por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ingrizias sebastianas



                     
J. Flávio Vieira

                        Mais de três anos sem cair um pinguinho sequer. Os poços do rio Paranaporã já tinham batido a piaba há mais de dez meses. Matozinho estava mais seca que língua de papagaio. De bicho de quatro pés só havia restado tamborete e de  avoador : pipa. Verde, na cidade, só se via em solenidade da prefeitura quando hasteavam o panteão nacional, mesmo assim era um verde velho desbotado mais puxado para cinza. Ah, havia, ainda, um outro raro remanescente  da antiga esperança : o  pano da sinuca do Bar do Godô. Quem chegasse de fora, ficaria encafifado como era possível sobreviver em meio àquela catástrofe. Não se lia, no entanto, nos olhos dos matozenses, nenhuma aflição descabida. Estavam acostumados ao ciclo natural das intempéries. Angustiavam-se quando viam os animais serem dizimamos, em série, pela fome e pela sede, mas lia-se ,no fundo das retinas,  um longínquo verde de esperança, cover daquele que um dia já havia engalonado as árvores e as vidas.
                                   Afonso Caititu morava no alto da Serra da Jurumenha nas cercanias de Matozinho, uns quatro a cinco quilômetros mais perto do céu. Nos últimos dias, havia procedido ao inventário final pós hecatombe. O que restava ainda para se desfazer e transformar em víveres ? Deu , então, com um velho Rádio SEMP, ainda alimentado a válvulas. Lembrou, então, que naqueles dias terríveis se celebrava, por ali, a festa do santo da capelinha : São Sebastião . Havia um vuco-vuco danado de gente indo e vindo para as novenas. Do alto de seus conhecimentos de Marketing de pé-de-serra, teve uma idéia genial. Aproveitaria a festa religiosa e promoveria um bingo do rádio, dava para arrecadar uns reais e transformá-los em farinha e rapadura por mais alguns dias, até que outro santo , Pedro, resolvesse colaborar.  
                                   A casa de Caititu ficava na saída do arruado. Ele , então, providenciou os preparativos. Varreu todo o terreiro, espalhou cadeiras disponíveis , posicionou o oratório, do lado de fora, com a clássica imagem de São Sebastião amarrado e trespassado de flechas ; contratou alguns meninos para fazerem a propaganda de  boca em boca e melhorou a iluminação com algumas lamparinas subsidiárias, movidas a querozene jacaré. De noitinha, postou-se defronte, com o rádio colocado numa mesinha, em local bem visível, as cartelas, a cumbuca e pedras em ponto de bala para o início do jogo.
                                   Afonso havia planejado tudo , detalhadamente. Escapou-lhe, no entanto, um fato importante. Um vizinho --  Francalino  Bemtevi – tivera uma idéia parecida e pertinho dali promoveu um Forró numa latada improvisada, com o grande Sanfoneiro da região : Cotozinho dos Oito Baixos. Eram eventos de sobra para um arruado tão pequenino, mesmo envenenado com o turismo religioso. Caititu postou-se em frente à casa, esperando, pacientemente, a clientela. Alguns meninos e curiosos ficaram pelas beiradas esperando o desenrolar das coisas. Aos poucos começou a chegar a freguesia, mas passava direto para o Forró. Entre as cartas e o rela-bucho preferiram o esfrega coxa. O tempo foi passando e, pouco a pouco, iam se dissolvendo as esperanças do nosso promoter. De início, Afonso ainda tentou se convencer que as coisas mudariam, mas , por volta de nove horas, caiu-lhe a ficha e o orelhão todo na cabeça. Afobado, desistiu e começou a colocar as coisas para dentro de casa, numa penosa desprodução. Enquanto ia e vinha, percebeu, entre os  curiosos  que por ali ainda permaneceiam curruchiado. Estavam, cuidadosamente, mangando dele. Numa das viagens , no leva-leva de coisas, trouxe, consigo, a velha espingarda soca-soca. Firmou-a no chão, observou a platéia meio desconfiada e ameaçou:
                        --- Tô botando as coisas tudo pra dentro. Mas tô avisando! O primeiro filho da puta que armar um risinho de canto de boca , zonando comigo, eu meto bala. Querem ver ?
                        Ninguém queria, ao menos ali, defronte ao cano da soca-soca. Foram saindo rápido. Caititu, no entanto, ficou ainda mais fulo da vida, quando ao longe, ouviu as gargalhadas que se soltavam já fora da alça da mira. Quando pegou por fim a imagem de São Sebastião, sobrou a raiva para  o santo guerreiro:
                        --- Vai timbora pra dentro de casa! Num fica olhando pra mim , não ! Devia ter vergonha : com esses olhos pidão, revirados pra riba, como quem procura rola voando!  Pezim levantado, munheca e rejeito moles, todo flechado... Tome jeito de homem! Tu é loiça, é ? Num zone , não ! Tu nem pode correr todo ingriziado  de imbiriba pra todo lado! Num venha não, seu fresco  !Te lasco chumbo no rabo!
15/11/13

