por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sábado, 18 de julho de 2015

Vida transformada pela... "música" - José Nilton Mariano Saraiva

O “click” do destravamento da estranha coleira mecânica (e sua posterior remoção do pescoço) representava a senha para que aquele aparentemente tímido e frágil ser humano se transmutasse numa fera ensandecida, capaz de aniquilar quem encontrasse à frente. Na verdade, desde a meninice o pacato e “desligado” Danny (Jet Li) que experimentara precocemente a orfandade, fora exaustivamente treinado e programado (por um suposto “tio”) com um objetivo específico: nas arenas da vida, tornar-se uma potente arma de guerra, autentico matador profissional, capaz de trucidar o adversário em segundos, em troca de algum dinheiro. Ao final de cada combate, dinheiro no bolso do “empresário” e o retorno à jaula que lhe servia de moradia, à comida racionada e às humilhações de sempre. Um cachorro vadio e desprezível, na completa acepção do termo.

Mas quando, em razão de um grave acidente (e a presumível morte do seu “tutor-tio”), o “encoleirado” Danny se vê sozinho no mundo, perambulando sem rumo pelas ruas, repentinamente é atraído pelo som de um piano; e aí ele conhece Sam (Morgan Freeman) que, apesar de cego, é um exímio afinador do instrumento.

Desprovido da visão, mas dono de uma apurada acuidade extra-sensorial, Sam detectara a presença de Danny no ambiente, estimulara-o a aproximar-se, pedira sua ajuda no manuseio de algumas teclas do piano e, ao final da conversa que fizera questão de provocar, convencido de que tratava de alguém de boa índole (mas sozinho no mundo, sem eira e nem beira), convidara-o para ir morar em sua casa. Lá, o encontro com Victória, enteada de Sam, aluna-concludente de um dos mais respeitáveis conservatórios de música (piano) dos Estados Unidos.

Pacientemente, os dois deixam que Danny aos poucos se liberte dos seus medos e apreensões, das suas angústias e temores e finde por integrar-ser à “nova família”, até porque, segundo ouviria de Sam a posteriori, “as famílias devem permanecer unidas”; e assim, aos poucos, acompanhado por Sam ou Victória, Danny começa a descobrir os prazeres da vida, em coisas e situações aparentemente banais ao mortal-comum: tomar um sorvete e saber que é gelado, ir a um supermercado e detectar quando uma fruta se acha madura e, até, que um beijo na face, lhe dado por Victória em forma de saudação, é “molhado” e “gostoso”. Definitivamente, aquela era a “sua família”.

De outra parte, os ensaios de Victória ao piano, em pleno recinto familiar, além de deixá-lo embevecido e extasiado, repentinamente o levam de volta ao passado e, via fragmentos memoriais, imagens começam a “pintar no pedaço”. E aí ele obtém a resposta do “porquê” da sua atração pelo piano: sua mãe fora pianista. Ajudado por Sam e Victória (através de um “retrato” que guardara e pesquisas posteriores), descobre não só a identidade materna, mas que fora uma pianista consagrada e famosa.

Nisso, numa prosaica visita a um supermercado, eis que Danny é reconhecido por um dos comparsas do “tio” (que ele julgara morto e que o transformara num autentico animal); descobre, então, que o próprio havia sobrevivido ao acidente e se vê “convidado” a comparecer à sua presença, imediatamente (sob a ameaça de que, não o fazendo, descobririam seu endereço e seus atuais protetores sofreriam as conseqüências).

Volta, contrariado; e é obrigado a recolocar a coleira e, mesmo afirmando não mais querer matar ninguém, é jogado numa arena onde cinco profissionais, usando instrumentos contundentes, começam um autentico “massacre”; por instinto de sobrevivência, a “fera” ressurge em todo o seu esplendor e fúria e assim Danny acaba com todos eles. Foge e, ferido, arquejante e cambaleante procura o abrigo de Sam e Victória, até porque “as famílias devem permanecer unidas”.

Em pouco tempo e com surpresa, descobre que os velhos amigos (o “tio” à frente), já haviam descoberto seu “esconderijo” e, agora, subiam os lances de escada dispostos a trucidar com todos eles.

Após colocar Sam e Victória num local presumivelmente seguro, dá-se a última batalha: um a um os comparsas são abatidos, impiedosamente, só restando o “tio”; já caído ao chão após uma luta sangrenta, incitando-o a que ele (Danny) mostre ser o que realmente é - “só um assassino vulgar” – provoca-o mais ainda ao afirmar que sua mãe fora uma prostituta que lhe servira sexualmente em ocasiões diversas; e aí repentinamente, em feedback Danny revive a cena em que o “tio” matara sua mãe, à queima roupa, com um tiro na cabeça.

Ainda assim, naquele momento crucial, o humano se sobressai, a fera sucumbe aparentemente de forma inexorável e Danny terminantemente se recusa a assassiná-lo; não, ele não é “aquilo”. Pressentindo o perigo, o cego Sam sai do esconderijo e na base da pura intuição acaba com o marginal, ao acertá-lo com um vaso de plantas, na cabeça.

Cena final: no conservatório, ao receber seu diploma de melhor pianista, Victória, ao ser convidada pra mostrar suas habilidades, toma do microfone e anuncia que a música a ser executada é dedicada a alguém muito especial que se encontra na platéia e por quem tem muito apreço; alguém cuja vida transformou-se quando encontrou a música.

Haja coração. Um filmão  (Cão de Briga) !!!





sexta-feira, 17 de julho de 2015

"Sayonara" - José Nilton Mariano Saraiva

Se você, aí do outro lado da telinha, ainda não sabe, a palavra japonesa “Sayonara” significa “adeus” e serviu pra titular um dos grandes filmes românticos já rodados (vencedor de três Oscar’s). Tanto que naquela oportunidade a imprensa foi pródiga em elogios, destacando: “Um gigante entre os filmes” (The Film Daily), “Um filme de beleza e sensibilidade” (Variety), “Uma encantadora história de amor; um dos melhores filmes do ano” (Los Angeles Mirror News).

No filme, Marlon Brando (numa atuação soberba), interpreta o Major Lloyd Gruver, herói da Força Aérea americana, envolvido na guerra com a Coréia, e que repentinamente, após pousar, vindo de mais uma batalha aérea, toma conhecimento da sua transferência para a Base Militar Americana, no Japão; é que o futuro sogro (General Webster, comandante da base) já lá se encontra com toda a família e, temendo pela vida do futuro genro, parece pretender “agilizar” a união da filha com o “major-herói”. Como os militares americanos eram terminantemente proibidos de se relacionar com as mulheres orientais, e o Major Gruver (Brando) um dos mais ardorosos defensores de tal (pre)conceito, o caminho praticamente estava pavimentado.

As coisas começam a mudar quando o Major é convidado pelo amicíssimo recruta Joe Kelly (seu subordinado e a quem não podia faltar), para ser padrinho do seu casamento... com uma japonesa, numa cerimônia simples em pleno recinto da Embaixada americana, lá no Japão (por tal atitude, posteriormente foi advertido pelo futuro sogro).

Enquanto no convívio diário com a noiva as coisas começam a “azedar” em razão das diferenças só agora descobertas, a função burocrática, à qual não estava acostumado, começa a lhe “encher o saco” (e a paciência). 

