por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Próteses

Cacildo entrou no Bar com aquela cara de “Inhá, comeram meu cuscuz!”. Os amigos perceberam, facilmente, que o homem andava ruim da piraca. Nos últimos tempos, invariavelmente, tinha sido assim: assuntava mais , dava palpite de menos. Os colegas de balcão haviam notado claramente a mudança de humor. No fim do expediente reuniam-se ali no barzinho para remoer as últimas novidades e contar as vantagens que , tirante uma ou outra mentira, saltavam mais do pretérito que do presente. É que a turminha já quebrara a barreira do som dos sessenta e as histórias eram cada vez mais reprises . O diabo é que Cacildo até varara bem as idades de rombo : 40, 50, 60. Aparentemente não tivera crises maiores e sempre pareceu conformado com a ferrugem inexorável do tempo : algumas coisas endurecendo, outras amolecendo e , pior: sem ninguém ter o privilégio de escolher quais deveriam ter uma ou outra consistência.

Que sovela perfurava, então, o juízo de Cacildo ? Como protético sempre levara uma vida tranqüila. Varava os dias em meio a bridges e pererecas : clientes não lhe faltavam. Não enricara, mas aprendera a viver dentro do orçamento, sem maiores atropelos. Não tivera filhos e, assim, não diminuíra os dias tentando domar o indomável. D. Celidônia, a esposa, era um doce de pessoa. Não o atanazava, não colava no pé de Cacildo feito Araldite . Kardecista de carteirinha, aceitava todos os defeitos do marido de bom grado. Na outra encarnação – dizia ela -- havia sido sogra dele e , agora, precisava ,sim, seguir seu karma. Ademais, Celidônia não tinha muito do que se queixar. O marido era o protótipo dos esposos dos Anos Dourados : sistemático, quadrado como um dado, palavra sua talhava no granito. Não tinha vícios maiores, apenas era chegado a um namorico fortuito, à porta de um cabaré : coisa que na sua geração era perfeitamente perdoável. Esposa era para ter menino: fornicar com a mãe dos próprios filhos era coisa de tarado. Os companheiros de tantos anos, assim, não conseguiam encontrar um nexo causal entre o cotidiano e o ensimesmamento repentino do nosso protético.

Passados uns seis meses, os colegas de Bar, que até então tinham agido como se nada acontecesse, começaram a se preocupar. Resolveram, então, fazer o “cerca Lourenço”. Arrodiaram a fera , com cuidado : como quem toma chegada prá matar passarinho. Esperaram o momento certo para o ataque final e, num sábado, após a sexta dose de uísque de Cacildo, finalmente chegaram no corrupio. Arrocharam pouco a pouco a prensa, até que o amigo soltou a frase introdutória do desabafo :

---Esse mundo tá virado de cabeça para baixo ! Tá tudo às avessas ! E eu que pensava que fazia próteses ! Não existe nada mais natural nesse mundão, só prótese prá tudo quanto é lado !

Puxaram dali, esticaram dacolá e depois do mote, finalmente Cacildo soltou a glosa. Há uns dois anos começara um namoro com uma mocinha. Ela fora lá na oficina encomendar uma chapa para a mãe. Tinha uns vinte e poucos anos. Conversa vai, conversa vem, prova daqui, prova dali, terminaram com um romance. O cavalo velho lambuzava-se no capim novo e criara alma nova. A auto-estima subiu como foguete em dia de renovação. Ainda era um garanhão, debaixo daquelas cinzas ainda existiam brasas que se sopradas davam labaredas vultosas -- pensou Cacildo, entre dentes . Passados os dias , Minervina – assim se chamava a menina --- queixou-se das condições em que vivia e insinuou uma ajudazinha. Cacildo prontificou-se a mantê-la. Uma vezinha, só ? Aquilo não custava nadinha. Mas o eventual transforma-se em permanente, com os meses, o subsídio terminou por ficar regularíssimo.

pelo segundo mês de enrabichamento, Minervina lhe sussurrou uma confidência: tinha um namorado já há uns dois anos e o namoro era sério. Cacildo , no início, ficou meio chateado com a novidade. Depois, no entanto, bateu-lhe aquele orgulho besta :

--- Ora bolas, sou eu que estou botando galha nele, né ? Ele que se vire e agüente as pontas !

Pois bem, depois da revelação, uns dois ou três meses passados, Minervina esperou o momento pós-êxtase e lhe soprou na cama redonda do motel: O noivo dela tinha marcado o casamento para a próxima semana. Cacildo ficou meio desapontado. Mas que jeito? Avisou, então, a Minervina que aquele tempo que haviam passado junto tinha sido muito legal, mas agora estava no momento de pôr um ponto final em tudo: casamento é coisa séria, Miné! Ela pareceu também meio perdida, mas terminou por concordar. Era melhor assim ! Cacildo passou os dias seguintes com aquele sentimento dúbio : meio-alívio-meio-saudade.

Transcorridos uns quinze dias da data marcada para o enlace, Cacildo estava fechando a oficina, no fim do dia, quando chegou um rapazinho e disse que precisava falar com ele. O protético imaginou fosse alguma encomenda de última hora. Reabriu a porta, já parcialmente fechada, e sentaram-se . Logo no início da conversa, Cacildo empalideceu. Pelo andar do lero-lero, compreendeu : Era o marido de Minervina ! Concluiu que tivesse descoberto a antiga sociedade e vindo para o ajuste de contas. O rapaz, no entanto, calmo explicitou um outro e inimaginável problema:

--- Meu nome é Renildo . O senhor namorava com minha atual esposa, não era? Eu sabia de tudo e até curtia! O bom é que o senhor ajudava com uma graninha. Todo final de semana , a gente podia sair e curtir: um forrózinho, uma lapadas . Depois do casamento , o senhor acabou tudo e agora, seu Cacildo, tá uma barra! Eu queria ver se o senhor volta, acaba com essa besteira e continua tudo do jeito que tava !