quinta-feira, 14 de novembro de 2013


História de Juazeiro


PAULO  MAIA DE MENEZES
                                                 Nunca mais você mata um irmão de um homem
                                               (Pedro Maia).
Por Fernando Maia da Nóbrega
1 - SÚMULA
Nome:                  Paulo  Maia de Menezes
Filiação:               Aristides Ferreira de Menezes
         Ana Leopoldina Maia
Nascimento:         1879 - Crato-Ce (01)
Morte:                  09 de junho de 1914 – Juazeiro do Norte-Ce
Causa Mortis:      Assassinato
Motivo:               Vingança
Acusados:          Nazário Landim (mandante), Mané Chiquinha                                        (executor).
2- ANTECEDENTES
 A morte trágica de Paulo Maia, também alcunhado de Paulo Aires, ocorrida em Juazeiro do Norte no ano de 1914, teve como fonte motivadora um acontecimento havido muitos anos antes do seu nascimento, na cidade do Crato em 1856 , e que se desdobrou ao longo de 72 anos. Essa é a história de um tempo em que muitas vezes a herança deixada era um rastro de sangue...
O século XIX caracterizou-se no Cariri por profundas crises sociais e políticas, imprimindo uma marca de violência que se alastrou, além dele, por três décadas da centúria seguinte. De início, a “Revolução de 1817” frutificou sérias inimizades entre os políticos e líderes cratenses, tendo alguns sido presos enviados para calabouços na Bahia. Em seguida veio a “Revolução do Equador” em 1824 onde muitos morreram entre eles Tristão de Alencar Araripe, membro de importante família da região. A “Guerra do Pinto” em 1832 fez florescer antigas desavenças cujo desfecho foi, anos depois, a execução do chefe Joaquim Pinto Madeira. Culminando com essas conturbações sociais, surgiu a “Revolução de Juazeiro” em 1914.
E foi justamente em um desses acontecimentos sociais tão em voga, que se gestou a futura morte de Paulo Maia. No dia 08 de setembro de 1856, às três horas da tarde, se processava, dentro da igreja Matriz de Nossa Senhora da  Penha, na cidade do Crato, as eleições para as câmaras municipais e juiz de paz. O clima emocional estava quente e pesado, posto que em Barbalha dias antes ocorreram cenas de violência durante a apuração dos votos. No Crato, duas facções do Partido  Conservador disputavam com o Partido Liberal os cargos disponíveis. Determinado momento, surgiu uma discórdia entre os grupos rivais gerando uma briga generalizada entre os participantes. Dr. Jaguaribe, presidente da eleição, pede a interferência do corpo policial do município com o intuito de apaziguar os querelantes. Com a chegada dos militares, sob o comando de José Ferreira de Menezes os ânimos se exaltaram mais ainda havendo uma troca de tiros de ambas as partes, vindo a falecer o coronel José Gonçalves Landim. (02). O crime emocionou todo o Cariri a ponto do Vigário Geral Forâneo Tomaz Pompeu de Sousa Brasil excomungar o Padre Manuel Joaquim Aires do Nascimento, Pároco da Freguesia, bem como o delegado e dois soldados. (03)
Com o passar dos anos, um dos filhos do delegado José Ferreira de Menezes, de nome Aristides, tornou-se um dos mais influentes políticos cratenses no final do século XIX, exercendo vários cargos públicos de destaques, chegando a ocupar as funções de promotor, deputado provincial pela região e candidato a senador da república. (03) Ressalte-se que Aristides Ferreira de Menezes casara-se com Ana Leopoldina Maia, filha do renomado Coronel Mainha, um dos maiores políticos cratenses do século XIX. Partidário do prefeito local , Coronel Belém de Figueiredo, Aristides sofreu grande revés quando em 1904, Antonio Luiz Alves Pequeno tomou a prefeitura a “manu militari” e passou a perseguir ferozmente seus adversários por meio da montagem de uma violenta guarda municipal.
Investido na função de delegado e comandante da Guarda Municipal do Crato, Nazário Landim cometeu toda espécie de arbitrariedade possível. E em sendo neto do Coronel José Gonçalves Landim, morto na igreja em 1856, ressuscitou a velha discórdia entre as famílias. Certa feita, em meados de 1904, encontra-se numa esquina com o velho e respeitável Coronel Aristides e o agride a socos, pontapés, empurrões e lhe bate com a vareta da espingarda por várias vezes. Segundo sua lógica, vingava assim a morte de seu avô numa pessoa que à época tinha somente quatro anos.