Pra espairecer, e como não tinha mesmo nada pra fazer, ele aceita o convite de um colega pra visitar na cidade vizinha a cerimônia de “passagem” por uma trilha, rumo ao teatro, das jovens mulheres componentes do balé feminino mais famoso do Japão, o Matsubayashi. E foi aí que o “cupido o flechou”, ao colocá-lo à frente da beleza suave e ao mesmo tempo estonteante de Hana-Ogi, a principal estrela da companhia. Tentou chamar-lhe a atenção, sem sucesso, mesmo envergando a vistosa e bela farda militar (as mulheres japonesas eram também proibidas de se relacionar com os americanos). Assistiu ao espetáculo no teatro, voltou nos dias seguintes e, sempre do mesmo posto de observação (na "passagem"), tentava pelo menos conseguir algum olhar piedoso de Hana-Ogi. Nadica de nada. Já cansado e desestimulado com tanto desprezo, resolve observa-la de um outro ponto. E aí, a surpresa. Enquanto dava autógrafos aos fãs, Hana-Ogi timidamente levanta a vista e dirige seu olhar para onde ele sempre ficava; não o encontrando, permite-se um giro de 180 graus com a cabeça, à sua procura.
Xeque-mate (sim, havia esperança).

Através da esposa japonesa do amigo Joe Kelly, consegue marcar um encontro secreto com Hana-Ogi (na casa do recruta); na oportunidade, fala, fala, fala e ela, bela e angelical, sem pronunciar um pio, uma única palavra. Visivelmente encabulado, ele lhe diz que não sabe mais o que fazer e, só então, ela “abre o verbo”: que seus pais foram mortos pelos americanos, que ela mesma fora criada com a quase obrigação de detestar os americanos, mas que, agora (que bela surpresa)... estava apaixonada por ele, um americano. E a partir de então passam a se encontrar às escondidas e viver intensamente aquela paixão explosiva.

Com o suicídio do recruta Joe Kelly e a esposa (grávida), em razão da sua remoção ex-offício para os Estados Unidos (desacompanhado da mulher), o Major Gruver “chuta o pau da barraca”: acaba o noivado com a filha do General, lhe diz da sua intenção de também casar com uma japonesa e recrimina aquele preconceito absurdo (do qual ele era um dos defensores, lembremo-nos); de pronto é ameaçado de expulsão da Aeronáutica pelo ex-quase-futuro sogro (que ainda teve o dissabor de ver a filha, ex-noiva do Major, sair de casa anunciando que iria viver com o afeminado principal dançarino de um dos balés do Japão). 

Para não prejudica-lo, Hana-Ogi foge para uma outra cidade, sem comunicar-lhe, deixando-o ensandecido. Ao descobrir onde ela se acha, vai ao seu encontro e, após o espetáculo, no camarim, lhe diz que renuncia a tudo por ela e, principalmente, que está para ser aprovada uma Lei americana acabando com tudo aquilo; lhe dá um prazo de alguns minutos para que decida se topa ou não ir com ele para a América, naquele mesmo dia. Retira-se e, do lado de fora, cercado pelos principais integrantes da mídia nipônica, aguarda ansioso que ela apareça. Tensão, expectativa... 

No último segundo, Hana-Ogi surge risonha, belíssima e esplendorosa e corre para os seus braços; quando os repórteres e jornalistas pedem pra o Major Gruver deixar alguma mensagem ao povo japonês (já que literalmente "raptando" sua principal estrela), sucintamente ele responde: “diga-lhes que eu lhes disse... SAYONARA”. The End.

Nota 1000. Um "filmaço"



Noite de lançamento do livro de Dona Magdalena Arraes, no ICC do Crato- 16.07.2015


Com profundo sentimento de admiração tive a honra de estar presente ao lançamento deste livro que desvenda a saga de uma guerreira Cearense ao lado da legendária figura de homem público e transformador que foi Dr. Miguel Arraes de Alencar .

Nilo Sérgio Monteiro




foto by Maria Monteiro

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O Voo Oblíquo de Marilu

J. Flávio Vieira

                                              
O retorno de Marilu , algo inesperado, causou um reboliço danado no Sítio Bréa. Tinha sido uma das primeiras moças a sair dali,  para trabalhar na cidade grande. Ainda adolescente, meio rebelde, andou brigando com a família, por conta de uns namoros fora dos padrões breenses  e, aumentando o conflito, preferiu , de comum acordo com os pais, partir para um voo solo em Matozinho. Marilu tinha lá seus dezoito aninhos e carregava consigo aqueles arroubos típicos da idade. Bonitinha, atirada, arranjou um emprego de doméstica na casa do Coronel Anfrízio Arnaud. Trabalharia durante o dia e , à noite, estudaria no Colégio Municipal Pedro Cangati.  Mais de três anos já se tinham escorrido,  quando a notícia da volta da filha pródiga espalhou-se pela Bréa. As colegas de Marilu se alvoroçaram. Tinham-na como um ídolo e aquele regresso imprevisto trazia junto uma fatia de desilusão. Mundo aberto à frente, todas as amigas carregavam consigo a possibilidade de um dia plainarem  igual a Marilu. O aparente fracasso dela, assim, esparramava uma certa frustração na alma de todas. O que teria acontecido ? Seria o mundo lá fora tão inóspito ?
                                   Na primeira oportunidade, procuraram Marilu. Queriam matar a curiosidade e, também, saber as novidades da cidade grande que só recebiam pelo Rádio. Muitas sonhavam em varar o mundo, seus sonhos dourados de adolescente não cabiam nas fronteiras opressivas daqueles cafundós.  O aparente fracasso da desbravadora , de alguma maneira, as angustiava . O que tinha dado errado na travessia de Marilu ?  Conversa vai, conversa vem, após quebrar-se o gelo que a ausência terminou por acumular, a entrevista transformou-se num papo de comadres, como nos velhos tempos.
                                   A desbravadora contou detalhadamente a vida em Matozinho. Havia um visível deslumbramento em cada detalhe que ia explanando. Guardadas as devidas proporções, para quem o universo se resumia à Bréa,  Matozinho investia-se de ares de metrópole. Marilu contou que trabalhava duro durante o dia, ia à Escola à noite e voltava ali por volta das dez horas. Nos fins de semana ia à missa e frequentava a praça da matriz. Algumas vezes foi a alguns sambas numa palhoça que foi inaugurada perto do açude do Sabugo. Fez amizades com algumas colegas de classe, já desarnadas e metidas na vida boêmia. Através delas,  tomou conhecimento de uma Buate de nome Arupemba , recém inaugurada. Lá se tocava uma musicazinha mais antiga, à media luz. A clientela masculina era basicamente de goiabões que dançavam animadamente com as meninas e pagavam tudo. Marilu, então, começou a fugir de casa, depois que os patrões pegavam no sono e voltava de manhãzinha, antes que Anfrízio metesse dos pés e pedisse o café. Tudo ia bem, até que um belo dia o patrão teve uma crise de asma à noite, procuraram , de urgência, a funcionária pra fazer um chá de camomila e cadê? Lugar mais limpo ! Descoberta a mutreta, Marilu teria sido peremptoriamente demitida.
                                   Transcrevemos aqui um pequeno fragmento da entrevista daquele dia fatídico que marcou o retorno de Marilu após a expulsão do Paraíso.
                                   --- Marilu, Matozinho é muito grande ?
                                   --- Marr menino !  Aquilo é um despautério, dá uma trinta Bréa encangada uma na outra...
                                   ---  Por que diabo é que te expulsaram da Casa do Coronel ?
                                   --- Eu tava fugindo de noite pra ir  me divertir na Boite Arupemba!
                                   --- Buate ? Que diabo é Buate , Marilu ?
                                   --- É assim como um Cabaré, mas  metido a besta. A gente dança com um monte de velho estribado. Eles pagam tudo ! Mas é lugar de respeito, nada de escandelo por lá !
                                   ---  E depois ? Nada de putaria ?
                                   --- Depois a gente ia com os velho prum tal de Moté.
                                   --- Moté ? Que bicho é esse, Marilu ?
                                   --- É assim um albiente que tem umas cama redonda, uma luz vermelha...  
                                   --- E o que vocês iam fazer lá com os velho ?
                                   --- Chegando lá, eles tiravam a roupa e nós também. E ficava ali naquele esfrega , esfrega... Depois eles até davam um dinheirinho pra gente ...
                                   ---- Esfrega, esfrega ? Nada  de vuco-vuco ?
                                   --- Não, os velhos eram muito respeitadores. Eles só pediam pra gente fazer capitão no pênis deles ...
                                   --- Pênis, Marilu ? Pênis ? Que bicho dos seiscentos é esse  ?

