samba “Faceira”, o primeiro sucesso de ambos. Aí sim, a porta se abriu para aquele que também viria ser conhecido como “Poeta da Voz”, título que lhe foi dado pelo radialista Paulo Roberto, que apresentava as “Serestas de Sílvio Caldas” na Radio Tupi. Foi nessa emissora que Sílvio atuou por mais tempo, embora tivesse sua passagem outras vezes pela Mayrink Veiga e pela Nacional.
No ano de 1930, Sílvio gravou 19 discos, mas apenas “Faceira” pode ser considerado sucesso.
No ano seguinte gravou, para o carnaval, “Bambina, meu Amor” e “Sestrosa”, ambas de Rogério Guimarães, mas que também não foram sucessos.
Em 1932 com “Maria” ...”o teu nome principia, na palma de minha mão...”, de Ari Barroso e Luiz Peixoto, “estourou” em todo o Brasil.
No carnaval de 33 gravou, ainda de Ari Barroso, o samba “Segura essa Mulher”. E nesse mesmo ano gravou, de Noel Rosa, “Vitória”, em parceria com o pianista Nonô (Romualdo Peixoto) que viria a ser tio de Ciro Monteiro e de Cauby Peixoto.
Nonô foi, durante muitos anos, pianista da Rádio Maryrink Veiga, a quem César Ladeira denominou “Chopin do samba”.
Em 1934 aparecem as duas primeiras composições de Orestes Barbosa gravadas por Sílvio Caldas, “Santa dos Meus Amores”e “Serenata”. Esta passou a ser seu prefixo musical. em seus programas radiofônicos.
No mesmo ano de 34, gravou “Boneca”;”O Telefone do Amor”;”Inquietação” e “Por Causa dessa Cabocla”. No ano seguinte, gravou “Madrugada” e “Acorda Escola de Samba”, no qual Herivelto Martins dava início a suas composições enaltecendo as escolas de samba.

Em 1936 tomou parte do elenco do filme “Cidade Maravilhosa”, de Luiz de Barros. No cinema trabalhou ainda em “Luz dos Meus Olhos”, de José Carlos Burle, em 1947.

Em 1937, gravou “Adeus Felicidade”; “Sabiá”,um samba-canção de Jararaca e Vicente Paiva,( autores de “Mamãe eu Quero”) sucesso do carnaval desse ano, na voz de Almirante.
E foi em 1937 que gravou dois outros poemas de Orestes Barbosa:”Arranha-Céu” e “CHÃO DE ESTRELAS”, que se tornou o hino das serestas. Foi sobre o verso “tu pisavas os astros distraída” que Manuel Bandeira disse que se um dia fosse escolhido o mais bonito verso da canção brasileira, seria esse o escolhido.
Não dá para citar tudo que marcou a carreira de Sílvio Caldas, mas citaria “Quando eu penso na Bahia”(1937);”Pastorinhas” e “Professora” (1938);”Deusa da Minha Rua” ;”Falsa Felicidade”;”Sorris da Minha Dor”(1939).
Sobre “Pastorinhas”, há uma historia que deve ser resumida: essa foi uma marcha-rancho, de nome “Linda Pequena” , da autoria de Noel Rosa e João de Barro (o Braguinha”) gravada em 1936 por João Petra de Barros. Não fez sucesso.
No ano de 1938, para enfrentar a desclassificação de “Touradas em Madri” como campeã no concurso do carnava desse ano. que era realizado na “Feira de Amostras”, mas foi considerada “passo doble”, Braguinha, foi buscar a “Linda Pequena”, alterou parte de sua letra e a lançou como “Pastorinhas”, na voz de Sílvio Caldas. Resultado: venceu o concurso.
Sílvio não parou aí com seus sucessos. Em 39 gravou “Deusa da Minha Rua” ...”na rua uma poça dágua, espelho de minha mágoa, transporta o céu para o chão...”Falsa Felicidade”;”Sorris da Minha Dor”; “Da Cor do Pecado” (que há pouco tempo se transformou em nome de novela) ; regravou “Rancho Fundo” e “Maria”.

