por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 11 de março de 2012

No azul da madrugada


por socorro moreira


Tinha fogo no olhar
Com ele sabia brincar-
Brincar de se encantar

O feitiço voltava
O fogo incendiava ...
A paixão  - O que é paixão?
Nem os sentidos conseguem explicar.

Na pira do desejo
- A exaustão!

Maturada pelo tempo
Derrama a ternura
Que ficou no ar

Chuva de lembranças
Acalantam
Amores adormecidos
Respiros, suspiros
Nos sonhos do sono

Tapioca Pudding - José do Vale Pinheiro Feitosa




Nasc. registra o tupi tïpï'og 'sedimento, coágulo da mandioca crua coalhada'; A.G. Cunha (DHPT) registra tïpï'oka 'fécula alimentícia da mandioca'; f.hist. 1618 tapioqua, c1631 tapioquo, 1663 tapyoca

Nos finais dos anos sessenta. Na última sessão do filme Positivamente Millie com Julie Andrews, James Fox e Mary Tyler Moore, um musical com o título em inglês de “Thoroughly Modern Millie”. Um casal sai do Cine Moderno em direção à rua da vala.

O companheiro era um tipo defasado nos estudos, gostava mesmo é de cuidar da vacaria que possuía. A mulher com sua linda cabeleireira e um estilo moderno, já tinha terminado o IBEU e era americanófila até a raiz dos cabelos.

Ela estava amuada. No musical aparecia a dança da tapioca. Ou em inglês Tap-Tap Tapioca. A dança era uma inversão de expectativa. Nada poderia ir daqui para lá. Era ao contrário, a língua civilizada era o inglês e nenhuma palavra poderia existir naquela língua que viesse, nem por acaso, do português brasileiro.

O marido era ignorante em coisas de livros, mas esperto no que acontecia em sua volta no rádio, jornais, filmes e discos. Olhou para mulher com ar de enfado e disse: tem sim. E a bossa nova? Eles podem é não saber falar língua de gente, mas a palavra bossa nova eles dizem.

Subiu um ódio tremendo pela mulher desde o dedo mindinho do pé direito até os cabelos arrepiaram de raiva. Ela foi ao ponto fraco do marido: então me diga se a palavra tapioca não pode ter sido inventada pelos americanos e depois nós aprendemos a pronunciá-la e muito ruim.

Ele naquele dia estava com a macaca. Aceitando desafio. E contou uma história para a mulher. Isso foi Genivaldo, filho de Maria da Batateira que era soldado da Aeronáutica e foi na companhia de um major pegar um avião nos EUA. Chegando lá foi pegar no alheio e terminou na cadeia. Com saudade de casa começou a chorar e pedir por tapioca. Tanto repetiu a palavra que o povo aprendeu, passou para outro e assim a palavra tomou conta de Tio Sam.

Olhe não fale mais comigo hoje à noite. Eu não consigo conversar com ignorante. E toc toc se mandou na frente do marido com o sapato alto dando o toque do desprezo que carregava até o santo lar.

Naquela semana por causa de uma tapioca, o marido da mulher que falava inglês teve que anoitecer na Glória.

Então para vocês que estão até aqui comigo vai aí a receita do famoso: Tapioca Pudding que é muito apreciado pelos anglo-saxões, inclusive é muito utilizado para a merenda escolar na Inglaterra. É um pudim doce com goma (geralmente em caroço como sagu ou outra apresentação), açúcar, leite ou creme de leite. Pode ser feito com leite de coco e levado ao forno para cozinhar. Mas a verdade é que existem muitas possibilidades de acrescentar sabores ao pudim. De tanto usado para os escolares ingleses eles o chamam de frog spawm (ova de sapo/rã) e as crianças americanas de fish eyes (olhos de peixe) ou glue (cola).

Sim a palavra e o pudim vem mesmo da mandioca brasileira, mas natural entre os trópicos nas Américas. A mandioca tem uma nomenclatura interessante: Manihot sculenta




Foto de Samuel Gregório

Um Crato que os meus olhos alcansam, através do olhar de Samuel.