Passada a surpresa, o protético recobrou o fôlego e o sangue na cara e concordou. Mantiveram o ménage a trois por uns três anos. Um belo dia, final de expediente, entrou uma mulher estranha na loja. Ombros largos de nadadora, andar de lutador de MMC, boné na cabeça. Com voz de barítono foi direto ao assunto. Minervina havia se separado do marido e agora estava vivendo com ela. Estava indo ali para dizer que ficasse na dele, não precisa mais de ajuda, Minervina agora estava sob nova administração e ameaçou:

--- Se se meter com ela, venho aqui e quebro seus dentes, entendeu ?Ou não me chamo Irismar ! Você é que vai precisar de chapa, seu merda...

Cacildo , passado o susto, respirou fundo . Que jeito? É dançar conforme a dança! --- pensou ele com suas pontes ! Passaram-se uns dois anos sem que tivesse surgido notícias do novo casal. Semana passada, encontrou com Minervina na rua. Estava mais velha e mais bofona .Disse, com voz grave, que a vida estava um inferno, que tinha acabado o casamento com Irismar, por conta de ciúmes e pediu, em lágrimas, uma ajuda do ex-amante. Estava tentando refazer a vida, mas a coisa estava difícil. Acredite:

-- Estou inclinada a voltar para o Renildo, está novamente rolando um clima. A questão, Cacildo , é que ele só me aceita com uma condição : seu eu fizer a cirurgia para mudança de sexo. O senhor me ajuda a pagar? Por minha felicidade? Pelos velhos tempos?

O protético, sem entender o rumo da conversa, interroga:

--- Mudança de sexo ? Mas você é mulher Minervina! Teve uns lances aí com aquela sapatão, mas é mulher !

Minervina, então, esclareceu tudo, trazendo Cacildo para os novos e confusos tempos -- mais próteses, menos de realidade:

--- Sou, Cacildo, mas aí é que tá o problema! Renildo agora é gay ! Assumiu !


J. Flávio Vieira

Quatro coisas que você deve saber. José do Vale Pinheiro Feitosa

A queda do Ministro Lupi. Independente de bons feitos ou maus feitos, o Ministro Lupi está se aproveitando da alegria da mídia em fuzilar um ministro a cada quinze dias. Quando Orlando Silva saiu, aqui nos blogs da região, leitores de blogs da revista Veja, do Estadão, Folha e Globo já tinham toda a relação de ministros que a mídia derrubaria. O próximo, com jactância de uma estratégia de oposição que estava dando certo, seria o Lupi. É nisso que o Ministro Lupi confia. Neste fuzilamento e na comemoração da mídia. Se o governo cede a mais esta, como é que fica? A mídia passa a governar o Estado?

A ocupação militar da USP. Considerando que tudo o mais são firulas para dar circo à solidão dos computadores em rede, a ocupação militar da USP é na essência a negação da Universidade. Assim como uma companhia aérea que não consegue embarcar passageiros, os aviões não saem do solo e se saírem serão uma ameaça. A universidade é para pensar a sociedade e apresentar-lhe solução por duas vias: preparando gente e estudando os seus problemas para criar respostas. A USP não sabe, por uma versão, oferecer segurança ao seu próprio Campus, não sabe imaginar como tratar o fato de uns jovens fumarem um baseado e menos ainda como resolver o imbróglio de uma força armada de ocupação. A USP não funciona como universidade nem para os problemas básicos que vivemos hoje.

Israel ameaça o Irã. Gostam de falar num provérbio, que dão conta de ser chinês, que os momentos de crise seriam momentos de criação. Perguntem a opinião de um grego desempregado, de um espanhol perdendo o auxílio desemprego, de um italiano sem saída ou de um português que sofrerá o ano que vem a maior depressão da Europa? Crise é antes de tudo destruição. É balela que sempre cria o novo. A não ser o novo que seja sucessão apenas do velho. E por isso nas crises a cadeia da insanidade sempre começa num desesperado, instável no mundo em crise, mas muito bem armado. Com armas atômicas Israel pode estar blefando ao anunciar desejos de atacar o Irã, mas é um sério momento com os quais grandes catástrofes de guerras amplas começam.

Finalmente o assunto foi à inanição. Era simples: protestos, explicações e a conciliação. Não foi isso que aconteceu: parecia um assalto ao palácio de inverno do Czar. A guarda palaciana atirava para todos os lados, renovava a munição a cada jornada e enlouquecia quando não via tantas vítimas. Comportamentos com dificuldades de explicar-se e conciliar-se se tornaram uma cruzada ideológica que vem desde a Idade Média, passou pelo Nazi-fascismo, incendiou alguns espíritos revolucionários que jogavam com o infantilismo esquerdista. Não é incomum que os atores mais exaltados desta corrente sejam alimentados por pessoas de “boa fé” que diariamente jogam pedras no quintal dos outros, que têm uma ira de fogareiro e verdades tão duras que só lhes resta quebrarem cabeças ou espatifarem-se nos entrechoques.

Na Rádio Azul


Cariri terá etapa do Seminário Artefatos da Cultura Negra no Ceará



As Inscrições serão realizadas no dia do evento.
O II Seminário Artefatos da Cultura Negra no Ceará – Etapa Cariri acontecerá no Salão de Atos da Universidade Regional do Cariri – URCA, no dia 18 de novembro de 2011, nos períodos da manhã, tarde e noite. O evento pretende reunir educadores, estudantes, pesquisadores e ativistas dos movimentos sociais para aprofundar e debater sobre a necessidade do redimensionamento das práticas pedagógicas com vistas à inclusão nos currículos escolares de conteúdos que digam respeito à história e cultura negra cearense e oportunize um repensar sobre o papel da universidade na formação de agentes capazes de construir uma sociedade comprometida com a emancipação humana. Na ocasião, terão duas palestras com o tema “Religiosidade de Matriz Africana e Educação” e a exibição de um documentário produzido pelo Grupo de Valorização Negra do Cariri – GRUNEC e pela Cáritas Diocesana do Mapeamento das Comunidades Rurais Negras e/ou Quilombolas do Cariri cearense.

