por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



terça-feira, 27 de novembro de 2012

                                                         CONSTELAÇÃO POÉTICA
 
Recentemente encontrei essa foto na internet e assim nomeei os poetas (da esquerda para a direita): Carlos Drummond, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mário Quintana e... ? não tenho certeza se é Fernando Sabino ou Paulo Mendes Campos.
 
Selecionei um poema de cada autor, com a temática amorosa. Vejamos:



Mário Quintana

BILHETE
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve
ainda…

 
Carlos Drummond

O SEU SANTO NOME
Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.


 

Vinícius de Moraes

SONETO DE FIDELIDADE
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

Manuel Bandeira

BELO BELO
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

O PAPEL POLÍTICO DOS CAPACHOS IMPERIAIS - José do Vale Pinheiro Feitosa


Por incrível que pareça não tem muito mais de ano e meio que pelo menos dois blogs do Crato reproduziram o documento de um militar brasileiro, em momento de reforma do serviço ativo, dizendo que O Golpe de 64 foi um ato heroico dos golpistas para livrar o país da anarquia e do comunismo. Os dois blogs bebiam na fonte da atual administração da cidade e publicavam o panfleto por afinidade ideológica com a extrema direita brasileira e muito provavelmente para provocar seus desafetos no campo político.

Ainda hoje anciões do Clube Militar guardam um ódio visceral contra políticas progressistas e sustentam esta energia a partir do borralho ideológico ainda dos anos de ditadura e dos embates das Reformas de Base intensamente mobilizadas pelo povo brasileiro no Governo João Goulart. As Reformas de Base reuniam um conjunto de medidas que abrangiam a reforma bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Incluía-se entre as medidas o direito de voto aos analfabetos e às patentes subalternas das forças armadas. O carro chefe era a Reforma Agrária onde se reuniu um dos focos de maior conflito na política interna do país. No entanto foi no campo externo, especialmente em relação aos Estados Unidos da América e outras nações capitalistas dominantes onde a luta foi maior: eram medidas nacionalistas com maior intervenção do Estado na vida econômica, controle do investimento estrangeiro especialmente sobre a remessa de lucros para o exterior, além da nacionalização de empresas estratégicas como dos setores de energia e comunicações.
O que liga personagens relativamente nascidos após o golpe de 64 que pontuavam na política do Crato até agora a essa herança conservadora e extremista? Penso que vestem uma capa envelhecida para esconderem o verdadeiro sentido dos seus corpos ideológicos. Uma capa costurada com retalhos da luta anticomunista, de segmentos reacionários da igreja católica, de uma noção de família e patrimônio há muito ultrapassada pelo próprio desenvolvimento capitalista. Mas o sentido de ser na vida é um esdrúxulo senso de superioridade de classe subalterna ao modelo superior de outros povos, no caso os EUA. Esses personagens do outro lado da margem dos comunistas, repetem a mesma inação ou ação sob comando de outros povos, igual aos comunistas com a União Soviética.

Tomei por exemplo este chorume da história para nos lembrar que o Golpe Militar de 64 era uma fachada ideológica a serviço dos interesses dos Estados Unidos da América. Claro que refletiam o conflito interno, a forte reação de latifundiários e os próprios erros do Governo Goulart, mas jamais teriam a desenvoltura finalista que tiveram se não fosse o financiamento americano do IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) que financiavam armas, textos, campanhas eleitorais e deputados no parlamento. Sem os mecanismos de sabotagem do abastecimento, além de programas de invasão da CIA e outros setores de inteligência americana dentro do Programa Aliança para o Progresso e com o que chamava Voluntários da Paz. Nos idos dos anos 63 a 67 só no bairro da Batateira moravam dois americanos sem papel religioso, vivendo numa casa precária e colhendo informações.   

Porém o mais importante foi o deslocamento de uma frota de navios para dividir o país em cinco partes e assim promover o fatiamento da unidade nacional. Com armas, armadas, infiltração social, financiamento de setores militares, políticos, da mídia,  religiosos e intelectuais, os EUA foram o móvel essencial do golpe. Até mesmo a violência com a tortura e humilhação sofrida por militantes adversários fez parte da política americana que além de ampliar a capacidade de torturar apoiava todas as práticas já em curso nos porões da polícia brasileira, sem contar os horrores já praticados durante a ditadura do Estado Novo.

Os EUA não apenas foram o móvel do Golpe, como auferiram logo em seguida todas as vantagens econômicas advindas dele: remessas de lucros, fim da estabilidade do emprego, arrocho econômico, perseguição dos trabalhadores e a criação de multinacionais que dirigem até hoje a economia nacional. Foi efetivamente um Projeto Imperial que levou o povo brasileiro a um atraso imenso em seu progresso e desenvolvimento, atingindo todos os campos: a posse da terra, a urbanização justa, a educação, a saúde pública, a infraestrutura produtiva e, principalmente, a autonomia para um projeto de desenvolvimento nacional.

Isso tudo não pode ser mais objeto das dúvidas daquele militar de pijama do início do texto: isso é um farto material pesquisado e para ser ainda mais aprofundado do papel dos EUA no Golpe Militar de 64. Não é questão de crença ideológica, é a luz dos documentos e registros da época.  

Essa é pra você!


