por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 4 de dezembro de 2011

4 de Dezembro- Dia de Sta Bárbara




Santa Bárbara sofreu o martírio provavelmente no Egito ou na Antioquia, por volta dos anos 235 ou 313. Sua vida foi escrita em diversos idiomas: grego, siríaco, armênio e latim. Conforme a lenda, Santa Bárbara era uma jovem belíssima. Dióscoro, seu pai, era um pagão ciumento. A todo custo desejava resguardar a filha dos pretendentes que a queriam em casamento.
Por isso encerrou-a numa torre. Na torre havia duas janelas, mas Santa Bárbara mandou contruir uma terceira, em honra à Santíssima Trindade. Um dia, entretanto, Dióscoro viajou. Santa Bárbara se fez então batizar, atraindo a ira do próprio pai. Fugindo de seu perseguidor, os rochedos abriam-se para que ela passasse.

Descoberta e denunciada por um pastor, foi capturada pelo pai e levada perante o tribunal. Santa Bárbara foi condenada a ser exibida nua por todo o país. Deus, porém, se compadeceu de sua sorte, vestindo-a miraculosamente com um suntuoso manto. Padeceu toda sorte de suplícios: foi queimada com grandes tochas e teve os seios cortados. Foi executada pelo próprio pai, que lhe cortou a cabeça com uma espada. Logo após sua morte, um raio fulmonou seu assassino.

É por isso que Santa Bárbara é invocada, nas tempestades, contra o raio. O seu culto espalhou-se rapidamente pelo Oriente e pelo Ocidente, inclusive no Brasil.

* Sincretismo da Santa Bárbara: Yansan ou Oyá
* Devoção da Santa Bárbara: Protetora contra raios e tempestades. Santa Bárbara é também venerada pelos militares.
* Data Comemorativa: 4 de Dezembro.
http://minhaprece.com/santa-barbara/histria-da-santa-brbara/

Por Socorro Moreira



Nos sonhos
o relógio não marca

Não se faz perguntas
indefinidas
As respostas são disparatosas

Esse lugar
Tem caminho ?
É no mesmo plano?
Jogo de sinuca?
Física quântica ?

O canto dele
não é musical
É geometria analítica
ou espacial?

Ah...
De repente ,
Se o lugar existe
muitos passarinhos
Já pousaram lá.

Complexidade nas perguntas
Respostas evasivas...

E o coração faz a conta !
E a alma faz de conta
Que encontrou alguém por lá
"Nesse mesmo lugar."

Por Socorro Moreira



Batom
Adoro batom
Com ele
Mancho meus espelhos
Abraso fantasias
Vejo-te noutro lago
Imagem fugidia
Quando esse caso
(só meu)
Impacienta-me
Passo o meu batom
Imprenso a boca
No papel que leio
E seguro a calma
Pra te ver no novo
Ano se anuncia.

Ele nunca esteve
Mas a porta
Na molhada espera
Continua Beta.
Estio de esperanças
Chega novo Junho
E a fogueira cresce
Se nas entrelinhas
Descubro-me tanto
Fecho esse parêntese...
Abro meus colchetes
E me entrego em pontos.


Inspiro tua ausência
Suspiros na distância
Não dá pra expirar-te
Posso fazer arte...

Paulo Barbosa - Por Norma Hauer


PAULO BARBOSA
Foi em 4 de dezembro que faleceu um dos mais importantews com,positores de valsas e canções de nosso repertório popular.

Seu nome: PAULO BARBOSA, irmão de mais dois artistas: Barbosa Júnior ,comediante e produtor do programa "Picolino",na Rádio Mayrink Veiga e Luiz Barbosa, cantor falecido precocemente, mas que deixou algumas gravações e atuações no cinema nacional.

Paulo Barbosa foi, principalmente ,autor de valsas (comuns em sua época) e responsável pelo primeiro grande sucesso de Carlos Galhardo no ritmo em que este foi "rei": "Cortina de Veludo".

Compôs ainda, "Salão Grenat", "Italiana", "Colar de Pérolas","Madame Pompadour","Lenda Árabe","Salambô" e muitos outros que foram sucessos, ainda com Carlos Galhardo.

Mas Paulo não compôs só para Galhardo, embora tenha sido um dos responsáveis pelos maiores sucessos do cantor. E foi quem incentivou Galhardo a cantar valsas, quando até então só gravara sambas, marchas e frevos.

Mas de Paulo Barbosa tivemos com Carmen Miranda "Casaquinho de Tricot e "Dona Gueixa"; com Castro Barbosa "Lig, Lig, Lé " e " Marchinha do Grande Galo"; com Gastão Formenti "Jóia Falsa"...

Enfim, Paulo Barbosa marcou a fase áurea do rádio com suas mais de 100 composições, a maioria ao lado de Oswaldo Santiago.

Paulo Barbosa, que nascera em 30 de abril de 1900, faleceu aos 55 anos, em 4 de dezembro de 1955.

Norma

Candura - espelho poético Por Socorro Moreira




Não dura o deboche
Nem faz parte da face

O olhar que exprime a calma
É fruto da alma

Pégaso
-Transporte coletivo da poesia
Pasta de sonhos
Versos bastam-lhe
Antepasto nas estrelas
-Lombra sideral

Sorriso doce
Margarida(n) no coração?

De volta às calçadas?
Pare em certa casa
Tem água do pote
Café coado no pano ...

Aquiete as botas voadoras
A paz é o prato principal
Momento amoroso
É sobremesa na boca.

As formigas não se escondem em seus buracos,
quando existem folham que carregam vida.

Ética e moral - Leonardo Boff




Publicado no jornal O POVO, dia 04 de julho de 2003



Que é ética, que é moral? É a mesma coisa ou há distinções a serem feitas? Há muita confusão acerca disso.