                                   --- Acho que pênis é o apelido do cacete de velho. É  igualzinho a uma rola, só que é mole, mole...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Escutando o barulho que vem lá do porão! - José do Vale Pinheiro Feitosa

Ota Benga.

Enjaulado no Jardim Zoológico de Nova York. Junto com macacos. Exposto à visitação pública. Andando pelo bosque do Zoológico e perseguido por uma multidão curiosa. Que, por vezes, lhes dava rasteiras apenas para se divertir.

Fora aprisionado na sua tribo de origem. Pigmeus. No meio das florestas tropicais da África. E transportado a Nova York sob o manto da hegemonia branca, que incrivelmente se tomava ares de ciência. Usando até mesmo a teoria da Evolução das Espécies de Darwin.

Segundo este preconceito travestido em ciência, ali, enjaulado, estava o elo perdido entre o macaco e o humano. E no “cavalo de pau” mirabolante das ideias que devastam a desumanidade estavam figuras destacadas da sociedade americana, mesmo nortistas, que diziam: ser os negros uma espécie diferente, “uma raça degradada e degenerada”.

Grupos de igrejas evangélicas negras, por dentro do mesmo cristianismo branco e europeu, mas com especificidade política em superação de suas condições sociais protestou contra o enjaulamento de Ota Benga. Isso abriu um grande debate entre a mídia reacionária do país e estes setores.

Durante meses prevaleceu o “direito” dos diretores do museu de enjaular o pigmeu junto aos macacos. Mas a opinião pública virou, inclusive porque até mesmo setores do sul racista ironizaram a vestal Nova York e o jovem foi entregue para adoção por um orfanato da igreja cristã negra.

Finalmente Ota foi entregue a uma família na Virgínia, no interior, onde brincou com as crianças. Aprendeu inglês. A religiosidade deles. Ensinou coisas às crianças. Foi se desenvolvendo nos preceitos da “civilização americana cristã”.

À proporção que foi chegando à adolescência, era uma criança pigmeia quando fora aprisionado, Ota foi sendo tomado por um profundo banzo. Uma fossa de nostalgia que apenas terminou com uma bala no coração, dentro de um galpão cinza e degradado que ficava no outro lado da rua onde morava.

Toda esta miséria humana formada por vestais do pensamento humano. Que se tomam de poderes para demonstrar olhos de fogo e pelos seus dedos lançarem raios destruidores do desamor ao outro. A loucura que transforma seres humanos em bonecos de retalhos.

Retalhos de ideias incoerentes e contraditórias. Apenas balas raivosas que, por vezes, resultam em adolescentes que fulminam os outros com armas de fogo.   

Porque estamos falando dos nossos pensamentos, palavras e atos. Todos exposto em público nesta rede de comunicação interpessoal. E para um país com predomínio de cristãos, com frequência figuras que junta fé com preconceitos, dogmas com copos de fel e jamais compreenderam sequer o que diz o Novo Testamento.

São personagens mais do mundo amorfo de uma confusão do que propriamente compreensivos cristão das palavras de Paulo: “Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine”.

São personagens perplexas diante do Papa Francisco, que disse aos repórteres que levava consigo a escultura do Padre Espinal (assassinado pela direita boliviana) da foice e martelo com o cristo em cima. Levava e compreendeu a escultura como o espírito de uma época a teologia da libertação.

E mais do que as pedras que se imaginam irremovíveis disse o Papa Francisco ao se referir às suas declarações: “Às veze, vêm notícias que tomam uma frase e ainda fora do contexto. Sim, eu não tenho medo, simplesmente digo: olhem para o contexto! Se eu erro, com um pouco de vergonha, peço desculpas e vou em frente.


Finalmente um papa Humano. Que admite o erro, se desculpa, mas não desiste de seguir em frente.   

Sobre poesia contemporânea, com ênfase no caso brasileiro

Postado por Lorena Miranda


Cartas a Um Jovem Poeta é a compilação das dez cartas que Rainer Maria Rilke endereçou, no período de 1903 a 1908, a um jovem aspirante a poeta. Nelas Rilke discute a natureza da poesia e daquele que dela se ocupa, entre outras reflexões sempre agudas, serenas, cuidadosas, sobre os mais variados temas.

Mas passemos de uma vez ao fato interessante: o livro se tornou, contemporaneamente, em verdadeira Bíblia do poeta wannabe. Cansei de ver e ouvir seus trechos serem utilizados para fundamentar as inclinações literárias de meus companheiros de geração. Sobretudo a idéia expressa no trecho a seguir:

Pergunta se seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os a outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem – usando da licença que me deu de aconselhá-lo –, peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer nesse momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila da sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?”. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa sua vida de acordo com essa necessidade.


Assinalemos, antes de tudo, a razoabilidade do trecho. A lição é simples e digna: que não se pronuncie aquele cuja contribuição não se impuser como necessidade, oferecendo-se ao invés como coisa supérflua, fruto de vaidade ou tédio ou o que for. Para Rilke, o poeta sabe fazer essa distinção, como é possível saber que se desafina ao cantarolar uma música, ou que não se é bem-vindo num determinado ambiente.

Se é realmente possível sabê-lo, ainda assim é preciso notar a sutileza da noção em jogo e a conseqüente dificuldade da tarefa de abarcá-la. Há cem anos, quando Rilke teceu suas considerações, “voltar-se para si mesmo” ainda não tinha o significado viciado que tem hoje, quando a tendência espontânea geral é ler frase ao pé da letra como “ignorar tudo que não seja meu umbigo, seguir meus instintos primevos e deplorar toda e qualquer exterioridade” – ao passo em Rilke tinha em mente, pelo contrário, o colocar-se em perspectiva para buscar sua genuína vocação. Ele se permite o uso de termos metafóricos, por vezes um tanto vagos, porque nem sequer lhe passa pela cabeça que “escavar dentro de si mesmo” possa prescindir de uma consideração profunda dos arredores em que o ser se encontra, único meio de localizar-se com a devida precisão. (O próprio tom fraterno, jamais perdendo de vista a existência concreta de seu interlocutor, empregado por Rilke em Cartas a Um Jovem Poeta já bastaria para demonstrar que a apologia da solidão presente no livro jamais contradiz e em verdade depende da noção de alteridade somente por meio da qual um sujeito, em sua solidão, pode chegar ao conhecimento de si mesmo.)

Mas o contemporâneo aprendiz de poeta, ao invés de uma reflexão honesta sobre seu papel – sua vocação – enquanto escritor, vê nas palavras de Rilke a confirmação do que ele (o aprendiz) sempre sentiu ser a verdade sobre si mesmo e sobre o mundo: só ele próprio tem existência concreta e às favas que vá o mundo.

Essa atitude redunda no desdém dos poetas contemporâneos pela tradição em torno da qual se consolidou o gênero poético e no pouco estudo que dedicam aos únicos mestres possíveis a todos que se desejem continuadores de tal arte. O poeta contemporâneo se basta a si mesmo, ou assim se pretende. Nenhuma erudição é páreo para sua escrita automática, único modo de captar a “fugacidade e imponderabilidade” de seu ser e sua existência.