O evento é uma realização do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Regional do Cariri – URCA, Instituto Ecológico e Cultural Martins Filho – IEC, Projeto No Terreiro dos Brincantes, SINDURCA, Nucleo de Estudos em Trabalho e Educação – NETED, Grupo de Valorização Negra no Cariri – GRUNEC.

Mais informações no blog: http://artefatosdaculturanegranoceara.blogspot.com/

Don't Let It Die (Hurricane Smith)

Igreja e poder: “totatus dictatus papa” (Leonardo Boff)

Todo poder é autoritário, seja nazista ou fascista, porquanto altamente negador da ternura, da sexualidade, da intimidade. E NA IGREJA HÁ ISSO; ENTÃO É UM PODER ALTAMENTE AUTORITÁRIO. NO “CÂNON” QUE FALA DOS PODERES DO PAPA ELE É ABSOLUTO, ILIMITADO, UNIVERSAL, SOBRE CADA CRISTÃO, SOBRE TODA A IGREJA E... INFALÍVEL. SE VOCÊ RISCA “PAPA” E BOTA “DEUS”, VALE. ELE ATRIBUI A SI CARACTERÍSTICAS DIVINAS. Então, é um poder que em teologia se chama “totatus dictatus papa”, expressão latina que se criou no século XIV: literalmente traduzido, "a ditadura do papa".
Então, É ESSA A PERSPECTIVA DE UM PODER ALTAMENTE CENTRALIZADO, PIRAMIDAL E TOTALITÁRIO, QUE ENGLOBA TUDO, NÃO CONVIVE COM A FRAGILIDADE DO AMOR, DA SEXUALIDADE. A essa estrutura pertence o celibato e também o poder mais imediato: você não tem partilha, não tem herança, não tem de se preocupar com a educação dos filhos ou onde a mulher vai ficar, nada. Você se torna um soldado totalmente disponível à instituição.
Quanto à figura de Ratzinger, seja como mestre, como prefeito da congregação ou como Papa, eu diria que não há mudança substancial. Ele sempre manteve uma linha teológica de fundo inalterável, isto é, o projeto de construir a Igreja para dentro, reforçar as instituições eclesiásticas e a autoridade do Papa, revalidar o direito canônico, sublinhar uma leitura dogmática da fé cristã. Eu diria que em alguns destes aspectos ele, inclusive, radicalizou no sentido de que a fala de um Papa é muito mais poderosa do que a fala de um prefeito de uma congregação, porque este tem como objeto as doutrinas, enquanto o Papa tem como destinatário toda a Igreja.
NA MEDIDA EM QUE ESSE PAPA INSISTE ENORMEMENTE QUE IGREJA MESMO É SÓ A CATÓLICA E CONTINUA REPETINDO QUE AS DEMAIS IGREJAS NÃO SÃO IGREJAS E QUE AS DEMAIS RELIGIÕES NECESSITAM DE SALVAÇÃO, ELE TOMA PARA SI UM FUNDAMENTALISMO LIGHT. Por que fundamentalismo? Porque acentua de tal maneira a própria doutrina que exclui as demais e isso não parece ser a perspectiva do cristianismo originário, nem a perspectiva bíblica.

Texto: Leonardo Boff
Grifos: jnms (postador)

Arthur Rimbaud



Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (20 de outubro de 1854, Charleville - 10 de novembro de 1891, Marselha) foi um poeta francês.

Na maioria das vezes, a história de Rimbaud é apresentada como principal ponto de partida para a leitura de sua obra, o que torna quase impossível olhar a obra de Rimbaud com olhos livres.



Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.



tradução de Claudio Daniel.

O Ofgício de Everardo Norões - por Ronaldo Correia de Brito


Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)

Pensamos nos poetas como andarilhos solitários em busca da emoção criadora. O romantismo contribuiu para reforçar o imaginário em torno desses exilados sempre à volta com frustrações amorosas, doenças, pobreza e falta de leitores. Manuel Bandeira, que lutou toda vida contra a tuberculose, se queixa do 'mal romântico', como foi chamada a tísica pelos poetas, numa crônica de julho de 1929.

"Na verdade em seus primeiros tempos a doença pode dar aos infelizes uma certa cor e uma certa sensibilidade romântica. Mas é um momento fugaz. O que vem depois é do mais duro e repulsivo realismo. É preciso amor, coragem ou bondade profunda para fraternizar até o contato físico com um tuberculoso em plena miséria orgânica" - escreveu.

Não existe nenhum glamour em adoecer e morrer, mesmo com auréola de artista. Se ainda fosse vivo, Bandeira escreveria sobre uma outra doença que se transformou em metáfora do nosso tempo: a Aids.

Quando lemos o poema de Carlos Drummond sobre a visita que fez Mário de Andrade a Alfonso de Guimarães, um simbolista entre as serras de Mariana, na distante Minas Gerais, sentimos que o jovem e inquieto Mário não fez mais que fraternizar-se com um velho místico, solitário e esquecido.

A chegada do visitante à casa do poeta desencantado, que escreve poesia e esconde nas gavetas, é como uma luz entrando pelas portas e janelas, mesmo que fugazmente, para logo ir embora. A presença que revira papéis sem aparente significado, que lê em voz alta, que exclama e se encanta é semelhante à do anjo da morte, um personagem bem conhecido dos médicos, pois o anjo visitador costuma trazer um último alento aos enfermos, uma esperança antes que eles morram de vez.