Tentemos um esclarecimento. Na linguagem comum e mesmo culta, ética e moral são sinônimos. Assim dizemos: Aqui há um problema ético ou um problema moral . Com isso emitimos um juízo de valor sobre alguma prática pessoal ou social, se boa, se má ou duvidosa.

Mas, aprofundando a questão, percebemos que ética e moral não são sinônimos. A ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo, princípios e valores que orientam pessoas e sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções. Dizemos, então, que tem caráter e boa índole. A moral é parte da vida concreta. Trata da prática real das pessoas que se expressam por costumes, hábitos e valores aceitos. Uma pessoa é moral quando age em conformidade com os costumes e valores estabelecidos que podem ser, eventualmente, questionados pela ética. Uma pessoa pode ser moral (segue costumes) mas não necessariamente ética (obedece a princípios).

Embora úteis, estas definições são abstratas porque não mostram o processo como a ética e a moral, efetivamente, surgem. E aqui os gregos nos podem ajudar.

Eles partem de uma experiência de base, sempre válida, a da morada entendida existencialmente como o conjunto das relações entre o meio físico e as pessoas. Chamam à morada de ethos (em grego com a letra e pronunciada de forma longa). Para que a morada seja morada, precisa-se organizar o espaço físico (quartos, sala, cozinha) e o espaço humano (relações entre os moradores entre si e com seus vizinhos), segundo critérios, valores e princípios para que tudo flua e esteja a contento.

Isso confere caráter à casa e às pessoas. Os gregos chamam a isso também de ethos. Nós diríamos ética e caráter ético das pessoas. Ademais, na morada, os moradores têm costumes, maneiras de organizar as refeições, os encontros, estilos de relacionamento, tensos e competitivos ou harmoniosos e cooperativos. A isso os gregos chamavam também de ethos (com a letra e pronunciada de forma curta). Nós diríamos moral e a postura moral de uma pessoa.

Ocorre que esses costumes (moral) formam o caráter (ética) das pessoas. Winnicot, prolongando Freud, estudou a importância das relações familiares para estabelecer o caráter das pessoas. Elas serão éticas (terão princípios e valores) se tiverem tido uma boa moral (relações harmoniosas e inclusivas) em casa.

Os medievais não tinham as sutilezas dos gregos. Usavam a palavra moral (vem de mos/mores) tanto para os costumes quanto para o caráter. Distingüiam a moral teórica (filosofia moral) que estuda os princípios e as atitudes que iluminam as práticas, e a moral prática que analisa os atos à luz das atitudes e estuda a aplicação dos princípios à vida.

Qual é ética e a moral vigentes hoje? É a capitalista. Sua ética diz: bom é o que permite acumular mais com menos investimento e em menos tempo possível. Sua moral concreta reza: empregar menos gente possível, pagar menos salários e impostos e explorar melhor a natureza. Imaginemos como seria uma casa e sociedade (ethos) que tivessem tais costumes (moral/ethos) e produzisse caracteres (ethos/moral) assim conflitivos? Seria ainda humana e benfazeja à vida? Eis a razão da grave crise atual.

Com meta - por socorro moreira



Tudo às pressas
Correndo para não perder
Um possível gran finale
Adiamos o desencontro
O beijo incompleto
Viajou em busca de flor
Rosa amarela tem na casa dela
Meu amor
Por que não voltou?
Fecho a porta devagar
Que os astros não descubram
O que deixei passar

Quem vem para a beira do mar - José do Vale Pinheiro Feitosa

video

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Vó dava uma bicada na sua tigela de café e com um olho de luz das galáxias transfixava toda a existência. Café torrado com rapadura no caco de um tacho de barro. Café moído na força muscular. E Vó tomava o caldo preto daquela semente de chão. Os grãos de Kafa, no planalto da Etiópia, chegaram até a tigela de Vó e ela dizia:

Não vá para a beira do mar.
Não vá.

E num descuido de trilho, subi num comboio nas altas madrugadas enquanto Vó dormia. E o bicho foi torando os pilares das montanhas, atravessou os vales, serpenteou rios, riachos e levadas. Fui me largando pelo mundo, as manchas doces deixadas pela garapa que caiu pelos cantos da boca no meu bucho sumiram no tempo. E, Vó, nunca mais ouvi teu estalo de beiço sugando o café, a cada intervalo entre o sabor e a voz tão imensa quanto tudo que a Ibéria se espalhou nos sertões desta América.

Não vá para a beira do mar.
Não vá.

Mas vim Vó. Eu vim. Eu estou aqui na beira do mar. Na beira do mar com as ondas e as sereias nas pedras. Na posse de liras prisionais.

Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar

E quando a madrugada rompe aqui na beira do mar, estou tão amplo como os horizontes ininterruptos. Se pego um rumo para me afastar eu vou, muito longe eu vou, mas como uma onda eu volto à beira do mar. E pego a andar na areia do mar.

Andei por andar, andei
E todo caminho deu no mar
Andei pelo mar, andei
Nas águas de Dona Janaína

Vó e tua tigela era branca ou creme? Era creme ou marrom. Qual era a cor da tigela de barro de Vó? Era de barro, como eu era de barro. E nem sei a minha cor neste levante de dia e nem as ausências de poente das ondas.

A onda do mar leva
A onda do mar traz
Quem vem pra beira da praia, meu bem
Não volta nunca mais

Vó! Será que tu já foi? Já voltou? Ainda está naquela porta de casebre? Eu espero que os filhos de Maria, tua neta, já não se assentem na porta de um casebre. Como tu, Vó, na porta do casebre, tua tigela de café de Kafa. E não fui mesmo para a beira do mar prá nunca mais voltar?


O mar
das suas profundezas
nos traz belezas.
Perto ou longe eu avisto
a partida sem despedida
e o voltar de surpresas.
Minha caixa de Pandora
às vezes vazia
fica cheinha de novo
na chegada e na saída.

socorro moreira


Rainer Maria Rilke




- Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.


Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


(Tradução: Paulo Plínio Abreu)




Madrugando com versos ( socorro moreira)

Eu me apaixono quando a noite
adormece minhas mágoas,
e a madrugada me chama
de alguma estrela
Até que amanheço,
na linha do coração,
na palma da tua mão!

Confissão - por Rosa Guerrera


Se eu gosto de você?
Sim...eu gosto de você !
Porque ? Confesso : nem sei !

Gosto desse olhar de menino guloso,
Menino apressado, menino teimoso...
Gosto da infância que existe em sua alma,
E no muito de bom que possui seu coração.
Gosto de ouvi-lo contar historias,
Criar fantasmas ( só para me fazer medo)
E de depois ouvi-lo dizer bem mansinho:
“ Bobinha não tenha receio ...estou com você”
E eu me finjo mais criança ,
Para que você se sinta mais gigante...

Gosto de você muito mais ainda
Quando você adormece com seus dedos
Mergulhados em meus cabelos ...
E sem que você escute
Eu murmuro baixinho :
“ Boa noite meu menino”!
Talvez seja por tudo isso ,
Que eu gosto tanto ...
Mas ...tanto de você !



rosa guerrera

Calamidade Íntima por Corujinha Baiana



Você chegou

Como uma chuva de verão

Forte

Intensa

x

Derrubando tudo

Invadindo a minha Vida

Inundando a minha Alma

Deixando o meu Coração

Ao desabrigo.

x

E com a força de uma correnteza

Abalou as estruturas do meu Ser

Que eu julgava

Tão forte.

x

( Corujinha Baiana – Há algum tempo )

À toa ... - por Socorro Moreira

foto de Emerson Monteiro


Não tire seu sorriso

Não saia do caminho

Não fuja pra valer

Brincar é coisa séria

Difícil é esquecer!

-------------------

Quem provoca,

Tem coringa na manga ?

Tem manga no pé,

do pomar de novembro.

E tem pano pras mangas?

Com vestido decotado,

O sol castiga ...

E ninguém é santo!

-----------------------

Pelos vales secos,

a Terra em cio,

aguarda um rio

que nunca veio!

-----------------

A solidão

nos leva a qualquer pão:

de queijo, de gente ...

Solidão no olhar

Perdido no mar.

Solidão Humana,

Deus preenche !

----------------------


Construímos tantos corpos de papel

Pichamos muros

Pintamos telas no céu ,

descobrimos mapas de labirintos

Nossa floresta era imensa

Nos perdemos no caminho ...

Catando flores,

destruindo ninhos.

Olhei demais pro céu ...

Pensando que você

fosse um passarinho!

---------------------------


Alminha branca,

que tudo enxerga

numa tela de paz

Se todos te entendessem,

O mundo seria branco

cercado de azul

por todos os lados!



da fruta madura
com gosto colhida
na boca perdura
0 sabor da mordida
serena, sonora
sem pressa ou demora
assim quero a vida

por Nicodemos

Meias & Cuecas- por José Flávio Vieira


Pois é, amigos, se restou ainda uma quotinha de indignação por aí, guardem com muito carinho. Não vai faltar oportunidade de usá-la. Agora mesmo estourou mais um escândalo: a distribuição de dinheiro, arrecadado pelo comércio de licitações, em Brasília, por José Roberto Arruda, Paulo Octávio e seus asseclas do Democratas e quadrilhas outras afins. Desta vez, nem o galho de arruda pode nos socorrer. As imagens colhidas pela Polícia Federal parecem irrefutáveis, mas claro, fazem-se necessárias outras provas: a venérea pode ter sido contraída na bacia sanitária mal higienizada. Permitam-me, mais uma vez ,refletir sobre assunto tão repetitivo no noticiário nacional.
Primeiro, acredito que a atividade política está intimamente ligada à corrupção, ao favorecimento, ao compadrio, ao tráfico de influências. E isto não só no Brasil. Há apenas países em que o controle é mais rigoroso. Não existe uma linha divisória clara entre a política partidária e a contravenção. Entre nós, esta realidade é visível em todas as esferas da nação, uma simples gestão de uma associação comunitária, dificilmente será aprovada por uma auditoria minimamente séria. Não há eleição sem caixa 2, sem entrada de dinheiro sujo, sem negociação de cargos, de licitações, sem a semeadura inevitável do nepotismo. A política tem uma ética própria que hoje deixaria Maquiavel próximo ao processo de canonização. A bandalheira independe de desenvolvimento econômico, de forma de governo, de sigla partidária. A diferença básica está apenas onde a grana será depositada : na cueca ou na meia. A meu ver, o único filtro para a mamata desenfreada encontra-se no amadurecimento político do povo. Basta que o corrupto seja eliminado sumariamente pela cimitarra do voto para as coisas começarem a entrar nos eixos. Vejam a realidade brasileira: Arruda e Paulo Octávio já possuíam uma folha corrida péssima, que os tinha levado à renúncia temendo o impeachment, mas mesmo assim foram reeleitos pela população sem nenhuma dificuldade.
Querem ver outra curiosidade? Sete pedidos de Impeachment de Arruda até hoje já haviam sido protocolados no STF. Os partidos que davam apoio ao governo dele e se beneficiavam, rapidamente saltaram do barco: dizem que os ratos são os primeiros a perceberem o rombo no casco. O pedido da Bancada Evangélica, então, me pareceu interessantíssimo. O motivo não se ateve ao fragrante ilícito filmado e registrado continuadamente pelas câmeras, mas a uma outra causa bem insólita. Em um dos vídeos, após pôr a mão na bufunfa, a quadrilha fez uma corrente de oração, agradecendo ao Criador, pelo dinheirinho farto e fácil. Terá sido porque estes fragrantes já aconteceram também com alguns pastores e tudo, assim, torna-se perfeitamente normal? Ou porque não recolheram o dízimo da dinheirama? A CNBB também, em nota, se mostrou indignada com o uso de preces em momento tão pouco especial. Lá vou eu meter meu bedelho e enfiar uma outra reflexão, goela abaixo.
Ora, a oração feita pelos ladrões, agradecendo pelo furto aos céus, a meu ver, é perfeitamente cabível. Nossa relação antiética não é apenas com o profano, ela se estende a todas as nossas atividades humanas, inclusive ao nosso relacionamento com o sagrado. Vejam as promessas que fazemos aos santos. A maior parte das vezes, propomos uma espécie de escambo: se passar no concurso, meu São Sebastião ( claro que prejudicando vários outros que não tiveram a intercessão divina) eu dou duas sacas de feijão para a igreja. A mocinha amarra a imagem de Santo Antonio de cabeça para baixo, em um copo de água, e promete só libertá-lo se conseguir um marido. Ou seja, seqüestra e tortura o santo para conseguir seu intento. A mulher que todo ano faz a procissão de São José, em Março, em ano de seca, aproxima-se da imagem e ameaça: --- Se esse ano não chover, tu num vai ter procissão , não, viu ! Conheci uma senhora que praticava abortos, mas não os fazia nos domingos, por conta de uma promessa que tinha feito com Nossa Senhora do Carmo. O comerciante comete todas as falcatruas imagináveis, mas todos os anos ajuda na Festa da Padroeira e isso, por se só, o faz puro e imaculado. Todos essas condutas trazem embutidas uma ética bastante particular, condutas aparentemente cristãs, mas francamente pagãs na sua essência.
Arruda e Paulo Octávio não são muito diferentes da imagem de cada um de nós refletida no espelho. Quantos de nós não encheriam as meias, da mesma maneira, se tivéssemos a oportunidade ? O crime maior não terá sido terem filmado aquilo que todos nós já sabíamos? O mundo só vai mudar quando a indignação de cada um de nós se estabelecer na urna e não nas conversas de bar, entre um e outro scotch. E quando o preço da ilegalidade passar a ser pago na prisão e não nos templos, em módicos dízimos mensais.