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Explode, coração ! - socorro moreira


As ruas estão iluminadas para o Natal. 2012, no pódio, como atleta do tempo.
Paradoxalmente vivemos fases diversas, nas paralelas. O facebook bombando. Este não me interessa tanto. Prefiro o aconchegozinho dos blogs, onde me desnudo, mesmo com pudores. Fico feliz com as postagens de Zé Nilton Mariano, Zé do Vale, Stela, Liduína, Brandão, Ulisses, Nicodemos, Rosemary,Alexandre Lucas, Zé Flávio, Emerson, Zé Almino, Domingos, Arimathéa, Joaquim, Ângela,...
 - Estes que movimentaram literariamente o blog, neste ano quase findo.
Não vejo chances de ponto final... ”O AZULSONHADO” continua, a não ser que o mundo acabe para todos... Impossível!?
Espero projetos novos e interessantes em 2013. Boas mudanças, e fertilidade no campo das artes. Espero ganhos na contabilidade da vida. Espero saúde, paz e crescimento, no contexto humano, que faz parte de um sistema maior.
As guerras do petróleo, religiosas, ainda constituem uma ameaça, mas as mortes acontecidas em São Paulo também nos angustiam. Sinto medo. Quero rever meus amigos, estar com todos, ainda neste plano. Que tudo possa ser celebrado com alegria e entusiasmo doravante, e sempre, desconsiderando, sem desvalorizar, os percalços inevitáveis.
Quero a poesia, no pisca - pisca do Natal. Quero a constelação de amigos, seguindo a órbita da Chapada do Araripe,  bebendo das nossas águas, roendo piqui... Quero todos os nossos braços ocupados de abraços, e corações em palpitação!
Pensando bem, tanta gente tem lugar especial no meu coração, que às vezes penso que ele explodirá como um balão.




A BATATEIRA E FAIXA DE GAZA - José do Vale Pinheiro Feitosa


Para se tomar uma referência em relação à Faixa da Gaza, com 1,5 milhões de habitantes e recentemente bombardeada pelo Exército Israelense (não Judeu que é um povo e uma religião, embora cada vez mais ortodoxos prefiram confundir a temporalidade de um Estado com a atemporalidade religiosa): a região metropolitana de Fortaleza possui 3,7 milhões e a região Cariri 574 mil habitantes. E por que falar em Faixa de Gaza?

Para observar o significativo da injustiça social, do genocídio e da perseguição aos pobres em todo o sistema de produção, circulação e distribuição das riquezas no mundo atual. Ali naquela faixa estão todas as formas de ódio, de ressentimento, de humilhação, de apreensão constante do que um dos importantes Judeus do ocidente, Noam Chomsky, considera como “a maior prisão a céu aberto do mundo”.  Diz Chomsky, evidenciando os propósitos das políticas de dominação de nações detentoras dos avanços tecnológicas e controladoras de grandes riquezas: “cujo propósito não é senão humilhar e rebaixar a população palestina e ulteriormente garantir tanto o esmagamento das esperanças de um futuro decente quanto a nulidade do vasto apoio internacional para um acordo diplomático que sancione os direitos a essas esperanças.”

Não por culpa dos Judeus, mas por um mistura do Estado de Israel com o projeto Imperial dos Estados Unidos, especialmente na região mais promissora em Petróleo ao fim da Segunda Guerra Mundial, praticamente tornando Israel em mais uma Unidade dos EUA. Assim como foi o Havaí tão distante. A situação hoje de Israel e seu Exército tornando prisioneiros aos palestinos, matando-os e destruindo seus prédios, tem um dor cruel: o mesmo valor insensível e odioso dos genocidas dos judeus na Alemanha Nazista.

Mas copiando Caetano o Gil volto-me para as nossas faixas de gaza, pois estas estão aqui mesmo em nossa cidade. Se formos passear nas mentes assustadas e cheias de ódio que praticamente surtam diante de eventuais “crimes” contra o patrimônio feito por algum morador de nossos bairros populares como a Batateira, por exemplo. Ao invés de se observar o crime, suas razões agravantes e atenuantes, o amplo direito de defesa e o poder de punir da justiça, toma-se de uma cultura punitiva contra todo um bairro. A Batateira se torna, especialmente na mídia “escandalosa”, nas rodas “familiares” que advogam um individualismo exacerbado e consumista e, por isso mesmo, na voz de políticos oportunistas, numa “faixa de gaza” a ser atacada.

O bairro da Batateira como um equivalente à Faixa de Gaza funciona no imaginário punitivo de setores da nossa cidade com o mesmo valor extremado de ampla maioria no Estado de Israel. A cegueira de injustiça, justaposta à luz da Justiça é o que mais temos para refletir sobre qual a cultura urbana e social que o nosso país deseja. É certo que há uma ampla força trabalhando para reproduzir “ad nauseam” as faixas de gaza, mas certamente temos que nos organizar para construir a contradição a isso para em seguida extrair a síntese de uma sociedade democrática.    

domingo, 25 de novembro de 2012

O ódio (singular absoluto) a Lula

Lula é um político brasileiro com defeitos e virtudes. Se você não conseguir ver uma coisa ou outra é porque, certamente, a cegueira da paixão ou do ódio está tomando o seu corpo como um câncer.

O que se percebe no caso de Lula é que o ódio intenso tenta, sobremaneira, vencer o amor intenso. É uma luta. A luta entre o amor e o ódio a esse personagem da história brasileira.

Outros já experimentaram do mesmo fel. Mas não sei se há concorrentes para Lula. Talvez nem Getúlio.

Quantitativamente, Lula está em vantagem. Mas os odiadores acreditam que seu ódio seria de melhor qualidade, uma espécie de crème de la crème do ódio - um ódio insuperável por qualquer amor de multidões.

