por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Poleiro de Pato




J. Flávio Vieira

                                               Existe coisa , neste mundo, mais suja que folha corrida de político ? Só poleiro de pato ou cara de guri comendo chocolate. Imaginem, vocês, isso numa cidade como Matozinho , perdida no meio das brenhas, onde a única tênue ligação com o resto do planeta se fazia pelo fio telégrafo ? Ali político casava e batizava, totalmente imune ao Tribunal de Contas e à Responsabilidade Fiscal. Ajudava na blindagem uma razão óbvia: a Prefeitura era a grande empregadora da Vila : substituía o comércio pífio e as indústrias inexistentes. Matozinho , como na Divina Comédia, tinha seu céu( os correligionários do prefeito), seu purgatório ( os indecisos)   e  o inferno ( a oposição). Havia uma só arma de grosso calibre que furava a impenetrável blindagem política : a corrosiva língua do povaréu. Aquela sempre se consumara como a defesa única dos oprimidos e espoliados: a fofoca, a intriga, o disse-me-disse, o penicado eterno de oratórios. A maior parte das vezes, claro, as histórias eram verídicas , os escândalos reais, apenas acrescidos de um pouco de Fermento Royal nas praças e nas rodinhas de esquina. Em caso, no entanto, do jornalismo não ajudar, a ficção sacava-se  prontamente como recurso necessário e imprescindível e a cada conto se ia, claro, acrescentando um ponto, até que toda a trama estivesse urdida.  As fofocas eram sempre sussurradas  nos becos e bancos: Andaram me contando... Dizem as más línguas... Vendo o peixe pelo preço que comprei... Esta história tem que ficar aqui, é segredo , se disserem que eu disse eu nego mais que Pedro na Santa Ceia...Quem lá tinha coragem de enfrentar de peito a máquina forrageira da prefeitura ?
                                   As regras , no entanto, mudaram naquele dia em Matozinho, devido , se acha, a alguns fatores depois devidamente arrolados. Jojó Fubuia assistira no Rádio Cliper velho do Bar de Godô ao destempero  de um tal de Joaquim Barbosa que saíra , como um soldado de volante , na captura  dos cangaceiros do Mensalão. O homem cuspia fogo pelas narinas como dragão e aquilo impressionou Jojó que sempre teve nariz meio virado para direiteza demais, honestidade excessiva. O certo é que,  depois de umas meropéias, saiu ataiando frango do bar e investiu-se, imediatamente, de virulência judicial , de  super-poderes barbosianos. Na calçada,  já debulhou, com alarido,  todo o feijão com casca do prefeito Sinderval Bandeira:
                                   --- Sinderval, ladrão de galinha ! Devolve o dinheiro do povo que tu anda tomando emprestado, seu miserável ! Pensa que o cofre da prefeitura é teu bolso, é ? Vai pastorar tua mulher , pra ver se diminui teus chifres, seu infeliz ! Tu é como galo, desgraçado, tem chifre até nos pés !
                                   Enquanto, perigosamente, sem nenhum cuidado,  atirava no ventilador o que o povo de Matozinho comentava por debaixo dos panos, Jojó foi cambaleando em procura da Praça da Matriz. Sinderval, àquelas horas, já estava usufruindo aquele sono mais profundo do que o dos justos: o sono dos impunes. Num dos bancos da praça, no entanto, estava esparramado , com alguns amigos, o velho Pedro Cangati, um dos mais antigos chefes políticos da vila, agora na oposição, após a ascensão de Sinderval. O passado de Cangati não tinha sido menos devassado pelo povo que o do atual prefeito. Diziam-no larápio convicto, respondera processo por estupro de uma adolescente que emprenhara dele e, comentava-se , com cuidados mais que redobrados :  depois de velho começara a vazar corrente e deu para andar com rapazinhos  a quem presenteava  com tênis e bicicletas.
                                   O certo é que Jojó, no meio da sua imprecação contra Sinderval, topou num indigesto vis-à-vis com o ex-prefeito Cangati, aboletado no seu banco. Pedro preparou-se para a reação pronta e imediata, caqueando o vazio, em busca da jardineira de doze polegadas. Fubuia fitou-o com aqueles olhos de bêbado --melosos a meio pau-- ,  e, não perdeu a pose. Arrancou, embasado nos argumentos do Domínio do Fato e da Presunção de Inocência, os únicos elogiosos possíveis de se fazer a um político no Brasil:
                                   --- Sinderval, seu safado ! Você devia era se espelhar no exemplo do grande  Pedro Cangati ! Ele pelo menos é um ladrão honesto, um baiotola macho, um estuprador donzelo !