J. Flávio Vieira

Por Rosa Guerrera


AMAR ...

Amar é aquele " ouvir estrelas " deBilac,

é enxergar o sol numa noite escura,

é conhecer os segredos do ruído dos mares ,

e deitar sonhos em imaginárias espumas !


AMAR é a revelação do avesso ...

É mistura de suor , de saliva , de tremor ,de ânsias e cansaços !

É a entrega de devaneios transformados em realidades,

é se sentir enlaçada pelo mundo no calor de dois braços,

e acariciada pelo infinito num pequeno suspiro de ternura!


AMAR é essa coisa sublime e louca,calma e tempestuosa...

É a eternidade transformada em horas,

é coração ofegante ,mãos entrelaçadas e fusão de corpos desnudos !


AMAR é acordar com a luz do sol
E pensar que a noite não findou...

É num sorriso maroto ver lençóis em desalinho,

travesseiros no chão ,

e ainda acesa a luz do abajur...


E se sentir a cada instante oceano virgem

para novos e mais novos mergulhos no Amor !

Girassol , gira noite ...Flor do dia ! - por Socorro Moreira



A hora do desejo
Precisa do clima da noite.
Os tons se enrouquecem,
Ficam loucos...
As flores desabrocham
Exalam cheiros de todas as notas
O silêncio é intercalado por ruídos do vento,
que chega vestido de serenata
A capa da noite
É salpicada de lua e estrelas
Sua composição poética,
Extrapola momentos
Continua no teclado, no telhado...
Vive o dia, e outras horas
Amanheceu, anoiteceu,
e eu ainda estou por aqui
ligada num tempo cor-de-rosa.

Violeta Arraes - por Caetano Veloso



Caetano Veloso canta Cajuína em homenagem à memória de Violeta Arraes e afirma que “o Brasil inteiro pode e deve fazer a mesma coisa.”

“Violeta Arraes tem sido, em suas atividades politicas e culturais, assim como em sua vida pessoal, um modelo de solução dos problemas estéticos, éticos e identitários do homem brasileiro. É que nela o movimento de desprovincianização se dá junto com o aprofundamento da identidade regional. O homem cariri afirma-se como homem brasileiro que, por sua vez, se afirma como homem do mundo.

Entre os últimos anos da década de 1960 e os primeiros da década de 1970, a casa de Violeta em Paris era como que uma embaixada do Brasil profundo na Europa. Os exilados pelo regime militar ali encontravam carinho e ensinamentos. Dos livros, filmes, peças bailes que eram recomendados aos modos a um tempo despojado e elegantíssimo que ela e seu marido Pierre Gervaiseau exibiam, tudo ali contribuía para a regeneração dos espíritos dilacerados pela infelicidade histórica.

Quando, depois da anistia,Violeta voltou ao Brasil, foi seu trabalho na Secretaria de Cultura do estado do Ceará que deu continuidade a esse gesto generoso, ampliando sua envergadura, pois tratava-se de oferecer a mesma acolhida aqueles que estão desde sempre exilados dentro do território nacional: os sertanejos, os esquecidos.

Violeta é uma cearense do Cariri que, ao lado de seu irmão Miguel Arraes, marcou a história de Pernambuco na primeira metade dos anos 1960; conheceu de perto o sofrimento dos primeiros expatriados da ditadura;
acompanhou com cuidados maternais a segunda leva de exilados, a de depois de 1968; e voltou para orientar a participação do estado no desenvolvimento cultural da sua região. Em todos esses momentos ela foi um exemplo de dignidade. E segue nos ensinando,com conversas, com gestos, com as roupas que escolhe para vestir - e esperamos que outra vez também com poderes oficiais - como se faz para dignificar o ser cariri, o ser nordestino, o ser brasileiro, o ser humano.”