Porém errôneo seria dizer que tudo isso se dá consciente ou voluntariamente; que essa coisa amorfa chamada poesia contemporânea, sobretudo a brasileira, erige seu programa em torno da negação da tradição e da prática do automatismo. Não; não se pode falar disso senão com respeito à primeira metade do século vinte, quando eclodiu e enraizou-se culturalmente o movimento modernista. Nós, literatos do século vinte e um, estamos sem rumo há pelo menos cinqüenta anos e nada seria mais risível do que atribuir um “programa” a nosso desnorteamento. Nos determina a pura e simples política da idiotização generalizada, que se edifica sobre as bases sólidas dos quinze anos de acefalização em que consiste a vida escolar do brasileiro. De modo que o bom poeta o qual, contra a corrente e se valendo de seus próprios recursos, consiga suspender a cabeça para fora dessa água causticante – encontra apenas o silêncio gélido da falta de leitores. Vá lá que uns ou outros, sobreviventes como ele, venham a apreciá-lo; ainda assim, para um poeta produzindo no Brasil nos dias de hoje, é precisamente utópico sonhar com um grande alcance para suas obras. Ou seja, ele pode até fomentar a revitalização de sua cultura a longo prazo, mas deve estar certo de que não viverá para colher os frutos últimos desse processo.

É verdade também que o desprezo pela tradição poética nem sempre se dá no nível do discurso. O que se vê no mais das vezes é um puro e simples despreparo intelectual, que produz no protoartista um embasbacamento paralisante diante de qualquer poema de Camões, estabelecendo léguas de distância entre o aprendiz de poeta e o que lhe parece um cânone inalcançável. Os brasileiros hoje não temos, para início de conversa, qualquer noção de ritmo, de musicalidade poética. O uso de métrica na escrita é tão estranho à forma de nosso pensamento quanto cores para alguém que tivesse morado a vida toda num iglu na Antártida. Qualquer farmacêutico há cento e cinqüenta anos seria capaz de compor um sonetinho duro, desses bem bobos, fórmula pronta. Mas os poetas de hoje (esqueçamos, em absoluto, os farmacêuticos) continuam prestando favores ao Concretismo de cinqüenta anos atrás e ao poema-pílula que era muito interessante em 1922 – apenas porque ambos, embora em teoria representem a epítome do tecnicismo, a hipérbole da poesia condensada, oferecem uma máscara fácil aos que se queiram passar por muito inteligentes sem ter em verdade o que dizer (nas palavras de Rilke, sem terem a vocação de qualquer coisa dizer).

Trata-se, com efeito, da convergência de diversos fatores culminando no que se pode sem medo chamar de ausência de cultura poética no Brasil. (Tendo a acreditar que alguns desses fatores sejam mais ou menos universais e se apliquem à situação da poesia no Ocidente como um todo – não faço a menor idéia do que se passa em culturas mais exóticas –, porém me furto a afirmar qualquer coisa nesse âmbito maior, pois me falta conhecimento de causa específico; e, principalmente, é possível que a cena em países mais desenvolvidos seja muito superior à do Brasil, no mínimo em virtude de uma educação mais decente, tanto de base quanto superior.) O primeiro desses fatores foi o estabelecimento de uma nova noção de poesia, de uma nova dicção poética – aquela inaugurada pelo Modernismo e desde então esgarçada até sua sublimação para além da literatura, com o poema pulverizando-se para fora do papel, reduzido a seus átomos e lançado ao espaço sideral, transformado em vacas de plástico pelas ruas de São Paulo e apresentações em formato Flash e Power Point.

Essa mudança no modo de se abordar a poesia a partir do início do século vinte já surgiu como uma tentativa de se abarcar a novidade – notadamente, a velocidade – da vida moderna, cujo símbolo são as grandes metrópoles globalizadas. Porém o que se chamava de “a ágil modernidade” do pós-Primeira Guerra, se comparado com o mundo em que vivemos hoje, provavelmente evidenciará mais diferenças entre ambos do que entre o Modernismo e o passado que ele tentava refutar. E no entanto nós gostamos de nos chamar pós-modernos, assinalando nossa filiação a um movimento que já não nos diz respeito, e vivemos até hoje a desfiar o novelo desgastado de uma época cujas soluções estéticas já não respondem pelo que somos.

Em suma, a liberdade poética instaurada pelo Modernismo, associada à pouca educação do brasileiro contemporâneo (e me refiro inclusive ao brasileiro universitário, ao aprendiz de poeta), em cujo espírito se reproduzem aquelas noções de doce complacência em relação a si mesmo e grande preguiça quanto ao que está fora dele, gerou um monstro desfigurado, um arremedo de expressão artística inteiramente prescindível àquilo que seria o fim mais nobre da poesia dentro de um dado contexto social: dar voz simbólica e distintiva aos traços desse contexto, localizando-o no tempo, desenvolvendo sua consciência de si próprio.

Tenha-se o Desconstrutivismo como método de análise da realidade e o individualismo fazendo-se confundir com individualidade numa cultura de analfabetos funcionais e eis a genealogia da poesia contemporânea brasileira. Só Deus sabe em que medida é consciente a concatenação entre políticas públicas visando apenas a derreter nossos cérebros e a onda de discursos vazios que as universidades despejam sobre o imaginário coletivo – o fato é que tudo tem convergido perfeitamente para a paralisação de qualquer capacidade crítica e esforço de autoconsciência de nosso país, como um barquinho cujos remadores trabalhassem em sentidos contrários, fazendo-o girar sem sair do lugar.

Há pouco mais de cinqüenta anos, o poeta João Cabral de Melo Neto já alertava para os riscos do que se poderia chamar de falta de responsabilidade ou de consciência do poeta com relação a seu ambiente sócio-cultural. Não que Cabral exigisse do poeta um posicionamento político ou crítica social vazada em arte; seu argumento se desenvolve no sentido de que cabe ao artista pesquisar as formas de expressão mais adequadas ao seu próprio tempo, do contrário seu trabalho resultará inútil, indiferente (e para Cabral as soluções poéticas propostas por seus contemporâneos não passavam de paliativos preguiçosos à verdadeira pesquisa existencial inerente à composição de poesia). Não se trata – reitero – de rejeitar a “arte pela arte”. O que ocorre é ser variável, ao longo do tempo, aquilo a que se pode chamar de “a demanda estética da realidade”. Pode-se argumentar, por exemplo, que os dias atuais já estão saturados da dualidade “arte social” versus “abstracionismo porra louca”; que alternativas a essas correntes estéticas existem, ainda que nossa auto-estima de sobreviventes pós-apocalípticos amputados nos faça duvidar de termos forças para um retorno, digamos, à poesia narrativa, de formas determinadas, difícil de compor pois dependente da apropriação de um modelo milenar, cujo aprendizado só pode ser feito pelo estudo longo e cansativo de sua tradição. Ou seja, talvez o que se deva fazer para resgatar a poesia contemporânea do limbo em que se encontra seja reeducar formalmente os novos poetas, desfazer o legado modernista-desconstrucionista em suas consciências, reequipá-los com os instrumentos milenares de composição poética, já de todo extirpados do seu bojo de conhecimentos – e então quem sabe comecemos a ouvir vozes atuais, vozes de poetas que nos representem, que nos deem a ver a nós mesmos. É a essa preocupação com a manutenção da eficácia cultural da poesia, indiferente por meio de qual solução estética se dê, que João Cabral de Melo Neto chama seus contemporâneos.

Em texto intitulado Da Função Moderna da Poesia (1954), ele descreve do seguinte modo o tipo de poesia que é alvo de sua crítica:

A necessidade de exprimir objetiva ou subjetivamente a vida moderna levou a um certo tipo especializado de aprofundamento formal da poesia, à descoberta de novos processos, à renovação de processos antigos. Afirmá-lo não significa dizer que cada poeta de hoje é um poeta mais rico. Pelo contrário: esse aprofundamento deu-se por meio de uma como desintegração do conjunto da arte poética, em que cada autor, circunscrevendo-se a um setor determinado, levou-o às suas últimas conseqüências. A arte poética tornou-se, em abstrato, mais rica, mas nenhum poeta até agora se revelou capaz de usá-la, em concreto, na sua totalidade.