Crato, 13/12/13

"Gratificação" - José Nilton Mariano Saraiva

Todo mundo sabe que o atual prefeito de Fortaleza não passa de um fantoche da família Ferreira Gomes. Que ganhou a eleição em razão do jogo bruto e pesado do atual Governador do Estado, Cid Gomes, que gastou uma fortuna para viabilizá-lo no cargo. Então, agora tá tudo dominado, capital e interior.

Claro que isso teria que ter um preço mais à frente. E está sendo pago desde o dia em que o “afilhado” assumiu o trono da capital cearense. Agora mesmo, por exemplo, tomamos conhecimento que nesses onze meses de gestão os cargos comissionados da prefeitura de Fortaleza saltaram de 3.618 para 4.600; e que nesse mesmo período houve um aumento de 49 para 669 (ou 1.365%) do quantitativo daqueles que recebem da prefeitura gratificação extra mensal de até R$ 5.000,00 (atentem bem para o detalhe: R$ 5.000,00 é só a “GRATIFICAÇÃO” de cada um dos servidores municipais).


Enquanto isso, nesse mesmo período a taxa de homicídios em Fortaleza experimentou um avassalador crescimento geométrico, o povo pobre pena nas portas dos hospitais sem ter quem lhe dê guarida, enquanto os professores da rede municipal vivem em permanente estado de penúria e sofreguidão. 

A pergunta é: em termos de "custo-benefício", esses R$ 5.000,00 de gratificação pagos a um exército de servidores que nada fazem, não seriam melhor empregados se direcionados a uma das carentes áreas acima citadas.  

Tudo foi ilusão


Composição: Laert Santos/Arcilino Tavares


O sol que outrora brilhou em minha vida
Apagou-se, perdeu a luz, não brilha mais
Minha vida é uma noite sem lua e sem estrelas
Os meus sonhos foram somente sonhos e nada mais
E hoje cansado de tudo sigo os meus passos
Na esperança de um dia mais tarde te encontrar
E apertar-te amor em meus braços num abraço
E ver contigo o novo sol brilhar
Como as nuvens que passam vagando perdidas no espaço
Como a gota de orvalho caída perdida no chão
Eu também me perdi vou vagando passo a passo
Na esperança de um dia encontrar uma nova ilusão
E hoje cansado de tudo sigo os meus passos
Na esperança de um dia mais tarde te encontrar
E apertar-te amor em meus braços num abraço
E ver contigo o novo sol brilhar

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

"Fator de verticalização" - José Nilton Mariano Saraiva

A novidade em Fortaleza é que a Prefeitura já anunciou: a partir de janeiro/14 a planta do valor venal do imóvel será reajustada com índices variando entre 17,5% e 35,0%, dependendo da localização, tamanho e por aí vai. Feito o reajuste, aplicar-se-ão índices (de 0,6%, 0,8% e 1,5%) a fim de se calcular o valor do IPTU a ser pago pelo contribuinte.
  
Só que, como 2014 será um ano eleitoral, pra reforçar o “caixa” da prefeitura (e por tabela, o do Governo Estadual, seu aliado), os gênios do mal sacaram da cartola um tal “fator de verticalização” que tá dando o maior rebu e certamente irá provocar muitas demandas judiciais.

É que os técnicos do município já decretaram, compulsoriamente, partindo do pressuposto de que quem gosta de “trepar” (morar em andares superiores de um edifício qualquer) deve tem um maior poder aquisitivo, por via de conseqüência terá que ter seu IPTU bi-tributado, dependendo da altura (andar) em que mora.

Assim, progressivamente, a partir do segundo andar, a taxa de 35,0% será reforçada com mais 1.0%, por andar. Por exemplo: como moramos no 22º andar, vamos ter que pagar os 35,0% normais (aplicado sobre o valor do imóvel) + 21,0% referente ao “fator de verticalização”, totalizando 56,0%. Isso é ou não é bi-tributação ???

A coisa promete “feder” muito, só que os vereadores (“cordeirinhos”) aliados do prefeito e que lhe dão sustentação na Câmara Municipal, tendem a aprovar a proposta da prefeitura, independentemente na grita generalizada da população (em São Paulo, onde não existe o tal “fator de verticalização”, o simples reajuste do IPTU em 35.0% foi obstado pela Justiça).


