por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Tim - Tim !



   


J. Flávio Vieira

                               Taça elevada aos céus, como um Santo Graal, Emiel , sorriso nos lábios, sem quaisquer laivos de apreensão turvando-lhe o espírito,  brindou  os encantos da vida, o pudim de leite que é o  mistério de existir. A sala estava repleta de  amigos, companheiros do Clube de Atletismo,  e parentes, afinal tratava-se de uma celebração.  Não tão diferente daquela , muitos anos atrás, que lhe abriu as portas e janelas de um mundo novo, que se lhe desabrochava num milagre de pétalas e cores. Apercebeu-se, rápido, das muitas cláusulas  daquela viagem de bilhete único, de destino perfeitamente previsível e da inescrutável estação onde um dia, inevitavelmente, teria de desembarcar de alforjes vazios. A vida fora-lhe ofertada em consignação.  O segredo de tudo não estava, na verdade, no ponto obscuro do desembarque forçado. A viagem consubstanciava-se  na travessia, na paisagem mutante que caleidoscopicamente passava pela janela , no contato aleatório com os outros passageiros. Aos 95 anos , sabia  , perfeitamente, que havia chupado a doce fruta  até o bago,   sugara o mais que pudera da polpa e da seiva, restava-lhe  o caroço pronto para uma nova semeadura. Bastava olhar para o longo trajeto percorrido: os rios transpostos, as árvores bolinadas, os mares  navegados, as montanhas galgadas, os obstáculos transpostos, os muitos amigos acolhidos; e banhava-lhe aquela certeza : mesmo sem alcançar a meta sabidamente sempre inalcançável, tudo valera a pena pela busca do inencontrável.  Emiel Pauwels passara os anos correndo, literalmente, e terminou por se tornar o mais velho atleta da Bélgica. Em 2013, já combalido, ainda havia ganho o título europeu de veterano no Campeonato de Atletismo, na modalidade : 60 metros Indoor. 
                        Aceitou, resignado, o diagnóstico  frio que o médico lhe passou alguns dias depois de pôr a medalha no peito:
                        --- É câncer no estômago, Sr. Emiel e em fase terminal ! Curta bem este verão, viu ?
                        Havia alguma coisa de sádico naquele prognóstico. O médico parecia dizer-lhe, indiretamente :
                        --  Tchau ! Já basta de mamar na previdência do país! Você está burlando todas as estatísticas de expectativa de vida, não tem vergonha, não ?
                         No primeiro momento, saltou-lhe aquele instinto de preservação: E se o sacana do médico estiver errado ? O exame não terá sido trocado ? Com o passar dos dias, no entanto, vendo-se fragilizado, as forças se esvaindo pelo ralo das horas, conformou-se: estava, por fim, prestes a cumprir a última cláusula do Contrato de Consignação: deveria desembarcar na próxima parada ! Podia, claro, sentir-se apeado da vida, obrigado a abandonar o trem em plena viagem, mas compreendeu, rapidamente, que aqueles não eram tempos de semear ou de colher, mas de ressemear. Fechava-se o ciclo da existência. Percebeu, no entanto, que talvez a dor e a angústia  do desembarque poderiam apagar ou nublar a bela memória da travessia. Alguns dias de fel , quem sabe, arrancariam o  enlevo de toda viagem. UTI, dores lancinantes, Respiração Artificial : a Morte a crédito.  Estava, graças a Deus , na Bélgica, onde a morte  e seu séquito não precisam ser necessariamente crônicos , a tortura final da existência humana. Foi assim que , decidido, encomendou a eutanásia e reuniu todos os amigos , colegas e parentes naquela celebração. Queria-os testemunhas, acólitos  e convidados ao ritual.
                                    E, enquanto , gota a gota, espalhava-se na veia,  lentamente ,  o combustível  que, como um relógio anti-horário,  marcava  a contagem regressiva da volta , Emiel pressentiu : já se prenunciavam as chamas primeiras que engoliriam , novamente, a Biblioteca de Alexandria. Ergueu alto o cálice de Champanhe , contemplou a paisagem à sua volta, como a gravar na retina a última foto ,  e fez o brinde derradeiro : Aos  cúmplices de viagem ! Ao  sagrado milagre da   impermanência !  Aos deuses do acaso e do imponderável !  Aos irmãos siameses  Vida e Morte !  Ao pó  razão, origem e fim de toda travessia !
                                               --- Tim-Tim !