(...) O poeta moderno, que vive no individualismo mais exacerbado, sacrifica ao bem da expressão a intenção de se comunicar. (...) O alvo desse caçador não é o animal que ele vê passar correndo. Ele atira a flecha de seu poema sem direção definida, com a obscura esperança de que uma caça qualquer aconteça achar-se na sua trajetória.

(...) Tudo o que os poetas contemporâneos obtiveram foi o chamado “poema” moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer tipo de mensagem que o seu autor pretenda enviar. Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma consideração acerca de sua possível função social de comunicação. O poeta contemporâneo chegou até ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter cogitado do assunto.


Como não podemos dizer que nosso processo poético, desde João Cabral, tem evoluído, resta-nos apagar nossos garranchos, jogar fora nossos cadernos de esboços, e começar do zero lá de onde tais severas e sóbrias palavras foram pronunciadas.

Este é um artigo pessimista, para cujos fins não interessa enfatizar as parcas reservas de esperança que nos restam, ou os casos excepcionais de poetas verdadeiros – poucos, muito poucos – vistos pelo Brasil nos últimos cinqüenta anos. A inclinação poética existirá enquanto houver homens, e está na estrutura da natureza que, entre todos, n’alguns esta inclinação resulte em traço preponderante, impelindo-os à tradução simbólica da realidade nisso que conhecemos por linguagem poética. Nada garante, entretanto (e, em verdade, os nossos tempos dão perigoso atestado disso), que um povo não possa enveredar por caminhos antinaturais, destruindo-se; que a poesia num homem não se possa perverter em loucura, que o simbolismo, em vez da luz, não possa ser posto a serviço das trevas.

Fonte: http://blogadhominem.blogspot.com.br

terça-feira, 14 de julho de 2015

OS SINOS DOBRARAM NO CRATO - Por José Almino Pinheiro

A torre da Igreja São Vicente Ferrer do Crato sempre foi um dos lugares que me fascinavam, com três belos sinos, grandes, afinados, importados de não sei onde. Eu era um dos coroinhas da igreja. A escala das nossas obrigações, escrita pelo Padre Frederico, era organizada de tal forma que era compreensível para todos. Estavam lá discriminadas as funções, as horas e os dias da semana que cada um deveria exercer; previa inclusive os coroinhas reservas, caso alguém faltasse. Para as Missas da madrugada (6 horas da manhã) os coroinhas precisavam da autorização dos pais, não podia perder aula. Algumas das obrigações: tocar os sinos, ajudar na missa, balançar o turíbulo, carregar o incenso, segurar a patena na hora da comunhão, nos batizados ajudar no andamento da cerimônia e as vezes anotando as informações para a certidão de batismo, ajudar o sacristão a fechar a igreja, etc.
Na torre o toque de chamada para as missas era simples: três coroinhas executavam a operação de puxar as cordas para mover os sinos, os badalos ficavam soltos, quanto maior o impulso maior a pancada do badalo na borda interna do sino e em consequência maior a intensidade do som. Para avisar os fieis da hora da missa, eram necessários três toques de 2 minutos, o primeiro às 17:30h, o segundo às 17:45h com os 3 sinos tocando simultaneamente, no terceiro toque às 18:00h, apenas tocava o sino grande. No último toque os fieis já deviam estar dentro da igreja, o padre já no altar, esperava o último badalar do sino para então começar a cerimônia. Para nossa alegria o padre não admitia atrasos, todos os dias os coroinhas levavam para a torre um grande despertador com marcas de tinta vermelha no mostrador indicando o momento dos toques. Por pura molecagem, às vezes antecipávamos em alguns minutos o último toque, só para ver os fieis correndo para chegar na igreja a tempo e também observar a impaciência do padre em terminar de vestir os paramentos para depois, já a postos no altar, repreender em voz alta os que chegavam atrasados. Confesso que nos dava uma estranha sensação de poder, por alguns minutos, o início da celebração da Missa dependendo da vontade de alguns coroinhas.
Havia bastante liberdade no universo dos coroinhas da Igreja São Vicente; para nós um dos poucos tabus era o toque fúnebre. Esse dever de anunciar a morte e o respectivo enterro do cristão não fazia parte dos nossos pensamentos, era coisa muito séria, sobrenatural. Mas no dia da morte de uma viúva que morava no alto da matança, era preciso tocar o aviso fúnebre. O principal critério de consideração do padre Frederico não era o da posição social e sim o comportamento exemplar que cada cristão deveria ter. A defunta tinha ficado viúva muito nova e para criar os cinco filhos teve que passar a vida toda trabalhando como costureira, e ainda arranjava tempo para ser boa paroquiana, portanto merecia a atenção da Igreja. Como o Sr. João, sacristão e tocador oficial e conhecedor dos toques ficou enfermo, o padre teve que improvisar e convocou três coroinhas que estavam por perto para cumprir a missão. Para nós, as vítimas, o padre preparou em uma folha de papel uma espécie de partitura com as explicações de como os sinos deveriam tocar. Era o toque fúnebre feminino, e, se não me engano, consistia em sequências regulares de toque duplos, começando do sino menor para o maior.

Na torre os sinos ficavam em andares diferentes, o menor no andar mais alto, o toque era feito com o sino imóvel com a batida do badalo puxado por uma curta corda, de forma que mal dava para os coroinhas conversarem entre si. Era um momento pesaroso e monótono. Depois de algum tempo, para quebrar a monotonia começamos a exercitar, sem saber, alguns fundamentos da física: a prática da balística e queda livre dos corpos, jogando lá de cima da torre mísseis em direção a incautos transeuntes que ousavam passar sob as janelas da torre. Esgotadas as munições ao nosso redor, era necessário procurá-las em outros lugares da torre. As munições consistiam em cocô ressecado de pombos, andorinhas e provavelmente de morcegos. No entusiasmo dessa batalha a partitura do padre ficou em segundo plano, pois não mais se respeitou as sequências nem o tempo das batidas dos sinos, no afã de encontrar munição, cada um tocava seu sino do jeito que dava, era uma espécie de novo e animado batuque fúnebre. O toque diferente, chamou a atenção dos paroquianos que ficaram curiosos em saber que autoridade tão importante tinha morrido para merecer tal toque. Talvez a mãe de algum padre ou mesmo um bispo alemão. O enterro da viúva foi um sucesso. Uma multidão acompanhou o enterro, muitos queriam saber quem era o homenageado daquele toque especial. De cima da torre, pelas frestas das janelas observamos quando passou o enterro, liderando o cortejo estava impassível o padre Frederico. Ao passar pela igreja rumo ao cemitério, tive a sensação que o padre deu uma forte olhadela para a torre, e por precaução e em legítima defesa das nossas orelhas, passamos alguns dias sem aparecer na igreja.                

"DELAÇÃO" x "CORRUPÇÃO" - José Nilton Mariano Saraiva

Embora essa tal de “delação premiada” seja uma espécie de instrumento jurídico permissível e de uso recorrente nos tribunais da vida, mormente agora no âmbito da operação Lava Jato, se nos dispusermos a analisa-la com frieza, profundidade e isenção, paradoxalmente, ao fim e ao cabo, a conclusão é que ela assemelhar-se-á (por linhas tortas ou oblíquas, como queiram) àquilo que a fez ser usada: a “corrupção”.

Afinal, se a “corrupção” empiricamente nada mais é que a oferta (por parte de quem tem “bala na agulha”) a agentes mafiosos, de um “premio” (suborno) a fim de se conseguir um determinado objetivo (no caso da operação Lava Jato, o de vencer uma milionária licitação, por exemplo) na “delação premiada” (e a denominação por si só já é bem sugestiva) o objetivo “temporal” (aqui a novidade) da autoridade constituída é o de, através de detenções arbitrárias (porquanto sem provas factuais) e posteriores escutas ilegais (via grampos não autorizados) é o de, repetimos, constranger, literalmente matar pelo cansaço e ao fim, “corromper” o presumível “corruptor-original”, através da oferta de um “premio” (diminuição da pena) contanto esteja este disposto  a “entregar de bandeja” outros integrantes do esquema mafioso (uma espécie de forçação de barra, com recompensa garantida).