Apelar pra quem ??? Pro pop-star papa “Chico” ???

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"MANDELA" - José Nilton Mariano Saraiva

Como os homens nascem livres e teoricamente iguais entre si, provavelmente não existirá castigo maior que repentinamente se vê privado do seu direito de ir e vir, da sua liberdade. Principalmente se tal pena advier ou lhe for imposta em razão exatamente da defesa intransigente de tal princípio: ter direito a ser tratado em igualdade de condições com o seu semelhante, sem qualquer espécie de distinção.
  
Pois foi justamente por sua tenaz luta em acabar com essa excrescência chamada “apartheid” (segregação das populações negra e branca) que o negro africano Nelson Mandela foi condenado à prisão perpétua, numa África onde então vigia exatamente o mais tenebroso dos preconceitos: a distinção de raças (viajar num mesmo ônibus não podiam, freqüentar os mesmos locais, algo impensável). Chegou, inclusive, a ser rotulado de “terrorista”, por professar sua crença de que pretos e brancos eram iguais e, pois, mereceriam o mesmo tratamento das autoridades constituídas.

Pois bem, depois de longos 27 anos atrás das grades (acusado de traição, sabotagem e conspiração contra o governo), durante os quais, do lado de fora, os ânimos chegaram ao clímax da insatisfação e da violência generalizada, eis que a pressão internacional sobre o governo africano redundou na liberação daquele que houvera lutado pelo anseio de toda uma nação: igualdade.

Em situações análogas, normalmente os que perderam parte da vida entre quatro paredes (sem nenhuma razão lógica), voltam dispostos a cobrar com juros e correção pelo injusto castigo sofrido, via exacerbação da luta contra os responsáveis pelo ato vil. E para isso, basta valer-se do carisma e da influência para insuflar as massas, pregar a desforra, exigir retratação, humilhar quem o houvera humilhado e por aí vai.

E foi justamente aí que Nelson Mandela se afirmou perante todo o mundo, ao mostrar sua face generosa, sua humildade, seu lado humano, sua porção estadista, ao pregar a conciliação, o diálogo, à convivência pacífica entre negros e brancos, objetivando uma causa maior: o bem estar e o progresso da nação.

Assim, liberto, reverenciado e idolatrado pelos conterrâneos, foi eleito Presidente da República da sua querida África e, após quatro anos no poder, embora tivesse uma tranqüila reeleição garantida, recusou-se a permanecer no cargo, numa mostra de que seu “projeto nação” era superior ao “projeto pessoal”. Sua contribuição houvera sido dada e um outro tocaria o barco dali pra frente.

Por decisão manifesta ainda em vida, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz (1993), o advogado e líder rebelde Nelson Rolihlahla Mandela, por se considerar apenas “mais um” na população, será sepultado não num panteão de “heróis”, não num cemitério reservado às “autoridades”, não num recanto paradisíaco qualquer, mas, sim, na humilde aldeia onde nasceu – vila ascestral de Qunu, em uma propriedade de sua família, no interior da sua querida África.


Querem exemplo maior de simplicidade, dignidade, desapego e humildade ???

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Sépia



                                