É um ódio cultivado com gotas de ira diárias nas páginas dos jornais. E de revistas. Cultivado com olhos de sangue, faca entre os dentes, espinhos nas pontas dos dedos.

Só nos últimos meses, Lula já "esteve" por trás do relatório do CPI da Cachoeira, teve caso com a mulher presa na última operação da PF, já tentou adiar o julgamento, já produziu provas para se vingar de Perillo (porque ele teria sido o primeiro a avisá-lo do mensalão), já tentou subornar Deus para que terminasse a obra no domingo.

A paixão amorosa conhecemos bem. Vem daqueles que se identificaram com ele e com ele conseguiram ser lembrados pela primeira vez na história da política brasileira: seja pelos programas sociais, seja pela ascensão econômica, ou até simplesmente pelas características pessoais, culturais e linguísticas. Vem também do louvor à camisa, ao vermelho da camisa do PT.

Mas encontrar representantes do ódio não é tão difícil também. E, como qualquer sentimento que desafie a racionalidade, eles encontrarão justificativas em qualquer coisa.

Mesmo que o ódio se disfarce de termos falsamente conceituais (lulo-petismo, lulo-comunismo, lulo-qualquercoisismo), o ódio a Lula não é um ódio-conceito. Não é abstrato. É material. Corpóreo. Figadal. Biliar. Visceral.

Também não é ódio consequência. Não é um "ódio, porque..." É um "ódio ódio", um ódio em si mesmo, um ódio singular absoluto, que se disfarça de motivos: linguísticos, culturais, morais, econômicos, etc, mas sempre ódio.

Lula já foi acusado de trair a mulher, de violentar o companheiro de cela, de roubar o Brasil, de pentecostalizar a África, de fortalecer "ditaduras" latino-americanas, africanas, asiáticas, de se curar do câncer em hospital particular (sim, uma acusação), de assassinar passageiros de avião, de dar o título à Vila Isabel, de provocar a fuga do vilão no final da novela das oito; já foi acusado de dançar festa junina, de beber vinho caro, de torcer para o Corinthians, de comer buchada de bode, de ter amputado o próprio dedo para receber pensão, de ter a voz rouca, de ser gente, de estar vivo, de ter nascido...

Só um conselho para os odiadores: o inverso do amor não é o ódio, mas a indiferença. No caso em questão, o ódio só acentua e inflama a paixão daqueles que, em maioria dos votos, acabarão levando vantagem.

Sejam indiferentes a Lula, e a história se encarregará de fazer o resto.
(Transcrito do blog do Luis Nassif).

Por todas as vezes com Vieira, Cabral e Parente - José do Vale Pinheiro Feitosa

Castigo - Dolores Duran

Por todas as vezes que a facilidade de tê-lo como uma extensão do conteúdo natural, por isso mesmo equalizado e deste modo reduzido os altos do que era, simultaneamente, o mais agudo ou grave de sua personalidade. Quando somos parte da vida de um personagem assim só algum tempo depois, mas nem sempre, percebemos as verdadeiras dimensões daquele ser em plenitude. Falo do Padre Antonio Vieira, irmão de Manoel Baptista Vieira e tio do José Flávio.

Se soubesse o que sei agora, seria mais substancial tê-lo tão próximo e daí tecendo a vida ao invés de deixar simplesmente o tempo correr.

Por todas as vezes que brincava com a sua locução apressada, suprimindo sílabas, e desse modo fazendo o que toda cidade do interior costumava fazer ao criar personagens nas quais se reflete. E, no entanto, apesar de ser uma locução que fugia a todos os parâmetros daqueles tempos de impostação, não fora somente ali que sua substancial contribuição se dera. Foi no conteúdo informativo, na base constitutiva da uma história. Foi no tratamento incansável desse conteúdo, sem jamais aposentar-se do que considera o processo de viver. Falo de Huberto Cabral, irmão de Bernadete e Sara, pai de Germana a discreta e substantiva jornalista entre aqueles que pontuam no jornalismo cearense.

Se soubesse naquele tempo o mundo que Huberto Cabral transporta no curso do tempo em nome do Crato, não teria perdido tantos dias e noites a compreender o tempo que ele, pelo tanto que passou, outro que acontece já formulando o futuro consegue limpar no cascalho do esquecimento.

Por todas as vezes que não o considerava maior do que o anonimato, apesar do seu talento musical, simultaneamente surgindo e sendo posto como detalhe de um nome solar da Música Popular Brasileira. Por verdade que a posição de um emprego estável e de boa referência social o tenha relativamente acomodado enquanto Luiz Gonzaga vivia o remanso de seu caudal de sucesso num semiexílio em sua Nova Exu. De qualquer modo Hildelito Parente, no seu mundo particular, sem ter sido um músico profissional, é a força da música nordestina no que ela tem de muito verdadeira.

Se soubesse como já naquele tempo Hildelito Parente tinha a força que tinha, por certo que não o veria como um personagem da vida social na AABB ou na praça em conversa amena. Hildelito representa a ousadia que ultrapassa todas as maneiras de classificar as pessoas: é apenas aparente aquela timidez quase humilde, ele tem uma Chapada inteira a expressar sobre o tempo e o espaço.

Mas sabemos que os personagens não maiores pelo que são em igualdade sincera ao que tentamos ser e somos verdadeiramente.  