Essa atitude inconseqüente viria a gerar outra de igual teor. Paulo Maia, filho de Aristides, inconformado com a agressão sofrida pelo seu genitor agiu rapidamente em represália: ao se encontrar com o delegado aplicou-lhe violenta surra, prostrando-o desfalecido por terra. Os cronistas narram que ao ser preso e interrogado pelo juiz, houve o seguinte diálogo:
-"Moço, que parentesco tem com o delegado Nazário”? Perguntou o juiz.
- “Ele é meu avô!” Respondeu com firmeza Paulo Maia.
“Mas... seu avô?” Contesta o Juiz.
- “Se ele é de sua idade mais ou menos, talvez seja mais moço, como explicar isso”?
-"Se ele bateu em meu pai, se deu em meu pai, certamente que é pai dele; e sendo pai dele, é meu avô.” Foi a resposta (04).
 3- A MORTE
 É certo que após o desentendimento com Nazário e cumprir prisão por mais de um ano, Paulo Maia foi residir em Juazeiro. Além deste motivo outros contribuíram sua para ida: era primo do Padre Cícero e sua mulher, Aurora Adélia, era parenta de José André de Figueiredo, um dos líderes políticos da vila. Além do mais, cuidaria das terras do sítio Muquém, naquele município, pertencentes a seu pai. Pouco a pouco Paulo Maia foi-se inserindo na vida político-social de sua nova terra.
Em 1910 Juazeiro já se consolidava como um lugarejo em constante desenvolvimento graças à presença do Padre Cícero Romão Batista e a repercussão dos milagres ocorridos em 1889. Com uma população expressiva, sendo alvo de romarias freqüentes e de um comercio se expandindo constantemente, a vila clamava pela sua emancipação política. Objetivando chamar a atenção das autoridades, Padre Cícero, Floro Bartolomeu, Padre Alencar Peixoto, Joaquim André e tantos outros, pregaram a desobediência civil ao povo ao propor que “(...) não se pagaria mais impostos ao Crato” (05) Tal movimento culminou com uma passeata realizada no dia 07 de setembro de 1910, pelas ruas de Juazeiro, em prol da independência da vila. À frente de todos, Paulo Maia conduzia uma bandeira verde-amarela com os dizeres “Viva a Independência!” (06).
Eis que em 1913 irrompe a chamada “Sedição de Juazeiro” com o objetivo de depor o governador do estado, Major Franco Rabelo. Para concretizar esse intento, Dr.Floro armou um expressivo contingente de bandidos e cangaceiros, recrutando os mais afamados pistoleiros de Pajeú das Flores, Paraíba, entre eles, Zé Pinheiro, Senhorzinho, Antonio Godê, Mané Chiquinha, Côco Seco e Quintino Feitosa. Para as funções de subdelegado foi nomeado o Major Nazário Landim (07), “indivíduo de péssima conduta” (08).
Nos idos de 1913/14 imperou no nosso Estado completa selvageria. No Cariri, principalmente, um número incalculável de crimes foram praticados, com a conivência das autoridades, sem nunca ter sido tomadas as providências legais cabíveis. Após o término do movimento sedicioso de Juazeiro em março de 1914, a cidade ficou totalmente lotada de facínoras remanescentes da guerra. Bandidos de alta periculosidade, sem trabalho,  perambulavam pelas ruas bebendo, fazendo confusões, provocando brigas e matando pessoas.
Como a ociosidade é a mãe de todos os vícios, Mané Chiquinha lembrou a Nazário Landim que seu desafeto, Paulo Maia, andava impune na cidade. Não obstante as ponderações iniciais, o subdelegado contrata o pistoleiro por 100 contos de réis e uma mula. (09) Xavier de Oliveira insinua, nas entrelinhas, que um crime envolvendo uma pessoa de prestígio como Paulo Maia tinha que haver o consentimento do chefe, no caso, presumo eu, Dr.Floro Bartolomeu. (09). Há alguma razão para se aceitar a tese, posto que tanto o Coronel Aristides, pai de Paulo, quanto o cunhado Joaquim Inácio Figueiredo faziam oposição ao Médico e ao Padre Cícero. (10)