   Claro. Escuro. Claro-escuro. Claro.  A vida de Tatá da Lamprada clonava os dias , numa alternância regular e milimetrada de alvoradas e crepúsculos. Fora assim por mais de cinqüenta anos: um caçador de instantes, um capitão-do-mato de escorregadios e fugazes  momentos. É que a vida é tão fluida, tão volátil que tantas e tantas vezes nem fica nos céus o rastro brilhante da estrela cadente. Durava , na sua beleza, aquilo que se via : uma lamprada ! Tatá capturava nas chapas instantes únicos: “Meninos, eu vi!” . No princípio, havia hordas de outros caçadores nas praças da cidade, perambulando de rua em rua, prontos a flagrar rostos, risos, casamentos, aniversários. A fotografia era uma espécie de pirâmide  para o povo, ali plantavam, como os faraós, sua semente de imortalidade. Com os anos, os concorrentes começaram a rarear. Foram surgindo outras máquinas mais modernas, a fotografia passou a digital e, com o celular, a atividade de lambe-lambe tornou-se totalmente obsoleta. Mantinha, no entanto,  ainda um certo charme, despertava a curiosidade dos transeuntes como um fóssil. Adquiriu aquele ar de Cult e retrô do vinil . Mas só.
                                   Tatá foi se deixando ficar na atividade, primeiro porque estava velho para recomeçar com câmaras mais modernas, depois porque percebia que suas imagens , embora em preto-e-branco, eram muito mais bonitas e definidas que as da modernidade. E mais permanentes! As dos celulares , bastava um tombo para antecipar o fim inevitável. Também havia se afeiçoado à sua antiga e jurássica Bernardi. Ela envelhecera com ele. A ferrugem e a química já haviam corroído as bandejas de revelação, fixação e lavagem das fotografias, necessitara fazer alguns consertos como em qualquer ser vivo. As fotos, no entanto, saiam perfeitas e revelava-as numa pequena Câmara Escura que improvisara em casa. Todo dia, quando Tatá saía para a praça da matriz, com seu tripé cada vez mais incômodo, afixava as fotos reveladas , juntas com outras  mais antigas, nas laterais do caixote que servia de mostruário e de outdoor. Enquanto os clientes não passavam para receber as encomendas, elas iam ali servindo de publicidade.  O menino risonho montado no cavalinho; o casal de noivos apaixonados,  com olhos brilhando, sem nem ligar para a impermanência dos sentimentos;  o defunto esticado no caixão, com o olhar o vago de quem nada encontrou do outro lado do muro.
                                   Aos poucos, sem que Tatá da Lamprada percebesse, sua vida se foi resumindo a suas fotografias, estampadas na parede da sala, próximo aos santos da sua devoção, acima do oratório. A esposa embarcara para a eternidade há cinco anos, no bote de um aneurisma cerebral. Os filhos haviam partido para São Paulo, naquele destino de judeu nordestino, procurando uma terra que nunca lhes havia sido prometida. Nem davam notícia! A casa se foi povoando de fotografias: as novas  , recém reveladas, esperando a entrega e as da sala  puxadas para sépia pela ação inexorável dos anos. A sua existência , foi se resumindo, pouco a pouco,  num daguerreótipo  : a pose; a cabeça enfiada no pano preto; as mãos metidas ,envoltas também em tecido negro, manipulando a chapa, na dianteira do caixote;o fixador;o revelador; a lavagem; a secagem...
                                   Tatá já nem lembra bem, mas teria sido num fim de inverno, com um céu nublado, desses que não só sombreiam a cidade, mas também nossa alma.  Um rapaz alto procurou-o e pediu para ser fotografado. Disse que ia fazer uma viagem e carecia de  um retrato. Era uma figura diferente que não parecia ser da cidade: vestia um paletó de linho branco, usava óculos escuros e  um chapéu panamá. O rapaz fez pose pedante, de pé, com a mão direita recostada num velho banco da praça. Pediu uma foto única, maior , 18X24 , pagou antecipado e combinou para vir pegar ali mesmo, uma semana depois.
                                   “ Da Lamprada”  nunca fez uma clara relação de causa e efeito, mas o certo é que, a partir daí, coisas inusitadas aconteceram. As fotos da parede da sala começaram, a partir daquele dia, a se tornar cada dia mais nítidas e brilhantes. A esposa, os pais , os filhos , os tios a cada dia iam se tornando mais vívidos nas fotos. Havia apenas, uma exceção, a foto de Tatá , sozinho, na praça, em pleno exercício da função, paulatinamente foi-se esmaecendo. Estranhamente, também, as fotos recentes que Tatá ia revelando, posicionadas depois no mostruário do lambe-lambe, começaram a desbotar rápido, a perder as definições,  o que fazia com que aumentasse a ansiedade do fotógrafo que temia, em não as entregando rápido, desaparecessem as imagens reveladas. Teve, ainda, enormes dificuldades em revelar a foto do rapaz do chapéu de panamá. Simplesmente a imagem não se aparecia . O rapaz, também, não passou, para seu alívio, para pegar a foto no dia combinado. Pensou Tatá que a culpa fosse dos reagentes da revelação, mas,  mesmo trocando-os, os problemas continuaram.
                                   Alguns dias depois, como por encanto, a foto do rapaz finalmente se revelou. Ali estava nítida e reluzente em cima da mesa da sala de jantar. E , dia após dia, se foi tornando colorida, na mesma proporção que a sépia de Tatá da Lamprada desvanecia-se na parede da sala, até se desminlinguir totalmente,  sob a ação implacável de outro  lambe-lambe : o do tempo. 