Quando eu me Chamar Saudade - Elizeth Cardoso e de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

sábado, 24 de novembro de 2012

Rebento querido - José Nilton Mariano Saraiva

Filho de ex-ministro é levado para delegacia após acidente de trânsito
Ciro Saboya Ferreira Gomes, 27, foi preso na manhã deste sábado, por volta das sete da manhã, após se envolver em um acidente de carro no cruzamento das ruas Ildefonso Albano com Costa Barros, no bairro Aldeota. Chamados ao local, policiais militares deram voz de prisão a Ciro, acusando-o inicialmente de desacato e de ter se recusado a fazer o teste do bafômetro.

Ao ser detido, Ciro foi levado para o 2º Distrito Policial, no bairro Meireles. Logo que soube da ocorrência, o pai de Ciro, o ex-ministro Ciro Ferreira Gomes, também foi acompanhá-lo na delegacia. O delegado geral da Polícia Civil, Luís Carlos Dantas, esteve no 2º DP. Por volta das 11h30min, após prestar depoimento, o jovem foi liberado.

Ciro dirigia um Honda Fit preto quando colidiu com um Fox prata. Havia duas pessoas no outro veículo e pelo menos uma delas saiu ferida. Policiais informaram à imprensa que o jovem apresentava sinais de embriaguez. O carro de Ciro foi apreendido porque estava com licenciamento atrasado.
OBS:
Na nota acima, publicada no site do jornal O POVO, faltou um “pequeno detalhe”: segundo divulgado pela televisão Verdes Mares, a Polícia teria encontrado certa quantidade de MACONHA no interior do veículo. Aliás, não é a primeira vez que referida figura se mete em encrenca (e sempre reage com arrogância e desrespeitando a autoridade competente).

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Colaboração de Altina Siebra


Meu coração fica junto ao coração dela..."

"“A boca fala do que está cheio o coração”: esse é um ditado da sabedoria judaica, que se encontra nas Escrituras Sagradas. Bem que poderia ser a explicação sumária daquilo que a psicanálise tenta fazer: ouvir o que a boca fala para se chegar ao que o coração sente. Acontece comigo. Cada texto é uma revelação do coração de quem escreve.

Pois o meu coração ficou cheio com uma coisa que me disse minha neta Camila, de onze anos. O que ela falou fez meu coração doer. Como resultado fico pensando e falando sempre a mesma coisa.

A Camila estava na sala da televisão sozinha, chorando. Fui conversar com ela para saber o que estava acontecendo. E foi isso que ela me disse: “Vovô, quando eu vejo uma pessoa sofrendo eu sofro também. O meu coração fica junto ao coração dela...”

Percebi que o coração da Camila conhecia aquilo que se chama “compaixão”. Compaixão, no seu sentido etimológico, quer dizer “sofrer com”. Não estou sofrendo. Mas vejo uma pessoa sofrer. Aí eu sofro com ela. Ponho o outro dentro de mim. Esse é o sentido do Amor: ter o outro dentro da gente. O apóstolo Paulo escreveu que posso dar tudo o que tenho aos pobres, mas se me faltar o amor, nada serei. Porque posso dar com as mãos sem que o coração esteja a sentir. A compaixão é uma maneira de sentir. E dela que brota a ética. Alguém foi se aconselhar com Santo Agostinho sobre o que fazer numa determinada situação. Ele respondeu curto e definitivo: “Ama e faze o que quiseres.” Pois não é óbvio? Se tenho compaixão nada de mal poderei fazer a quem quer que seja.

Fernando Pessoa escreveu um curto poema em que descreve a sua compaixão. Por favor, leia devagar: “Aquele arbusto fenece, e vai com ele parte da minha vida. Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo. Nem distingue a memória do que vi do que fui”. Compaixão por um arbusto... Ele explica esse mistério da alma humana dizendo que “em tudo quando olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa passo...” Os olhos, movidos pela compaixão, o faziam participante da sorte do pequeno arbusto...

Eu já sabia disso. Mas nunca havia enchido o meu coração ao ponto de doer. Doeu porque liguei a fala da Camila a essa tristeza que está acontecendo no Brasil.

Os corruptos são homens que passaram pelas escolas, são portadores de muitos saberes. Tendo tantos saberes, o que lhes falta? Falta-lhes compaixão.

A falta de compaixão é uma perturbação do olhar. Olhamos, vemos, mas a coisa que vemos fica fora de nós. Vejo os velhos e posso até mesmo escrever uma tese sobre eles, se eu for um professor universitário. Mas a tristeza do velho é só dele, não entra dentro de mim. Durmo bem. Nossas florestas vão aos poucos se transformando em desertos mas isso não me faz sofrer. Não as sinto como uma ferida na minha carne. Vejo as crianças mendigando nos semáforos mas não me sinto uma criança mendigando num semáforo. Vejo os meus alunos nas salas de aulas, mas meu dever de professor é dar o programa e não sentir o que os meus alunos estão sentindo.

De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico. Parece que a inteligência dos maus é mais poderosa que a inteligência dos bons.

Sabemos como ensinar saberes. Há muita ciência escrita sobre isso. Mas não me lembro de nenhum texto pedagógico que se proponha a ensinar a compaixão. Talvez o livrinho de Janucz Korczak Como amar uma criança . Mas Korczak é uma exceção. Ele sabia que para se ensinar algo a uma criança é preciso amá-la primeiro. Korczak era um romântico... Por isso o amo...

Aí fiz a mim mesmo uma pergunta pedagógica: “Como ensinar a compaixão? Conversando sobre isso com minha filha Raquel, arquiteta, ela se lembrou de um incidente dos seus primeiros anos de escola, quando menina de sete anos. Seria o aniversário da faxineira, uma mulher que todos amavam. A classe se reuniu para escolher o seu presente. Ganhou por unanimidade que, no dia do seu aniversário, as crianças fariam o seu trabalho de faxina. Disse-me a Raquel que a faxineira chorou...