Crato, 10/01/14

A "Velha Senhora" - José Nilton Mariano Saraiva

Aliando discrição, simplicidade e traços de nobreza, ao nascer ela já conseguira o que parecia impensável: a unanimidade sobre sua beleza e suas formas perfeitas, suas graciosas curvas e sua postura real, responsáveis por sua caracterização como uma “gracinha”, autêntica “jóia”, detentora de um charme indescritível, um verdadeiro presente dos deuses.
Embevecidos e orgulhosos, os cratenses sentíamos imensa satisfação em mostrá-la aos que aqui aportavam, em visitá-la periodicamente ou, simplesmente, em transitar à sua frente ou arredores, admirando-a e inflando o nosso ego com o que as pessoas dela comentavam; e, se distantes nos encontrávamos do torrão natal por algum motivo, não cansávamos de citá-la em conversas informais, ou mesmo recomendá-la aos que pretendiam visitar a cidade do Crato.
E assim sua fama cresceu, atravessou fronteira, espraiou-se rincões afora. O astral era tamanho e a curiosidade tanta, que todos nutriam o desejo interior de algum dia conhecê-la, mesmo que por um fugidio e único momento, para simplesmente comprovar tudo o que dela diziam. E, vindo, e vendo-a, saiam satisfeitos, radiantes, solidários, a difundi-la por outras plagas. Era, realmente, de uma beleza ímpar, diferente... avançada para os padrões da época.
Com o passar do tempo, entretanto, dada à inexorabilidade do ciclo normal da natureza, naturalmente a jovem cresceu, adolesceu, virou adulta, transmutou-se e viu processar-se o arrefecimento de ânimo, o rareamento das manifestações de simpatia; a chegada da rotina, enfim, acabou com o seu encanto e tornou-a “normal”; além do que, por falta de carinho, cuidados e incentivos, seu aspecto físico compreensivelmente decaiu a olhos vistos, enquanto outras beldades, turbinadas por energéticos e vitaminas que a ela passaram a ser negadas, apareceram ao longo do caminho, tomando-lhe o lugar e adeptos, deixando-a no ostracismo e na saudade.
Os que deveriam zelar e dela cuidar, simplesmente a abandonaram criminosamente, deixando-a por muito tempo ao relento, exposta ao sol, chuvas e trovoadas, enquanto seu habitat natural foi indiscriminadamente invadido e ocupado por companhias nada recomendáveis, sufocando-a sem dó nem piedade.
Hoje, sua imagem é de dá pena e dó e dela até temos vergonha: isolada, acanhada, decadente, sitiada, decrépita, evitada pelos antigos admiradores e também pelas novas gerações, abandonada pelo poder público, ela é o retrato mais que preciso, emblemático e pujante daquilo em que transformaram o Crato ao longo desses 40 anos: uma cidade semifantasma, sem perspectivas, sem futuro, sem nada, e a reboque de migalhas governamentais.

Quem te viu e quem te vê, Rodoviária do Crato !!!