06/12/13

Por João Marni Figueiredo



Querida Fátima


Sabemos ser impossível conhecermos ou controlarmos precisamente as circunstâncias de nossas vidas, devido à intromissão do acaso. Não temos como evitar certas forças inesperadas e imprevisíveis, responsáveis pelo trajeto de cada um de nós neste mundo. Mas somos convidados a crer que ainda assim, até mesmo esse movimento desmastreado prossegue em alguma direção.
 Lembra-se? Foi num período de carnaval. Você tinha 15 anos e eu 19,Estudantes.Uma receita que tinha tudo para estragar o bolo, mas que surpreendentemente deu certo. Levamos a vida ou a vida tem nos levado. Aqui estamos nós com 40 anos de união e uma família que nos enche de orgulho. Você- rio imenso-veio vindo e levou minhas águas turvas e poucas e, desde então, temos percorrido o acidentado leito do nosso destino ora mansamente, ora aos borbotões, buscando o futuro na entrega e na transformação das nossas águas, quando do acolhimento de Deus, nosso Grande Oceano!
Até lá é bom dizer que te amo e que o seu amor faz-me muito bem. Sei que contribuí e ainda contribuo no descolorir dos seus cabelos, mas sei também que posso contar sempre com a sua indulgência. Sou um homem de sorte, pois não é comum uma mulher impedir que as dificuldades, incluindo as advindas da pobreza, se imiscuam na vida do casal. Adoro sardinhas ainda hoje!
Querida, agradeçamos a Deus por tudo, e seja bem-vinda à idade tão sonhada por todos, principalmente pelos que que não conseguiram alcança-la por algum infortúnio. Somos parte agora de uma minoria escolhida talvez para que nos tornemos melhores, para o bem de todos.
Uma última chance divina, acho. Hoje somos mais reflexivos e contemplativos: brigamos só pelo edredom!
Mais adiante, melhor eu primeiro: se fico, como alguém já disse, terei perdido a escora da minha vida...
Parabéns; te amo, e vida longa!

(“GOOD SAVE MY QUEEN”!)

Crato, 29 de novembro de 2013

João Marni


* Sexta-feira passada estivemos  participando de uma reunião em comemoração aos 60 anos de Fátima Figueiredo.Amiga querida, mereceu todas as graças do céu, e esta homenagem especial de um marido agradecido , reconhecido e amoroso.
Desejamos-lhe  vida longa e feliz, Fátima!
 

Quem tem Mandela no Coração - José do Vale Pinheiro Feitosa

Paravanda Nelson Mandela. É o nome científico de uma orquídea que existe em Singapura. A protéia, que é a flor nacional da África do Sul, tem uma variedade de cor vermelha que leva o nome de Madiba. Astralopicus nelsonmandelai é o nome que se deu ao fóssil do mais antigo pica-pau da África do Sul. A Singafrotypa Mandela é o nome científico de uma aranha que vive em Cape Town. A “partícula mandela” é uma partícula nuclear descoberta pelo Instituto de Física da Inglaterra que homenageou Nelson Mandela que compõe as homenagens do dia de hoje. 

Guardemos a data, dia 5 de dezembro de 2013, e quem tem Mandela no coração não pode ter Margareth Thatcher no mesmo compartimento. Esta líder conservadora inglesa se opôs a missões de caráter humanitário durante os anos mais sangrentos do regime do Apartheid. Assessor de Thatcher, logo que Mandela teve direito de se pronunciar, atacou o líder africano dizendo que o sofrimento não havia lhe ensinado nada. Mas também não pode ter Ronald Reagan e nem Jacques Chirac ex-premier francês que deu sobrevida ao regime segregacionista.

Quem tem Mandela no coração e o homenageia hoje não pode deixar de esquecer que a organização fundada e dirigida por Mandela, o CNA se encontrava na lista das organizações terroristas ditadas pelos EUA e pelo Reino Unido. Estes não podem confundir a alma da luta de Mandela em vida e agora na morte.

Quem tem a sinceridade do significado de Mandela, aquele que soube perdoar, que deu liberdade ao seu povo não pode acreditar na seiva corrompida pelas letras e palavras do jornalismo do Sistema Globo, da Abril e da Folha de São Paulo que sempre estiveram na trincheira ideológica que guardava a chave do cubículo 2 x 2,5 em que Mandela viveu 27 anos de sua vida.  