Paulo Maia residia numa casa, hoje demolida, localizada à Rua do Brejo, em frente à Matriz de Juazeiro. Na noite de 09 de junho de 1914, enquanto conversava com o vizinho Doroteu Sobreira, foi avisado por este que parecia haver alguém escondido no matagal à frente da casa. Paulo Maia não levou à sério a observação do amigo e continuou conversando alegremente. Mané Chiquinha, aproveitando a escuridão da noite, escondido entre o pasto de bamburral, mirou a carabina modelo 1908, dormiu na pontaria e disparou um certeiro tiro que varou o peito da vítima indefesa.
 4-            VINGANÇA
 Após o assassinato de Paulo Maia, Mané Chiquinha enfronhou-se pela Serra do Araripe e vivia em lugar incerto e não sabido. Porém, em decorrência da determinação do Governador do Estado, Benjamim Barroso, em eliminar de vez o banditismo no Ceará, convocou ao palácio o Coronel Medeiros e deu-lhe uma ordem seca: ”Você vai ao Cariri e outras cidades do sertão. Não poupe bandidos. Execute-os sumariamente.” (11). A mesma incumbência foi dada pelo Governador ao Tenente Peregrino Montenegro quando o nomeou delegado de Campos Sales: “Soube que é homem disposto. Liquide todo criminoso nato.” (12). Seguindo as determinações recebidas, perseguindo a bandidos na Serra do Araripe, o Tenente Peregrino executa sumariamente os cangaceiros Bimbão, Caxeado, Pedro Paulo e Mané Chiquinha. (13).
Quanto ao autor intelectual, Nazário Landim, este achou mais prudente se afastar da região e por muito tempo não se soube de seu paradeiro. Há certa probabilidade que tenha se refugiado na cidade de São João do Rio do Peixe, hoje Antenor Navarro, na Paraíba, local onde seu primo e conselheiro Quinco Vasques fugindo de uma briga em Lavras da Mangabeira, viveu sob a proteção do Padre Joaquim Cirilo Sá. (14)
Após 72 anos dos fatos ocorridos na Matriz de Nossa Senhora da Penha e 14 da morte de Paulo Maia, Nazário Landim apareceu às caladas da noite, no Crato, com o intuito de pegar o trem em rumo a Missão Velha onde viviam seus parentes. Enquanto aguardava o passar das horas para o embarque, entrou em um quiosque, ao lado da estação ferroviária, onde os passageiros tomavam café,fumavam,conversavam, à espera da partida do trem. Nesse ínterim, foi reconhecido por um padeiro que incontinentemente correu até a casa de Pedro Maia, irmão de Paulo, bateu à porta e falou:
- “Seu Pedro, quanto o senhor paga pelas alvíssaras?”.
- “O que você quiser. O que foi?” Retorquiu Pedro (015).
-“ Nazário Landim está aqui no Crato. Na estação de trem.” Respondeu o padeiro.
Era início da madrugada do dia 28 de julho de 1928. Pedro Maia, também conhecido por Pedro Aires dirigiu-se à cidade de Juazeiro do Norte e foi ao encontro dos dois filhos homens de Paulo Maia, Zezé e Odilon, e lhes falou:
“- O homem que matou seu pai está no Crato. Se querem vingar a morte dele a hora é essa.”
 Em companhia dos jovens, Pedro se dirigiu à estação ferroviária do Crato. Entregando um revólver à Zezé, o mais velho, apontou o Nazário e disse:
-“É aquele o homem. Vá lá e mate-o!”.
Consta que Zezé titubeou. É verdade que teve medo de executar a tarefa. Vendo a indecisão do sobrinho, Pedro Maia falou ríspido:
- “Vejam como é que se mata um homem!”.
Secamente se dirigiu ao encontro de Nazário e para certificar-se que era ele mesmo, embora o conhecesse, indagou:
- “Com quem tenho o prazer de falar?”.
Pressentido o desfecho macabro daquele encontro, pálido e afásico respondeu:
 -“Com Nazário, seu criado.”.
“- Eu sou irmão de Paulo Maia. Levante-se para morrer. Você nunca mais mata um irmão de um homem!”
Surpreso, Nazário não se levantou. Nisso, Pedro Maia desfechou alguns tiros quase à queima roupa. Nazário caiu emborcado na mesa do bar e exalou seu último suspiro.
Encerrava-se assim  drasticamente uma desavença costurada por tanto tempo. Durante 72 anos, vidas foram ceifadas em nome de um tempo e costumes que queira Deus não se repitam nunca mais.
 NOTAS
 01 - Os dados sobre a descendência, nascimento e morte de Paulo Maia  encontra-se no artigo de Bruno de Menezes “Uma Parcela da Família Menezes do Cariri”, revista       Itaytera nº. 5, página 177 -  Crato-Ce. 1959.
02 – Irineu Pinheiro, Efemérides do Cariri pág.142. Imprensa Oficial do Ceará.          Fortaleza 1963.