A vingar tal reflexão, teríamos, então, duas distintas e conflitantes espécies de “corrupção”: a corrupção “ilegal”, patrocinada por empresários de alto coturno, cuja mola-mestra seria se beneficiar, através da entrega de “prêmios” (propina) a quem se disponha a vender a alma, de sorte que o retorno seja geométrico e garantido; e, na outra ponta, a corrupção (teoricamente) “legal”, patrocinada pela “autoridade constituída” (o Estado) via “delação premiada”, visando condenar sem provas, aqui com o sério agravante de se ofertar credibilidade à palavra de notórios bandidos (já que inexistem provas que corroborem aos depoimentos prestados).  

E o perigo mora exatamente aí, conforme se pode constatar pelo argumento usado pela ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber no julgamento de José Dirceu:  “Não tenho provas para condenar Dirceu, mas a literatura me permite fazê-lo”.  

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O prisma


J. Flávio Vieira


                                               Na Sexta-feira última, a Suprema Corte dos Estados Unidos legalizou o Casamento entre pessoas do mesmo sexo. Na prática, os cinquenta estados federados , agora, não mais poderão se negar a consolidar uniões com base apenas na heterossexualidade. A questão do Matrimônio Gay se arrastava há muitos e muitos anos. Desde 1996, havia Lei Federal, emitida pelo então presidente Bill Clinton,  que proibia  esse tipo de união. A partir daí, no entanto, vários estados americanos foram, pouco a pouco , com base em suas Constituições Estaduais, quebrando o veto da Lei de Clinton e emitindo licenças para casamento. Quando da votação histórica , já trinta e seis estados tinham avançado neste sentido, restando apenas quatorze que ainda se mantinham  irredutíveis. Na última sexta feira, por fim, os juízes da Suprema Corte tiveram que decidir se os Estados americanos tinham ou não a obrigação constitucional de emitir as licenças de casamento para casais do mesmo sexo e, mais, reconhecer as uniões feitas nos outros estados da federação. Finalmente, depois de uma longa queda de braços, a bandeira multicolorida terminou hasteada festivamente nos mais recônditos locais dos EUA. A decisão da Suprema Corte, é bom que se entenda, não só permite um ato simbólico de casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas estende os benefícios sociais e pensões públicas aos parceiros dessas uniões.
                                   A decisão do último fim de semana já nem parece tão polêmica aqui no Brasil. Nos últimos anos, a questão, entre nós, já parece totalmente sobrepujada. Nossos tribunais já têm clara orientação de proceder aos enlaces independentemente de sexo. Aos poucos , como é de se esperar, as solenidades vão ficando perfeitamente naturais. Quem hoje ainda lembra da polêmica questão do Divórcio, que acalentou fervorosas discussões no Brasil nos Anos 70 ? Hoje é um ato tão simples e corriqueiro como o matrimônio. A Libertação dos Escravos movimentou toda a Sociedade Brasileira no final do Século XIX em times a favor e contra. Hoje tentamos, todos, nos esquecer daquela violência institucionalizada. Como sempre, as Lei vêm sempre a reboque do curso natural dos comportamentos e costumes.
                                   Talvez o mais chocante na decisão da Suprema Corte  more na constatação de  como um país de primeiro mundo como os EUA, a mais importante Economia do planeta, tenha demorado tanto para tomar uma decisão tão importante e libertária. Como um país tão avançado e aparentemente liberal nos seus costumes permaneceu cego durante tanto tempo ? Como fechar os olhos para a realidade cristalina à nossa frente? A família deixou de ser aquele idílico núcleo de pai-mãe-filhos. Hoje as possibilidades são infinitas : mãe-mãe-filhos, pai-pai-filhos, avó-avó-filhos-netos, mãe-sozinha, pai-sozinho, mãe-doador de sêmen-filhos, pai-mãe-barriga de aluguel-filhos, doador de sêmen-barriga de aluguel-filhos-pai adotivo ... Como compreender, assim, que um casal de gays,  vivendo muitos e muitos anos juntos, construindo todo um patrimônio a quatro mãos, com a simples separação do casal, uma parte seja totalmente prejudicada, sem qualquer intervenção possível do Estado ? E em caso de morte de um dos cônjuges,  onde estará a justiça para fazer o viúvo/viúva herdeiro, com direito à pensão do seu parceiro ? Qualquer um dia nós pode carregar sua carga de preconceitos, suas pessoais interpretações religiosas, mas o Estado deve ser um juiz totalmente imune a quaisquer tipos de preconceitos e, mais que tudo, laico.
                                   O utilitarista Stuart Mill dizia, com propriedade, que apenas uma coisa justificaria a criação de uma Lei: impedir que minha liberdade fira a liberdade dos outros. A justiça , assim, não tem jurisdição sobre o  banheiro, a alcova, os hábitos de vida, os desejos de qualquer cidadão desse planeta. A ninguém deve interessa o caminho que qualquer um tome, com quem cruze na sua viagem, desde que não se atropele ninguém no percurso  : cada um de nós determina o sentido e a direção da própria vida. O Estado deve apenas estar, a todo instante, do nosso lado,  nos amparando  e auxiliando  no itinerário. Em tempos de tamanha violência, de tanto individualismo, que o Amor floresça como rosa, como lírio, como cacto !
                                   De qualquer maneira, a sentença da Suprema Corte  traz consigo um simbolismo  imperecível.  Os grilhões do conservadorismo terminam sempre quebrados pela gazua da modernidade. Desde sexta-feira última, o mundo ficou mais respirável. Ante a luz ofuscante do passado opressivo insinuou-se o prisma do novo e refez-se o milagre da refração com o Arco-Íris pintando o mundo de esperança.


Crato, 02/07/15

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O "CONTADOR DE HISTÓRIAS" - Demóstenes Ribeiro (*)

Ele estava na fila de emprego e, apesar dos seus cabelos brancos, o reconheci de imediato. Preto e baixinho, mas ainda esbelto e musculoso como o conheci na infância. Lembrei do tempo em que ele recolhia o lixo da cidade, numa carroça puxada a burro, encantava a meninada com estórias fantasiosas e tirava cocos de onde ninguém tinha coragem.

Ao anoitecer, deslumbrava a gente com a saga do pavão misterioso, as desventuras de Camões e as travessuras picantes de Bocage. Outras vezes, era a aparição do monstro Labatut, o tempo do rei e do império.

Para ter mais veracidade, suas estórias eram herança de família, contadas pelo tetravô, escravo alforriado, que conheceu D. João VI e participou de beija-mãos no Paço Imperial. O monarca seria um tipo afrescalhado, imundo e medroso de trovoadas. E a rainha, Carlota Joaquina, feia e maluca, lhe enchia de chifres, embora também não tomasse banho.

Então lembrei-me de uma eleição acirradíssima, onde a UDN, controlando o juiz e o delegado, impediu a oposição de instalar auto-falante em qualquer prédio da cidade. A proibição, no entanto, esqueceu os coqueiros e ele foi chamado para colocar o transmissor no ponto mais alto da cidade. Com o aparelho e fios amarrados à cintura, escalou o coqueiro e instalou o equipamento. Assim, sem infringir a lei e deixando os adversários estupefatos, a “Voz do Cariri” entrou no ar e conduziu o PSD para a vitória.

Depois, já na meia-idade, ele se aproximou da Igreja. Sonhava ser da “Irmandade do Santíssimo” e participou de procissões. Num “Corpus Christi”, vestiu um terno branco usado e folgado, porem com boa figura sob a opa vermelha da irmandade. À frente do palio, contrito, mas desajeitado, destoava dos irmãos ao conduzir o castiçal e a vela inclinados, quando deveriam estar na vertical. Ao ver a cena, dona Lídia, na calçada, não perdoou o gritou: “apruma a vara, Zé” ! A procissão inteira interrompeu “...queremos Deus, que é o nosso rei...” e caiu na gargalhada. Monsenhor Feitosa, zangado, por pouco não excomungou todo o mundo e derrubou a custódia.