Caetano Veloso



Mostra de Vídeos Leve Arte Contemporânea

Brasileirão 2011 - Por José de Arimatéa dos Santos

Um campeonato como esse de 2011 ninguém nunca viu. A toda rodada surpresas e mais surpresas. Posso afirmar sem medo que é o campeonato mais equilibrado no mundo e não poderia ser de outra forma, pois aqui é o maior celeiro de grandes jogadores de futebol. Depois que foi implantado o sistema de pontos corridos os clubes brasileiros tiveram que se organizar e um mínimo de planejamento já é visto já que a temporada é longa e é necessário um time bem concatenado e unido.
Na última rodada só dois times podem ser campeões. Corinthians ou Vasco. Dois clubes com forte apelo popular e cada um com números impressionantes de conquistas que orgulham os torcedores desses times. O Sport Club Corinthians Paulista fundado por operários paulistas em 1910 desde sempre time do povão. É corrente em todo o Brasil que é uma torcida que tem um time e não um time que tem uma torcida. E o "timão" foi o mais equilibrado em todo o campeonato. É tanto que de todas as possibilidades de ser campeão posso dizer que está com as mãos na taça.
O Clube de Regatas Vasco da Gama enobrece o país por ser um dos primeiros clubes no Brasil a escalar  jogadores negros em seu time quando o futebol era elitizado e só jogadores brancos podiam jogar nos grandes do futebol do Brasil. Clube centenário fundado em 1898 e símbolo da união  Brasil /Portugal em que a cruz de malta representa a força e a luta do time. É o "time da virada"! É daí que os vascaínos acreditam que serão campeões hoje.
Agora é esperar e ver quem levantará o caneco de campeão brasileiro. Que tudo termine em paz, pois o futebol significa apenas jogar bola e torcer. Brincadeiras sadias com os amigos e respeitar os vitoriosos e principalmente os derrotados. Corinthians campeão. Vasco campeão. Certamente já são pelo futebol apresentado em 2011..

A GALINHA MANCA


A galinha atravessa vagarosamente o terreiro.
Cada passo é quase uma queda
(como a vida).

A galinha é torta,
tem uma perna mais curta que a outra.
É uma galinha manca.

Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse
calculando
cada
movimento.
O terreiro é largo,
clareado aqui e ali por algumas réstias de sol.
O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra
preta,
folhas, penas e dor.

A galinha é um bicho só.
Procura algum grão de milho, uma minhoca,
procura a sombra,
procura o sol.

A galinha conjuga os verbos da solidão.
Nenhuma outra galinha,
nenhum galo.
A vida parece sem sentido.

A galinha ergue a cabeça,
apruma o corpo,
soluça
e volta a caminhar.

É preciso presto caminhar, dominar o ambiente em que se vive.
A galinha olha para um lado,
para o outro,
olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê.
E caminha.

Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala.
Mas caminha
tropeçando na própria perna,
caindo,
levantando.
Caminha.
A galinha mínima dominou o seu mundo mínimo.



EU RIO - Ulisses Germano

Eu rio só de pensar
Que amanhã estarei no Rio
Desfrutando de um lugar
Que nasceu de um elogio
Villa Lobos, Tom Jobim
Todos eles moram em mim
Quando eu toco ou assobio!









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sábado, 3 de dezembro de 2011

Vivências do coração - Emerson Monteiro


Transitar nos setores do sentimento importa, pois, olhar os horizontes da paz no silêncio dos momentos eternos. Observar com imparcialidade os termos da experiência que todos carregam, resultado das inúmeras situações vividas e aprendidas pelo caminhar do tempo, estradas longas das oportunidades permanentes. Andar sabendo haver aqui do lado outros exemplares da mesma consciência dotados de iguais instrumentos de percepção face ao Universo maravilhoso. Nisso evitar preconceitos e chamas de egoísmo que sujeitam cedo queimar a esperança dos bons relacionamentos. Respeitar contradições que impedem reconhecimento de tudo de agradável que possuem as pessoas, vozes acesas nas companhias agradáveis a bordo, no longo percurso das jornadas individuais.

O gosto especial do alimento emocional demonstra o tempero da alma de quem deles usufruem. Os movimentos das ondas no lombo dos barcos, que explicam a melodia das águas nos hinos das celebrações, histórias, alegrias em forma de versos e perfumes, nutrição da tranquilidade dos que compreendem sonhar e caminhar próximos sem timidez.

Enquanto uns falam dos deuses, outras agem com as manias da flor da pele, impaciências, contrições e abraços rústicos, quais quem pretende dominar os minutos da força poderosa nas eras indomáveis. Querer, na marra, usufruir o prazer da perfeição nas formas físicas que fogem feito fumaças e pó. Acham aqueles motivos de satisfação em avançar os limites de seus direitos e arrancar os mistérios alheios por capricho e violência. Contudo há uma ordem maior em tudo. Tristes dos que imaginarem recriar a natureza por mérito particular quando saem quebrando as determinações do destino, qual possível fosse assim obter e escapar da justiça sagrada abrangente.

Amar pede, no íntimo, harmonia e habilidade extremas; sabedoria e valores sólidos. Exercitar práticas de virtude com a grandeza dos planaltos virgens, dimensões abertas ao sol dos dias da felicidade; isto oferece ao ritmado coração das pessoas, a cada instante, oficina de carinho e sala de aula de gentilezas. Querer bem permite aos demais também o que se deseja a si próprio. Estender mãos e colher as pérolas do presente nas bênçãos aos próximos de nós, espírito de bom humor e satisfação comum, moldes melhor da pura tranquilidade. Sabor doce vem à tona, leve nas asas dos acontecimentos, água viva que nasce das fontes da dedicação num mosteiro de luz e pavilhões, mais sadias aproximações.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Um desejo de Paz - José do Vale Pinheiro Feitosa

Amanhã estarei longe desta tela. Até o próximo carnaval terei poucas oportunidades de retornar a ela. Mesmo tendo o privilégio das velas, em Paracuru tenho tarefas a cumprir e alguns olhares de esguelha para espairecer de papo para o ar. Os conteúdos de tempo ociosos sempre os há.