Viver de poesia é inconcebível como sobrevivência real ou simbólica. Nem João Cabral, nem Carlos Drummond, nem Manuel Bandeira, nem Jorge de Lima, nem Murilo Mendes, nem Joaquim Cardozo viveram apenas de poesia. Talvez tenham sobrevivido apenas por serem poetas. Manoel de Barros escreve e cria rebanhos de gado. Vinicius de Moraes era pago por ser diplomata. E Cora Coralina, lá no Goiás Velho, entre os muitos ofícios da vida também decidiu ser poeta.

Dizem que na velha China, na dinastia Thang, de 618 a 907 d.C., cada homem era um poeta. E de fato, só os nomes mais famosos chegam a 2300, um número inconcebível para a nossa cultura ocidental. Será mesmo inconcebível? Quantos poetas se escondem pelos gerais do Brasil, por norte de rios, nordeste seco, centro oeste, pampa sul e sudeste populoso? Quantos? Impossível avaliar.

Há poucos dias citei um poeta cearense que já morou na Europa, na África e há bastante tempo reside em Recife. Disse que o achava um dos melhores poetas brasileiros. Imediatamente alguém me perguntou quem eram os poetas contemporâneos que eu conhecia, para fazer tal afirmativa. E citou-me nomes de todas as latitudes, gente que faz poesia por ofício de viver, enquanto labuta noutros ofícios como sempre foi, desde a antigüidade, desde a Grécia onde Sócrates além de pensador era pedreiro.

Corrijo-me. Everardo Norões é um dos melhores poetas que conheço, entre os milhares de poetas brasileiros que apenas imagino. É dele o poema que transcrevo abaixo, do seu mais novo livro publicado pela editora 7 Letras: Retábulo de Jerônimo Bosch.

Desplagiato
(Everardo Norões)

a minha voz de tantos
também tua,
soma de tantos
como agora
rio que resvala
em labirinto
destino solitário de um navio
voz de muito além
de finisterra,
soluço vegetal
pedra marinha
a minha voz
de todos
também minha

Ronaldo Correia de Brito

Adhemar Casé - por Norma Hauer


ADHEMAR CASÉ
Foi em Pernambuco que ele nasceu no dia 9 de novembro de 1902.
Já com 17 anos alistou-se no Exército e veio para o Rio de Janeiro, ficando lotado na Vila Militar. Deu azar. Embora não nascesse para ser soldado e muito menos revolucionário, foi preso em 1922, porque seu batalhão lutou contra a posse de Arthur Bernardes na Presidência da República.
Foi mandado,preso, para São Paulo e não viu "nascer" aquilo que seria sua vida :o rádio, cuja primeira experiência deu-se em 7 de setembro de 1922.

Vários empregos ele tentou depois que deixou a caserna, mas nada dava certo. Regressou a Pernambuco, mas também ali não conseguiu se manter, pois não encontrara, ainda, seu destino.

Seu destino era o Rio de Janeiro, onde, involuntariamente, até 171 ele foi, por trabalhar em uma firma farjuta, que vendia lotes de terrenos inexistentes.

O emprego que lhe abriu as portas foi o de agenciador de anúncios das revistas então na moda:"Careta";" Revista da Semana";"O Malho";"A Cena Muda"...

O rádio, apesar de "nascido" oficialmente em 23 de abril de 1923, durante os anos 20 pouco se desenvolveu. No início dos 30 a fábrica holandesa Philips, acreditando na possível força do veículo, passou a vender rádios importados, de sua marca.

E foi aí que Casé se deu bem.
Com sua experiência como agenciador de anúncios, passou a vender rádios, "bolando" uma idéia genial. Era um tempo em que só os mais abastados possuíam telefone.

Que fez Ademar Casé?

Selecionava possíveis clientes nas listas telefônicas e, com seus endereços, esperava o dono da casa sair. Certo que seria recebido com sua novidade, mostrava um
aparelho para a dona da casa dizendo que seu marido estava interessado nesse
aparelho. Deixava-o com a "madame", como experiência; sintonizava-o na Rádio
Sociedade, que tinha os programas mais variados, e dizia que voltaria depois de uma semana para reaver o aparelho.

Logicamente, a "madame", adorando a novidade, insistia com o marido para que
adquirisse aquele aparelho "misterioso".

Eram outros tempos. Hoje ninguém abriria as portas de suas casas para um desconhecido.

Mas foi dessa forma que Ademar Casé vendeu tantos aparelhos que o representante da Philips no Brasil quis conhecê-lo.

Já nessa época, a empresa holandesa criou a Rádio Philips, para divulgar seus produtos. Mas uma vez Ademar Casé "bolou" algo espetacular. Alugaria um horário na emissora para apresentar um programa variado.

Foi aceito e, no dia 14 de fevereiro de 1932, por sinal domingo de carnaval, entrou no ar o PROGRAMA CASÉ.
Foi um sucesso! Algo diferente fora lançado naquele tempo em que tudo era monótono porque o rádio seguia o "mote" de Roquette Pinto:"para a cultura dos que vivem em nossa pátria, pelo progresso do Brasil".

Nessa época já existia na Rádio Mayrink Veiga o "Esplêndido Programa", bastante movimentado , mas Casé fez algo diferente, apesar de não entender de rádio. Como colaboradores teve um cantor de nome Sílvio Salema, que conhecia Almirante (Henrique Foreis) que se tornaria "a maior patente do rádio".
Ambos levaram para o PROGRAMA CASÉ idéias novas e pessoas que já labutavam no "metiê".

O PROGRAMA CASÉ foi a porta aberta para o rádio moderno.

Na época não eram permitidos anúncios no rádio e este tinha de ser "educativo". Casé então dividiu seu primeiro programa em duas partes: a primeira popular e a segunda clássica. Durante a primeira, o telefone da emissora não parou de tocar: era o público pequeno, mas desejoso de novidades que dava sua opinião a respeito do novo programa. Na segunda parte (a clássica) os telefones emudeceram.