Foto preciosidade

Acervo de Walda Arraes

Recado pro meu pensamento...- por socorro moreira





Estamos nas paralelas, realidades solitárias, mas existe um ponto no infinito que virou estrela... Mesmo que já não exista, ainda brilha!
Aí lembrei “Stella by starlight”, que a gente dançaria, solfejaria,  bebericando a saliva da alegria.
Não estou medindo importâncias. Apaziguei meu coração, mas ele ficou  lato.
Sou guardiã das tuas falas e do teu silêncio, que alimentam a fragilidade da minha essência.
Por tudo que não sei explicar, tornou-se pessoa, no singular, do meu mundo secreto.

Pedro Bandeira em livro

Dentro da Programação da Semana do Padre Cícero, que acontecerá entre os dias 18 a 24de março, será lançado o livro “O poeta Pedro Bandeira mostra Juazeiro ao Mundo”, no dia 22, às 19h00, no Memorial Padre Cícero, e contará com apresentações artísticas: performance de André de Andrade e repentistas contextualizando o trabalho de edição do mais novo livro sobre a poesia do poeta repentista Pedro Bandeiras de Caldas, que está sendo coordenado pelo prof. Mestre em Ciências da Educação, Franco Barbosa que também é escritor. O evento conta com o apoio da Secretaria de Cultura, Secretaria de Turismo e Romaria, de Juazeiro do Norte, e Fundação Memorial Padre Cícero.

Franco Barbosa escolheu dentre os seus mais de mil cordéis e trabalhos publicados, seguindo sua própria metodologia de edição de seus livros, com capítulos e numa sequência que possa agradar o leitor. Cada capítulo vem com um tema e seus textos estão dentro de um mesmo master mind (pensamento mestre). O poeta e apresentador Wellington Costa apresentou Pedro Bandeira como ícone vivo de nossa cultura popular, destacando suas produções como as mais perfeitas nos últimos tempos aqui do Cariri.

O livro será lançado no Triângulo Crajubar, em São José de Piranhas, na Paraíba, terra onde nasceu o poeta Pedro Bandeiras; Campina Grande; Fortaleza; Natal e Brasília, na Casa do Ceará.

O projeto de edição deste livro tem como objetivo primário trazer para as novas gerações, a poesia popular mais pura, genuína e singular de Pedro Bandeira, evidenciando o valor do repentista, por realizado um trabalho de corpo a corpo no Brasil a fora, divulgando no nome do Padre Cícero, de Juazeiro e do Cariri. Uma mídia ambulante realizada nas terreiradas pelos sertões adentro, debaixo dos juazeiros, nas casas de famílias, nos clubes, na TV, no rádio, na imprensa de uma forma geral. Pedro Bandeira cantou para o Papa João Paulo II em 1980, em Fortaleza. Esteve presente a vários eventos no Palácio do Planalto, cantou para vários presidentes da República, “todavia ele está acima das questões políticas, é uma unanimidade que atrai o respeito e o carinho de quem o conhece” enfatiza o coordenador da edição Franco Barbosa.

Um livro com 135 páginas, sete capítulos, compilado dos mil cordéis lançados por Pedro Bandeira nos seus 56 anos de poesia popular. Onde a essência, o encantamento e arte deste grande repentista se tornam um fenômeno.

Astor Piazzolla



Ástor Pantaleón Piazzolla (Mar del Plata, 11 de março de 1921 — Buenos Aires, 4 de julho de 1992), filho dos imigrantes italianos Vicente Piazzolla e Asunta Manetti, foi um bandeonista e compositor argentino.


sábado, 10 de março de 2012

Sol de um novo dia - Por José de Arimatéa dos Santos

Logo cedo invariavelmente aparece
Lá no céu reluzente
O sol, símbolo inclemente
Da certeza da continuidade da vida que transparece

Todo o movimento da física
Num mundo biológico
Que a existência prova o lógico
Da possibilidade da união com o mundo da metafísica


José de Arimatéa dos Santos
Assim, a paz e o amor
Juntos numa sinfonia
De igualdade e sintonia
Que embelezam a vida sem desamor

Ah! Desejo que o sol sempre
Possa brilhar nos corações
Da humanidade com muitas ações
De solidariedade e justiça solenemente

Museu Vivo - 16 de março, no Sesc Crato- Grande Zé Flávio!