"Ovigopólio" (Luis Fernando Veríssimo)

O DELEGADO E O LADRÃO - O ladrão foi flagrado roubando galinhas de um galinheiro e o levaram para a delegacia, onde se deu o seguinte papo com o Delegado:

Delegado - Que vida mansa, heim, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai ficar enjaulado!  
Ladrão - Não era para mim não. Era para vender.
Delegado - Pior, venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!  
Ladrão - Mas eu vendia mais caro.
Delegado - Mais caro? 
Ladrão – É, espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
Delegado - Mas eram as mesmas galinhas, seu safado. 
Ladrão - Os ovos das minhas eu pintava.
Delegado - Que grande pilantra. Ainda bem que tu foi preso. Se o dono do galinheiro te pega... 
Ladrão - Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um “ovigopólio”.
Delegado - E o que você faz com o lucro do seu negócio? 
Ladrão - Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros do supremo... Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação escolar do governo e superfaturo os preços.

Nisso, deu-se a guinada: intrigado, o delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada e tal e depois perguntou:

Delegado – “Doutor”, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
Ladrão - Trilionário, doutor, trilionário.. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
Delegado - E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas? 
Ladrão - Às vezes. Sabe como é.
Delegado - Não sei não, excelência, me explique. 
Ladrão - É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. É uma experiência nova.
Delegado - O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.  
Ladrão - Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
Delegado - Sim. Mas o “Doutor” é réu primário. E com esses antecedentes...


Luis Fernando Veríssimo.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O CÉU ESTRELADO DO MEU AVÔ - por Stela Siebra




Era uma vez um avô poeta que louvava a Deus louvando a sacralidade da natureza. Era um avô sábio e simples, brincalhão e contemplativo.
Antigamente, não muito antigamente, a energia elétrica não havia chegado aos sertões do nordeste brasileiro, o que fazia com que as noites fossem escuras como breu nas fases de lua minguante e nova. Mas o manto estrelado do céu era um convite à contemplação do infinito, à leitura do mistério das constelações distantes, à viagem interior em busca do brilho divino dentro de nós.
A noite, seja clara de lua cheia, seja clara de estrelas, é tempo e espaço propício aos astrólogos, aos poetas, aos buscadores da Beleza Infinita de Deus.
Stela Siebra

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O homem que "presenteia" livros - José Nilton Mariano Saraiva

Dentre as muitas variáveis que caracterizam o pleno exercício da cidadania, o acesso à leitura deveria constituir-se peça necessária, primordial, absolutamente imprescindível. E, na contemporaneidade, quando a competição por um lugar ao sol é das mais acirradas, evidente que a falta de leitura impossibilita o acesso de muitos a um outro mundo, obsta-o de ter uma visão mais abrangente da realidade, escraviza-o à criminosa permanência na longa noite da escuridão da ignorância.
Não há, pois, atitude mais nobre e digna do que possibilitar aos que não têm condição, a perspectiva de descortinar um novo horizonte, de abrir novas portas, de agregar valores outros. E isso é feito primordialmente através da leitura.

Assim, é motivo de tremenda satisfação saber que um “matuto” de Farias Brito, que morou no Crato, viveu no Rio de Janeiro e estabeleceu-se profissionalmente em Brasília, resolveu por conta própria ser uma espécie de “multiplicador” da cultura, inusual “farol” de um porto seguro.

É que, ao galgar o conceituado posto de produtor gráfico na Universidade de Brasília, entendeu ser chegada a hora de disseminar bibliotecas e distribuir livros pelo Brasil afora, doar-se de corpo e alma aos menos favorecidos, possibilitar-lhes o acesso à cidadania através do saber, do conhecimento. E tudo isso, anonimamente, sem propaganda, sem fazer barulho nenhum, sem contar com qualquer verba de quem quer que seja. Trabalho de formiguinha: solitário, persistente, incansável, sofrido, mas... gratificante.

Certamente que apegado e imbuído àquela filosofia de “fazer o bem sem olhar a quem”, adotou o revolucionário e estimulante lema de que “o livro precisa ir onde o leitor está”, daí já ter distribuído livros para mais de 200 bibliotecas nordestinas (dentre as quais cerca de 50 do seu querido Ceará), perfazendo um total de mais de um milhão de livros doados. Que outros sejam estimulados a seguir seu exemplo.