Sei que as crianças aprendem com o olhar, o olhar das professoras. Elas sabem quando as professoras as olham com os mesmos olhos com que Fernando Pessoa olhava o arbusto. Sei também que as estórias provocam compaixão, quando o leitor se identifica com um personagem. Sei de um menininho que se pôs a chorar ao final da estória O patinho que não aprendeu a voar. Ele teve compaixão do patinho. Identificou- se com ele. Vai carregar o patinho dentro de si embora o patinho não exista. Lemos estórias para as crianças e para nós mesmos não só para ensinar a língua mas para ensinar a compaixão.

Mas continuo perdido. Preciso que vocês me ajudem. Como se pode ensinar a compaixão?
Rubem Alves
               
  

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

PÃES DA VIDA - José do Vale Pinheiro Feitosa


Do Posto 4 em Copacabana, saindo da Constante Ramos, seguindo por Ipanema até a Afrânio de Mello Franco logo após o Jardim de Alá. Daí até a Lagoa Rodrigo de Freitas e passando pela sede de Remo do Flamengo, até um pouco além da sede de Remo do Vasco e entrando na Rua Maria Angélica no Jardim Botânico.

No varejo, no solado do pé, encontra-se a poupança da fama da cidade. Ainda em Copacabana o Márcio Braga, ex-presidente do Flamengo, Deputado Federal e dono de Cartório, teima em andar na ciclovia quando tem o calçadão inteiro para dividir com outros. Mais à frente o Nilo Batista, criminalista, ex-Governador do Estado com sua companheira Vera Malagutti. Adiante é o próprio Cangaceiro, alto, rosto fechado e passo certeiro, passou o Zé Ramalho. O Ruy Castro arredondou-se e formatou-se como um farto barril de Chopp. Bom a poupança da fama é vasta, mas não é nos calçadões de Copacabana, Ipanema e Leblon que minha narrativa ficará.

Logo na chegada à Lagoa, em frente ao Flamengo, avisto adiante todo o círculo da minha atenção. Uma mulher de estatura mediana, mais para magra, muito branca e com cabelos louros, quase prata. Veste uma bermuda creme claro, blusa branca com listras azuis marinho em sentido horizontal, como estampas de prisioneiros. Os tênis roubam as minhas pupilas: um róseo intenso, diria que solferino. A cabeça coberta com um chapéu branco, de tecido de modo que as abas deitam e balançam ao caminhar.

Ela segue num ritmo apressado de modo que é quase impossível acompanhá-la. Mas tento não perder o contato e sigo com curiosidade. Ela dobra na ciclovia e passa junto à montagem da Árvore de Natal da Lagoa já muito próxima de ser iluminada num sábado festivo. Minha atenção continua com a mulher e por isso percebo que ela se afasta da pista e vai até a beira da água e joga algo nela. É como se tivesse brincando de jogar pedras.

E vou ao encalço de sua movimentação. O caminhar dela excede à mediocridade: é um andar vivo, agitado, balançando de um lado para outro e os ombros com movimentos laterais e verticais. A cabeça pendula independente do tronco e seu rosto se desvia constantemente aos limites da paisagem, mas centra-se na margem da Lagoa. E preciso esforçar-me para acompanha-la.

Logo após o Clube Piraquê ela desaparece, mas logo a avisto na beira da Lagoa jogando algo novamente. Então percebo do que se trata: ela joga pedaços de pão para as aves que vivem na e da vegetação peri-lagunar: como o socozinho, o savacu, várias garças e inclusive o biguá. Mesmo com estas breves saídas eu não consigo chegar perto a ponto e examinar seu rosto. Ela segue na mesma marcha apressada.

E passo a notar outras características do seu caminhar: o braço direito normalmente é fixo com a mão segurando o canto anteroinferior de uma grande bolsa de pano branco onde ela carrega os pães para alimentar as aves. O braço esquerdo agita-se para frente e para trás e por vezes ao lado se afastando do seu corpo. Ela é um todo agitado e sai mais uma vez para, igual a Maria do João e Maria da história de fadas, deitar as migalhas de pão ao chão.

Foi aí que percebi a história. Aquilo tudo tinha um significado narrativo. Os socozinhos logo que a viram correram em direção a ela para então receber o alimento. Aí toda aquela observação passou a ter um sentido. As aves as reconhecem independente de antes ter sido lançado o pedaço de pão. Elas correm tão logo percebem a aproximação daquela mulher entre milhares de pessoas que circulam diariamente pela beira da Lagoa. E a curiosidade atormentou-me ainda mais.

Apressei o passo a ponto de que numa dessas saídas dela pude ver-lhe o rosto. Uma mulher nas vizinhanças entre a segunda metade dos cinquenta ou a primeira metade dos sessenta anos. Óculos escuros, rosto de nariz muito afilado, boca de lábios finos e queixo levemente pontudo, embora a face fosse mais arredondada do que cumprida, embora magra. Aí fiquei entre a conveniência ou não de perguntar-lhe se de fato as aves a reconheciam. Mas a estranheza das ruas é tamanha que é preciso ousadia para não encontrar um dissabor.

Estava naquela curiosidade endividada quando novamente ela vem apressada e passa ao meu lado e pergunto: eu percebi que as aves correram assim que ti viram. Elas te reconhecem?

Sim. Logo que me aproximo.

Você faz isso há muitos anos?