Aproveito para desejar a todos um bom resultado pelas festas deste mês, desde aquela que festeja o nascer quanto a que se alegra pela passagem. Mesmo que as mensagens se repitam a força da idéia é esta: renascer-se, este movimento, esta passagem para a inovação.
Quem passar por Paracuru e quiser beber um copo de água bem gelada e um cafezinho estarei por lá. Gosto de conversar. Trocar idéias e ter contato com vocês. Esta é a natureza do restante do ano: mover-se na decência da boa convivência.

Por último algumas considerações por esta fase da história. O ano termina sob maus agouros. Todos os dias se reúnem governantes em alguma parte do mundo. As cúpulas se sucedem. As notas conseqüentes destas reuniões apontam coisas graves. O povo está rebelado em várias partes do mundo.

Não podemos cair nesta sonolência que o quadro a quadro do noticiário nos provoca. Esta relativa insensibilidade para captar que algo diferente há. Efetivamente algo diferente há além da crise econômica, há uma crise política e sintomas de guerra com fumaça no horizonte.

Sem querer turvar a mensagem da inovação, o ano de 2011 termina como um barril de pólvora e uma chama que se aproxima transportada por um corredor de maratona. Há nesta visão uma sensação de iminência. As revoltas, as tomadas de ativos, as quebradeiras de ativos em papéis, o assassinato de velhos líderes, ditadores ou não.

A ansiedade dos povos e dos governos se encontra alguns tons acima do último dezembro de 2010. Há uma gritaria histérica que nos remete a insônias e a temer pelos próximos anos. Esta geração pode se encontrar diante de algo que viveram aqueles da infância, juventude e velhice dos anos 30 a 40 do século XX.

Mas como sempre a mensagem é que se o sol fica rubro ao anoitecer, o sereno acompanha as estrelas, os galos anunciam as matinas e o sol ainda sangrando sai para se tornar claro e límpido como sempre pensamos e agimos para a construção da paz. Que prevaleça a paz.

RIMA TRONCHA

a linguagem do olhar
é perfeita e sutil
mas precisa que o falar
por isso é assim tão util

Ulicis







REALIDADE DOLOROSA (Frei Ambrósio Bezerra Lôbo)

Passei pelo jardim
Em manhã de primavera
Um encanto, uma beleza
Aquilo que vi ali
Rosas, cravos, jasmins
Tudo em profusão,
A embelezar a vida.
Veio o verão
Um sol de fogo
A queimar tudo.
Passei pelo jardim
Uma desolação
Foi o que vi ali
Malgrado o esforço
De alguém dedicado
A cuidar só dele.
Em tudo que vi
Logo descobri
Certa semelhança
Com minha vida
Minhas amizades,
Minha felicidade
De outrora
Hoje se acham
Parecidas ao jardim.
Que doloroso pensar
Que triste sentir
Esta realidade
Que arrasa a gente.
Esperava frutos
Que dessem vida,
Entusiasmo à luta,
Encontro apenas
Dentro de mim
A triste lembrança
Do tempo passado
Que fora tão feliz.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Não é possível ignorar o ovo da serpente. José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando escrevi um texto criticando o comportamento de certos blogs do Crato ao publicarem a ordem de serviço de um subcomandante do exército de um quartel de interior negando o golpe político e defendendo a ação da ditadura militar não era ao sub que me queixava. Queixava-me das pessoas que conheço com as quais convivi de perto ou distante por texto. Com alguns tive o prazer de conversar na minha última estada na cidade.

Estas pessoas estavam atropelando o senso humano e resvalando num estado histérico em que vale tomar à mão qualquer troço que esteja por perto para atingir ao outro. Neste momento estou num projeto difícil de, após ouvir, degravar longas entrevistas com um dos políticos importantes do país. Nele é dramático o que se passou com sua família num momento de pura perversidade dos agentes da ditadura.

Quando vi estas pessoas postando uma aberração daquela, por mero prazer de provocar ou como um troll igual falou alguém num dos comentários, fiquei preocupado com elas. É justamente dos nossos vizinhos, dos nossos entes próximos, de quem convivemos que surge a patologia da perseguição e se tornam partes da perversão humana como mero exercício do ódio que cultivaram ao longo de algum tempo.

Quando pensamos que o debate nos ilumina, nestes amigos, nestes conhecidos, nesta gente com as quais costumamos dialogar, surge um rancor que se avoluma até o extremo da denúncia e entrega na fogueira. A história formal e literária está cheia de denúncias sem causa apenas pela inveja e pelo ódio acumulados em pequenos atropelos do passado.

O que esclareço com mais vigor agora é que não posso conviver com pessoas que resvalam para o temeroso comportamento anti-humano sem ao menos alertá-las sobre isso. Seria uma traição minha às pessoas se não lhes dissesse aquilo que percebo irá redundar numa raiva extrema que nunca deu bons frutos e deixam uma herança maldita como se houvesse uma miséria no viver humano.

Agora retorno com uma postagem de Mouzar Benedito que foi repercutida em vários blogs ao falar do recente livro do Bernardo Kucinski intitulado K. O livro do Bernardo é importante por que cresce no Brasil e no mundo toda uma raiva direitista que se aproxima perigosamente de uma farsa: a farsa nazista. E a farsa nazista não era perversa nas grandes concentrações de Hitler, mas na família comum, vigiando seus vizinhos, denunciando judeus, comunistas, homossexuais, ciganos e todos aqueles que o regime perseguia.