No segundo programa, no domingo seguinte, fortuitamente, ele eliminou a parte clássica com novos "quadrinhos", o que deixou os ouvintes entusiasmados e assim prosseguiu, mas precisava de dinheiro para manter no ar, todos os domingos, um
programa desse teor .

Que fez Casé? Um vencedor não poderia "deixar a peteca cair".

E não deixou! Mais uma idéia veio à cabeça de Casé.

Casé, já então casado, entrou com sua esposa em uma padaria na Rua Voluntários da Pátria e ela adorou o pãozinho vendido ali. Casé, "com a cara e a coragem" imaginou fazer propaganda daquele pão e propôs ao dono da padaria um acordo: faria um anúncio da padaria; se ele gostasse, pagaria, caso contrário não.

É aí que o compositor Antonio Nássara entra no assunto. Casé pediu a Nássara que "bolasse" uma propaganda para tal padaria. Involuntariamente, Nássara compôs o primeiro "jingle" apresentado no rádio.

Era assim:

Oh, padeiro desta rua,
Tenha sempre na lembrança,
Não me traga outro pão,
Que não seja o Pão Bragança"

Foi gravado pelo cantor Jorge Fernandes.

O dono da padaria adorou e Casé faturou algum para dar prosseguimento ao seu já vitorioso programa.

E , como já eram permitidos os anúncios no rádio, chegou a fase de O DRAGÃO, uma loja de artigos domésticos, que existia na Rua Larga .

Muitos foram os "jingles" feitos para o "Dragão". Assim:

Este de Noel Rosa:

No dia que fores minha,
Juro por Deus, coração.
Te darei uma cozinha,
Que vi ali no Dragão.

Este de Marília Batista:

Morros do Pinto e Favela,
São musas do violão.
Louça, cristal e panela,
Só se compra no Dragão.

O Dragão era chamado "a Fera da Rua Larga" e sempre os locutores perguntavam: "A Light fica em frente ao Dragão ou o Dragão fica em frente à Light"?

O PROGRAMA CASÉ foi transmitido por várias emissoras mas seu apogeu foi na Rádio Mayrink Veiga, onde ficou de 1938 a 1948.

Aos domingos todos os rádios ficavam ligados no Programa Casé. Foram ali lançados peças teatrais, pequenos esquetes, teatro de mistérios, quase todos os cantores daquela época, enfim, antes de a Rádio Nacional dominar o meio radiofõnico, o Programa Casé, na Mayrink Veiga era o de maior audiência no rádio.


Com o advento da televisão (em 1950) o rádio começou a perder sua força e, em 1951, Ademar Casé o deixou e foi apresentar seu programa na TV Tupi, com outros nomes, como: "Convite à Música", "Show Cássio Muniz", "Show Regina" e "Tele Semana."

Seu último programa foi na TV Rio, onde lançou, com grande orquestra o "Noite de Gala", já em companhia de seu filho Geraldo Casé.

Depois de tantos anos de luta, Ademar Casé abandonou a TV em 1960 e voltou a trabalhar em publicidade, agora com seu filho Maurício.

ADEMAR CASÉ faleceu em 7 de abril de 1993, aos 89 anos, mas deixou "frutos" no meio artístico.

Seu filho Paulo Casé é arquiteto; seu outro filho, Geraldo trabalhava na TV; seu neto Rafael escreveu um livro com o título "Programa Casé-o Rádio Começou Aqui" e sua neta REGINA CASÉ é aquela maravilhosa artista que todos conhecemos.


Norma

Tem dias que a gente se sente ...- Por Rosa Guerrera


Tem dias em que a gente acorda com uma vontade enorme de ser qualquer coisa que não seja nós mesmos.
Ser árvore, mar, vento , firmamento,folha caída, chuva fininha, pedra, lago manso , poça d’ água , raio de sol , um contexto até pueril de pensamentos dispersos sem forma e sem direção.
É como se todas as paisagens fossem iguais , todos os gestos repetidos ,todos os livros lidos e todas as estradas já percorridas.
E nesse desfile imaginário , sentamos lado a lado com a saudade , única participante muda de um quadro empoeirado pendurado numa das paredes do nosso coração.

E a infância hoje tão distante parece nos convidar a brincar de ciranda cirandinha ,construir e arrumar casinhas de bonecas, assistir filmes do gordo e o magro , tanta coisa linda que o tempo não conseguiu destruir .
E assim , colhendo a poeira dos anos ,nos deliciamos depois sentindo o sabor das primeiras carícias , do primeiro beijo, e das ingênuas promessas de amor .
Tantos fatos marcantes , tantos encontros inesquecíveis tivemos nas nossas vidas , que as vezes sentimos mesmo necessidade de fugirmos dos dias atuais , e deitar nas asas coloridas das lembranças .
É dessa maneira que me sinto hoje !
Vontade de ser resistente como as árvores , profunda e misteriosa como o mar , não palpável como o vento , ter no coração o azul do firmamento, percorrer praças, ruas , vales ou montes como uma folha caída, acariciar como uma chuva fininha os cabelos de quem amo, e observando o meu rosto numa poça d’água, compreender que ainda existe no mundo em algum recanto , em algum gesto , e em cada pessoa raios de sol repletos de esperanças . .
Enfim ,essa é exatamente a foto que o espelho da alma retratou dos meus sentimentos tão logo o dia amanheceu , e uma nova jornada se abriu para mim.

rosa guerrera

Dobrei a esquina
Arrodeei o quarteirão
Revisitei-me
Senti falta do mundo
Senti falta do meu reduto
De tudo que se avizinha
Voto na paz da solidão
E aconchego do amigo.

(socorro moreira)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A caixa preta da cooperação internacional - José do Vale Pinheiro Feitosa

Vou ligar três pontos, em épocas diferentes e lugares bem distantes entre si. Vou ligar embora todos saibam que não sou e nunca fui cirurgião. E razão nenhuma, para meu ego avantajado, tenho em esperar que o velho lua faça uma música sobre isso.