Muitos. Mas é preciso usar sempre esse chapéu. Se for outro elas não reconhecem.

E seguiu no passo apressado dela jogando pão para as aves da Lagoa. Eu fui maneirando o ritmo, estava chegando a hora de entrar na Rua Maria Angélica.

Como a Lagoa é circular, igual a um socozinho, espero encontrar o retorno daqueles pães da vida no próximo dia.     

terça-feira, 20 de novembro de 2012


A Guerra Vem Aí? - José do Vale Pinheiro Feitosa


As interpretações geopolíticas do violento ataque de Israel à Faixa de Gaza dão conta de uma ação conjunta Americano-Israelense que interessam às eleições de Netanyahu, à futura campanha de Hillary Clinton para substituir Obama, a testes de mísseis Israelenses e a treinamento para um futuro ataque ao Irã. O ataque israelense começou com um chefe militar do Hamas, matando-o com uma ação pontual de um míssil enquanto este era um negociador da paz.

No meio da fumaça e do sangue palestino, inclusive de crianças, quem sumiu do noticiário foi a Síria. A Líbia já não existe mais do ponto de vista da mídia ocidental. Surge o Egito como protagonista num jogo de balanço que não tem um toque militar, mas serve de protagonismo para Israel cessar os ataques por algumas horas. Quando parecia haver uma coincidência entre Israel e a Turquia em relação a mísseis lançados em direção à fronteira da Síria, eis que Erdogan critica Netanyahu.

O que se tem disso tudo? É que uma zona rica em recursos estratégicos para as economias em crise está aparecendo continuamente em matéria de conflito e morte. Isso parece um ensaio para as portas de um “body-trip” como evocavam os viajantes psicodélicos. Estará o mundo a eviscerar o verdadeiro sentido da atual crise do capitalismo? Aquelas mesmas crises que redundaram numa grande guerra distribuída em dois estágios: primeiro e segundo.

Faltaria o elemento geográfico da guerra? Afinal os atuais atores para um grande conflitos são intercontinentais, não se configuram apenas no território de um continente como foi inicialmente a Europa e só depois o Japão com o Eixo. Mas aí é que vem a questão do Oriente Médio. É o ponto onde o enredo intercontinental tenebroso se desencadeará envolvendo todo o sudeste Asiático, novamente o Japão e aí os rugidos maiores: a China e os EUA.

Nós aqui na América Latina somos parte desse conflito que como deve ser ressaltado não é meramente militar. O aspecto militar e o terror das mortes é uma superestrutura daquilo que a crise da estrutura econômica do capitalismo passa. Num grande conflito, todas as operações financeiras e comerciais se desarranjam e isso significa desabastecimento, redução da produção, enorme impacto ambiental e uma depressão simultânea a grandes conflitos sociais até nos bairros onde vivemos. 

Haverá um dia seguinte ao conflito? É da natureza da esperança humana, mas isso é desconhecido: pela primeira vez o desespero pode andar junto com bombas atômicas e outras estratégias de destruição em massa, além de grandes desarranjos físicos nas estruturas de reservas de água, de fontes de energia e assim por diante. Basta recordarmos a primeira guerra do golfo com as imagens dos pássaros afogados em petróleo para termos um símbolo do impacto ambiental.

Um cenário desse é um desespero dado que recente relatório da ONU aponta com clareza o efeito do aquecimento global e já associa claramente as recentes tempestades na América Central e Norte a esse processo. Os relatórios já apontam as áreas costeiras sujeitas a impactos mais próximos no tempo do que se imaginou. Com uma guerra de grandes proporções isso tudo pode tornar o “lar humano” numa esquife à memória, mas sem testemunhas a relembrar. Restarão apenas as teias de aranha entre uma tumba e outra.

Nossos blogs andam tão desanimados em comentários que peço se você conseguiu ler até aqui, pelo menos manifeste que o leu.  

Viva , infância feliz!


Sophia faz aniversário.
Vejo-me aos quatro anos, complexada por ser a mocinha da classe, e ainda estar no meio das garotinhas. Mas ela possui a irreverência e espontaneidade que eu não tinha. É livre, danada, e feliz!
Compartilho com esta menina um mundo de fadas em que vivi, e dele nunca sai... A realidade cuida em colocar os nossos pés fincados no caminho do destino. Às vezes pulamos degraus, mas a brincadeira nos manda retornar ao ponto inicial.
Aprendi que não precisamos da  pressa... Nem pra nascer, comer, amar,  morrer... Tudo tem seu gosto, se a vontade de proceder, estiver associada ao momento certo.
O incerto é previsível... Aí, Deus que nos proteja!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

José Mendes de Sá Roriz um Cratense Torturado e Morto - José do Vale Pinheiro Feitosa


Uma coisa interessante na história do Ceará é a participação de sua gente nos grandes eventos históricos do país. Não vou citar amplamente quadros da literatura, pintura, heróis, historiadores, fundadores de religião e assim por diante. Vou lembrar a contribuição de cearenses para as fileiras do Partido Comunista Brasileiro e por este engajamento viveram grandes perigos em sua vida.

O Médico Isnard Teixeira foi uma referência importantíssima, tendo vivido na Bahia e aqui no Rio orientou muita gente, entre elas Carlos Marighella. Quadros importantes do PCB eram cearenses, mas vou destacar uma pessoa muito especial: José Mendes de Sá Roriz.

Nasceu no Crato em 1927, filho de Belarmino de Sá Roriz e Leonina Mendes de Sá Roriz. Lutou na segunda guerra mundial, recebeu inúmeras condecorações e ali perdeu um olho. Durante um ataque na Itália Sá Roriz com risco de morte salvou a vida do General Cordeiro de Farias.