Mandela não é a saudade de uma pessoa. Mandela é como a orquídea que recebeu o seu nome. Mandela é a expressão de que no campo todas as flores devem viver. Que todas as flores têm a mesma importância independente da natureza dos carpelos, dos estames, das sépalas ou das pétalas. A Mandela se diz povo e quem diz povo, pronunciando Mandela, se levanta contra a opressão e a exploração das gentes por ricos e poderosos.

A partir de Mandela pode-se até repetir o Sermão da Montanha: “Olhai os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham e nem fiam; e digo-vos que nem ainda Salomão, em toda a sua glória, se vestiu com um deles.”


Mandela! A orquídea da liberdade.   

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Não sei se vocês tomaram conhecimento dessa breve, mas contundente polêmica: os organizadores do sorteio da copa teriam desconvidado a atriz Camila Pitanga por ser negra e convidado em seu lugar a apresentadora Fernanda Lima. Isso gerou uma série de protestos o que levou a uma colunista a entrevistar a apresentadora. Que se diga de passagem é uma profissional e aceitou o convite nesse ambiente que é de concorrência. a Fernanda, na entrevista, argumentou em defesa dela de um modo meio maroto e aí que li esta postagem que considero uma das mais claras sobre o assunto do racismo neste limiar entre a sua prática, a liberdade de escolha dos produtores e o profissionalismo. Não costumo postar textos de outros mais esse vale a pena. 

Sobre impostos, racismo e um conselho de minha avó (comentário à entrevista de Fernanda Lima)
Publicado em 29/11/2013 em seu blog Recordar, Repetir e Elaborar
Como a essa altura todo mundo já sabe, a FIFA escolheu a apresentadora branca Fernanda Lima para ser mestre de cerimônias de um evento, no lugar da atriz negra Camila Pitanga. Essa escolha, que gerou acusações de racismo à entidade, foi tema de uma entrevista dada por Fernanda hoje.

Nela, a apresentadora disse não ter nada a ver com isso e procurou distanciar-se da polêmica sobre racismo dizendo coisas como “só porque eu sou branquinha?” e “pago meus impostos”.
Esta não é uma discussão sobre impostos nem muito menos sobre a situação fiscal de Fernanda Lima: é uma discussão sobre racismo. Mas, já que ela tocou no assunto “impostos”, eu gostaria de fazer um breve desvio de rota antes de passar ao que realmente interessa.
Não sei como é em outros países, mas para mim está claro que nós brasileiros temos muito o que aprender sobre impostos, o que eles representam e significam. Em primeiro lugar, precisamos aprender que “pagar impostos” não equivale a rezar um Pai Nosso e duas Ave Marias: não isenta de todo pecado e não livra de todo mal. Para a obtenção de benefícios espirituais, existe o pagamento do dízimo. Imposto é outra coisa.
Precisamos aprender também que pagar impostos não faz de ninguém uma pessoa moralmente imaculada. Pagar impostos é uma obrigação da vida em sociedade. Não é algo para se ter orgulho. Ao pagar seus impostos, você simplesmente não está cometendo o crime de sonegação fiscal – assim como, ao não matar ninguém, você apenas não está cometendo o crime de homicídio. Ninguém sai por aí batendo no peito e dizendo “nunca matei ninguém, hein!”, como se isso merecesse algum parabéns. Em compensação, estufamos o peito para dizer “pago meus impostos”, como se a não-sonegação de impostos fosse indicativa de força de caráter ou de uma alma superior.
Por fim, precisamos aprender que “pago meus impostos” não é argumento para nada. Vale lembrar que Descartes não disse “pago meus impostos, logo existo” nem Hamlet afirmou que “pagar ou não impostos, eis a questão”.  Podemos estabelecer como regra o seguinte: o pagamento ou não-pagamento de impostos não se coloca como argumento em discussões nas quais nosso contador não está interessado. O pagamento de impostos, afinal, é não apenas uma obrigação como também um fato banal e corriqueiro da vida, assim como lavar a louça e escovar os dentes. Usar o argumento “pago meus impostos” em uma discussão sobre racismo faz tanto sentido quanto usar o argumento “escovo os dentes todo dia” em uma discussão sobre políticas de redistribuição de renda.
E, já que não faz nenhum sentido mesmo, vamos logo ao que interessa. Minha avó costuma me dar um conselho-conceito dentro do qual se encaixam inúmeras coisas: “Filhinha, faz tudo direitinho!” Sempre gostei desse conselho justamente pela generalidade da fórmula: as coisas a serem feitas direitinho eram todas aquelas que meu superego assim determinasse.
(Por exemplo, é preciso pagar os impostos direitinho.)
Eu costumava pensar que fazer tudo direitinho seria suficiente – fazer as coisas direitinho era o que a vida exigia de mim. Fazendo tudo direitinho, pensava eu, tudo ficaria bem.
Depois da leitura de certo livro, porém, passei a questionar o conselho de minha avó. Em É Isto Um Homem?, Primo Levi conta como sobreviveu à sua estadia em um campo de concentração na Alemanha nazista. Comecei a ler o livro imaginando que os momentos mais aterrorizantes seriam as descrições de execuções em câmaras de gás. Mas, como costuma acontecer em toda experiência de leitura digna desse nome, minha expectativa foi subvertida: o que mais me impressionou não foram os momentos em que pessoas eram mandadas explicitamente, diretamente para a morte, por assim dizer.
O que mais me chocou foi a descrição das pessoas que morriam no campo por doença e/ou exaustão, após quatro ou cinco meses de trabalho forçado – sem que fosse necessário enviá-las para o gás. Para morrer no campo, você não precisava ter feito nada de errado: pelo contrário, bastava fazer tudo direitinho.  