Nos anos 60 o Programa Aliança para o Progresso refletia o desconforto do Império com a Revolução Cubana. E começaram a aparecer latas imensas de queijo cheddar para os pobres nordestinos que de vez em quando mastigavam um naco de queijo coalho. Sem contar latões de leite em pó, um legume estranho entre o arroz e o trigo, roupas usadas e tantas coisas mais com duas mãos se cumprimentando. O Império chegando junto da América Latina enquanto esta queria mais do que recebia na divisão internacional das riquezas.

Logo após a queda de Duvalier filho estive numa missão do governo brasileiro junto ao Haiti para preparar uma cooperação na saúde com eles. Andei em Port au Prince, estive pelo interior visitando hospitais e postos de saúde. Andei em instituições religiosas de caridade e conversamos muito sobre Jean-Bertrand Aristide, ex-padre e amigo delas e então presidente.

Savimbi ainda estava vivo e sua Unitas brigava com o MPLA. Vi prédios furados a bala como um queijo suíço. Uma grande missão da Agência Brasileira de Cooperação foi a Luanda para ajudar o governo de convivência entre as duas organizações. Era uma situação estranha: o ministro da MPLA e o vice da Unitas. Agora sobre a cooperação esta era ampla e irrestrita através de ONGs e instituições governamentais de um leque enorme de países. O Laboratório Central da Saúde era controlado por italianos, um hospital pelos franceses e assim os nativos viviam sendo cooperados.

Pronto, para desagrado do grande cirurgião que acerta até nas homenagens musicais, vou ligar os pontos sem saber suturar. A cooperação internacional. Aquilo que parece um ato humanitário, uma solidariedade de espírito elevado. Um diplomata de Luxemburgo, Jean Feyder, presidente da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), em seu livro Fome voraz, abre a caixa preta da cooperação internacional.

Os países que ajudam normalmente aproveitam a ocasião para dominar o mercado local com seus produtos, destruindo ainda mais a produção local. Os EUA resolveram alguns problemas dos agricultores do Arkansas com ajudas humanitárias ao Haiti e assim destruíram completamente a produção de arroz local que dava para alimentar a população do país e oferecia meio de vida a milhares de agricultores. Ajuda em alimento para a Somália serviam para financiar os senhores da guerra na compra de mais armas. Países africanos tiveram sua produção agropecuária arruinada por “ajuda” subsidiada dos produtos vindos dos excedentes europeus e americanos.

O difícil de encontrar nações sem interesses a não ser ajudar é que elas representam interesses comerciais de povos e corporações multinacionais.

Renovando em mim



Queria escrever, e depois colocar no fundo de uma gaveta dentro do meu pensamento, onde mora meus sentimentos, sentimentos adormecidos.
Minhas mãos estão presas, em uma cela imaginária, preciso descrever e envolver as ideias que piscam, e me levam para um lugar onde o silêncio é perene.
Então, agora respiro, busco fundo no fechar dos olhos as palavras, elas vão deixar impressas as aflições encontradas no caminho, me sacudo para fora do meu eu, é angustiante não perceber como vou achar um fim.
Vai meus pés tocar o chão espinhoso, salgado, e me pergunto todo este sacrifício vai levar-me onde?
As articulações não articulam mais nada, perdi meu rumo. Mas vou viver como sempre me mostrou a vida, simples, porque as reais pretensões se esvaíram assim como as minhas forças.
Rosemary Borges Xavier

compulsivo

O vinho abre a porta do inferno
e eu um diabo manco e caolho
desço as escadas espumando
no canto da boca febril loucura.

Mas como pode um infortúnio
em uma alma de santo?

Vinde então cruel carrasco
apartai minha cabeça
e lançai aos porcos.

Doravante andarei apenas com o tronco.
Lúcido e delicado com o coração vivo
na concha das mãos.

E quem beber do meu sangue
beberá da vitória do mendigo
que acordou um rei -

um rei manso
que colhe flores.

O CALDEIRÃO DO HUCK NO CRATO: ANTONIO HIGINO DE OLIVEIRA

    

     O apresentador do Caldeirão do Huck, programa exibido aos sábados pela Rede Globo, esteve na manhã desta terça-feira na cidade do Crato. De uma forma sigilosa, Luciano Huck desembarcou no Aeroporto de Juazeiro do Norte de onde seguiu direto para a Rua Padre Sucupira, 338, imediações do Cemitério de Crato. Ele surpreendeu a família do vendedor ambulante Antonio Higino de Oliveira, de 55 anos, escolhido para o quadro Lata Velha do seu programa.
     A surpresa e a correria com a chegada do apresentador e sua equipe foram grandes e vizinhos pareciam não acreditar no que estavam vendo. A permanência de Luciano Huck no local foi rápida se restringindo a tomada de algumas imagens. A notícia se espalhou rapidamente e o público crescia a cada instante. Só que quando muitas outras pessoas chegaram ao local, o apresentador global já havia retornado a Juazeiro, a fim de retomar o jato no qual veio e encontrava-se estacionado no aeroporto.
Nem o próprio contemplado para participar do programa ainda não sabe quem enviou carta à produção indicando seu nome. Antonio Higino possui uma velha Kombi de cor branca, ano 1985, com a qual trabalha vendendo balas, refrigerantes, doces e outros produtos junto a bodegas da periferia do Crato.
As filmagens foram feitas no cruzamento das ruas Fábio Lemos e José Marrocos e o carro será transportado para São Paulo. De acordo com os critérios do quadro Lata Velha, Higino poderá ter o seu veículo totalmente recuperado caso se de bem nos desafios propostos ao mesmo.