Por fim, as lembranças pararam, bati em seu ombro e perguntei: e aí, ainda contando estórias ? - “Que nada” respondeu sexagenário e triste, sem a vivacidade de outrora. – “Com a terceirização, fui jogado na rua. Minha esperança agora é esse emprego de coveiro, aqui no cemitério. Parece que vai dar certo. Afinal, eu entendo de lixo e o que não falta em minha vida é alma penada”.


(*) Demóstenes Ribeiro (médico cardiologista, filho de Missão Velha e atualmente radicado em Fortaleza, em plena atividade) 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Tem um grande hotel em teu mundo ? - José do Vale Pinheiro Feitosa


Um ambiente muito diferente de tudo que é conhecimento do mundo. Escadas que se sucedem com outras escadas de um andar acima do outro. E apenas sabia que as escadas iam do chão ao sótão. Em cada andar tantas portas, entradas uma após as outras e dentro delas vidas que se multiplicavam em adereços, livros, discos, uma escova para dentes, um pente para cabelos. E ninguém era da família, parente ou aderente.

Um Grande Hotel, numa esquina para a Praça Siqueira Campos, na rua que vai para o Cine Moderno é um portal mágico entre séculos. No mundo do ambiente rural, sem luz elétrica, com água de cacimba, um paiol de milho, estrado levantado de queijos, o silêncio dos automotores, mas o grito do pavão. Um Grande Hotel é, de fato, uma abertura da Aida de Verdi para o interior fabuloso do mundo Egípcio, de um Etíope que cobiçava tal civilização.

Lá morava o professor de Português que corrigia estas falas, os sujeitos e seus predicados. Morou um sujeito dos Inhamuns, saíra do sertão, fora para o Rio de Janeiro, viveu mais de 30 anos naquela cidade e voltou, como os elefantes para morrer em volta de seu lago africano. Tal sujeito dormia e dormia, acordava pelas onze horas e logo comia seu almoço numa bacia carregada de misturas alimentares. O resto do tempo, entre o Grande Hotel e longas conversas com gentes que andam pelas ruas do Crato em busca de conversa como sopro de vida.

O circo chegou na cidade. Isso no tempo que um circo era tão grande que um shopping, destes que sucedem os mitos arquitetônicos da identidade urbana, não chegavam aos seus pés. Eram muito mais variados, animais selvagens, daqueles que só as fitas de cinema fotografaram, palhaços, dramas, trapézios, equilibristas, dançarinas e bandas. Mas o maior de tudo, a multidão que se acotovelava para adquirir uma entrada do espetáculo.

Pois foi na porta do Grande Hotel que a mulher do circo, uma bailarina de seus 16 anos, linda de doer, um sorriso de derreter, um corpo de acender, cabelos em coque que prometiam a enxurrada de todas as paixões. E do Grande Hotel saiu um filete de amor que, feito os versos de Marti, postos na Guatanamera, encantaram mais que o mar, tão imenso a prometer eternidade.

Mas do meu mundo do prédio do Grande Hotel, Edifício Figueira Teles escorre pela Rua Dr. João Pessoa uma permanência que não necessita de substrato para viver. Saindo do número 114, era lá que a cidade me dava um endereço, passava, com algum dinheiro no bolso, na porta da Livraria Católica que conhecia como a palma da mão. Em seguida, estava em frente às portas da loja elegante de Ernani Silva, que além de tudo honrava o centro da cidade, morando num sobrado sobre o próprio negócio. A casa de Dr. Elísio, corpulento homem entre a medicina e seu belíssimo sítio com engenho d´água. Mais alguns passos e encontrava o Deputado Filemon Teles, cabelos brancos de neve, bengala, uma vivacidade de velho político conservador, adonado da vida política da cidade.

Qual o quê? Era na esquina do Grande Hotel, bem no bico com vista plena para exuberância da praça que o menino caia nos braços da urbe luminosa. Um bar, mesa com pés de ferro fundido, tampo de uma pedra branca, cadeiras confortáveis, balcão com mostruário de vidros, o barulho de um refrigerador de picolé e sorvete, azulejos, quadros pendurados nas paredes e móveis de madeira que subiam cheios de vendas acima do balcão.

Nesse bar, sob a vida do Grande Hotel, uma bomboneira de vidro, arredondada e compartimentada, giratória, cheia de sonhos de crianças. A cada pequeno giro os papeis chamativos dos bombons faiscavam nos olhos e mourejavam a boca. Eram tantas as possibilidades que só a cidade pode. O exercício era girar para ver antes de apontar o dedo para o desejo sobre todos outros desejos já conhecidos.

Uma perfeita cor transparente do vermelho com mistura de azul, um solferino de sedução. Impresso um casal, ele vestido com um fraque preto e ela com vestido longo amarelo, dançando aberto como asas em evolução de vôo. Em seguida, um papel alumínio, hoje tão comum, mas, então, um brilho de prata no olhar. Finalmente a terra dos sonhos, com mais da metade em formato de globo e no outro lado um pólo achatado. Tinha este cosmo uma crosta de chocolate puro. Abaixo do chocolate um biscoito crocante, aerado como os waffles. No centro deste mundo de sabor, o núcleo era um mistério doce, com lembranças de castanhas.

E disseram que o Grande Hotel irá abaixo para dar vida a mais uma rua Miguel Lima Verde mutilada ou quem sabe arremedada. E dos escombros, surgirá, como um fênix banal, sem qualquer vida nova, sem simpatia, qualquer identidade, o palco do faz de conta de um Shopping, em inglês mesmo, pois é deste tipo de suicídio que a inapetência urbana vive.

No final quem lembrará do Crato?

Mas um bombom SONHO DE VALSA ninguém me rouba.

José do Vale

*José do Vale Pinheiro Feitosa – nascido na cidade de Crato, Ceará, em dezembro de 1948, morando no Rio de Janeiro há 34 anos. Médico do Ministério da Saúde. Publicou o Romance Paracuru em 2003, assina matérias em alguns blogs e jornais. Em literatura agita crônicas, contos, poesia e ensaios de temas variados. Gosta de pintar e tem alguns trabalhos de escultura.

"CAVALO PARAGUAIO" - José Nilton Mariano Saraiva

Teoricamente, os brasileiros se acostumaram a tratar pejorativamente os paraguaios, em razão, principalmente, da existência de uma zona franca de livre comércio numa cidadezinha paraguaia (Cidad Del Este) vizinha à nossa Foz do Iguaçu, onde os produtos comercializados são de procedência duvidosa (falsificados), daí o preço pra lá de convidativo.                                                                                     
Mais tarde e por via oblíqua, e já na base da gozação, nas competições de “turfe” realizadas no Rio de Janeiro, quando o animal teoricamente tido como favorito fracassava, de pronto recebia a alcunha de “cavalo paraguaio”, a fim de expressar o NÃO SER verdadeiro, ou o SER de qualidade duvidosa, falso.

