por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
quarta-feira, 4 de abril de 2012
NEWTON TEIXEIRA- Norma Hauer
terça-feira, 3 de abril de 2012
PATATIVA DO ASSARÉ
As Escolhas da Mídia - José do Vale Pinheiro Feitosa
Os temas da mídia nestas duas semanas se galvanizaram entre dois: Demóstenes Torres e a Guerra das Malvinas. O primeiro tema é a exposição de um cacoete da mídia e ao mesmo tempo a crítica deste cacoete. A mídia adora um escândalo público, isso vende e estimula a prece moralista do nosso conservadorismo com a sina do privilégio. É o mesmo conservador que tem um bico público, sonega, gosta de uma vantagenzinha e de vez em quanto até suborna um agente público. Dirige bêbado e com um barato na cuca.
A crítica é a aliança da mídia com um submundo criminoso como a melhor prática de tomar partido contra o governo. Uma diretora da Folha de São Paulo até chegou a anunciar que a mídia fazia o papel que a oposição não tinha competência para fazer. Aí entra o Carlinhos Cachoeira e o Senador Demóstenes com os “artifícios” de buscar furos para uma verdadeira cadeia midiática formada por Veja, Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e Rede Globo tocarem no mesmo diapasão. Uma cadeia intestina de repercussão simplesmente sem qualquer crítica aos fatos.
E a prova é o seguinte: o Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres são personagens de Goiás. E a capital de Goiás não é Goiana, é Brasília. Quem alimenta a vida política, econômica e trama as punhaladas nas costas no jogo do poder é uma mancha urbana que vai até Anápolis. Não é a toa que o “empresário” Cachoeira era dono de um poderoso laboratório de medicamentos genéricos. Como sabemos o genérico brasileiro é uma política pública formulada pelo Ex-Ministro da Saúde Jamil Haddad, mas implementada a toque de caixa pelo também ex-Ministro da Pasta, José Serra. A menor crítica que se tem aos genéricos brasileiros é a de que as medidas de bioequivalência não estão obrigatoriamente postas na cadeia de qualidade destes medicamentos.
A Guerra das Malvinas está no mesmo contexto dos conflitos guerreiros no mundo atual. A Inglaterra tem uma cabeça de ponte no Atlântico Sul e militariza a região contra os países localizados no Cone Sul. Os ingleses estão ali por eles e pelos EUA. Qualquer interesse estratégico destas nações torna as Malvinas numa base de ataque à Argentina, Uruguai e Brasil. Por isso tanto ontem como agora, os brasileiros e argentinos sentem a necessidade de afastarem a ameaça do continente. As Malvinas continuam um problema estratégico a requerer coordenação continental da América do Sul.
Duas notícias andaram na periferia da mídia, mas são uma explicitação exuberante da nossa pós-modernidade. Uma delas é de que homens do Zimbábue morrem de medo das mulheres que roubam sêmen. Usam sêmen em rituais e por isso sequestram homens, forçam relações sexuais e enchem várias camisinhas com sêmen para serem utilizados num ritual típico da cultura local. Os homens recusam carona de mulheres e isso é significativo, pois é costume naquele país o uso da carona.
A outra é de que farmacêuticos hospitalares italianos insatisfeitos com o governo lançaram uma campanha sui generis: Vida dura para nós, Nada de Viagra para vocês. E aí surgiu a janela de oportunidade para o pessoal da saúde fazer greve e boicotes a quem os ignora. É antiético reter quimioterápicos para o câncer, mas perfeitamente plausível deixar mole os desejos dos vetustos senhores do poder.
Esperem aí. Só mais uma: o tremendo ato falho do Senador Agripino Maia do DEM do Rio Grande do Norte ao anunciar a desfiliação de Demóstenes Torres. Aliás, o Jornal Nacional escondeu o ato. Diante de toda a imprensa no Senado ele diz: os democratas não convivem com a ética. Logo depois se corrige, mas vale recordar o que tem na internet a respeito dos atos falhos: Ato falho é um equívoco na fala, na memoria em uma atuação física, provocada hipoteticamente pelo inconsciente, isto é, através do ato falho o desejo do inconsciente é realizado. Isto explica o fato de que nenhum gesto, pensamento ou palavra acontece acidentalmente. Os atos falhos são diferentes do erro comum, pois este é resultado da ignorância ou conveniência.