Interessante que “Rancho Fundo” foi gravado por Elisinha Coelho, em 1932 (?) com o nome de “Na Barra Funda”:-a mesma música,com outra letra. A segunda letra é da autoria de Lamartine Babo, o mesmo Lamartine que, compondo os hinos dos clubes de futebol que disputavam o campeonato carioca, deu para Sílvio Caldas gravar os hinos do São Cristóvão (clube de Sílvio) e do Vasco da Gama.

De Custódio Mesquita e Sadi Cabral Sílvio gravou, em 1940, o fox-canção “Mulher” e a valsa “Velho Realejo”. No mesmo ano levou para o disco a valsa ”O Amor é Assim”, de Sivan Castelo Neto e as marchas “Andorinha” e “Sinhá-Moça Chorou”, de sua autoria.
Em 1941, dois sambas com nome de mulher fizeram grande sucesso no carnaval: ”Aurora” e “Helena”(não foram gravadas por Sílvio). Por causa dessas músicas, Sílvio Caldas, Orlando Silva e Ciro Monteiro, em trio gravaram “Rosinha”, em que diziam:
”não quero saber da Aurora,
a Helena deu o fora
e com a Rosinha é que vai ser”

De Ari Barroso, mais duas composições “Morena, Boca de Ouro” e “Três Lágrimas”.
No ano seguinte, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, duas composições foram gravadas para os soldados: ”Fibra de Herói e Canção do Soldado”.
Não dá para citar nem a terça parte do que Sílvio gravou, mas quero citar três composições de Georges Moran : ”Não Voltarás, nem Voltarei”;”Ninotchka” e “Kátia” . Georges Moran foi um autor que se “abrasileirou e se enturmou” com nossos compositores. Nascido na Rússia, veio para cá antes da segunda guerra e se adaptou ao nosso meio musical sendo autor de várias composições gravadas por Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dircinha Batista, Francisco Aves...
De outros compositores tivemos, com Sílvio, “Algodão”;”Feitiçaria”;”Sim ou Não”;”Minha Casa”; “Não me Pergunte”;”Cabelos Cor de Prata”;”Violões em Funeral”... Tudo em 78 rotações.

Com a chegada dos LPs, foi o primeiro cantor a gravar um, de nome “Saudades”, onde regravou várias composições suas com Orestes Barbosa., além de “Vestido das Lágrimas”, antes gravado por Floriano Belhem.
Na fase dos LPs gravou muitos sendo um com Pedro Vargas, “ao vivo” no Canecão. E o último, comemorando seus 80 anos, no Teatro João Caetano.

Sílvio Caldas, afastou-se do meio musical e se transferiu para seu sítio em Atibaia, em São Paulo, onde faleceu em 3 de fevereiro de 1998, dois meses antes da data em que completaria 90 anos.
Nessa data, foi lançado um CD em homenagem a esses 90 anos .

Norma

domingo, 22 de maio de 2011


Sílvio Caldas



Sílvio Antônio Narciso de Figueiredo Caldas (Rio de Janeiro, 23 de maio de 1908 — Atibaia, 3 de fevereiro de 1998) foi um cantor e compositor brasileiro.

Seu primeiro sucesso foi o samba de Ari Barroso intitulado Faceira (1931). Desde então, consagrou-se como um dos maiores cantores brasileiros. Chão de estrelas (1937), em parceria com Orestes Barbosa, foi um de seus maiores êxitos.

Dono de timbre inconfundível, que lhe valeu a fama de grande seresteiro, é conhecido também por alcunhas carinhosas, como Caboclinho querido, A voz morena da cidade ou Titio.

wikipédia 

Silvio Caldas

Composição : Custódio Mesquita
No meu tempo de criança
Mamãe me embalava
Com a música de uma caixinha
Eu dormia, eu sonhava
Com princesas encantadas
Feiticeiras e gigantes
Eu dormia e acordava
Enquanto a caixinha tocava
Passaram-se os dias e os anos
Cruéis desenganos
Vieram em meu peito morar
A caixinha já não existe mais
Só ficou a saudade do seu trá-lá-lá
Trá-lá-lá