“1856, 8 de setembro – Eleições na matriz do Crato para juiz de paz e  membros   da câmara municipal. Morreu o eleitor José Gonçalves    Landim, pelo Partido    Liberal, baleado na igreja pela força pública comandada pelo delegado local que  era conservador (...)”.
Joaryvar Macedo in O Império do Bacamarte, pág.25. Edição UFC.        Fortaleza    1992 afirma: “Acontecimento sangrento, de bastante repercussão, se deu em 1856,   aos 8 de  setembro. Por ocasião de eleições de membros da   câmara   municipal e juízes de  paz, no recinto da Matriz de  Nossa Senhora  da Penha, no Crato, a força pública   promoveu violentíssimo  ataque aos  eleitores, visando o Partido Liberal. Da     agressão,    comandada  pelo próprio delegado substituto em exercício, José Ferreira de Menezes,  resultaram na morte do tenente-coronel José Gonçalves  Landim e  ferimentos em várias pessoas (...)”.
03 – Guilherme Chambly Studart (Barão de Stuart) & Newton Jacques Studart –    Dicionário Biobibliográfico Cearense 2ª edição,  pág.305/306. Tipografia          Progresso 1980. Aborda sobre a vida    do     deputado Aristides        Ferreira de Menezes.
  04 – Guilherme Chambly Studart. O.Cpág. 306.
 05-     Amália Xavier de Oliveira – O Padre Cícero que eu conheci.        Pág.133 Rio de          janeiro 1969
“(...) o padre Cícero incentivou o povo de não mais pagar imposto ao     Município   de Crato, desta vez, sem complacência.”
06 –  Idem, ibidem.
“Paulo Maia, ardoroso revolucionário, conduzia à frente a bandeira        verde-amarela, com os dizeres ‘VIVA A NOSSA    INDEPENDÊNCIA’”.
 07 – Joaryvar Macedo. Temas Históricos Regionais. Nota na pág.47.   Secretaria de          Cultura e Desporto. Fortaleza 1986.
 08 -   Joaryvar Macedo. Império do Bacamarte pág.72. Edição UFC.    Fortaleza-Ce          1992:
“Indivíduo de péssima conduta, o major Nazário Landim fruíra,  entretanto, da          confiança do coronel Antonio Luís, que o investiu  nas funções de subdelegado    de polícia do importante município  de Juazeiro.”
 09-           Antonio Xavier de Oliveira, Beatos e Cangaceiros pág.17 Rio de Janeiro. O autor deixa aberta a possibilidade do assassinato de Paulo Maia ter   sido do conhecimento de Dr.Floro ou do coronel Antonio Alves  Pequeno, este último,   inimigo político de Aristides Ferreira de       Menezes,    pai de Paulo. De pronto, o autor elimina a hipótese   do envolvimento do padre Cícero:
         “(...) Em geral, no Sertão, os cangaceiros só cometem um    crime, quando teem as   costas quentes,isto é quando teem patrão  forte e de cima na política. (...) (um  coronel, ou um doutor, nunca  um padre)” (sic).
 10 –  Ralph Della Cava. Milagre em Joaseiro pág. 151. Paz e Terra. Rio  de Janeiro          1977, apud inéditos de Aires de Menezes.
“(...) não se tornando inimigos do padre Cícero”... ficaram afastados...    Aristides          Ferreira de Menezes, o velho João da Rocha, Pedro    Jacintho da Rocha, Cel.Coimbra, Joaquim Inácio de Figueiredo.         (...) (sic)
 11 – Abelardo Montenegro. Fanáticos e Cangaceiros pág.pág.268.  Ed.Henrique ta          Galeno. Fortaleza 1973. Apud entrevista do Sr. Antonio Botelho Filho, presente          que estava na hora da   recomendação do governador.
12 – Abelardo Montenegro, o.c.pág.269. Informações prestadas ao autor    pelo próprio Peregrino Montenegro.
 13 –  Abelardo Montenegro. O.c.ibidem.
 14 –  Joaryvar Macedo, Império do Bacamarte pág.119, esclarece onde o coronel         Quinco Vasques se refugia da polícia:
(...) Quinco Vasques (...) se refugia sob a proteção Joaquim Cirilo de      Sá, o célebre padre Sá do antigo São João do Rio do Peixe, hoje     Antenor Navarro, Paraíba       (...)”.
         Por essa razão somos levados a crer que Nazário Landim após o assassinato de Paulo Maia tenha se refugiado em Antenor Navarro.
 15 -   Os detalhes da vingança perpetrada por Pedro Aires nos     foi     transmitida por          Odilon Figueiredo,filho de Paulo Maia,  presente na hora do assassinato. É fidedigno e tem exatidão   o diálogo,   posto que do conhecimento de todos e por   uma  testemunha do caso,  o português Ângelo de Almeida que narrou os   acontecimentos a    meu pai Antonio Adil da Nóbrega.