Reformado como 2º Sargento foi morar no Rio de Janeiro onde entrou para o PCB. Participou em movimentos sindicais, foi candidato a deputado federal e membro do Grupo do 11 fundado por Brizola.

Com o golpe de 64 foi preso, torturado e em 1965 foi exilado para o México. Lá ficou até 69 quando resolveu retornar ao Brasil pois um dos filhos estava com uma grave doença. Retornou clandestino.

A família de Sá Roriz vivia sendo presa para forçar o encontro dele. Em 28 de março de 1973 quadros da repressão invadiram sua casa, prenderam e torturaram seu filho mais novo de 17 e toda a família ameaçada até que Sá Roriz se apresentasse. Sá Roriz apresentou-se ao Marechal Cordeiro de Farias a quem salvara a vida, o filho foi libertado e Sá Roriz ficou 17 dias no DOI-CODI/RJ onde foi morto.

Esta história é para lembrar-nos que o ser humano se encontra sempre em primeiro lugar. Por isso mesmo práticas políticas violentas podem ser até justificadas na história, mas quando um país é tomado por um grupo político que “terceiriza” a violência para grupos a política é ferida e a corrupção humana mais perversa prevalece.

Espero que os gritos contra a corrupção não se tomem de espírito apenas pelos cofres públicos, mas tomem de horror igual e ao mesmo tempo pelo acúmulo de riquezas e pelos assassinos de alugueis e por aquele s que usurpam o poder popular para lhes perseguir.  



A Fala do Misantropo - José do Vale Pinheiro Feitosa


Jamais! Mostraria meu riso de satisfação a alguém. Minha alegria interior expô-la a esta gente gosmenta da qual guardo distância. Esta gosma que ri para balançar o rabo a seus ídolos e patronos. Que muda de ideia conforme os ventos assim como uma biruta de aeroporto.

Prefiro os becos desertos, os confins rurais, a imensidão da praia e apenas os siris. Tudo que é humano é falso e circunstancial. Trapos que abrem guarda-chuvas se os pingos caem, esfregam filtro solar quando a luz amanhece, entornam fermentados em natura ou destilados para se dispersarem no esquecimento que, afinal, nada  conseguem juntar.

Mais do que vacas mansas de presépio, se encontram na tropelia de porcos em disputa pela lavagem na cocheira. Suas abocanhadas antes das outras e por isso mesmo distribuída em duelos de abocanhadas entre si. São meros saqueadores de partes de outrem com a satisfação de enfeitar-se de um poder e visual que não possuem.

E tomo distância das suas invencionices, dos seus arroubos de arte, das artimanhas de suas narrativas e ideias. Tudo o que resta é uma balburdia resumida a eles mesmos. Apenas eles se entendem e sentem o que sentem não se sabe por qual sublimação da idiotice genérica.  

Mesmo os edifícios que são as suas expressões materiais na crosta do mundo se tornam rochas ocas a se deteriorarem rapidamente. As obras de arte, todas elas, expressionistas, figurativas, livros, artesanatos ou que mais houver, são a mais absoluta solidão do ser. E intenção mesmo que sob o sigma do absoluto nonsense tudo se resumirá ao que todas as obras humanas são: a solidão humana de sua compreensão. Apenas eles a entenderão. De resto serão apenas acidentes geográficos.

Tenho asco do contado desta gente. Nada do que lhes é símbolo perde o putrefato sentido de suas entranhas. Os suores, os cheiros, os dejetos, as caspas que se despregam do couro cabeludo, o sebo que brilha na testa e o esmegma da sujeira genital. Tenho nojo destes fluidos seminais que misturados geram estes seres sebosos, ensanguentados e melados de uma gosma viscosa à vista de um trançado e descartável cordão umbilical.

As eructações da gororoba ingerida e depois tornada um suco gástrico azedo que sobe feito uma chaminé em busca de uma saída diretamente às narinas que se deleitam com perfumes e se enojam com tais odores. O que não se dirá da extrema derrota da vida: entre roncos e sopros de esforço, com as pernas dobradas para não receber o conteúdo, destas veias cheias do pescoço e a vermelhidão do rosto a expulsão o bolo alimentar fétido das bactérias intestinais.

Detesto tudo que é humano e por isso estou longe desta humanidade degenerada. Vinculado a mim mesmo, sem outro móvel de repulsão. Sem a quem repulsar. Repulsar.

A mim mesmo. Pleno do mesmo fato da mesma natureza adversa. A minha pessoa física.   

domingo, 18 de novembro de 2012

O Supremo Tribunal Federal Condenou Olga Prestes - José do Vale Pinheiro Feitosa


Os punhos cerrados e o ódio acelerado recomendam aos contemporâneos dos fatos a razão do tempo até que o equilíbrio se restabeleça e as pessoas possam viver sem sangrar rotineiramente. Quem leu o recente livro Marighella o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, escrito pelo jornalista Mário Magalhães há de perceber quanto os meios de comunicação são meros estímulos a punhos e ódios. Marighella em 35 é pintado com todas as humilhações pela redação a serviço das elites e do regime e em 45 como herói contra a ditadura. Bastava que se pensasse um pouco mais para compreender a razão pela qual em 27 de Agosto de 1947 o Supremo Tribunal Federal negou a extradição de um estrangeiro casado com uma brasileira, pois esta estava grávida e esse mesmo STF onze anos antes, em 21 de março de 1936 expulsou Olga Benário do País, recusando-se a testar seu estado de gravidez e permitindo que o Governo brasileiro a entregasse ao governo Nazista que a assassinou tão logo a filha nasceu.  