O nome da “fera” ??? Elmano Rodrigues Pinheiro. O homem que “presenteia” livros. E que em função de tão dignificante missão, merece o reconhecimento e aplausos de todos nós. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

"Blá-blá-blá" - José Nilton Mariano Saraiva

2014 nem começou e já se propagandeia que agora, em meados de janeiro, realizar-se-á em Juazeiro do Norte mais um daqueles seminários suntuosos, improdutivos e desnecessários sobre Cícero Romão Batista. Nenhuma novidade à vista, porquanto a “ruma” de autoridades que se fará presente virá com o mesmo blá-blá-blá de sempre, a recorrente lengalenga em uso há décadas, os desgastados sofismas de antanho e, enfim, a mesmíssima caduca pauta que já se conhece de cor e salteado. (parece existir o temor de incluir questionamentos pertinentes, mas que incomodam, porquanto capazes de “arranhar o mito” e levantar dúvidas sobre o seu modus operandi). Assim, tudo indica que só o “cachê” dos tais “experts” é que será mais salgado, daí a dúvida: quem responderá pelo pagamento, sem dúvida vultoso, além da locomoção e estadia das mais de uma centena de pessoas que se farão presentes ???

Agora, de estranhar mesmo, é que à frente de tal encontro tenhamos alguém que na atualidade se encontra respondendo a processo na justiça (o Bispo Diocesano dom Fernando Panico) que, inclusive, já passou pelo singular constrangimento de comparecer a uma delegacia de policia (no Crato) a fim de prestar esclarecimentos sobre a venda subfaturada de imóveis da Diocese, de par com o inusitado e estranho recebimento de aluguéis desses mesmos imóveis (afinal, como alguém que adquire um imóvel se sujeita a pagar ad eternum, aluguel do mesmo, a não ser que o tenha adquirido por um preço irreal ???).


Assim, a fim de afastar de vez a sombra das consistentes suspeitas que sobre si se abatem, será que a atitude mais prudente e correta não seria o próprio Bispo Diocesano tomar a iniciativa de (humildemente), se licenciar do trono (mesmo que temporariamente), voltando a posteriori, nos braços do povo, se inocentado após o julgamento. Ou, intimamente, existiria algum temor, na própria cúpula da Diocese, da sua não absolvição ???