Convite!


terça, 20 de Março de 2012
19:00 até 21:00
Para repensar nossas práticas diante da água, elemento essencial da vida e que está cada vez mais escasso, será lançado no próximo dia 20 de março o livro “Caderno de Viagem - Água pra que te quero!”. A partir das 19h, na Livraria Cultura, a autora Nívea Uchôa bate um papo sobre a produção da obra, que em formato multimídia, traz também um registro fotográfico e um vídeo documentário. Na ocasião, haverá ainda o lançamento do documentário Água pra que te quero!

Livraria Cultura
60160-230 Fortaleza, Brazil

14 de abril! Hugo Linard e Orquetra, no Crato Tênis Clube



Conheci o menino
Carregando notas no peito
Era apenas um músico...
Um menino-
-Um grande músico!

Os bancos escolares
não suportavam sua inquietude
Fazia arte em todas as matérias
Peraltas notas em todas as esferas.

Hugo embalou amores
Fez um mundo musical amoroso.

Ele terá sua festa...
Teremos a sua música!

Parabéns, Linard!

(socorro moreira)



O Príncipe Harry vai à Lapa? - José do Vale Pinheiro Feitosa

Você já foi à Lapa? A velha Lapa Boêmia virou um daqueles bares de Guerra nas Estrelas: cheio de espécimes completamente diferentes. Nas noites de sexta e sábado longos trechos do bairro são fechados para carros e as tribos se multiplicam. Não precisa nem tomar todas, fumar um baseado ou outro estímulo qualquer: o barato corre solto em cada trecho das suas ruas.

Não precisa nem gastar uma grana em algum bar da moda, que, aliás, não se sabe mais qual é: são tantos, um atrás do outro, todos cheios. Basta circular pelas ruas, a Mem de Sá, sob os Arcos, dar uma volta pela Lavradio até o trecho do Rio Scenarium e seu bares musicais, pegar a Gomes Freire e encontrar alguns templo do velho samba, subir pela Riachuelo e as redondezas incluindo a rua do Resende, a esquina do Bar da Quengas ou pegar bares avulsos.

Se você tomar a Joaquim Silva vai ficar tonto do quanto a moçada mais jovem se multiplica em sons e estilos. Agora compreendi o frisson dos paredões do Ceará com tantas coisas diferentes, embora estronde aquele forró eletrônico repetitivo. Cada bar um estilo, os vendedores nas calçadas com seus “paredinhos”, a vender coisas lícitas estranhas e correndo por baixo um amplo e generalizado “ilícito”. É espetacular: tribos do mundo todo, uma mistura de línguas e aqueles tipos vestidos nalgum lugar dos passados anos 60 e 70 e mais outras coisas adaptadas para os tempos atuais.

A Joaquim Silva é a síntese do mundo e o Rio de Janeiro, sem que pudéssemos perceber, foi se transformando nisso. O próprio crescimento econômico, com a forte cultura nacional brasileira, faz do Rio novamente a cena das tribos mundiais. Em Nova York, Paris, Roma, São Francisco e nem em São Paulo se encontrará um bairro inteiro como este do momento na Lapa. Juro a vocês que tive a sensação da Piazza di Spagna em Roma ao chegar no pico das 23 horas à escadaria de Selarón. O povo fica sentado nos batentes da escadaria até bem mais alto do que fica na Piazza di Spagna. E vai dos estilos largados às mães com seus filhos pequenos.