O Supremo Tribunal Federal com um provável parecer jurídico do famoso jurista Clóvis Bevilácqua, consultor Jurídico do Itamaraty aposentado – natural de Viçosa do Ceará e filho do Padre José Beviláqua e Martiniana Maria – votou pela expulsão de Olga Benário com o seguinte acórdão: A Corte Suprema, indeferindo não somente a requisição dos autos do respectivo processo administrativo, como também o comparecimento da paciente e bem a assim a perícia médica a fim de constatar o seu alegado estado de alta gravidez. E desse modo sem ao menos permitir que uma junta médica atestasse a gravidez de Olga os Excelentíssimos Senhores Juízes do Supremos Tribunal Federal assinaram contra o impedimento e, portanto, pela permissão da expulsão de Olga o Edmundo Pereira Lins pela Presidência e Bento de Faria o Relator. Votaram a favor: Hermenegildo de Barros (Vice-Presidência), Plínio Casado, Laudo de Camargo, Costa Manso, Octávio Kelly, Ataulfo de Paiva, Carlos Maximiliano, Carvalho Mourão e Eduardo Espínola. Unânimes num crime histórico.

Uma ressalva: já estamos falando aí nas decisões finais, pois analisamos um requerimento da ré, Olga Benário, detida na Casa de Detenção, impetrada pelo seu Advogado Heitor Lima. A biografia de todos os envolvidos vem ao caso, especialmente dos Membros do Supremo Tribunal Federal, uma vez que não são meros agentes da política, mas instituições dos poderes do Estado. O Presidente que assina a permissão da expulsão o relator Bento de Faria era um burocrata do direito nomeado para STF pelo autoritário Artur Bernardes que governou quase inteiramente em Estado do Sítio.   

Apenas para lembrar a citação de um dos ministros que votaram por entregar Olga para um Campo de Concentração Nazista: “Toda lei é obra humana e aplicada por homens; portanto imperfeita na forma e no fundo, e dará duvidosos resultados práticos, se não verificarem com esmero, o sentido e o alcance de suas prescrições”. E nisso vem a nossa perplexidade: como alguém pode pensar e não perceber o que fazia naquele ato? É que a tecnicidade a que muitos chamam de mérito é um instrumento contaminado a serviço do poder. Especialmente o poder discricionário. Quando a vida econômica é luxuosa, os mídias adulam e estimulam a vaidade no extremo da idiotice, a tecnicidade de um Celso de Mello é manjar do Olimpo.

A verdade é que a Olga, não se pode negar o desconhecimento dos Ministros daqueles momentos de atrocidades humanas, pois não ocorriam apenas no além mar, mas ali perto, alguns quarteirões entre o Supremo na Avenida Rio Branco e o Quartel da Polícia no Morro de Santo Antonio. Olga não era um monstro, fora enviada por demanda da Polícia Política Alemã e em sua correspondência com Prestes desde o Campo de Concentração onde afinal teve a filha o foi assassinada escreveu após a filha lhe ter sido retirada: Desde que Anita me deixou, mantenho todos os dias longas, longas conversas contigo. Que possa vir o dia em que estejamos novamente juntos! Abraço-te de todo o coração. Tua Olga.

Por isso mesmo estes arrufos tomando por base o Supremo com uma verdade última mostra-se mesmo uma vingança de punhos e ódios, sobretudo. Aliás, hoje vou marcar a frase da Presidenta Dilma para o Jornal El Pais sobre o julgamento do Mensalão  afirmando que como Presidenta da República não poderia se manifestar sobre decisões da Suprema Corte e completou: “Acato suas sentenças. Não as discuto. O que não significa que ninguém nesse mundo de Deus está por cima dos erros e das paixões humanas.” (O grifo é meu).



Amar verbo incondicional - José do Vale Pinheiro Feitosa







OUÇA A MÚSICA ENQUANTO SEGUE O POEMA


eu amo teus olhos baços,
não como lembrança do brilho de outrora,
amo as luzes finas,
penumbras que traduzem detalhes,
pupilas que escondem universos,
pálpebras pregueadas de resguardos,
amo teu olhar lento,
penetrando o irrevelado,
e assim me deixa leve,
leve de palavras não ditas.

como amo tuas rugas universais,
cada trajeto de tuas veias tortas,
as vigas musculares de tuas mãos,
as manchas solares de teu corpo,
amo a trajetória no tempo,
a longa espera dos espaços,
amo a delicadeza de tua pele frágil,
cada detalhe da superfície de teu mundo,
este mundo ao qual gravito.

amo teus cabelos opacos,
a rebeldia dos fios esquecidos da cor,
cada mecha que diz: até aqui vivi,
o modo displicente que parece pouco,
quando na verdade foram muitos anos,
e tantos que parecem evocativo sésamo,
sobre os ombros como se nunca houvesse fim.

amo tua coragem de viver,
pois a beleza não é estética plástica,
é um pouco de forma, um tanto conteúdo,
como uma fera que teima sobreviver,
uma criança que deita-se no colo para sonhar,

amo tua virtude de envelhecer,
sendo outra a cada passo
e a mesma no horizonte,
amo teu ardor de viver,
pois beleza não é grade da juventude,
ela é o que meus olhos amam,
como amo teus olhos baços,
tuas rugas universais,
teus cabelos opacos,
subterfúgio para amar tua coragem.