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O umbigo de Teodolino




J. Flávio Vieira

                                               A família tivera lá seus anos de glória. O avô chegara a Matozinho tangido pela seca medonha de 1915, temendo morrer não de fome , que era já um luxo, mas de sede. Empregou-se num pequeno Armarinho e lá mesmo dormia, num quartinho nos fundos. Pasqualino  Caicó carregava um talento inato de vendedor, tinha boa conversa, artes de sedução e rápido cresceu no comércio, terminando por montar sua própria lojinha : “A Mão na Roda” . E foi com ela que, pouco a pouco, solidificou  um verdadeiro império naquelas brenhas. As lojas se diversificaram e multiplicaram ;  nos anos 50, Pasqualino inaugurou o primeiro Posto de Gasolina da vila e , ainda, enveredou pelo ramo dos imóveis, da pecuária comprando fazendas casas e se tornando uma das maiores fortunas da região. Havia filiais de “A Mão na Roda” em quase todos os municípios importantes do estado. Pasqualino carregava consigo inúmeras qualidades :  mesmo com todo o império firmando, mantinha-se simples, de vida regrada e monástica , nunca se mudou de Matozinho e trabalhava como um mouro. Não se sabia, também, de papel feio dele no comércio, era duro e sagaz nas negociações, mas trato firmado  , palavra empenhada, escrevia-se no mármore: não era homem de quiriquiqui, nem  duas conversas.
                                   Casara-se Pasqualino com D. Mimosa, senhora também de origem humilde, econômica, digna e dinâmica. Os filhos foram se sucedendo, como acidentes de trabalho da única diversão de pobre naqueles confins do Judas. Vieram ao mundo  dezenove, sobreviveram,  ao duro corredor polonês  das incontáveis moléstias infantis, dez. Os meninos  criaram-se sobre a rigidez   sistemática dos pais. Nada de regalias extremas , nem facilidades em demasia. Vieram ao mundo, no entanto, na fase mais áurea do casal e já partiram de um outro patamar social. Tinham diante de si um verdadeiro império , sem terem qualquer idéia do esforço desprendido na construção, do suor escorrido pelo corpo de Pasqualino e de Mimosa. Como sói acontecer, com a morte dos pais, o patrimônio viu-se fatiado em dez pedaços, além , claro, das fatias dos advogados que terminam também herdeiros nessas querelas. Findo o inventário, a história parece de todo previsível. Rapidamente o vasto patrimônio  arduamente construído por Pasqualino e Mimosa dissolveu-se como picolé em calçada quente.  A mor parte dos filhos fez apenas o caminho de volta que o pai um dia havia trilhado. Apenas um dos rebentos , Florisvaldo, pareceu ter herdado as artes de Pasqualino  e permaneceu mais remediado, mantendo ainda parte da riqueza:  lojas e fazendas.
                        Vê-se , assim, que a família, tivera lá seus dias de glória e mantinha ainda alguma empáfia, a certeza última : quem havia reinado devia manter lá alguma majestade, mesmo depois da queda da dinastia  caicoense. E aqui estamos nós, justamente nos dias que se sucederam à morte da viúva de Florisvaldo : D. Soledônia. Ela havia sido uma das mulheres mais elegantes do estado e ficara conhecida pelas jóias , pelos colares de pérolas e pelos diamantes que costumava usar nas festas mais solenes.  Os quatro filhos reunidos , todos netos de Pasqualino, já brigavam ,como urubu em carniça,  pelo resto do espólio que restara dos pais. Havia pouco a dividir: a casa, uma fazendola e a última loja “Mão na Roda” de Bertioga, últimos bens que restaram do incrível reino que Pasqualino um dia erguera com mão de ferro.  Imaginavam todos os matozenses que a partilha de bens seria dificílima. Primeiro, mesmo já quase nada mais restando, na cabeça dos filhos, eles ainda eram riquíssimos como nos velhos tempos do avô. Depois, a geração atual pouco tinha a ver com a lisura e a honestidade do avô. Eram quase todos desmantelados como rastro de carroça , principalmente  o primogênito : Teodolino. O homem era velhaco : não pagava a gente viva nem a morta ou reencarnada. Viva de rolos e de mutretas e havia sido ele um dos maiores responsáveis pela dilapidação do patrimônio do pai Florisvaldo, metendo-o como sócio numa indústria de granito que terminou , após um investimento vultoso, dando com os burros na água. Previa-se, assim, uma briga colossal pela posse da pouca carniça que restara para tantos abutres como comensais.
                        Aberta a reunião, já com a presença de um advogado como mediador, por incrível que possa parecer, as coisas pareceram caminhar para um bom termo. Teodolino, com os olhos merejando, voz embargada, visivelmente emocionado, fez uma declaração absolutamente inusitada :
                        --- Minha vida se acabou ! Não consigo viver um minuto sem pensar na minha mãezinha ! Assim, abro mão de tudo, meus irmãos ! Quero apenas o cofre velho dela. Quero guardar como lembrança última  : seus documentos, seus escritos, sua bíblia, suas lembranças mais queridas que sei ela guardou lá dentro !
                        Os manos acharam estranho aquele desprendimento súbito de Teodolino. Mas , vendo-o derramar-se no pranto, concordaram. Rápido, os outros três irmãos chegaram a um consenso na divisão : um fica com a loja, outro com a fazenda e o derradeiro com a casa. O advogado jamais imaginou que ganharia o salário tão facilmente. Lavrou o documento, todos assinaram e o juiz , aliviado, no mesmo dia, deu provimento ao embargo. Na manhã seguinte, chamaram um especialista em  cofre para  abri-lo, já que não mais existia chave e ninguém lembrava do segredo. Teodolino fez questão, com ar vencedor, de convidar os irmãos para a abertura oficial . Já não derramava lágrimas, os olhos brilhavam como holofotes,  imantados pela energia mais potente que se conhece: a  ambição.  Esperava, com a ânsia de um pirata,  ver sair lá de dentro as jóias fabulosas de Soledônia: anéis de diamantes, colar de pérolas, braceletes de ouro.
                        O especialista , usando uma gazua, encostou o ouvido na porta do cofre e, meticulosamente, rodopiou  o botão da combinação, anotando a sequência correta ( dois para a esquerda, três para direita, sete para a esquerda). Depois , refez toda a sequência e, por fim,  destravou-o, num clique seco. Teodolino partiu correndo e de lá retirou o tesouro deixado por Soledônia:  um buquê de rosas secas do seu casamento, um par de chinelas currulepes do velho Pasqualino e o umbigo de Teodolino que se  houvessem  enterrado no pé do mourão do curral não teria dado aquele azar danado a ele.