Aí o Morrisey (Steven Patrick Morrisey, ex-The Smiths), que estava cantando ontem na Fundição Progresso alertou os brasileiros para a chegada do Príncipe Harry: “Como vocês sabem o Príncipe Harry está na cidade. Ele veio pegar o dinheiro de vocês. Por favor, não o dêem para ele.” Na rua uma mocinha perguntou ao amigo como era o nome todo do netinho da vovó: ele é o Henrique de Gales e foi registrado como Henry Charles Albert David.

Babaca. Alguém tombando numa esquina falava no príncipe: todo limpinho, com pose de faz de conta que dança o Reggae. Foi tomar umas num bar da Vieira Souto, a imprensa chegou e o afetadinho com cara de não gostei se refugiou no bar. O bar vai ganhar uma nota com o mito mesmo ausente daqui por diante.

Aí o Jornal Nacional, por uma “coincidência” impressionante- esta Globo é incrível na manipulação de corações e mentes – faz uma “entrevista exclusiva” com David Cameron para dizer o quê aos brasileiros? A Libra está protegida do Euro; temos interesses no Brasil e as Malvinas são da Inglaterra. Aí o helicóptero das organizações gastará toda a gasolina do mundo para acompanhar o carrinho lindinho do principezinho a vender a velha Albion como um outdoor ambulante. Quem sabe ele não vai, igual ao pai, tremer as pernas diante de uma passista de Escola de Samba?

Se for à Lapa, eu gostaria que o Morrisey estivesse de passagem por lá.

Quem é Hugo Linard? José do Vale Pinheiro Feitosa


Quem é Hugo Linard? O estudante, o músico, o pai de família, o aniversariante em sua cidade? Em 16 de abril, na estação da colheita, se houvesse uma praça central de toda a humanidade, neste dia haveria uma retreta. Irineu Sisnando de Alencar e Helena Gomes Alencar Linard, admirando o recém nascido e seus mistérios de futuro desde aquele remoto ano de 1947.
E tenho que me esforçar muito para responder quem é Hugo Linard. A primeira coisa é fugir de minhas próprias lembranças, dos momentos quando crianças aprendíamos a cartilha de ABC com Dona Elvirinha ou Dona Bernadete Cabral.
E aquele acordeom imenso nos braços pequenos da criança. Grande como foram os cem anos de fundação da cidade, imenso e inexplicável como aquela linguagem particular da música qual um Mozart tão precoce já decifrava.
A segunda coisa a me esforçar para entender quem é Hugo Linard, pertence à superação dos próprios impulsos, ações e lembranças dele mesmo. Não saberemos quem é Hugo Linard apenas perguntando a ele mesmo.
E para mim está claro: ele não se explica pelas minhas lembranças e nem pelas próprias lembranças dele. É que há muito aquele modo silente de hoje, econômico nas palavras, deixou de ser explicado apenas por sujeitos individuais. Nem eu e nem ele somos suficientes.
Não adianta acompanhar os graves e agudos de suas travessuras no colégio e a transcendência de seu semblante enquanto os dedos dançam com os baixos e a melodia. E seu Irineu, com o rosto branco e avermelhado de sol e trabalho, um homem forte a comprar gado nos currais e retalhar suas carnes na retidão honesta do seu ganha pão no box do mercado.
O pai empresário, o filho profissional, o músico por nascença, o profissional por expressão, a música por cotidiano. Hugo Linard está narrado, mas ainda não compreendido. Como disse: as lembranças não são suficientes para as dimensões dele.
Então superemos estas limitações e avancemos até a fonte que traduz Hugo Linard. Nem o pequeno Mozart, nem o talento, nem todas as ligações que seus conjuntos enfeitiçaram entre casais. Mesmo que busquemos as estrelas e a lua que brilham contemporâneas às performances dos músicos não serão suficientes a nos explicar. Mesmo por que as longas e ensolaradas tardes de ensaio numa casa da Vila Jubilar também eram Hugo e seu Azes do Ritmo.
A questão central é que a resposta em responder quem é Hugo Linard não está aqui nestas palavras e nesta crônica. A resposta está em mais ou menos 7 gerações de seres que nasceram ou viveram no Cariri e nas redondezas da bacia sedimentar da Chapada do Araripe.
A resposta é... Um patrimônio intangível deste povo. O mesmo que com riso de compreensão comemora o aniversário de Hugo Linard neste 16 de abril de 2012. E que o baile comece.