BIBLIOGRAFIA.
 Della Cava, Ralph. Milagre em joaseiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra,       1976.
 Macedo, Joaryvar. Temas históricos regionais. Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desportos, 1986.
 Macedo, Joaryvar. Império do bacamarte. Fortaleza, Universidade  Federal do Ceará, 1990. 
 Montenegro, Abelardo. Fanáticos e cangaceiros. Fortaleza. Editora  Henriqueta Galeno, 1973.
 Revista Ytaytera, Crato. Instituto Cultural do Cariri, 1959.
Oliveira, Antonio X. Beatos e cangaceiros. Rio de Janeiro
 Oliveira, Amália X. O padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro,  1969.
Studart, Guilherme C. & Studart, Newton J. Fortaleza, Tipografia Progresso, 1980.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O "laboratório" - José Nilton Mariano Saraiva

Meses atrás, numa das grandes lojas de departamento de Nova Iorque, localizada em plena 5ª Avenida, uma determinada e emergente atriz global foi presa em flagrante (já na boca do caixa), ao ter a bolsa que carregava devassada pelos fiscais (que haviam sido alertados pelos seguranças), onde foram encontrados alguns itens não apresentados para pagamento. Levada à delegacia, a inusitada e surreal desculpa: na verdade, estava apenas e tão somente praticando “laboratório”, por determinação da emissora global.

Destrinchando: é que fora escalada para a próxima novela do horário nobre, onde deveria fazer o papel de uma audaciosa ladra, daí a necessidade de exercitar antecipadamente as ações pertinentes (ou seja, o “modus operandi” de como roubar) a fim de bem cumprir o papel para o qual fora escolhida; e, numa prova do quão respeitava a fama de Nova Iorque, de como aquela fervilhante metrópole mundial lhe era cara e lhe causava admiração, a tinha escolhido para “laboratório”.

Mais realista foi a então jovem e esfuziante Vera Fischer que, após ser eleita missa Brasil, fora contratada pela emissora global e inserida no seu restrito ”cast” de celebridades, embora sem nenhuma experiência na arte de representar: e então, em pleno auge da fama, no apogeu da carreira, quando esbanjava sexualidade por todos os poros e era desejada por meio mundo e mais uma banda de homens, ao ser entrevista por uma emissora concorrente foi incisiva e contundente: pra chegar até ali (na Globo) ainda tão jovem, tivera que “freqüentar a cama” de diversos graúdos da emissora (na verdade, perdera até a virgindade). Não citou nomes, mas forneceu a senha.

A reflexão acima nos remete ao atual folhetim global do horário nobre, onde a mulher do melhor amigo do marido vive enfurnada num motel com o próprio, enquanto o marido não faz nenhuma cerimônia em freqüentar o mesmo ambiente com a esposa do melhor amigo; ou seja, a troca de parceiros se dá com a mesma naturalidade de como se troca uma camisa, numa degradação e promiscuidade de costumes que assusta. Na seqüência, quando um chega em casa, o outro já lá está e, após as desculpas esfarrapadas e tradicionais, ambos, alegando cansaço, se deitam de costas um para o outro.

Vida que segue, mais tarde, após o final da novela, normalmente acontecem as separações e ajuntamentos, tal qual o encenado no folhetim global. E então, consultados, sobre a influência da televisão, autores e diretores alegam que nada mais fazem que levar a “vida real” pra dentro de casa (se alguma adolescente resolver “adotar” tal postura, problema dos pais).

Como se vê, não é de hoje que o eficiente “laboratório” global funciona a todo vapor, daí a impressionante “rotatividade” de parceiros no meio artístico. Comenta-se, até, que entre eles vige o conceito de que ser “chifrudo” é questão de “status”.  