No livro do Bernardo, K um judeu sobrevivente do holocausto nazista, onde deixara muitos mortos de sua família, toma consciência do desaparecimento da filha que era professora da Faculdade de Química da USP. E sai em busca de ajuda para encontrá-la e o que dizem as pessoas: “Mas ela não era comunista?” Como ser comunista justificasse tudo que fizessem com ela. Especialmente quando as organizações que combatiam com armas a ditadura estavam destroçadas. O regime estava nos seus estertores finais e Geisel já articulava a abertura política.

No entanto o aparelho de tortura estava vigoroso em 1974 prendendo, torturando, matando pessoas suspeitas ou mesmo quem em algum momento fora ligada às organizações. Era demonstração de poder para segurar na unha a tal abertura ou sandice paranóica dos agentes fora de controle?

O velho pai passa por martírio que não acaba mais, dura anos, um jogo de desinformação manejado pela repressão que prendeu e matou na tortura não só a filha, mas o marido dela. Comparando a situação vivida no Brasil com a perseguição nazista, ele reflete que pelo menos na Alemanha eles informavam à família que prenderam e mataram as pessoas.

O livro do Bernardo é tão real e de tal força que a historiadora Maria Victoria Benevides na orelha do livro escreve: De todos os livros que já li sobre esse período de horror, este é o que mais me emocionou. Um libelo contra a desumanidade e a vilania do regime de opressão. Avraham Milgram do Museu do Holocausto de Jerusalém considera que “os relatos de B. Kucinski refletem maldade, indiferença, cumplicidade, oportunismo e prostração moral manifestadas num ambiente aparentemente simpático e dócil de uma sociedade sob ditadura militar.

Por isso eu não posso seguir o bom conselho do Darlan Reis quando deveria não repercutir isso para não dar asas ao troll. Infelizmente são pessoas com nomes, nossos vizinhos e com responsabilidade perante todos.

Anda-Já


É difícil nossos olhos avistarem além da fronteira do nosso quintal. O mais comum é que terminemos por ter uma visão bem compartimentada do mundo. Para os paulistas o universo se resume à Avenida Paulista; para os habitantes de Salitre o planeta se encerra antes de Campos Sales. Costumes, hábitos, preceitos morais terminam por ser balizados por essas estreitas fronteiras e é com olhos que mal avistam o nosso pomar que pretendemos depreender toda a complexidade do universo à nossa volta. Essa visão limitada atinge todos os segmentos sociais e termina por se transformar quase numa religião que tem a burocracia como bíblia e o burocrata no papel de sacerdote. Com esse filtro , essa viseira, perdemos a possibilidade de entender holisticamente as nuances infinitas da aquarela universal. Como um menino dentro do quadrado, julgamos tudo dentro dos limites opressivos que nós próprios nos impusemos. Através das grades, o mundo se resume a uma sala, alguns móveis, os brinquedos, a chupeta : só ! Do outro lado da parede, no entanto, sem que ao menos percebamos, fulge um sol brilhante, resplandece uma lua ao anoitecer e a vida tem possibilidades infinitas e inimaginadas.

Há alguns anos, perdemos um juiz exemplar : Dr. Nirson Monteiro. Cratense, trabalhador abnegado, simples, ele não carregava consigo aquele ar de superioridade quase divina que contagia tantos membros do Poder Judiciário. Dr. Nirson tinha ainda uma especial atenção para com os crimes perpetrados contra crianças e adolescentes. Pois bem, contava-me ele que um dia soube de uma prostituta da cidade que criava a filha pré-púbere, no próprio lugar de trabalho: uma Boate ali nas cercanias do Gesso. O juiz achou aquilo um absurdo , um visível risco à integridade física e moral da criança e intimou a mãe a comparecer ao Fórum. Pretendia subtrair-lhe a guarda, protegendo assim a menina. Contou-me ele, no entanto, que, na audiência, terminou por receber uma aula de humanismo e dignidade da prostituta. Quando o magistrado contou-lhe das suas preocupações e seu intuito de afastar a adolescente daquele ambiente pérfido, ela ouviu com atenção e respeito. Depois, calmamente, emitiu uma opinião contrária . Disse ao juiz que tivera outras duas filhas e que as afastara ainda meninotas e as pusera a trabalhar como domésticas em casas de família ricas da cidade. Imaginava que assim, convivendo em melhores ciclos, terminariam adquirindo uma educação mais refinada e teriam maior possibilidade de se tornar gente. Sabia terrível, mais que ninguém, a vida que ela própria levava, mas não tivera outra opção. Miserável , negociava com a única mercadoria que tinha em mãos: seu corpo . Pois bem, as duas meninas tinham se perdido com patrões e filhos de papai aqui do Crato . Assim, seu juiz, ela fica comigo, tem muito mais condições de ser alguém na vida, o ambiente no Gesso é muito mais sadio do que o do resto da cidade! Dr. Nirson, cumprimentou-a e desculpou-se, e agradeceu pela ajuda : acabara de olhar por cima do muro do quintal do seu universo particular.

Há uns dois anos, em uma Escola em Juazeiro do Norte, procedia-se a uma reunião do Grupo Gestor. De repente, entra a merendeira, interrompendo o evento e informa à Diretora: Aquele aluno da oitava série que a mais de dois meses gazeava a aula, na hora da merenda escolar, saltava o muro e vinha lanchar e ainda queria levar um pouco para casa. A diretora proibiu e, mais, mandou chamar o segurança do estabelecimento para pegar o menino. Queria conversar com ele pessoalmente e proibir a irregularidade. Até já tentara antes, mas sempre que avisado o danadinho saltava o muro de volta e fugia em desabalada carreira. Naquele dia, mediante a ajuda do segurança, não teve jeito. A diretora, então, repreendeu o menino e disse , claramente que não era possível. Se ele quisesse merendar que voltasse para as aulas. E, por fim, fez-se categórica : diga a sua mãe e a seu pai que venham aqui que quero falar com eles ! O menino cabisbaixo enxugou algumas lágrimas que escorriam lentamente no rosto e entre soluços informou que o pai não ia poder comparecer. Por quê ? --Argüiu a mestra ç Ele está preso, fessora, já faz uns três meses! A diretora, tomada de supetão , tentou ainda arrematar: peça então a sua mãe prá vir, menino! O rapazinho respirou fundo e, novamente, informou que não seria possível. Por quê? O aluno, envergonhado, concluiu: Ela fugiu com outro homem já faz uns dois meses! Em casa ficamos apenas eu e um outro irmãozinho de cinco anos, não temos ninguém mais nesse mundo, era por isso que eu pulava o muro: para matar a fome e levar um pouquinho para meu mano, fessora ! Impressionante a aula de vida que um pirralho de oito anos terminou por ministrar à diretora que não conseguia enxergar o mundo adiante dos muros da escola.