Posteriormente, citada expressão difundiu-se por outros segmentos do cotidiano tupiniquim, dentre os quais o futebol. Assim, quando um determinado time inicia uma competição com todo o gás e, paulatinamente, começa a “descer a ladeira” rumo à rabeira, convencionou-se tratar-se de um “cavalo paraguaio”.
                                                               
A reflexão procura mostrar que a nossa seleção de futebol não mais que de repente resolveu incorporar o “espírito da coisa”. Tornamo-nos, sim senhores, um “cavalo paraguaio”, apesar de alguns experts relutarem em admitir. Tanto é verdade que, no decorrer da recente partida de futebol em que a seleção paraguaia “genérica” (a nossa) findou por ser merecidamente desclassificada pela seleção paraguaia “original” (a deles), o locutor global passou o tempo todo conjecturando sobre a próxima fase da competição (Copa América), quando nos defrontaríamos com a já classificada seleção argentina; ou seja, aquele jogo com o Paraguai já estava ganho com facilidade e, portanto, não deveríamos alimentar maiores preocupações, guardando-as para o confronto com os “hermanos” portenhos, aí, sim, um jogo de arrebentar, um jogo de alto nível e, enfim, onde existia a real chance ou possibilidade de chegarmos à final da tradicional competição.                                                                                      

Além do que, passando, como passaríamos, pelos paraguaios, os dois jogos seguintes (semifinal e final) serviriam para que a punição merecidamente imposta ao jogador Neimar cai-cai fosse “paga” e, assim, nas eliminatórias para a próxima Copa do Mundo o jogador pudesse atuar desde o princípio. Deu no que deu. 

Perdemos (sem jogar nada) e nem da Copa das Confederações, a ser realizada na Rússia, participaremos (coisa nunca antes acontecida, desde os seus primórdios). Além do que, dúvidas começam a surgir sobre se teremos condições de ultrapassar as eliminatórias a fim de participar da próxima Copa do Mundo de 2018, também na Rússia.                                                                                                     

É que os adversários já não se assustam com o futebol brasileiro, que se metamorfoseou num sofrível, banal e simplório “cavalo paraguaio”. É o preço que vamos ter que pagar em razão da mídia esportiva endeusar jogadores da estirpe de um Neimar cai-cai que, milionário em razão do futebol, não está nem aí para o que possa ocorrer com a seleção brasileira. 

Alguém tem dúvida ???


"DOAÇÕES"

DOAÇÕES DAS CINCO PRINCIPAIS EMPREITEIRAS DO PAÍS ( OAS, UTC, ODEBRECHT, QUEIROZ GALVÃO E ANDRADE GUTIERREZ ) AOS QUATRO PRINCIPAIS PARTIDOS POLÍTICOS DO PAÍS (PSDB, PMDB, PT E PSB), NO ANO DE 2014:

01) – PSDB – R$   65,7 milhões (ou 37,0%)
02) – PMDB – R$ 34,4 milhões (ou 19,4%)
03) – PT – R$ 58,1 milhões (ou 32,8%)
04) – PSB – R$ 19,4 milhões (ou 10,8%)


TOTAL – R$ 177,6 milhões (ou 100,0%)

E AGORA, AÉCIO ???

DELAÇÃO DE RICARDO PESSOA, DA UTC

A delação (de Ricardo Pessoa, presidente da UTC) divulgada afirma que a eleição de Dilma drenou R$ 7,5 milhões dos cofres da UTC. Pelo menos aqui Aécio Neves ganhou da adversária. Sua campanha agasalhou R$ 8,7 milhões do empreendedor preocupado com a marcha do capitalismo. Interessante: no total, suas doações declaradas aos tucanos foram maiores do que o dinheiro para o PT, inclusive em São Paulo.

E mais: pagou ministros do TCU, deu mesada para o filho do presidente do mesmo tribunal, comprou o PT, comprou o PSDB, comprou o PSB, comprou o PR, comprou o PMDB e ainda deu R$ 20 milhões para o ex-presidente Collor.


E agora, Aécio ???

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A PEDRA A SOLIDIFICAR-SE COMO CROSTA DA REALIDADE FLUIDA - José do Vale Pinheiro Feitosa




Fogos alargando a noção de distância ressoam desde a praia. É o dia de São Pedro, uma procissão católica em face do pescador. Frágeis seres da terra a balançar nas ondas afogáveis onde as jangadas furam o espaço como uma flecha indígena.  

São Pedro o pescador. Tão simples na escala hierarquizada das tribos de Israel. Ali a tecer as malhas da rede de pesca. Na margem onde termina o sólido e começa o líquido.

Alguém como nós. Lutando pela vida. Trabalhando e criando margem onde os mercadores engordam. Engordam em moedas. Dinheiro que representa o poder de quem o detém sobre o trabalho de Pedro o Pescador.

Sobre José o carpinteiro. Sobre Madalena e seu corpo de hematomas a pedradas. E Pedro é isso. Um ser como os simples da terra. Temeroso da fúria armada dos que transformam trabalho em dinheiro e com esta unção de poder afoga a fé de Pedro.

E por três vezes negou o que vinha apostolando apenas por terror à espada. E mais uma vez demonstrou o quanto preservou sua integridade física abdicando da palavra. Das ideias. Da divulgação pelas terras dos senhores do sínodo hebreu e das hostes romanas.

E, no entanto, foi este desvio dos enormes obstáculos. Aquele que temeu. Que se acovardou afrontando-se com a ferida do ferro frio. Foi ele, que ao centro do Império migrou e, no coração dele, foi pedra para se erguer a vontade de muitos.

Todos frágeis como ele. Como nós diante destas instituições pervertidas, poderosas, insanas que carreiam ilusões e fazem da terra e sua natureza essencial objeto das pedradas a Madalena. Somos Pedro.

É só esperar. Somos alicerce a substituir a ruína imoral do capitalismo. A embriaguez desta segurança baseada em moedas. Moedas.

Todas elas enfileiradas numa corrente de faz de conta. Com elos se rompendo por todos os lugares e momentos. As podres moedas que não passam de uma falsidade ideológica sobre os resultados do trabalho de todos.


Pedro o Pescador. A pedra que se solidificou como crosta da terra.   

domingo, 28 de junho de 2015

TRAMA INSANA - Valdemar Menezes

Analistas políticos enxergam sinais de uma trama insana para retirar o ex-presidente Lula da vida política nacional, através do impedimento de sua candidatura em 2018. O que faltaria é encontrar a fórmula mais adequada para dar um mínimo de verniz legal à manobra, sem deixar expostas as motivações verdadeiras. Não seria por outra razão a campanha massiva de destruição da imagem de Lula, bem como a pressão do sistema para que ele seja enquadrado na Operação Lava Jato, levado à prisão e assim ter sua postulação inviabilizada pela Lei da Ficha Limpa. 

Quer se goste dele, ou não, Lula é o maior líder de massas do Brasil (isso apesar 30 anos de massacre midiático movido a preconceito e prejulgamentos). Só os cegos não veriam que ele tem sido o fator de moderação dos embates entre classes sociais antagônicas, numa sociedade cuja desigualdade escandalosa poderia fazê-la explodir a qualquer hora. Pode-se dizer que, sem Lula, possivelmente o Brasil estaria entregue a radicalizações piores ou similares a de países vizinhos, que não puderam contar com um líder de massas moderado como ele, nem com um partido de ampla inserção social, comprometido com a institucionalidade democrática, como o PT (apesar de ter cometidos erros indesculpáveis).

Os “aprendizes de feiticeiro” podem até ter êxito em suas articulações, mas não sem o risco de - cedo ou tarde – desencadearem a convulsão social, com grandes probabilidades de um confronto selvagem entre o andar de cima e o de baixo, quando não mais existiria o fator de moderação representado por uma liderança popular moderada. Para o escritor Fernando Veríssimo, a classe dominante brasileira odeia qualquer sigla que defenda a diminuição de seus privilégios. Brinca, irresponsavelmente, com a possibilidade de um Brasil convulsionado pelo ódio e a violência, visto que nenhuma força representativa do sistema dominante tem o que oferecer aos que querem ter um lugar ao sol e não mais aceitam voltar para a senzala.

sábado, 27 de junho de 2015

Uma noite feliz! 24.06.2015


Nada faltou
Música,comida,animação, e a companhia de antigos companheiros do BB.
Agradeço à Ângela Lobo , o simpático convite.
O tempo passou,mas o afeto permaneceu intacto.
Um feliz reencontro!