Você, aí do outro lado da telinha, gostaria de ser assim catalogado ???

segunda-feira, 11 de novembro de 2013


Fugacidade- socorro moreira

Felpuda,tua voz noturna
O sono encurta a noite
Enquanto a vida finda

Todo dia paro pra contar
Conto pra pensar

 O lugar ...
-Teu lugar
Ora, agora...
É vazio!

Respingam do céu novas águas
Espero folha por folha
Um tal dia, que parece eterno


-Chaves enferrujam-se nas esperas!

Enrolo a dor na imaginação poética
Ela escapula, e volta!

Instantes
Foram instantes
Rarefeitos na densidade
Do passar dos anos

-Tão fortes
Minhas mais leves lembranças!


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Signo de Caranguejo



J. FLÁVIO VIEIRA


"Não há nenhum pensamento importante que a
burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados
 e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém,
tem apenas um vestido de cada vez e só um
caminho, e está sempre em desvantagem." (Robert Musil)


                                               O Crato, amigos, é mesmo uma cidade sui generis. Esta semana conseguimos por abaixo  dois paradigmas históricos. O primeiro profundamente cratense, do nosso Quixadá Felício : “Nesta terra há lugar para todos os homens de boa vontade” e um outro nacional , ditado por Pero Vaz de Caminha, na sua carta: “Nesta terra em se plantando tudo dá! Acabamos de provar  que não há boa vontade neste mundo que suporte a burrice de alguns nossos conterrâneos e que, ao contrário do que pensava nosso escrivão, nesta terra em se plantando, tudo fenece.  A pretensa cidade da Cultura  já não tem um Cinema, não possui um Teatro sequer, não tem mais nenhum Jornal, o Instituto Cultural deixou de publicar há mais de 20 anos sua Revista Itaytera,  o Museu do Crato está com instalações deterioradas e parte do acervo desapareceu. Neste exato momento em que a Mostra Cariri das Artes foi cancelada na nossa cidade, a Câmara Municipal foi invadida , a Reitoria da URCA sofreu outra invasão e a centenária Diocese do Crato está envolvida em processos judiciais de estelionato e formação de quadrilha.  Tínhamos, por outro lado, este ano, um interessante alinhamento de planetas.  Foi coisa botada ? Costuraram a boca de um sapo e botaram ali no Muriti ? A melhor explicação deste azar reiterado vem do nosso compositor Abidoral Jamacaru. Segundo ele, o Crato faz aniversário em 21 de Junho , deve ser  pois do signo de Caranguejo, assim,  astrologicamente se justificaria esse nosso destino de dar um passo para frente e dois para trás.
                                   O certo é que complexados como todos os cratenses já vivem, pulularam inúmeras versões e teorias conspiratórias nas Redes Sociais e rodinhas de praça,  tentando culpar vários atores políticos e sociais nesta derrocada derradeira. Afinal as Mostras SESC  , nos seus quinze anos, se tornaram o mais importante evento de todo o Sul do Ceará, formando platéias e imantando de diversidade cultural o Cariri, promovendo encontro de artistas e estimulando um interessante intercâmbio.  O holocausto da Mostra SESC por aqui envolve, na polêmica, basicamente três principais atores : A Prefeitura do Crato, a FECOMÉRCIO e a Guerrilha do Ato Dramático. Pretendo, aqui, refletir sobre cada uma das partes para tentar entender, depois do dilúvio, o motivo do afogamento generalizado. Quase impossível se entender a tragédia quando, este ano, tínhamos um interessante alinhamento de planetas : Dane de Jade, nossa fabulosa Secretária de Cultura, veio de dentro do SESC e foi uma das mentoras da Mostra, por outro lado, nosso Vice-Prefeito, Raimundo Filho, sempre teve uma ligação fraterna e umbilical com a FECOMÈRCIO, a grande patrocinadora da Mostra. Só nosso caié eterno mesmo para explicar a tragédia acontecida !  
                                   O SESC/Crato,nos últimos quinze anos, é bom que se entenda, funcionou como a Secretaria de Cultura da Cidade. A ele devemos não só as Mostras, mas espetáculos freqüentes do Palco Giratório e do Sonora Brasil, lançamentos de livros, shows musicais principalmente através do Armazém do Som , leituras de Cordéis na Feira e um interessante calendário de exposições de Artes Plásticas. As Mostras sempre aqui se instalaram  com praticamente nenhuma ajuda dos Governos Municipais, além da cessão de alguns espaços públicos para que acontecessem. E chegaram a trazer mais de 700 artistas, englobando, só em Crato, mais de dez salas de espetáculos funcionando ininterruptamente. Aqui chegaram espetáculos fabulosos como “Cassandra”, “Gota D´água” , “O Círculo de Giz Caucasiano”, para citar apenas alguns.  