Se quisermos crescer temos que compreender a velocidade estonteante da vida que acontece como um filme e não se consegue revelar numa fotografia instantânea e estática. E mais: existe um universo fervilhante além das grades opressivas do nosso quadrado e muitos e muitos caminhos a trilhar além do limitado espaço que percorremos com nosso Anda-já.


J. Flávio Vieira

Perguntas de um egoeugoista:

ESTANDO BEM EU E MEU CAVALO ALAZÃO
O QUE IMPORTA SE O MUNDO EXISTE OU NÃO?
POIS SE SEM MIM NADA NO MUNDO EXISTE MAIS
QUE IMPORTA QUE A OUTRA PESSOA SENTE OU FAZ?

Fortaleza Anos 70 - A primeira viagem comercial à lua - José do Vale Pinheiro Feitosa

Hoje já não me lembro de todos os jornais de Fortaleza nos anos 70 por isso busquei uma lista que imagino histórica: Tribuna do Ceará, Correio do Ceará, Gazeta de Notícias, O Povo, O Unitário, O Democrata, O Estado, O Nordeste, O Jornal. O jornalista Giacomo Mastroianni, que é veterano na imprensa de Fortaleza, talvez precise mais quem estava ativo naqueles idos entre 1969 e 1971.

Aconteceu assim. O almoço fazíamos no restaurante da Faculdade de Medicina, como já citei, ficava distante do campus da Gentilândia, onde ficava o CEU que era o restaurante de toda a estudantada da universidade. Mas de vez em quando saíamos para um almoço no CEU para encontrar quadros de outras faculdades e tramarmos as ações para o futuro.

Convenhamos eram muito mais se mexer no estreito espaço do AI5 e do Decreto 477, do que uma ação de causar dano ao ditador da ocasião. Então a literatura de vanguarda era uma opção revolucionária. Como os textos que precisavam ser lidos no reservado de quatro paredes. Ou as grandes discussões sobre um filme de Claude Lelouch ou a estética estranha de Blow up de Micheangelo Antonioni.

Costumava jantar no CEU. Terminava as aulas na medicina, jantava rápido, não tinha tempo de costurar mais algumas tramas, tinha que ir para as aulas na Faculdade de Economia. Pois é, para compreender melhor a sociedade que desejava transformar entendi por bem estudar economia. Mas convenhamos graduação é dedicação e eu não tinha gás e tempo para as duas faculdades simultaneamente. Além do mais era um estudante de restaurante universitário, morando na casa de uma tia e andando de ônibus.

Mas estou detalhando muito, volto ao fato. Num daqueles almoços coletivos entre estudantes de várias faculdades, o Leite, estudante de jornalismo, uma grande figura que morreu precocemente, propôs uma reportagem. Ele estava estagiando num daqueles jornais da lista lá de cima e tinha por pauta fazer uma reportagem do anúncio da primeira viagem comercial à lua.

Qual era a do Leite? Levar alguns de nós para nos inscrevermos como pioneiros das viagens espaciais, de natureza comercial, à lua, naquele clima festivo da sociedade americana com o pouso no satélite. E fomos: eu, o Tarcísio Baturité, José Jackson Sampaio e Júlio César Penaforte. Iríamos nos inscrever para viajar à lua.

E chegamos ao local da inscrição. Era a representação da PANAM (grande companhia aérea americana que faliu nos anos 90) e o homem de Marketing da empresa já nos recebeu de cenho franzido. Ele teve que fazer cena, pois o Leite fazia anotações e resolveu fotografar a cena da inscrição.

Mas não havia inscrição alguma. Era apenas uma jogada de Marketing da PANAM naquela altura atolada até o umbigo com a BOEING na aquisição e lançamento do JUMBO. A matéria era sobre o Jumbo. Vimos folhetos, maquetes, assentos, a primeira classe e tome Jumbo por propaganda e o Leite anotando.

Naquela altura eu soltava gargalhadas “in pectori”. Nunca tinha viajado nem num teco teco e meu máximo de imaginação de Ícaro era ser como os urubus a planar nos céu azul do sítio onde vivia no Crato. Ria ainda mais pelo marqueteiro ter que nos explicar aquilo tudo como se tivesses diante de um grupo de investidores e companhias de turismo carreando levas de passageiros para o interior do seu Jumbo.

O Leite nos fotografou: o americano em pé apontando os folhetos e os quatro viajantes da lua em volta dele. Todos com risos irônicos. No dia seguinte quando chegamos à Faculdade foi uma festa. Pegaram uma tábua e colaram a primeira página do jornal com a foto extraída da cena acima e a manchete em letras garrafais: Estudantes Cearenses se Inscrevem para a Primeira Viagem Comercial à Lua.

No dia seguinte às gargalhadas enquanto almoçávamos o Leite quase chorando de rir nos contou que o homem de marketing, em estado de pura agonia, avisara que a inscrição não valera. Mas é claro, e nem as viagens comerciais à lua. Tudo era blefe.

Mas nunca ri tanto mesmo com a exoneração da promissora vida de astronauta. Mas foi uma bela gozação com uma grande corporação do império.