O lugar
segunda-feira, 2 de abril de 2012
MEMÓRIAS DA PANELA ABANDONADA, por António Barbosa Tavares
Cordel de Graça na Praça
Quem gosta de cordel? Os causos contados pelas poesias populares e impressos em livretos apresentam histórias possíveis e impossíveis de acontecerem. Mas também podem falar do Coletivo Camaradas, sobre a Arte ou sobre liberdade. Assim como também podem ser distribuídos na praça! E isto é o que vai acontecer no próximo dia 12 de abril, às 17 horas, na Praça Siqueira Campos, na cidade do Crato.
Os cordéis foram produzidos pelo Coletivo Camaradas, com o apoio do Ministério da Cultura, por meio do Prêmio de Literatura de Cordel - Edição Patativa do Assaré. Durante o lançamento haverá leituras musicadas e dramatizadas de poemas com Jean Alex, Mura Batista, Lilian Carvalho, Edival Dias e brincantes.
Você já pode ir pensando no que vai encontrar nos cordéis. Os títulos que serão lançados no dia 12 são os seguintes: Coletivo Camaradas (Mura Batista), Coletivo: Camaradas (Salete Maria), Quem são esses camaradas? (Nezite Alencar), A arte que humaniza (Adailton Ferreira), Quando a arte humaniza (Maercio Lopes), Libertando através da Arte (Mura Batista) e A brincadeira vai começar (Josenir Lacerda). Os dois primeiros são relançamentos de cordéis já publicados pelos autores.
Os livretos também serão distribuídos durante as ações do Coletivo Camaradas, nas escolas da região e em bibliotecas. Na segunda parte do projeto, a ser realizada em abril, estes sete títulos serão lançados em versão digital. Além dos já lançados em forma impressa, serão adicionados mais dois: A donzela e o cangaceiro (Cacá Araújo) e Auto do Caldeirão (Oswald Barroso).
Venha e conheça mais sobre o Coletivo Camaradas justamente em uma das expressões mais populares da arte: o cordel.
Nunca Mais
Mataram pela TV
Mataram sem ver
Mataram comendo pipoca
Mataram arrotando coca-cola
Coturnos, paletós e batinas
Costumes, propriedades e carnificinas
Bolos, máscaras e mentiras
Corpos, torturas e tiras
Super Homem, Capitão America, Homem Aranha
Entorpecentes e façanhas
Verde, branco, azul e amarelo
Iludiram o povo com e sem chinelo
Cobriram os
Medicis, Castelos, Costas e Joãos
Mas a dor que pariu
As mãos amputadas,
Banhadas de sangue
Fizeram-se vozes
Amplas e irrestritas em que ecoaram
O estrondo: Nunca Mais.
Alexandre Lucas
O menino (Chico Anysio)
MOREIRA DA SILVA-Norma Hauer
Norma Hauer
CLAUDIONOR CRUZ- Norma Hauer
domingo, 1 de abril de 2012
Por Socorro Moreira
Se a gente fechar os olhos
O ouvido está no pé do rádio
Cinema/cartazes/esquina do Grande Hotel
Lápis de giz/cartolina,nanquim
Filme mudo/jornal francês,seriado
-"O maior espetáculo da Terra"!
Tiro do arquivo memória
Um caderninho engraçado
Anotações de todas as histórias
-Debaixo do colchão, meu diário!
A luz apagou
Calor, muito calor
Lágrimas rolando
Tudo no cinema encanta
Luz acesa
Procuro e vejo...
Não vejo!
- The End!
Não existe hiato entre o nosso tempo e espaço - José do Vale Pinheiro Feitosa
Velha amiga eu volto à nossa casa – A nossa casa. A casa onde fui gerado e entre suas paredes interiores experimentei a vida por mim: respirei, vi e ouvi pela primeira vez. E nela posso voltar. Ainda está lá, mais do que secular, muito mais do que minha história no lado de cá.