Vários dos mais importantes grupos teatrais do país  e do exterior como Argentina, Portugal, Uruguai, França aqui estiveram, sem falar em shows musicais  de importantíssimos artistas brasileiros : Nação Zumbi, Chico César, Jorge Mautner- Nélson Jacobina, Naná Vasconcelos e muitíssimos outros. Os artistas da região, nas suas mais multifacetadas formas,  participaram intensamente dos eventos. As Mostras sempre trouxeram uma imersão cultural importantíssima para o Crato, sem se falar sequer na injeção de economia, na nossa  cidade, aluguéis de espaços,  com restaurantes , lanchonetes, hotéis abarrotados. Isso sempre sem nenhum ônus, praticamente, para o município. O SESC, pois, tem amplas razões quando reclama do boicote por parte da gestão municipal à XV mostra. Vá lá que não se apóie, mas criar empecilhos, construir barreiras, não é demais ?
                                   Quanto à Guerrilha do Ato Dramático, ela surgiu há mais ou menos cinco anos por grupos de teatro do Cariri insatisfeitos com a seleção de espetáculos e, também, com a política de cachês. Estes grupos, é bom que se frise, fazem um trabalho incrível de resistência. Imaginem vocês, fazer Teatro Amador ou semi-profissional, no interior do Nordeste !  Batalham dia a dia contra todas as adversidades, órfãos quase sempre de apoio governamental. É preciso tirar o chapéu para eles. É claro que podem ter surgido radicalizações de parte a parte. Sempre entendi que a Guerrilha fazia-se sempre contra todas muitas  adversidades e não contra a Mostra SESC em si. Faltaram, possivelmente, negociadores para dirimir as arestas. Podia-se, por exemplo, negociar para os dois eventos não acontecerem simultaneamente. Já temos tão poucos no calendário !  Corre-se sempre o risco de uma cobra engolir a outra e a outra engolir a uma e as duas desaparecerem, como na historinha de Trancoso, risco que se corre agora. A questão dos cachês, claro, podiam ser revista, sempre lembrando , no entanto, que não é a qualidade do artista mas o próprio mercado que a determina. Luan Santana, por exemplo, tem um cachê infinitamente maior que o de Ednardo ou Gilberto Gil. Não acredito, de sã consciência, que os guerrilheiros tenham sido os causadores diretos pelo problema que ora vivenciamos. Até porque, sem a presença da Mostra, sem o seu clima, eles serão diretamente atingidos.  Não , são apenas coadjuvantes. As decisões maiores vêm do Generalato e não dos soldados rasos.
                                   A Prefeitura Municipal vem tentando, reconheço, recolocar o Crato novamente no cenário da região, ao menos em discurso. Jogou, de imediato, a culpa de tudo, na intransigência da FECOMÉRCIO que teria fechado questão contra a Guerrilha, numa espécie de  “Ou eles, ou nós, escolham!”. Sinceramente não acredito nesta versão, até porque os dois eventos vinham acontecendo simultaneamente há muitos anos. Um dos grandes pecados foi não terem ouvido Dane de Jade, a Secretária de Cultura dos sonhos de qualquer município nordestino! Eu mesmo queria levá-la para Matozinho. Dane vem de dentro do SESC, foi uma das mentoras da Mostra e tem uma vivência fabulosa nesta área. Temo até que utilizem este triste acontecimento, do qual ela não teve participação direta, para fritá-la politicamente.  Já estamos no subsolo de tudo , amigos, não merecemos este último golpe de misericórdia!  Sem Dane fecham-se praticamente todas as perspectivas de se retomar o vultoso passado Cultural da Cidade de Frei Carlos.  Percebo ( e tive informações privilegiadas sobre tudo) que , como sempre , as causas vieram de uma briga de  generais e não de simples samangos. Uma disputa de espaço político envolvendo vários atores graúdos da  política local e estadual.  Bate boca na Casa Grande termina, invariavelmente, em paulada na Senzala.
                                   Perdemos uma batalha ou fomos vencidos definitivamente? A hecatombe de hoje diz respeito apenas a 2013 ou nunca mais teremos a Mostra em Crato  ? Como a questão é basicamente de política partidária cabe uma grande mobilização da Cidade ( Estudantes, Clubes de Serviço, ICC, Fundação Mestre Elói, CDL) no sentido de intermediar estas  delicadas pendências, nas próximas edições.  Já vestimos todos os trajes da burrice nos últimos anos, não merecemos utilizar todo o enxoval. Aqui não já foi o paraíso dos homens de boa vontade ?