Somaterapia

Roberto Freire


A Soma - uma terapia anarquista

Somaterapia ou SOMA é uma terapia corporal e em grupo criada no Brasil pelo escritor e terapeuta Roberto Freire. Está baseada na teoria de Wilhelm Reich, discípulo dissidente de Freud e no Anarquismo. A Soma entende o conflito neurótico - que gera conflitos e depedências - a partir das relações de poder presentes em vários níveis da sociedade. Assim, o anarquismo com ética filosófica procura permear a metodologia da Soma, permitindo a identificação do autoritarismo nas relações inter-pessoais. Além da teoria reichiana, a Soma também adota o aqui-e-agora da Gestalt-terapia e as descobertas sobre a pragmática da comunicação humana presente nos estudos da Antipsiquiatria, especialmente o conceito de Duplo-Vínculo e sua implicação nas relações afetivas.

Foi no início da década de 1990 que a Soma introduziu definitivamente a capoeira angola em sua metodologia. A proposta surgiu da necessidade de um trabalho corporal que pudesse ser feito pelos membros dos grupos ao longo do processo terapêutico, em paralelo às sessões de terapia e que funcionasse como um exercício bioenergético complementar aos exercícios de Soma. A utilização da capoeira, que pareceu ser a mais completa mobilidade corporal, além de uma eficiente mobilização energética que ela produzia, traz também o aspecto da luta embutida em sua prática, o que possibilita perceber como se dá do ponto de vista corporal, os enfrentamentos que seus praticantes demonstram ter e as conseqüentes relações com sua vida emocional.

O processo terapêutico da Soma dura em torno de um ano e são realizadas quatro sessões de terapia por mês, compostas de exercícios corporais e dinâmicas de grupo autogestionárias, buscando identificar os mecanismos de poder presentes nas relações sociais travadas entre os membros do grupo e sua relação no cotidiano das pessoas. Temas como singularidade, autoregulação, corpo, autoritarismos x liberdade, prazer são alguns exemplos onde a terapia centra sua ação.

Seguindo esta perspectiva, para a Soma, as relações humanas atravessadas por malhas e conflitos políticos que estendem-se pelas várias esferas da sociedade, são capazes de produzir sérias implicações à subjetividade das pessoas. Uma destas implicações reside notadamente nos efeitos emocionais e corporais que elas tendem a causar. A partir da perspectiva do ex-psicanalista Wilhelm Reich, corpo e emoção estão intimamente relacionados, não podendo ser pensados separadamente. O corpo cronifica e materializa o autoritarismo que recebemos e praticamos. Reich mostrou a neurose como fenômeno que atinge indivíduo e sociedade e afirmou que seu locus não é a mente, mas todo o corpo (incluindo a mente) e o conseqüente desequilíbrio de sua energia vital.

A Somaterapia propõe-se a refletir sobre a ética em vigor, que entende o outro dentro de uma ótica instrumental de uso e apropriação. Tais questões, que poderíamos pensar a partir de uma observação filosófica, também extrapolam para limiares políticos e ideológicos das práticas de convivência humana. Enfim, a Soma se coloca como uma terapia libertária, onde o comportamento humano é estudado a partir da forma como as pessoas vivem suas relações sociais. E busca criar um tipo de terapia onde a análise dos conflitos emocionais ocorra junto com o estudo de como as pessoas vivem sua relações cotidianas.

Atualmente, a Soma é praticada no Brasil e na Europa pelo Coletivo Anarquista Brancaleone, que reúne os somaterapeutas em atividade e em formação, sob a supervisão de Roberto Freire. No Brasil, há grupos nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre. Na Europa, são desenvolvidos grupos em Londres, Lisboa, Barcelona e Madrid.

wikipédia

Apenas Um Comunicado.Por Liduina Belchior.

Esta semana que hoje se encerra, foi danada de boa, turma. Cheia de bênçãos, de carinho e de descobertas. Desejo portanto a vocês do Azul Sonhado, igual alegria, nesta que vem chegando. Não tenho o direito de ser feliz sozinha. Estendo esse sentimento a todos. Lembrando também que ainda estamos no mês de Maria (nossa tão querida mãe).
SHALOM!
Abraços: Liduina.