Já não te encontro alegre, quase humana, Corpo pintado de branco e marrom E uma tristeza no olhar Como se conhecesse dor milenar – Para olhar o canavial da janela da frente, correndo na bagaceira indo brincar no engenho, faminto enquanto as vacas na cocheira abocanham aquela mistura de água, resíduo de algodão e palha de cana cortada. Abocanhadas tão molhadas e ávidas que sinto vontade de também dividir a cachoeira com elas.
Já não te encontro à espera ao pé da porta, Correndo viva e bela ou descansando, Tanto vazio por todo lugar, Tanto silêncio sinto ao chegar, Ao nosso território de brincar – As noitadas de esconde-esconde na suficiência misteriosa da lua cheia. Os corpos suados de tanto correr e o cheiro de terra no cabelo longo das meninas. Apartar-se, apertar-se, esconder-se como se ambos fôssemos ao mesmo tempo corpos resguardados, mas prestes a serem descobertos.
Almoço aos domingos, a velha farra, Todos vão inventando novos segredos, Fica a ausência branca e marrom, E uma tristeza milenar – O rádio participava dos almoços de domingo, mas se juntava, não tomava a cabeceira controlando todos e a todos dividindo como os computadores e as televisões. O rádio naquela melodia entre melancólica e exaltante, da trilha sonora de Moulin Rouge (o antigo filme dos anos 50). A voz ainda mais melancólica de Padre Gonçalo a falar dos filmes que se destacavam. Um contraponto à severidade medieval e a modernidade do cinema.
Mas os meninos voltaram a brincar, Como se ainda sentissem o teu olhar – E aquela casa secular, dos sentimentos milenares, ainda hoje respira vida humana. Uma prima respira, vê e ouve seus ruídos. As filhas da prima já geram outras vidas e a casa se perpetua. E a casa é secular e sujeita ao tempo e ao uso que dela se extraia, do mesmo modo que o nosso planeta. Milenar, gerador de fatos, mas sofrendo as feridas dos pregos em suas paredes, das lascas do seu piso solto e das telhas quebradas de sua cobertura.
Os Presságios de Bruno Pedrosa - José do Vale Pinheiro Feitosa
Entre janeiro e agora tive a oportunidade de acompanhar a obra recente de Bruno Pedrosa em cinco momentos distintos. Duas exposições, uma em Fortaleza (CE) e outra em Niterói (RJ), dois vídeos sobre exposições dele, um na Galeria Stevens em Maastricht na Holanda e outro no Museu de Lucca na Itália, além do catálogo dessa obra denominada presságio.
Nestes dias ao imaginar-me no campo dos interesses intelectuais percebi que venho muito atento à narrativa de vida das pessoas. Tentando decifrar o mundo por elas, até mesmo quando minha curiosidade em entender a dinâmica física e material do universo, ali está o modo com as pessoas o vêm.
E Bruno Pedrosa e sua obra artística têm uma semelhança, nesta fase, tão intensa que descobri, ao ouvir um e olhar o outro, que são o mesmo. Conversar com Bruno é como dialogar com um Conselheiro marchando rápido nas veredas da caatinga.
É impressionante, ao vivo ou em vídeo, observar este “profeta sertanejo” nas finuras da modernidade (ou pós-modernidade) de salão, adotando posturas do ambiente, enquanto vai desconstruindo cada elemento do conjunto ambiental em que se encontra. A maioria das pessoas não percebe a prática, enquanto ele é rápido no raciocínio imediatamente verbalizado, contornando na argumentação sem chocar-se com o dogma explicitado naquele momento, mas com uma agudeza e severidade quase em tom de homilia a revelar presságios sobre este tempo.
Quando nós aqui no Brasil, neste território amplo e socioculturamente desigual, chegamos à frente das pinturas e esculturas de Bruno Pedrosa, numa escala abstrata, e procuramos entende-las com nossos velhos termos dos elementos das obras figurativas, e apenas sentimos, mesmo assim não compreendemos. Pois é, a tendência é achar que a atual obra de Bruno não é objeto de compreensão sendo apenas carimbos de sentimentos e sensações.