Non, Je Ne Regrette Rien


Non, Je Ne Regrette Rien
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien,
C'est payé, balayé, oublié,
je me fous du passé.

Avec mes souvenirs,
j'ai allumé le feu.
Mes chagrins mes plaisirs,
je n'ai plus besoin d'eux.

Balayés mes amours,
avec leurs trémolos.
Balayés pour toujours
je repars à zéro...

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Car ma vie, car mes joies,
Pour aujourd'hui
ça commence avec toi

Non, Je Ne Regrette Rien (Tradução)
Não! Nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal - isso tudo me é igual!

Não, nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Está pago, varrido, esquecido
Não me importa o passado! (2)

Com minhas lembranças
Acendi o fogo (3)
Minhas mágoas, meus prazeres
Não preciso mais deles!

Varridos os amores
E todos os seus "tremolos" (4)
Varridos para sempre
Recomeço do zero.

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...!
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, isso tudo me é bem igual!

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...
Pois, minha vida, pois, minhas alegrias
Hoje, começam com você!
Começa com você

Meu Jardim - José do Vale Pinheiro Feitosa

sexta-feira, 9 de março de 2012

Corais e Gaviões


Sabe-se muito do velho Gonzagão cujo centenário se comemora esse ano: da sua genialidade musical, do seu pioneirismo em levar a mais pura música nordestina para grande mídia, do seu poder invejável de abrir os microfones do mundo para a voz do povo do Nordeste, impulsionando a carreira de incontáveis artistas , desta face oculta do Brasil. Estes dias, descobrimos mais uma. Como os grandes artistas , Luiz Gonzaga carregava consigo o dom da profecia. Apareceu-nos como um Nostradamus de Sanfona. Quando cantou nossa cidade como “Cratinho de Açúcar/Tijolo de Buriti” , certamente profetizava nossa total fragilidade frente ao poder corrosivo da água e da chuva. Pois não deu outra! Bastou um chuvinha de nada, num ano de seca, para nossas encostas derreterem como sorvete no sol. E lá se foi , água abaixo, de novo, o Canal do Rio Grangeiro! O que , de resto, não se mostrou como nenhuma novidade. Depois da tragédia do ano passado, já não precisávamos do poder visionário do velho Lula, para fazer previsões. Estava escrito !

É que a obra de reconstrução era tão peba, tão visivelmente tacanha que alimentou todo um ano de lorotas e fofocas na nossa cidade. Um menino de dois anos passava com a mãe perto do Canal, há alguns meses, quando começou a chorar. A genitora acreditou que o bichinho estava com fome, queria gagau, até o menino se esgoelar morrendo de medo, apontando para o Canal: ---Vai cair, mamã! Vai descer! AHHHHHHHHHHHHH! O Cego Marcolino ,que mora pras bandas das Cacimbas, em dezembro, passando na ponte da Ladeira da Integração, nem precisou da luz dos olhos para concluir: --Eita trabalhinho fio duma égua, vamos simbora que não agüenta nem uma nublina ! E O grande guitarrista Batista que mora na beira do precipício e na enxurrada 2011 viu sua casa destruir-se numa noite, retornara para a mesma moradia no fim do ano . Quando observou a reforma velha que estavam fazendo, com umas telas de galinheiro e umas pedras soltas, começou imediatamente a fazer um curso de surfista e agora, nas festas , canta sua música predileta : --“Menina eu vou prá Califórnia/ Viver a vida sobre as ondas...” . Até os pacientes do CAPS, que frequentemente passam na beira do Canal , a caminho do tratamento naquele ambulatório, já tinham comentado aos psiquiatras que rezassem para não ficar nem nublado, pois a obra não agüentava um merejo. Depois da chuva e da derrocada da construção, os enfermeiros acharam interessante a previsão que lhes pareceu anteriormente uma alucinação, um delírio dos pacientes. Como adivinharam que ia cair? Eles responderam de forma conclusiva : --E quem é que não sabia? Não esqueçam: nós somos doidos, não somos burros não ! O professor Carlos Rafael divulgou que a razão é muito simples e está afeita aos livros de Odontologia: Precisavam fazer um tratamento de Canal e resolveram tapar a obturação com miolo de pão ! Deu no que deu ! E, entre risos e chacotas, se comenta que o próprio nome da construtora: Coral, já dizia tudo! Nome de cobra . E mais , onde se encontram os corais, amigos, onde ? Num é no fundo das águas, não?