Se você fizesse tudo direitinho, isto é, se seguisse estritamente as regras impostas pelos alemães – comendo exatamente a ração de comida que lhe era destinada (em vez de roubar algum alimento a mais) e trabalhando com afinco todos os dias (em vez de enganar seu superior e se poupar) – você morreria em poucos meses. Os alemães criaram aquelas regras justamente para que seu correto cumprimento levasse à morte. Assim, bastava que os prisioneiros fizessem tudo direitinho – coisa que a imensa maioria fazia – para que morressem dentro de pouco tempo. Sobreviveram apenas aqueles que conseguiram, em alguma medida, burlar o sistema
Calma, pessoal: eu não vou dizer que o mundo é governado por uma conspiração de nazistas malvados e que vamos todos morrer em cinco meses se continuarmos pagando impostos e escovando os dentes. O que eu vou dizer é coisa muito pior – coisa que eu gostaria que pessoas brancas como eu se dispusessem a ouvir e pensar a respeito.
Ao fazer tudo direitinho, sem mover um dedo para infligir qualquer mal a quem quer que seja, nós brancos somos beneficiários silenciosos de um sistema opressor que nos precede e, apesar de que não o queiramos, nos define. Quando eu era criança, trabalhava em minha casa uma empregada doméstica negra que tinha uma filha mais ou menos da minha idade.
Eu nunca fiz nada de mau para a filha da minha empregada. Assim como Fernanda Lima (e digo isso sem nenhuma ironia), eu sou uma fofa. Nem o rabo do gato eu puxava.
Só que a filha da empregada doméstica, negra e pobre, estudando numa escola de má qualidade e tendo que trabalhar também como empregada doméstica a partir dos 16 anos para complementar a renda da família, teve uma péssima formação escolar. Enquanto isso, eu, a filha da professora de francês, branca e de classe média, estudando numa escola pra lá de razoável e trabalhando a partir dos 15 anos como professora de inglês apenas para ter uma experiência bacana e ganhar um dinheirinho só meu, tive uma formação escolar bastante boa.
Acho que ninguém estranhará se eu disser que a filha negra da empregada doméstica foi uma concorrente a menos para a filha branca da professora de francês no vestibular da USP. Em termos bem concretos, a negritude e a pobreza dela e de tantas outras meninas e meninos me beneficiaram enormemente – e isso apesar de eu nunca ter feito nenhuma maldade para nenhum deles.
Eu sempre fiz tudo direitinho, afinal.
O problema é que “fazer tudo direitinho”, no nosso mundo, é exatamente o que o mundo exige para o mundo permanecer exatamente do jeito que está. Se continuarmos fazendo tudo direitinho, escovando os dentes, pagando impostos, aceitando convites da FIFA e passando no vestibular, passaremos os próximos duzentos anos sem que as futuras Camilas Pitangas sejam alçadas ao posto de estrelas internacionais – e, o que é muito mais grave, sem que as futuras filhas de empregadas domésticas consigam estudar em boas universidades
Claro que Fernanda Lima recebeu o convite da FIFA em função de seu próprio trabalho, esforço e mérito. Ninguém lhe está negando essa conquista. Da mesma forma, eu também passei no vestibular por trabalho, esforço e mérito meu. O que não dá para desconsiderar sem uma boa dose de hipocrisia é o seguinte: Nesse processo de sermos eleitas pela FIFA e pela FUVEST, tanto ela como eu recebemos uma bela ajudinha.
Essa bela ajudinha nos foi dada pelo racismo estrutural da sociedade brasileira, que eliminou centenas e milhares de possíveis concorrentes nossas sem que precisássemos, nem Fernanda nem eu, movermos uma palha para isso. É um sistema perfeito: a gente apresenta o evento da FIFA, estuda na USP e ainda paga de boazinha (afinal – repito – nunca fizemos mal a ninguém!).
Ao dizer que paga impostos, Fernanda Lima tentou se esquivar do assunto racismo. Não posso dizer que não a entendo. Quando o assunto é racismo, nós brancos geralmente preferimos falar sobre impostos, sobre pobreza, sobre o julgamento do mensalão e sobre a morte da bezerra – tudo para não tocar no assunto tão incômodo com o qual morremos de medo de lidar. (Aliás, eu fiz exatamente isso, exatamente neste texto.)
Sem nunca tê-lo ouvido antes, Fernanda Lima mostrou ter compreendido bem a essência do conselho de minha avó. Sua entrevista poderia ser resumida assim: “Pago meus impostos, sou uma cidadã, e agora querem me envolver em treta de racismo? Como assim, se fiz tudo direitinho?
Acontece que, no nosso mundo, uma pessoa branca que faz tudo direitinho é uma pessoa que não se descola da sua posição de opressora. Minha avó que me perdoe, mas é preciso fazer tudo ao contrário.