Barbalha On-line Notícias

POEMA DE ISOPOR XI - por Ulisses Germano

UM POEMA É COMO UMA ORAÇÃO
DEVE SEMPRE SER LIDO EM VOZ ALTA
PARA SER SENTIDO NO CORAÇÃO
LUGAR ONDE O SUBLIME AMOR SE EXALTA 
EXERCITANDO A SENSIBILIDADE
AO VER NO BELO A POSSIBILIDADE
DE ACHAR A BONDADE QUE TANTO FALTA

Ulisses Germano
"O objetivo da vida  é brincar. O objetivo do amor é brincar. O homem e uma mulher brincando estão se amando! Essa faculdade de sonhar, sonhar, sonhar..."

Rubem Alves

LEVITA-ME SUBLIME POESIA!






O Haver
Vinicius de Moraes

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas,
essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

15/04/1962

A poesia acima foi extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.



"Será que nas escolas a gente ensina as crianças a chorar diante da beleza?" Rubem Alves
"Será que na escola a gente aprende a brincar de novo?" Rubem Alvez

PALESTRA: AMOROSIDADE DE RUBEM ALVES NO SESC DO CRATO

"Estou com 78 anos... eu tenho estado pensando que chegou a hora de partir. Então eu tenho pensado muito em parar com as minhas viagens, mas ai eu começo a pensar: "O QUE VAI SER DE MIM SEM AS PESSOAS QUE GOSTAM DE MIM! Porque eu acho que vocês gostam de mim... pelo menos na imaginação (aplausos)... pelo menos na imaginação!... eu não posso viver sem vocês e acho que vou continuar dando as minhas palestras até que o Deus todo poderoso decida o que vai acontecer comigo. Enquanto isso não acontece, a minha relação será com vocês. Vocês é que vão decidir o que eu vou fazer da minha vida."


"O QUE VAI SER DE MIM SEM AS PESSOAS QUE GOSTAM DE MIM!


Igreja: o "Celibato" - Leonardo Boff

O celibato, para esse tipo de Igreja que temos, é estrutural e necessário. Temos uma Igreja altamente concentrada em termos de poder, que está só na mão de uma mínima parte, que é o clero. E QUE TEM DE GERENCIAR A PRIMEIRA GRANDE MULTINACIONAL DO OCIDENTE QUE É O CRISTIANISMO – DESDE O SÉCULO IV É UMA MULTINACIONAL, QUE ENVOLVE CERCA DE 1 BILHÃO DE PESSOAS.
Então, para a Igreja, o celibato é estratégico. Porque você tem uma mão-de-obra diretamente ligada a você e que não tem nenhum vínculo de família, de mulher, de filhos, de herança, e é o intelectual orgânico estrito da instituição. Ele encarna a instituição e, não sem razão, é tirado da família com a idade de 12, 13 anos, levado para o seminário e criado na sua mentalidade, na sua subjetividade, para servir a instituição. Ele é estruturado nessa perspectiva, que vai contra duas tendências básicas da modernidade, que são resgatar a liberdade e a subjetividade. Quer dizer, o ser humano se descobre como sujeito livre, que organiza sua privacidade, sua sexualidade, seu projeto pessoal. Se é casando, se é mantendo-se solteiro, se é sendo gay, não importa, você respeita as preferências do projeto que você tem.
E A IGREJA NEGA ISSO. ELA IMPÕE QUE QUEM QUER SERVI-LA TEM DE SER CELIBATÁRIO. ENTÃO, FRUSTRA TODO UM CAMINHO, QUE É UM CAMINHO TAMBÉM DE REALIZAÇÃO HUMANA, PORQUE A SEXUALIDADE NÃO É SÓ UMA QUESTÃO DE TROCA GENITAL, É O DIÁLOGO COM A DIMENSÃO DA “ANIMA” E DO “ANIMUS”, COMO UM INTEGRA A ALTERIDADE DO OUTRO, MULHER OU HOMEM, RESPECTIVAMENTE, COMO TRABALHO DA DIMENSÃO DA TERNURA, DA FRAGILIDADE, DO AMOR, QUE É UMA EXPOSIÇÃO AO OUTRO.
O celibatário trabalha com grande dificuldade isso, porque ele - por força da educação e sua função - é autocentrado. E toda a dimensão do feminino, não só da mulher, mas do feminino no homem e na mulher, é encurtada.
No campo, o celibato nunca funcionou, porque o padre era simultaneamente camponês e tinha de arranjar mão-de-obra, e não havia seminários onde se formassem padres. Ele gerava um filho, explicava como era a missa, os sacramentos e tinha o seu sucessor. No primeiro milênio, o celibato era reservado aos bispos, que tinham de ser monges celibatários. Com os padres era mais ou menos livre. O seminário só veio na polêmica com os protestantes no século XVI, quando a Igreja cria a instituição de formação de seus quadros e aí impõe o celibato rigoroso. É assim até hoje.
AGORA, ISSO NUNCA FOI ALGO QUE FOSSE ENTENDIDO COMO DO ÂMBITO DA TRADIÇÃO CRISTÃ, OU DA REVELAÇÃO. É UMA DISCIPLINA ECLESIÁSTICA, PORTANTO DEPENDE DA VONTADE DO PRÍNCIPE.

Texto: Leonardo Boff
Grifos: responsável pela postagem

QUEM FOI O ALMIRANTE ALEXANDRINO..

A família Alencar, deu ao Brasil grandes nomes. Homens que, por seu heroísmo e sentimento patriótico ainda hoje são exemplos de brasilidade. Entre os grandes nomes da historia politica brasileira, destacamos a figura impar do Almirante Alexandrino. Nome de Rua na cidade de Crato, seu nome figura entre os nomes históricos da região sul do Brasil, notadamente São Paulo e Paraná.

Nome completo Alexandrino Faria de Alencar, foi um grande Almirante da Marinha Brasileira, e é um legítimo representante da família Alencar, cuja nascedouro se deu a partir da cidade de Exu, no Pernambuco.