Estilhaçar - Colaboração de Rosemary Borges Xavier

Não posso descrever o sentimento
Que transbordou do teu olhar distante
Até a luz do sol naquele instante
Não tinham a mesma cor no firmamento
Em mim, configurou-se um tormento
Uma incontrolável aflição
Pois nos teus olhos vi a confissão
Que fez meu sonho desestruturar
Como se fosse o estilhaçar
Do meu inquebrantável coração

Paulo Viana-Escritor Romancista

AO SILÊNCIO, PREFIRO A PALAVRA- Augusto Boal



"Sei que não tenho direito ao silêncio.Em temas graves, temos que abrir o peito. Falo o mínimo indispensável.E calo."

IDE VER A ÁRVORE BRANCA- por José Newton Alves de Sousa



Vós que passais, detende-vos e olhai.
Vós da cidade, vós de longe, ide vê-la.
Agosto surpreendeu-a toda branca. Dizem chamar-se paineira, e ostenta-se à margem da estrada do Lameiro.
Contrasta com o verde escuro dos catolezeiros e dos ipês, com o verde gaio dos cajueiros e sirigüeleiras, com o penacho-esperança dos babaçus e com o verde-azul da chapada.
Cresce para o céu escampo como uma prece de criança ou como um sonho de noiva.
É prata sob o luar e abantesma ou Pierrot no claro-escuro das madrugadas.
Floriu primeiro o ipê roxo, quaresmeiro. Agora é a paineira, solitária, única, detentora de todos os feitiços.
Logo mais será o ipê amarelo, derramando-se em ouro-luz.
Ide ver a paineira. Vale bem o sacrifício da caminhada. O vale freme. As ondulações sucedem-se, nos meios tons das descontinuidades cromáticas. As cidades plantam-se, em aglomerados dinâmicos. Espalham-se, perdidos, os casebres. Os tropeiros fazem tremer as estradas. Mugidos curraleiros choram em alguma parte. Estudantes transitam de azul e branco, ou de branco e rubro. O ônibus, com esforço, vence a rampa. O vento levanta pó e folhas. Melodias cruzam o ar.
Mas olhai a paineira.
E não deixeis que a cortem, como a tantas árvores de nossa região. Antes, cercai-a de todas as proteções.
Sua presença é suavidade e amor.
E tão cruel e duro é o mundo além...

Por José do Vale Pinheiro Feitosa






Sabe Maria,

A casa tem duas portas,

Seis janelas e você.

Na entrada um riso de chegada,

Ao meio o cosmo do sabor,

Nos fundos a vontade de retorno.

Das janelas o mundo é pouco,

No mundo o pouco é muito,

Aberta a porta e entras.

Para o muito que os sonhos têm,

Uma entrada de porta aberta,

Nos fundos a fluidez de saída.

Ao meio tu vives,

Como todos com este atributo,

Da entrada até a saída,

As pessoas na vida que passam,

Ficam até mais do que a casa.

(José do Vale Pinheiro Feitosa)

Por Socorro Moreira -Enquanto vivo a madrugada ...


Meu coração é um deserto, mapeado por oásis insondáveis.
Um dia você chegou...
Chegou num verso, e assentou a rima do meu lado.
Ainda vivo esse encanto, aos pedaços.
Nem foi preciso beijar um sapo... 
Ele se transmuta em todos os personagens 
idealizados pela incompletude da minha alma.

Fique quietinho...
Não escape pela porta dos fundos...
A porta da entrada está selada !