Não quero pressa...


Quero

As noites de sonhos
Acordar com cheiro de café
O  telefone mudo
A TV desligada do mundo

Tempo lato pra lembrar
de quem está do outro lado da vida
Ou do outro lado da serra

A  mansidão de quem não tem pressa
(pra viver.cozinhar,comer,morrer..)
A suavidade pra amar indistintamente
Com todas as dores e alegrias compreendidas

Quero todo mundo feliz, e eternamente crescentes...

QUERO NUNCA ESQUECER QUEM EU AMO

SOCORRO MOREIRA


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Nosso Sonho Americano - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Há cerca de quinze anos, quando a Coelce, onde eu trabalhava, estava sendo preparada para privatização, ficou decidido entre uma infinidade de providências, que seus engenheiros deveriam aprender a falar inglês, para melhor se comunicarem com os futuros patrões. Então, no próprio local de trabalho, uma hora antes do expediente, passamos a ter aulas de inglês três vezes por semana. Qual não foi a minha surpresa ao verificar que muitas palavras do  idioma de  Shakespeare  já eram usualmente faladas em nosso país! Provavelmente devido a utilização dos micro-computadores, uma novidade que surgia naquela época, com seus "e-mails," "facebook", "home pages," "delete" ou talvez por influência da televisão ou quem sabe, para demonstração de "bom gosto" ou elitismo das pessoas ditas mais educadas. No meu entender, isso revela mesmo nosso subdesenvolvimento sócio-cultural.

Uma volta a esses luxuosos centros de compras, aliás "shopping centers" como costumamos chamar, faz com que nos sintamos no exterior, com a vantagem de fácil acesso e não ser preciso tirar passaporte. Palavras como "sale, light, square, delivery, site" e tantas e tantas outras são usualmente faladas em nosso país. Já pensaram nos famosos "queimas" da velha Casa Abrahão sendo anunciados como "sale"?  Remédios sendo comprados na "Central Drugstore" do seu Zuza da Botica? Nossas compras semanais na Cantina do Oliveira sendo  processadas por "delivery"? Ou o que responderia o velho Bantim ao pedirmos um "lunch light" em sua sorveteria?

Pois não é que aquele curso de inglês me fez regressar a 1964?  Lembrei-me de que na minha primeira semana de aulas no então primeiro cientifico de um colégio de Salvador, ao atender uma solicitação do professor de português para uma redação sobre o orgulho de ser brasileiro, uma aluna ruiva, de rosto escondido por pesados óculos de grau sustentados pelos seus cabelos cor de fogo, escreveu que não tinha nenhum orgulho de ser brasileira, pois gostaria de ser norte-americana. O professor elogiou aquela redação e a leu para toda turma, ressaltando a coragem dessa aluna e, o estilo de escrita corretíssimo, embora não concordasse com suas idéias, não poderia se negar de lhe atribuir nota dez. Anos depois, eu soube que aquela aluna morrera tragada pelas ondas do mar na praia de Piatã, sem realizar o sonho de ir morar nos "States", onde provavelmente iria sentir orgulho de ser brasileira.