O grande problema é que junto desta comédia cicla sua irmã siamesa: a tragédia. Famílias novamente desamparadas, prejuízos financeiros que não terão ressarcimento por quem de Direito e o grande caos urbano no trânsito da cidade que já andava praticamente a pé e agora terá que rastejar. Os dois milhões e meio que desceram junto com as águas do Rio Grangeiro serão debitados do bolso de cada um de nós, com ou sem chacota, viu? Resta o consolo: junto com as paredes das obras mal feitas costumam ,historicamente, se dissolver, também, carreiras políticas e projetos mirabolantes de perpetuação no poder. O povo termina por não suportar seu eterno destino de cachimbo e , com freqüência, veste a fantasia de fumo de Arapiraca e parte para o revide. E já agora em outubro vamos ter um novo Quarup, não é ?

Nestes dias, vi conversando dois pedreiros ,numa construção aqui próximo a minha casa, e tive um prenúncio da cobrança que virá. Um deles dizia que o grande problema do canal tinha sido as telas de galinheiro com pedras soltas dentro, que se chama gabião, postas para empatar a descida de água em velocidade, troncos, pedras enormes, ladeira abaixo e em curto espaço de tempo.

--- O problema, compadre, foram os Gabiões !

O outro, no entanto, pareceu ter uma visão bem mais holística da questão. A culpa da tragédia não estava nos pedreiros e engenheiros, mas escondia-se, sorrateiramente, nas ordens vindas do palácio.

--- Que nada ,compadre, o culpado de tudo isso são os Gaviões !


J. Flávio Vieira

Colaboração de Ismênia Maia





Dúvidas da Páscoa!!!!



- Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é... Bem... É uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano,
comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição.
- Martaaaaa , vem cá !
- Sim?
- Explica para esse garoto o que é ressurreição para eu poder ler o meu Jornal.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus,
três dias depois de ter sido crucificado. Ele Ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu ?
- Mais ou menos...
- Mamãe, Jesus era um coelho?
- O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho!
- Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado!
- Jorgeeeeeee, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos.
Até parece que não lhe demos uma educação cristã!... Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola?
-Deus que me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no Catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!
- É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus.
É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito.
Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa-me ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era... Era melhor, sim... Ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né?
- Que dia ele morreu?
- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
- Que dia e que mês?
- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso?
Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
- Um dia depois!
- Não, três dias depois.
- Então morreu na Quarta-feira.
- Não, morreu na Sexta-feira Santa... Ou terá sido na Quarta-feira de cinzas?
- Ah, garoto, vê se não me confunde ! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, porque amarraram um Monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no Sábado?
- Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- Uiiii...
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho.
Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
- Ai, coitada!
- Coitada de quem?
- Da sua professora de catecismo!


Luis Fernando VeríssImo


Projeto ÁguaLançamento do Livro - Caderno de Viagem, Água pra que te quero!



Parabéns, Nívia Uchôa!
-Trabalho primoroso!