Quando um talhador em madeira extrai aquelas imagens de santos feitas em série a nossa tendência é desconsiderar sua história, não perceber a narrativa daquele artesão e até mesmo seus momentos refletidos enquanto entalha a madeira. Os objetos seriados como que apagam este importante papel da arte plástica. Mas com Bruno Pedrosa acontece diferente, pois ao trabalhar ele entra numa espécie de transe narrativo e desta narração vai anunciando seus presságios numa longa homilia que dá até para vê-lo sobre um morro, com os braços compondo os sinais do futuro.
O presságio desta obra é tão intenso, mas não se faz com sinais comuns, eles efetivamente precisam ser decifrados e, no entanto, está ali, tão evidente que ao percebermos até rimos sozinhos. E não adianta conversar com o Bruno, ele não quer saber destes elementos narrativos do cotidiano atual. Neste sentido a sua exuberância ao falar não substitui a obra: Bruno por que você nomeou este quadro com este nome? “Não tem nenhuma relação, apenas usei um nome”.
Não é bem assim. As escolhas para os nomes de sua obra têm o mesmo elemento narrativo de sua obra e todas trazem o prognóstico do que acontecerá com o presente. Por isso estão nomes de seus sertões, de movimentos de peças musicais, estão as praias do seu litoral. Por isso não adianta conversar com Bruno a respeito dos presságios: o único modo de anuncia-los é aquele de sua obra.
Outro insight de seus presságios se encontra no transpor a pintura para a escultura ou vice-versa. E qual o grande problema sobre as narrativas comuns de nossa época? É o pensamento único que interpreta a vida como apenas a sujeição da vida à ganância e ao consumismo conspícuo. Então o dogma atual do totalitarismo liberal é enxergar os signos da vida em plano bidimensional.
Trace a vertical e a horizontal e tudo se reduz. E aí entram os presságios de Bruno Pedrosa com no mínimo três elementos, até onde percebi: a quebra da bidimensionalidade, a cor numa intensidade de provocar ruptura e o movimento intensamente variado, mas, no entanto, simbolicamente narrativo e harmônico.
Por isso afirmei que se tratava de uma homilia do presságio: esqueça tudo que você pensa que é, perceba a intensidade do que há e se mova (mover-se é agir como Cristo alertou seus discípulos no sermão da Missão). Bruno Pedrosa, não esqueçamos, não engana ninguém: suas barbas, seus cabelos, a fugacidade em alimentar-se e a exuberância ao falar é o alfa e o ômega de sua obra.
Por último o mais radical no artista. Bruno Pedrosa no vice-versa entre a pintura e a escultura busca exprimir a intensidade dos seus presságios. Especialmente com a cor e a tridimensionalidade. As esculturas são como espécies das parábolas usadas por Jesus para chegar junto àqueles que ouvem e não entendem, enxergam e não compreendem. Basta um olhar entre uma manifestação e outra para saber que está lá e cá a integralidade da mensagem múltipla, intensa e transformadora pelo movimento. A integralidade sem os artifícios enganosos da perspectiva do desenho, mas com absoluta fidelidade à narrativa do desenho.
Eu diria que para mim, o vídeo da galeria Stevens em Maastricht expressa melhor estas coisas.
Receita de escritor
(para outros festivais)
Hoje sonhei com uma árvore no meio do deserto.
Concluí que nela havia um passarinho,
passarinho voa,
quem voa tem asas.
E resolvi escrever um conto usando essa metáfora.
Deitei na rede, saquei do lápis (nada de esfereográfica)
e enquanto ouvia um velho disco de Raul Seixas,
chegou Sherezade, de blusa e calça jeans.
Pensei no título.
Algo que pudesse comover mãe e filha ao mesmo tempo.
Rabisquei: “Triste como ela”.
Puxei o laptop para verificar se no Google
alguém havia escrito algo com o mesmo título.
Esbarrei com um tal de Onetti.
Pedi uma sugestão a Sherezade, classe média periférica em ascensão,
metade da população brasileira,
meu mercado editorial.
- A essa hora, bicho?
Deu o estalo e depressa escrevi:
“A rede”.
O resto é sempre mais fácil:
meu léxico é o lexotan.
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A colagem é feita com pinturas de Maigritte por Everardo Norões