Amar verbo incondicional - José do Vale Pinheiro Feitosa video



amo teu olhos baços,
não como lembrança do brilho de outrora,

amo as luzes finas,
penumbras que traduzem detalhes,
pupilas que escondem universos,
pálpebras pregueadas de resguardos,

amo teu olhar lento,
penetrando o irrevelado,
e assim me deixa leve,
leve de palavras não ditas.


como amo tuas rugas universais,
cada trajeto de tuas veias tortas,
as vigas musculares de tuas mãos,
as manchas solares de teu corpo,

amo a trajetória no tempo,
a longa espera dos espaços,

amo a delicadeza de tua pele frágil,
cada detalhe da superfície de teu mundo,
este mundo ao qual gravito.


amo teus cabelos opacos,
a rebeldia dos fios esquecidos da cor,
cada mecha que diz: até aqui vivi,
o modo displicente que parece pouco,
quando na verdade foram muitos anos,
e tantos que parecem evocativo sésamo,
sobre os ombros como se nunca houvesse fim.

amo tua coragem de viver,
pois a beleza não é estética plástica,
é um pouco de forma, um tanto conteúdo,
como uma fera que teima sobreviver,
uma criança que se deita no colo para sonhar,

amo tua virtude de envelhecer,
sendo outra a cada passo
e a mesma no horizonte,

amo teu ardor de viver,
pois a beleza não é grade da juventude,
ela é o que meus olhos amam,

como amo teu olhos baços,
tuas rugas universais,
teus cabelos opacos,

subterfúgio para amar tua coragem.

 por José do Vale Pinheiro Feitosa

Azul sobre amarelo, maravilha e roxo- Adélia Prado



Desejo, como quem sente fome ou sede,
um caminho de areia margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e seu dono.
Desejo, como uma funda saudade
de homem ficado órfão pequenino,
um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
Brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo.
Na alma, o querer de um mundo tão pequeno,
como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.



Adélia Luzia Prado Freitas (nasceu em Divinópolis, Minas Gerais em 13 de dezembro de 1935).

Zé Rodrix



Zé Rodrix, nome artístico de José Rodrigues Trindade, (Rio de Janeiro, 25 de novembro de 1947 — São Paulo, 22 de maio de 2009) foi um compositor, multiinstrumentista, cantor, publicitário e escritor brasileiro.


sábado, 21 de maio de 2011

"CAÍ NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR"- Eduardo Galeano- Colaboração de Altina Siebra


O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…
Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.

E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!
Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso. Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.
O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades. Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez.
Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!
É mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.

E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que haviam em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes.
Estão nos incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar.
Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica. Aonde estão os sapateiros fazendo meia-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? o afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?
Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade. Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de ... anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava..

Desse tempo venho eu. E não que tenha sido melhor.... É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com "guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa", mudar para o "compre e jogue fora que já vem um novo modelo".

Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado... E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas... por amor de Deus! Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.
E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Me educaram para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.
Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?

Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos...
Como guardávamos!! Tuuuudo!!! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!! Como, para quê? Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.
Tuuudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as "Gillette" até partidas ao meio se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.

E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.
Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisas, até para enrolar carne comprada no açougue e tudo o mais.
Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne!!! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia "esta é um 4 de bastos".
As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.
Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem matá-los tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!
E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.
E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!! Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.
Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer.

Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno. Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.
Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à bruxa, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a bruxa me ganhe a mão e seja eu o entregue...

Eduardo Galeano

* Jornalista e escritor uruguaio

ESSA QUE EU HEI DE AMAR- Colaboração de Rosemary Borges Xavier






Essa que eu hei de amar

Tem que ser sincera
Compartilhar comigo
De mil quimeras
E demonstrar todo amor
Que em meu peito encerra

Essa que eu hei de amar
Tem que ser bela
Um sorriso meigo
De beleza singela
Que o calor da solidão
Ao seu lado gela

Essa que eu hei de amar
Venha voando ao vento
Sendo a brisa suave
Que me alivia no momento
Para que cesse em mim
Todo o meu lamento

Essa que eu hei de amar
Pode ser a solução
De todos os problemas
Que perturba meu coração
Que a vil e mais sagaz
Conhecida solidão

Essa que eu hei de amar
Amar até morrer
Pode ser o bálsamo
Que alivia o meu sofrer
A menina mais mimosa
Do meu bem querer

Essa que eu hei de amar
Não me fará padecer
Pois será a solução
Que eu procurei ter
Em toda minha vida
Me dando prazer

Como eu vivo louco
Não me canso de procurar
E a busca continua
E não poderei desanimar
Mas sei que encontrarei
Essa que eu hei de amar


Israel Batista

Devenir, devir - Wally Salomão





Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.