O "ingrato" - José Nilton Mariano Saraiva

“Meu padim, nos gramados do céu, é mais um craque a orar e proteger o meu verdão”. (de um torcedor do Icasa e fanático do padre Cícero).

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Misturar devoção e fanatismo religioso com a emoção do futebol nunca deu liga, jamais foi recomendável, constitui-se um tremendo despropósito. Até porque, se a “coisa” entornar, indo na contramão do que se pretende, configura-se uma ótima oportunidade para que os “pseudos” santos da vida sejam desmascarados, na perspectiva de um resultado não desejável. A reflexão tem a ver com o time do Icasa, de Juazeiro do Norte, que surpreendeu na recente disputa da Série B, do Campeonato Brasileiro, já que esteve para se classificar para a Série A.

Fato é que, a partir do momento em que o Icasa “pintou” como a grande zebra do torneio, já que entre os quatro clubes que se classificariam à Série A, de pronto torcedores, experts, cronistas esportivos, jogadores, diretoria, comissão técnica, torcida e mais alguns espertalhões da vida resolveram atribuir e propagar aos quatro ventos que tão meritório desempenho dar-se-ia em razão da ajuda de Cícero Romão Batista; e que, por sua intercessão, um time do interior do Ceará figuraria entre os maiores do país; que se tratava de mais um milagre de Cícero e  tantas outras baboseiras da espécie. E então, devidamente documentado pela televisão. tome visita ao tal Horto para rezar junto à estátua, tome o pega-pega na bengala do dito-cujo, tome discursos laudatórios como forma de expressar “mais um milagre” de Cícero e por aí vai.

Pois, coincidentemente, foi a partir daí, do momento da exteriorização de toda essa inconseqüente gororoba, que o time do Icasa entrou em parafuso, tremeu nas bases, desaprendeu de jogar  e terminou por perder a tão almejada classificação para a Série A, dentro de casa, aos pés da estátua do “ingrato” Cícero Romão Batista.


Assim, tal qual lá atrás, quando o tal “milagre da hóstia” restou desmascarado pela própria Igreja Católica, que considerou seu arquiteto-executor nada mais que um grande “charlatão”, o “milagre do Icasa na Série A” não passou de mais uma grotesca farsa que seria creditada a Cícero Romão Batista (aquele mesmo. que se tornou podre de rico a partir do momento em que entrou para a política).