Penso que para falarmos o inglês definitivamente, falta pouquíssima coisa. Que dizer quando as pessoas mais simples desconhecem uma palavra do português? Pois nós tivemos uma prova disso no final de 2011. Estávamos em Natal, no vizinho estado do Rio Grande do Norte, quando visitamos o mais novo "shopping center" daquela cidade. Numa sorveteria, toda turma que nos acompanhava resolveu pedir sorvetes, pois fazia muito calor. Havia ali a mais variada espécie de sabores. Então eu indaguei ao sorveteiro se havia algum tipo de sorvete dietético:
- Não! - Respondeu ele secamente.
 Magali que chegara ao balcão alguns segundinhos depois perguntou:
- Você tem sorvete "diet"? (Pronuncia-se: "daite"). 
- Temos sim! - Respondeu ele.
Olhei para cara dele e não me contive. Perguntei ríspidamente:
- Você é americano? É?

Estava ali a maior prova de que o inconsciente coletivo do brasileiro tem esse sonho! Sermos todos nós norte-americanos, como aquela ex-colega baiana, para maior desgosto dos nossos avós portugueses que, graças a nós brasileiros  transformamos o idioma de Camões na quinta língua mais falada do mundo.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Nota: Eis a relação das dez línguas mais faladas no mundo por números de pessoas nativas: 1° Mandarim (China) 2° Hindi (Índia); 3° Espanhol; 4° Inglês; 5° Português; (Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Guiné Equatorial, São Tomé e Principie, Goa, Timor Leste, e Macau.) 6° Árabe; 7° Bengali, 8° Russo; 9° Japonês, 10°  Francês. 
 
Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Amar acima de tudo revoluciona o todo - José do Vale Pinheiro Feitosa

Seguindo a ideia de uma outra utopia frente ao atual sistema capitalista. Toda utopia é a construção do futuro e quando aplicada à realidade vai enfrentar as contradições. Como dizia o filósofo Alemão Ernest Bloch: viver o futuro no presente. Nem sempre realizáveis, as utopias ao menos se prestam para que seus cultores sintam a renúncia dos seus motivos nobres. É muito comum entre os cristão a renúncia ao amor fraterno, pelo menos na prática, em razão de sociedades desiguais que aceitam a servidão humana.

Agora mesmo o Papa Francisco tem dito coisas que ferem mortalmente o atual sistema de lucros e transações sob base do interesse compensatório. O modelo você sabe, vale pelo que em negócio me proporciona. Estendido, por exemplo, com as indulgências pagas, com o dízimo e a tabela dos preços dos sacramentos.

Nem preciso falar em figuras abjetas que pregam milagres com a mão, enquanto na outra sustenta o saco que recepciona o lucro do milagre. Falo de coisas do tipo de quem chega para “encomendar” o corpo de um rico e se engana ao se aproximar do corpo de uma família pobre. Quanta decepção pelo engano, interrompe o ritual antes da metade e vai em busca da família que o encomendou.

E eis que o Papa Francisco anda a pregar o amor gratuito de Deus por nós. Retorne à palavra gratuito, que não requer pagamento. Não depende da transação. E se conclui que a pessoa que é muito amada é levada, naturalmente, a amar muito. Quem é amado de modo gratuito, sem ter que dar nada em troca, ama sobretudo a todos.


Algo mais revolucionário em relação a este mundo baseado no sucesso, no acúmulo de bens materiais e em levar vantagens nas transações com o outro? Isso é de uma radicalidade que põe por terra todos os alicerces em que a própria Igreja foi construída e se sustenta.