O Almirante Alexandrino era filho do Capitão do Exercito Alexandrino de Melo Alencar e de Ana Ubaldina de Faria, e neto do General Pedro Rodrigues de Melo Labatut e Archangela de Carvalho Alencar, e bisneto de João Pereira de Carvalho e Inácia Pereira de Alencar que era filha de Joaquim Pereira de Alencar e portanto tetraneto de Leonel Pereira de Alencar, pioneiro da família Alencar no Brasil.

Alexandrino de Faria Alencar, nasceu no dia 12 de outubro de 1848, na cidade de Rio Pardo – RS, e faleceu em 18 de abril de 1926. Foi militar, Formado em Engenharia Naval pela Escola Naval do Brasil, e o grande herói da batalha Aquidabán: histórico do combate de 16 de abril de 1894 em aguas de Santa Catarina durante a Gerra do Paraguai. Exerceu os seguintes cargos Públicos: Ministro da Marinha e Ministro do Supremo Tribunal Militar.

Exerceu mandato de Senador da república nos anos de 1906 e 1921 a 1922, tendo recebido as homenagens de Cavaleiro da Ordem de Aviz, a Medalha de Mérito Militar, Medalha da Campanha do Paraguai concedida pelo Brasil, Medalha da Campanha do Paraguai concedida pela Argentina.
Seu filho, Armando de Alencar foi Ministro do Supremo Tribunal Federal, e o neto Fernando Ramos de Alencar foi embaixador do Brasil

Aniversário

Sou de Escorpião: descobrindo a cada dia o profundo e simples mistério da vida. Este ano me repito na Revolução Solar com Ascendente Escorpião: o Sagrado, na grandeza do seu Amor, me diz sempre para ir além do mistério aparente. Transformar, transformar, transformar.

Sou de Escorpião
não revelo tudo
é preciso ler as entrelinhas

mistério:
linguagem a decifrar
como se percorresse uma noite
profunda
sem lua
e sem estrelas.
só silêncio

Stela Siebra Brito

Olinda - Por Rosa Guerrera


Com o título de Patrimônio Mundial da Humanidade e berço da cultura brasileira, Olinda é pura beleza e arte nas ruas de seu sítio histórico, inspiração para vários artistas plásticos que escolheram a cidade para montarem ateliês, galerias e museus. Foi a primeira capital de Pernambuco e deve ser também um dos primeiros lugares a serem visitados quando se chega a Recife.
Com suas igrejas, seminários e casarios, a cidade atrai visitantes de todas as partes do mundo.
Quem chega a Olinda se encanta.!
Os guias mirins são ótimas companhias para conhecer a cidade . Explicam de forma rimada e muito engraçada toda a sua história. Com eles, se pode conhecer os Mercados da Ribeira, do Varadouro, o Mirante do Alto da Sé, o Seminário, o Museu de Arte Sacra, entre outras construções que levam o visitante ao passado.
O circuito das igrejas também merece um destaque especial. Existem inúmeras delas, dedicadas aos mais diferentes santos, além dos nichos espalhados pela cidade, que contam a trajetória de Jesus até o calvário.
Juntamente com os carnavais do Rio de Janeiro , Recife e Salvador , o carnaval de Olinda é dos mais famosos do Brasil.Para quem não sabe ,uma característica desse Carnaval pernambucano é que os festejos são protagonizados pelo POVO . Não há sambódromos,nem trios elétricos: a animação e o ritmo são mantidos pelos populares, que formam grupos de todos os matizes, com variados instrumentos e tocando as músicas que desejarem. E é essa alegria contagiante , que leva centenas de turistas que vêm a Recife , dar uma esticadinha de apenas 6 quilometros , e conhecer além de tudo de belo que possui Olinda , as lindas praias de águas mornas existentes também na nossa primeira capital.

por rosa guerrera

Amanhecendo o dia...


Para Stela: flores, música e poesia!






HERANÇA

Tal qual Luzilá* procurou por Thargélia em Arquivos e Museus,
Eu procuro uma Thargélia revelar-se dentro de mim.
Que Thargélia habita em mim?
Que indizível poema se escondeu na minha alma,
Se enredou no emaranhado dos meus pensamentos
E não se revelou ao meu coração?
Que dor carrega minha alma, que medo se instalou em meu corpo?
Por que Thargélia em mim está tão quieta?
Onde estão os sonetos de louvor à vida?
As ousadias e as ternuras?

Tal qual uma dor que machuca minha alma
Tal qual um medo incrustado em minha pele
Ou uma lembrança que não se faz lembrada,
Os poemas passeiam em meu sangue. Vermelhos, ardentes, vivos!
Uma herança merecida e não recebida
Células poéticas caladas, sussurrando emoções de um vulcão em aparente extinção,
Desejoso de expelir sentimentos seculares.

Por que a poesia não se materializa, se faz concreta?
Ela é uma angústia trancada em meu peito
É uma palavra que não se deixa escrever nem falar
É uma onda do mar que nunca quebra na praia
É uma lembrança escondida e antiga,
De um mundo antigo,
De uma alma antiga.
Pois são tantas as estrelas que vivem em mim
Querendo se fazer clarão...

Quantos baús de poesia carrega minha alma
Sem lembrar onde e porque escondeu suas chaves?

Thargélia, irmã, em qual constelação guardei as chaves?


* Luzilá Gonçalves Ferreira, escritora pernambucana, autora de “Em busca de Thargélia”, pesquisa sobre as mulheres escritoras pernambucanas do final do século XIX.




"Amor bastante" - Paulo Leminski



quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você
caminhando junto

(LEMINSKI, Paulo. La vie en close. São Paulo: Brasiliense, 1991. )



O coletivo não admite escolhas

Fatos admitem argumentos ?

Conjugar no plural é um ideal
Vivê-lo é crescimento geral !

(socorro moreira)